Prazeres Sombrios - Indômita
8 Capítulo VII - Skye
Notas iniciais
Leiam e descubram como um selvagem ilhéu beija uma mulher *O* Quase morro escrevendo isso kkkkkk
Enfim...
CAPÍTULO SETE
→ Skye ←
Eles chegaram à Ilha de Skye algumas horas depois do amanhecer. A ilha era tão incrivelmente bela que parecia saída de um sonho, rodeada pela bruma e por águas em todas as partes, com montanhas e escarpados, praias e galeras à disposição. Era bastante óbvio que a economia do local era baseada na pesca e na lã. A Ilha de Skye era vizinha de muitas outras, todas sob o comando dos McDonald. Como um ilhéu, o chefe McDonald não aceitava as ordens de Edgar. Os ilhéus eram autônomos, independentes da Escócia e de qualquer intriga política e o Senhor das Ilhas servia como um elo entre todos os chefes de penínsulas, evitando que os clãs usassem suas galeras de guerra para fins bélicos. No entanto, Duncan era o único que mantinha contato estreito com Edgar, o que desagradava aos McDonald. Mas nem mesmo Donald McDonald era capaz de enfrentar o Mensageiro da Morte de Edgar, por isso ninguém se interpunha entre ele e sua amizade com o rei.
Duncan, se não possuísse uma grande dívida para com o Pacificador, não teria realmente se casado com Leonor. Aquela mulher o tirava do sério como nada jamais o tirou. Acostumado a ser friamente calculista e controlado, deparar-se em situação mais desagradável era aborrecido. Não, aborrecido não. Desde que vira aquela mulher nadando perto dos escarpados de Ulster, aborrecida é tudo o que sua vida não era mais. Estava em alerta a todo instante, em um eterno estado de estresse, com os nervos gritando à flor da pele. Diabos, o que havia de errado com ele?
Eles estavam na Península de Sleat. Não havia ninguém que tivesse ido ali com o intuito de recebê-los, mas os poucos pescadores que não haviam partido para o mar se reuniram no litoral para ajuda-los. Desceram as moças e ignoraram os homens. Cada pessoa ali parecia verdadeiramente preocupada com Mary e Leonor, como se todos esperassem que Duncan já as tivesse devorado. Mas ele não estava com fome e acreditava que carne inglesa lhe daria indigestão.
Duncan ficou com um humor ainda mais tenebroso ao ver que os homens olhavam para as damas com um interesse mais que cortês. Saber que sua esposa estava molhada – e com seu tártan enrolado no braço para conter o sangramento da ferida – não lhe agradava tampouco.
-- Moças – Fergus disse amavelmente – Estamos em Sleat. Ao oeste, encontrarão o Dunvegan Castle, que pertence aos McLeod.
Leonor lançou um sorriso empolgado e curioso para Fergus. Um sorriso que jamais seria direcionado a Duncan.
-- E o castelo dos McDonald? – perguntou Mary.
-- Fica aqui, em Sleat – respondeu Fergus, apontando para uma belíssima construção de pedras sobre um escarpado. O castelo era imperioso, mas não chegava aos pés de Dragon Seafront Castle. Sua fortaleza parecia um dragão se erguendo depois de Cuillin Hills, olhando para uma praia imaculadamente branca, defronte a águas cristalinas. No inverno, parecia a fortificação do inferno. Duncan se orgulhava de sua casa mais que tudo.
As moças sorriram abertamente ao verem Dunscaith Castle, pertencente aos McDonald. Donald McDonald deveria estar lá agora, fartando-se com suas amantes enquanto sua esposa dirigia os trabalhos da casa. Particularmente, Duncan o desprezava. Mas se pensasse bem, ele desprezava todo mundo, uma vez que nem possuía um coração. Foi uma herança de seu pai.
