Notas iniciais
Olá, Miya falando! Agradecemos (eu e a ilustríssima ela) muito por todos os comentários! Gente, ela tava quase chorando de tanta emoção -talvez essa parte seja um pouco fantasiosa, er -! Se ela não chora, choro eu pelo sucesso dela!
Agora um capítulo em homenagem a vocês que estão apoiando o "projeto Leonor" kkkkkkk o/

Leonor endireitou as costas sobre a sela de Vento Selvagem. Sua égua tinha de estar longe do garanhão de guerra do McGregor, ou ficava inquieta a ponto de joga-la ao chão outra vez. Leonor, desacostumada a montar de lado, estava incômoda por não poder estar escarranchada como os homens. Seu traseiro estava dormente desconfortavelmente e suas coxas doíam, o que a deixava irritada. Mary estava ao seu lado, sobre Milady, sua égua marrom. Tess estava sobre o boi, dividindo o espaço com a arca. Leonor insistira em leva-la consigo, mas a donzela recusou veementemente, alegando que não era correto uma criada dividir a sela com sua dama.

McGregor não lhe dirigiu a palavra desde que se dignou a perder alguns segundos de seu precioso tempo para lhe dizer que partiriam antes do almoço. Depois disso, sequer a olhou. Leonor não estava incomodada por isso. Na verdade, era um alívio vê-lo encabeçando a diminuta comitiva que ia para o porto. Iain ia logo atrás dele e Fergus estava mais próximo delas, fechando o cerco para a proteção das moças. Leonor desconfiava de que, ao primeiro sinal de ataque, ele a empurraria discretamente para a folha do inimigo. E não seria surpreendente.

Leonor olhou mais uma vez para o castelo de Ulster, o lugar no qual crescera e fora criada entre seus primos. Foi forte para engolir as lágrimas quando seus tios vieram se despedir, abraçando-a e dizendo que a amavam muito, mas não conseguiu deter algumas lágrimas quando Will, Rob e Henry vieram se despedir. Foi um abraço de urso que quase a partira em cem quando os três homens a apertaram com toda a força, murmurando brincadeiras que não deveriam ser sequer pensadas para com uma dama, mas eles estavam acostumados a agir livremente um com o outro. Rob lhe dera um murro no ombro de leve, Henry bagunçara seus cabelos e Will a apertou outra vez. Depois Mary se juntou a eles e se abraçaram todos juntos. Saber que nunca mais os veria fazia seu peito se comprimir em uma muda dor de precipitada saudade. Crescera com eles, enfrentara brigas com outras crianças com eles, pulara do escarpado com eles... Tudo em sua vida girou em torno de seus primos. E agora, nunca mais os veria para partir com seu inimigo.

Ela sempre soube que um dia partiria, que logo seria desposada, mas nunca esperou que fosse tão cedo e logo com quem. Seu marido era um McGregor e isso tornava sua dor ainda pior. Não queria decepcionar sua família, tanto os que morreram como os que permaneciam vivos. Estava dividida entre seguir com a animosidade de seus antecessores e tentar garantir a paz com um casamento, ao menos, agradável. Leonor não esperava nutrir amor por ele, talvez simpatia no máximo. Amor não. Nunca o amaria, mesmo que se forçasse. Um lado seu dizia que jamais deveria aceitar aquele casamento, que era uma traição aos Knightley que se propusesse a ser uma boa esposa para o Mensageiro da Morte, que estava destruindo tudo o que seu sangue construiu, que era uma vergonha absurdamente desonrosa. No entanto, outro lado seu lhe dizia que a guerra não era sua e que já estava mais do que na hora de alguém fazer alguma coisa para garantir a paz e impedir mais mortes por algo que não era culpa deles, a não ser de algo já enterrado no passado. Que ela deveria tentar buscar a própria felicidade ao menos uma vez. Estas duas metades conflitavam arduamente, uma tentando sobrepor-se a outra, buscando autonomia e controle sobre ela. Leonor estava confusa.

Mas ele usou meu corpo enquanto dormia.

Parecia uma ideia estranha, mas não a repudiaria ainda. Não conseguia se lembrar de nada do que acontecera e seu corpo não demonstrava quaisquer sinais de abuso. Sua única prova contra ele era o lençol ensanguentado. Se perguntasse a ele o que acontecera, ele respondera? Definitivamente, era algo vergonhoso a se perguntar, mas não conseguia ficar ruminando tais ideias por mais horas.