Fergus conversava com as mulheres e Duncan se juntou a Ian. Eles tinham parado ali com o único propósito de comer algo. Pelos homens, aguentariam atém em casa, mas Fergus insistia que a criada se queixava muito do balanço do mar – o que a Duncan importava um piolho – e que as damas deveriam estar cansadas e com fome. Iain foi o primeiro a ceder. Sem saída, Duncan concordara em comerem em Sleat antes de voltarem ao mar para seguirem a rota até Cuillin Hills. As verdes e dramáticas montanhas da Ilha de Skye pareciam paredões para seu castelo e muitos diziam que druidas moravam ali. Duncan já não duvidava de nada.
Iain conversava com um velho pescador sobre o que eles precisavam e Duncan se aproximou. O pobre tolo correu aos tropeções ao vê-lo.
-- Conseguiu alguma coisa? – perguntou, ignorando totalmente o medo que as pessoas tinham dele.
-- Há uma taverna aqui perto – respondeu o viking – Permite-me um conselho, primo?
-- Não.
-- Não interfira nas negociações, sua fama me impede de barganhar – prosseguiu Iain, completamente indiferente a sua resposta.
Aquilo era verdade. Mas Duncan não tinha culpa se as pessoas corriam quase aos prantos só em vê-lo. Sua mera presença causava um caos sem sentido absurdo.
Voltando-se para Fergus, Duncan franziu as sobrancelhas ao não vê-los. Seu maldito primo desaparecera com as moças e isso não era um bom sinal nem de longe. Olhou para Iain, e pela expressão do viking, percebeu que seus pensamentos estavam obscuramente em sincronia. Fergus só tinha um motivo para se retirar com uma mulher: uma boa trepada. Era seu primo, de fato, por isso era motivo suficiente para desconfiar. Ele e Iain saíram marchando pela praia, buscando a cadela leprosa que era Fergus. Duncan poderia ter tentado perguntar a algum pescador se viram seu primo, mas era bastante provável que não recebesse uma boa resposta.
Onde diabos estava Leonor?
Essa pulga maldita o estava atormentando desde quando se conheceram. Maldita fosse sua esposa, porque a mataria se pudesse. E maldito fosse Fergus por leva-las dali. E maldito fosse ele mesmo por se deixar irritar por uma mulher.
Como possessos, ele e Iain varreram aquela praia, até que finalmente encontraram a taverna. Era uma casinha pequena, as portas estavam abertas, o chão coberto por juncos limpos e lotada de pessoas. Em geral, homens que bebiam e mulheres que serviam. Para seu alívio – ou consternação – Fergus estava ali destro, sentado a uma mesa com Leonor, Mary e Tess. Os quatro riam e conversavam, o que aumentou a fúria de Duncan. Por Deus, eles não podiam ter apenas um pouquinho de consideração por sua sanidade mental?
Desde a discussão que tiveram no birlinn, Leonor sequer se dignou a olha-lo. Ele também não lhe fez muito caso, evitando qualquer situação e que devesse lhe dar atenção. Fergus tinham feito isso por ele, conversando muito mais que o devido, pondo legendas em cada maldita pedrinha que viam. A presença dela o deixava desconfortável, mas foi capaz de ignora-la com a maestria de um especialista. Deixou que Iain cuidasse da ferida dela e voltou para seu habitual estado circunspeto. Talvez, com os anos, eles pudessem ao menos ter um casamento tranquilo. Ela se ocuparia do castelo e ele, do clã. Ponto. Era o que bastava. Depois acoplariam quando conviesse a ele, ela lhe daria herdeiros. Ponto. Criariam seus filhos. Ponto. Uma vida simples e pacífica, sem tantos conflitos desnecessários.
Ele era um homem de batalhas, e parecia que ela era uma mulher de guerras. O que o deixava à deriva com seu ridículo plano de tranquilidade.
Duncan e Iain marcharam até os quatro, fazendo com que as risadas se findassem apenas com suas presenças. Fergus sorriu naturalmente, mastigando uma uva como se não soubesse que a Morte lhe agarrava as bolas até torcê-las atrás daquele traseiro peludo.
-- Deveriam ter avisado que iam sair – disse Iain com a maior calma do mundo, mas seus olhos eram pedras duras de pura raiva contida – Procuramos por vocês em toda parte.
-- Relaxa, irmãozinho, está tudo bem. As moças estavam com fome e curiosas para ver Sleat – disse Fergus. Duncan estava tentado a usar as costelas dele como palito para os dentes.
Duncan devia estar com uma carranca mortífera, pois sentiu uma delicada mão em seu braço e baixou a vista apenas para ver a expressão de sua esposa, em uma silenciosa súplica de deixe estar. Amaldiçoando entre dentes, ele se sentou ao lado dela e Iain ocupou o lugar ao lado de Fergus e Tess. Uma mulher de fartos seios que transbordavam pelo decote de seu corpete trouxe jarras de cerveja e um prato com carne para eles. Iain foi o único a agradecer. Leonor lhe deu uma cotovelada nas costelas e ele grunhiu um obrigado. Qual era o problema dela?
A comida era saborosa e farta, o suficiente para um dinossauro aguentar o restante da viagem. A carne era macia, bem diferente da que estava acostumado a comer em casa. Às vezes, Duncan acreditava que seus criados trabalhavam com uma má vontade muito azeda. Comeram em silêncio, aproveitando o sabor do desjejum e molhando a garganta com cerveja. Apenas Tess bebeu. Mary e Leonor sequer olharam para as canecas, o que despertou mais uma vez aquela estranha vontade de implicar com ela, mesmo que estivessem brigados e que ela ameaçara arrancar sua cabeça com uma espada.
Duncan ignorou qualquer ridícula vontade de voltar a conversar com ela. Era ridículo. Odiava sua voz. Detestava sua aparência. Tudo que tinha a ver com ela lhe causava repulsa.
Ou não, espetou alguma parte de sua consciência que ele mandou rodar no inferno.
-- Miladys – disse Iain, quebrando o cômodo silêncio – Não deveriam sair sem nos avisar. Fergus não é uma boa companhia para boas moças também.
-- Fergus é agradável – disse Leonor, sem muita empolgação na voz – Mas, obrigada pela preocupação, Iain.
-- Sleat é muita linda – comentou Mary – Adoraria poder visita-la mais calmamente em outra ocasião.
-- Seria um prazer – disse Iain de forma galante.
Duncan arriscou um olhar para sua esposa. Ela parecia cansada, apenas isso, mas mantinha as costas impecavelmente retas e o nariz altivo, em uma régia posição que não deixava margem de dúvidas para seu status. Ele sabia que ela não dormira nada desde que partiram de Ulster, no dia anterior, e que lutara como uma valkyria sem medo algum. Devia estar mesmo esgotada. Parecendo sentir seu olhar, ela virou o rosto para ele, observando-o sem a fúria de horas atrás. Foi uma rápida troca de olhares, pois logo ela se voltou para Fergus e iniciaram uma animada conversa que não o envolvia. Iain e Mary estavam muito ocupados trocando palavras polidas e Tess estava perdida demais em comer até estourar. Ou seja, Duncan estava agradavelmente sozinho naquela mesa. No entanto, não se sentia muito confortável.
☺
Depois de pagar ao taverneiro com algumas moedas gordas pelo banquete que devoraram, voltaram para a praia e retomaram a viagem. Duncan controlava a galera em pé, enquanto os outros descansavam e se divertiam com conversinhas que ele escutava perfeitamente. Ouviu risadinhas, provocações, brincadeiras e até o introspectivo Iain estava falando mais que o costume com Mary. Duncan rodeou a Península de Sleat, seguindo pelo oeste para contornar a baía de Dunvegan e chegar a Cuillin Hills. Teria demorado alguns dias se fossem cavalgando e o birlinn era muito mais veloz. Em pouco tempo avistariam as praias brancas que pertenciam aos McGregor desde o começo do mundo.
Muitas histórias eram contadas sobre suas terras. Quando pequeno, ele ouviu os bardos dizerem que as montanhas pertenciam aos Fae, as fadas de milhares de lendas da Escócia. Ali ficava o reino mágico da Rainha e vários druidas se mudaram para a região para obter o poder das criaturas mais antigas já existentes, mais antigas que o próprio mundo. Os druidas fizeram um pacto com a Rainha: ela lhes dava a imortalidade e a alquimia e eles lhe ofereciam jovens rapazes para sua Corte de criaturinhas velhas. O reino Fae foi criado sobre Cuillin Hill, mais precisamente em Sgurr Alasdair, a montanha mais alta de Skye. Lá, a Rainha observava tanto os druidas, como os homens e seu próprio povo. Os anos foram passando, os druidas viraram o forte clã McGregor e já não necessitavam da Rainha Fae.
Ela observava como os clãs lutavam por terras, como os homens se comportavam e deduziu qual era a verdadeira natureza humana, o que nenhum bardo jamais disse do que se tratava. Esquecida por todos, a Rainha se enclausurou em suas montanhas e nunca mais foi vista por ninguém. Quando seu corpo morreu, ela se transformou em todas as urzes que cobrem os campos de Skye, seu espírito vivendo eternamente entre os homens, assim realizando seu sonho.
Quando ele era menino, a história da Rainha Fae lhe parecia incrível. Agora, nem tanto. Na verdade, foi uma surpresa se recordar dessa história depois de tanto tempo. Sua madrasta ainda era viva na época, quando os bardos ainda possuíam o mínimo de coragem para estarem no mesmo ambiente que Lachlan McGregor sem urinarem de tanto pavor. Duncan ouvia escondido as histórias, sempre curioso e imaginando como deveria ser se uma Rainha Fada realmente existisse. Chegou a pensar que ela se sentia sozinha. Tolo como era, correu no dia seguinte até o campo de urze mais próximo do castelo, como se esperasse que a Rainha aparecesse ante ele.
Levou uma boa e merecida surra com látegos para deixar de tolices.
Despertando de tolas memórias, avistou o topo cercado pela bruma de Sgurr Alasdair. Quase sorriu por estar de volta em casa. Seu castelo era uma fortificação impenetrável de pedras, oculta pela névoa do mar e erguida majestosamente como um dragão abrindo suas asas sobre as montanhas. Possuía seis gloriosas torres, uma muralha alta e grossa, reforçada para qualquer tipo de ataque, um porto em uma caverna e ameias mais que suficientes para uma batalha contra Hades ser tranquila. Rodeou a baía que formava um U, como uma invaginação, revelando águas azuis e translúcidas e uma areia pálida e surreal.
Sentir-se em casa era a melhor sensação do mundo.
Levou o birlinn para a caverna mais ao longe do litoral, onde suas galeras de guerra ficavam muito bem escondidas. O único modo de chegar até elas era nadando – sua gente não sabia nadar – ou com outra galera. No entanto, a névoa ali era muito densa para qualquer um poder ver algo além das montanhas, ou tentar encontrar o caminho que apenas Duncan e seus primos conheciam por terra que levava ali. Era um esconderijo perfeito. Ficando na outra ponta do U da baía, na Península de Trotternish. Dirigiu o birlinn para o interior da caverna, ouvindo aquele eco do silêncio retumbando em seus ouvidos.
Tinha passado tanto tempo imerso em pensamentos que mal percebera as horas passando. Agora, o sol estava no alto do céu, indicando que era a hora do almoço. Contornaram toda a ilha para chegar a Trotternish, passando pelas águas McDonald e as McLeod sem se dignar a cumprimentar os chefes. Sinceramente, tinha mais o que fazer para perder tempo com cordialidades com homens que ele detestava desde a infância. Foram horas intermináveis de reclusão social até poder avistar Cuillin Hills e ir além delas. Trotternish possuía mais escarpados do que seus dedos eram capazes de contar, alguns tão altos que seria impossível até para Leonor pular. E as montanhas eram irregulares o suficiente para deter qualquer tolo exército que acreditasse ser fácil chegar a Dragon Seafront Castle. De todo modo, eles fizeram um tour por Skye para chegarem até ali, então, sua esposa não podia abrir aquela inglesa boquinha para dizer que ele não lhe mostrara a ilha.
Ele já tinha descido a vela antes de entrar na caverna e ordenou que Iain e Fergus parassem de remar. Normalmente, levava-se no mínimo dezoito homens em uma galera como aquela, mas Duncan não queria deixar seu povo sem o máximo de proteção. Não necessitava de companhia e seus primos eram mais do que esperava. Parou a galera ao lado de muitas outras e a amarrou a uma pedra que se erguia como um I das águas. Saltou para um parapeito rochoso. Iain foi o próximo, já erguendo os braços para Mary pular como uma princesa. Fergus olhou para Duncan e ele fez uma careta em resposta.
-- Não vou te pegar nos braços – Duncan balbuciou. Fergus se fingiu de ofendido antes de saltar habilmente para as pedras e se preparar para ajudar a donzela das moças.
Só restou sua esposa.
Leonor mordia o lábio inferior, erguendo as saias e olhando para baixo, medindo a distância. Por que será que ele não se surpreendia ao vê-la agir de forma tão independente? Era de se esperar, não é certo? Ela colocou um pé sobre a amurada, revelando um tornozelo alvo e delicado que contradizia com sua força. Seus primos já tinham seguido em frente pela rota que eles descobriram ainda meninos, deixando-os parcialmente sozinhos. Duncan esticou a mão para ajuda-la.
-- Venha aqui, moça – ele disse o mais amavelmente possível, mas saiu áspero aos seus próprios ouvidos. Ela ergueu o olhar para ele.
-- Não precisa fingir ser um bom marido, seus primos não estão olhando – retorquiu ela.
Mais uma vez, ele viu sua esposa como um gatinho cuja cauda foi pisada e chiava com os pelos arrepiados para se proteger. Continuou com a mão esticada para ela. Viu a indecisão em seus olhos... Ele ficou um pouco surpreso ao perceber que os olhos dela eram da cor da água e refletiam luminosamente seu brilho, como se fossem orbes sobrenaturais, mudando no mesmo segundo para todas as claras tonalidades de azul: anil, turquesa, bebê... Eram lindos olhos, tinha de admitir. Brilhantes, extremamente expressivos. Sua juba negra estava solta e parecia mais escura naquele ambiente, caindo em cascata por suas costas, formando halos nas pontas, completamente revolta pelo vento. Ele estava embevecido... Não, não estava. Claro que não. Grande tolice. Nem bonita ela era, como podia estar encantado com ela? Bobagem!
Percebendo o que ela lhe tinha dito, franziu as sobrancelhas. Ele não estava fingindo nada, maldita seja!
-- Me dê sua mão, não vai conseguir pular sem minha ajuda – disse Duncan, recebendo um nariz franzido em resposta. Claro que ela o repudiava, não era uma surpresa.
Como ela não lhe respondeu, ele deu de ombros com indiferença e lhe deu as costas, seguindo pelo parapeito de pedras para o corredor estreito e ocultado por muito musgo que levava para a praia. Três... Dois...
-- Está bem! – ela disse por fim, mas ele não se voltou para ela. Faria-a pedir como castigo por ser tão tola. – McGregor, espera... Droga, você disse que ia me ajudar!
Ele poderia ter sorrido com isso. Poderia, mas não sorriu. Duncan McGregor não sorria. De todo modo, continuou andando devagar, afastando-se dela. Leonor soltou uma torrente de impropérios que envergonhariam até o mais vil dos pescadores.
-- Não vai me ajudar? Tudo bem, vá embora, posso pular sozinha, não preciso de você. Obrigada por sua inutilidade, marido.
-- Não vai doer sua língua me pedir ajuda, esposa.
Ele se virou para ela, observando-a provocantemente, caminhando até ficar ante ela. Cruzou os braços diante do corpo, apenas esperando a palavrinha certa para ajuda-la. Sua esposa era uma mulher muito arrogante e precisaria de alguns corretivos para melhorar sua conduta, ou não sobreviveria nestas terras. Ela o olhou com desconfiança, avaliando-o meticulosamente.
-- Quer que eu peça? – ela repetiu com incredulidade – Está falando sério?
-- Eu não brinco, inglesa. Peça ou não receberá nada.
Leonor franziu as sobrancelhas.
-- Mas é sua obrigação cuidar de mim!
Ele arqueou uma sobrancelha.
-- É mesmo? – provocou – Não me lembro de ter dito isso nos votos.
-- Você... Argh! Eu juro que vou encher suas calças com girinos!
Duncan sentiu seus lábios se repuxando em um esboço de sorriso.
-- Inglesa, aqui não usamos calças. Vestimos kilt. Sinto dizer que seu plano falhou.
Os olhos dela faiscaram e ela sorriu venenosamente.
-- Há outras formas de me vingar de um homem de saias – provocou ela, divertindo-o inconscientemente – E eu sou muito criativa.
-- Posso imaginar. – ele revirou os olhos – E então, vai ficar aí para sempre? A maré logo vai subir.
-- Não tenho medo das águas. Por que não vai embora para eu roubar este barquinho e fugir?
Duncan poderia ter rido disso.
-- Sim, você vai fugir. É uma perita nos mares, de acordo? – ironizou ele – Morreria na primeira tempestade.
Leonor franziu as sobrancelhas escuras.
-- Por que simplesmente não pode ser um cavalheiro e me ajudar?
-- Porque não sou um cavalheiro.
Ela bufou com impaciência. Ele se recostou na parede de pedra atrás de si, esperando pacientemente ela deixar de infantilidade e apenas descer de seu pedestal real para lhe pedir ajuda, o que parecia algo impossível. Duncan não duvidava de que a louca seria capaz de pular sozinha e terminar caindo na água. A distância para ela era longa e o parapeito era muito alto para que alcançasse nadando. Ela teria de lhe pedir ajuda, ou nada feito.
Para sua completa diversão, Leonor esticou os braços como uma criança desamparada, em um silencioso pedido de ajuda. No entanto, ele queria ouvir suas palavras. Ensinaria uma boa lição àquela menina.
-- Pegue-me – pediu baixinho.
Comovente, mas não era o que ele queria.
-- Falta mais alguma coisa, moça.
-- O que quer que eu diga? – esbravejou ela.
-- Um por favor é um bom começo.
-- Por favor, você poderia morrer depois de me tirar daqui? Eternamente agradecida – e abriu um breve sorriso azedo antes de voltar para a expressão desgostosa.
Duncan abriu um meio-sorriso provocante. Por algum motivo, ela enrubesceu e seus olhos perderam um pouco da chama da raiva.
-- Não, não, esposa, faça direitinho.
Por Deus, ela parecia estar sofrendo ao pedir “por favor” a um McGregor.
-- Maldita peste, por favor, poderia me tirar daqui amavelmente?
Duncan descruzou os braços e esticou as mãos, inclinando-se um pouco para frente. Por ter a constituição corpulenta de Lachlan McGregor, Duncan foi capaz de alcança-la, envolvendo sua cintura com os dedos firmemente. Ela era leve para ele. Puxou-a para si e algo em seu sangue se agitou. Ela colocou as mãos em seus ombros, aferrando-se a ele como se esperasse ser largada. Seu delicado corpo deslizou pelo dele, cada curva tocando seus músculos, como se se amoldassem um ao outro em um delicioso e libidinoso encaixe. Eles estavam muito próximos, separados apenas por um suspiro. Aquela estranha pressão no peito voltou, mas ele não se incomodou. Os seios estavam pressionados contra seu peito e ele desejou senti-los pele contra pele. Quando a colocou no chão diante de si, ela não se moveu, os olhares conectados por uma força estranha. Ela não estava mais furiosa, tampouco ele era capaz de reconhecer o que fazia aquelas orbes azuis luminescentes brilharem tanto. Duncan moveu as mãos por sua cintura, seguindo lentamente as curvas, esperando um rechaço, e surpreendeu-se ao não recebê-lo. Delineou em lentas carícias a forma voluptuosa de seu quadril. Leonor entreabriu os lábios inconscientemente e ele direcionou sua atenção para eles: generosos e rosados, com o inferior deliciosamente mais cheio... Lentamente, ele baixou a cabeça para a dela. Seus fôlegos se mesclavam na expectativa de provar o mel daqueles lábios. Esperou ser empurrado. Esperou os xingamentos. Qualquer reação de asco, mesmo que uma mudança em sua forma de olhar... Qualquer coisa...
Leonor se esticou nas pontas dos pés, erguendo-se em toda a sua estatura, o coração trovejando no peito. Sua única certeza era de que gostava de ter as mãos dele em seu corpo. Ele acariciou suas curvas como ninguém jamais o fizera, seguindo os contornos mais femininos de seu ser, até que pousou uma mão em seu quadril e levou a outra para seus cabelos emaranhados. Acariciou um cacho, pondo-o atrás da orelha, tomando seu rosto na palma. Deus, a expectativa a matava a fogo lento. Não sabia o que desejava, mas queria mais. Seja lá o que fosse, queria mais. Aquele caloso e áspero polegar tocou seu lábio inferior, percorrendo-o dolorosa e lentamente, como se quisesse sentir sua textura, sem qualquer pressa.
Todo o corpo dela se acendeu ante aquela tenra carícia. Suas células gritavam desesperadamente mais, mais, mas ele estava tomando tudo tão calmamente que ela estava entrando em desespero. Sua mão deslizou por seu rosto, deixando uma trilha de fogo e desejo pelo desconhecido, até circundar seu pescoço, sustentando sua cabeça e puxando-a para si bruscamente. Aqueles penetrantes olhos negros pareciam ainda mais escuros e mais intensos. Ela temia respirar e acabar com o momento. A mão em seu quadril deslizou devagar e provocantemente até sua nádega, tomando-a em concha, apertando levemente antes de puxa-la de encontro a algo duro e palpitante. Leonor esperou a repulsa por suas pélvis fundidas, mas gemeu ao sentir um estranho calor líquido em seu ventre, alastrando-se por cada parte de seu corpo e se concentrando sensivelmente na região entre suas coxas, impulsionando-a a colar-se ao máximo àquela dureza masculina.
Ela precisava de mais. Não era o suficiente.
Seu corpo ansiava por seu toque com um desespero que lhe roubava o fôlego.
Como se lesse seus pensamentos, ele emaranhou os dedos em seu cabelo e pressionou os lábios contra os dela.
-- Duncan? – chamou uma vozinha ao longe.
Ele apenas grunhiu, reivindicando seus lábios apaixonadamente como não fizera no dia do casamento. Ela se entregou completamente ao desejo que a esquentava como lava deslizando por sua pele e se infiltrando pelos poros, apertando os ombros fortes do McGregor, sentindo a dureza de seus músculos, adorando a forma como se contraíam com seu toque, debaixo de seus dedos.
Deus, como vivera tanto tempo sem aquilo?
Irrevogavelmente rendida, Leonor enlaçou seu pescoço com os braços e se sustentou naquele poderoso corpo de guerreiro, moldando-se as suas grosseiras formas, encaixando-se à perfeição a ele. Seus lábios acariciavam os dela, enquanto a mão em seu cabelo sustentava sua cabeça e a outra lhe acariciava desavergonhadamente as nádegas, roçando a dureza de sua masculinidade entre a sensível região entre suas pernas. Ela gemeu quando ele abriu sua boca com os lábios.
-- Duncan, está tudo bem?
Por todos os infernos, sim que estava!
Aqueles lábios macios eram uma doce tentação que nem o mais santo dos homens seria capaz de resistir. Tão macios e suaves... Beijavam com uma paixão igual a dele, desejando e pedindo por mais, aprendendo e realizando. Apenas um tolo teria dito que uma inglesa era fria, porque sua inglesa tinha um calor apaixonado irrefreável. Ele nunca desejou tanto nada na vida, não com aquela intensidade. Tinha de sentir mais o sabor dela, tinha colar seus corpos como Deus criou um homem para estar com uma mulher, tinha de tê-la. Dane-se quem quer que estivesse chamando por ele.
Sua esposa se entregou a ele deleitosamente. Duncan a beijou com mais paixão, forçando-a a abrir os lábios para que ele pudesse encontrar sua língua e...
-- Duncan!
Rompendo a bruma do desejo, a maldita voz de Fergus o despertou do corpo luxurioso e macio colado ao seu. Leonor estava ofegante quando ele se apartou a contragosto dela, seus lábios inchados e vermelhos por seus beijos, os olhos nublados por aquilo que ambos queriam. Era uma visão deliciosa que o excitou ainda mais. Munindo uma força hercúlea, afastou-se dela, vendo como suas longas e densas pestanas batiam ao despertar para a realidade. Olhou para ele, mordendo o lábio inferior, as bochechas coradas. Mas não parecia tímida nem de longe.
-- Estamos indo! – ele gritou a Fergus, caminhando pela minúscula entrada em arco coberta de musgo. Precisou se abaixar para poder passar. Leonor correu atrás dele, recuperando aos poucos sua furiosa forma de ser. Enquanto andavam pelo corredor, ela segurou seu pulso com uma força impossível de pertencer a uma mulher, tentando fazê-lo esperar. Para não sair arrastando-a até a praia, ele parou bruscamente e se voltou para enfrentar olhos cristalinos em chamas e sobrancelhas franzidas. Se ela fosse um dragão, nem as cinzas dele existiriam para contar história. Sim, sua esposa já estava recomposta e com os pés muito firmes no chão.
-- O que pensou estar fazendo ao me beijar?
Ele arqueou uma sobrancelha. Avaliou-a antes de responder, apenas para se dar conta de que ela estava confusa por todas as sensações que buliam no interior de ambos. Então ele se lembrou de como ela estava na noite de bodas: encolhida, assustada e assassina. Leonor era o tipo de mulher que usava a raiva para espantar os medos, principalmente do desconhecido. Ela não tinha nenhum conhecimento sobre os prazeres que um homem pode dar a uma mulher, provavelmente porque não tivera uma mãe para lhe guiar neste sentido. A julgar pela forma como o olhava, era como se quisesse saber se ele também sentira aquele desejo desesperado por ela.
Do que ela estava com medo agora?
Um meio-sorriso de provocação escapou em sua pétrea expressão antes que pudesse se deter.
-- Cobrando meu agradecimento por ajuda-la – brincou Duncan, divertindo-se com sua expressão chocada. Ao menos, ela não levaria tão a sério e não temeria seja lá o que a estivesse assustando.
-- Não podia fazer isso!
Ele segurou seu queixo entre o indicador e o polegar, erguendo seu rosto para o dele, aproximando os lábios. Ela ofegou; talvez de susto, ou de desejo, ou de nojo... Ele não saberia dizer.
-- Sou seu marido, você me pertence, Leonor – disse com a voz rouca e baixa contra seus lábios – Ao contrário de seus compatriotas ingleses, nós, selvagens, não hesitamos ao dar prazer a nossas mulheres. Entendestes, fêmea?
Ela anuiu com a cabeça.
Notas finais
CAMPANHA DO DIA: DOE UM COMENTÁRIO E ESCRAVIZE UM PERSONAGEM DA HISTÓRIA POR UM DIA INTEIRO hahahahaha
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