-- Prima – sussurrou Mary, atraindo sua atenção. Leonor se voltou na sela incomodamente para olhar sua prima, deparando-se com cristalinos olhos tímidos – O que acha do Iain?

-- Iain? – Leonor franziu as sobrancelhas, pensando sobre o assunto – Parece ser um bom homem. É atencioso e muito observador também. Por quê?

As bochechas de Mary enrubesceram.

-- Acho que é um homem bonito.

Leonor sorriu.

-- Sim, ele é.

-- Acha que serei mal vista se tentar conhece-lo?

-- Hmm... Você é sutil, Mary, claro que não. Está interessada nele?

Ela ficou tão vermelha, que Leonor achou que até seus claros cabelos poderiam se tornar ruivos de tanta timidez.

-- Não exatamente... Quero dizer, conversamos muito pouco, mas gosto da companhia dele. Também acho que é um bom homem, apenas isso.

-- Quem é um bom homem? – perguntou Fergus, apressando sua montaria para perto delas. Mary desviou o olhar, o rosto em brasas, enrijecendo-se na sela. Leonor apenas sorriu, feliz por sua prima estar interessada em alguém pela primeira vez, mesmo que fosse um híbrido de escocês com viking. Leonor não se preocupava em discernir as pessoas pelo lugar que nasceram, não tinham culpa de nada e Iain realmente parecia um bom homem. Fora o único a tentar distrai-la antes das bodas, percebendo como ela estava apavorada. Para ela, palavras eram apenas palavras, mas as ações significavam tudo. E Iain demonstrara com suas ações que era honrado. Só esperava que Mary não se decepcionasse.

-- Confie no seu julgamento – sussurrou para a prima, que anuiu com a cabeça. Fergus as olhava com curiosidade, tentando se envolver no assusto. Este era fadado a falar, assim como Leonor, mas ela o fazia apenas com quem se sentia à vontade. No entanto, o silêncio da viagem era incômodo para qualquer um, menos a seu marido. Oh, não, McGregor era introspectivo, silencioso, ensimesmado e arrogante. Completamente desprezível. – Fergus, como é a Ilha de Skye?

Os olhos dele se iluminaram.

-- É um lugar maravilhoso, minha senhora – dizia ele – Agreste. Rodeado pelas águas e pela névoa, como uma ilha surreal. Criamos muitas ovelhas e a pesca é lucrativa e... Estou lhe chateando?

-- De forma alguma. – Leonor sorriu a ele – Continue.

-- Vai gostar, minha senhora, mesmo. A não ser pela péssima companhia de meu primo, seria o lugar perfeito – Mary e Leonor riram – Há montanhas tão frias que nem mesmo os Highlanders suportariam. O gelo parece perfurar nossos poros, atravessando os ossos para congelar cada célula de nosso corpo. Mas onde fica Dragon Seafront Castle não é abatido pelo gelo. Garanto-lhe que amará aquele lugar antes que perceba. – ele falava rapidamente e sem parar, com cada vez mais paixão – As pessoas são difíceis de conquistar, mas não são ruins. Eles foram liderados por um homem cruel por muito tempo, por isso podem se recusar a aceita-la, mas a senhora é carismática, assim como Lady Mary. Tudo dará certo, logo verá.

-- Espero que sim, Fergus. Parece ser um lugar realmente bonito.

-- Tem escarpados se quiser pular de um. – ele brincou.

Ela e Mary intercambiaram um olhar travesso.

-- Ela não vai pular de escarpado nenhum – a voz grave e rouca de seu marido, com aquele sotaque estranho sobre o inglês a enrijeceu inconscientemente. Só então percebera que tinham avançado para mais perto de Iain e o McGregor, o suficiente para que pudessem ouvir a conversa que mantinham tão baixa.

-- Eu gosto de nadar – disse Leonor com altivez – Vai me impedir de fazer o que gosto?

-- Arranje outra ocupação, não vai pular de escarpado nenhum.

-- Você não manda em mim.

As costas dele ficaram rígidas. Leonor apressou sua égua para ficar ao lado dele, acariciando o pescoço do animal para apaziguá-la, ignorando completamente os olhares de Iain e Fergus para que se mantivesse longe e fechasse a boca.

-- Sou seu marido, moça – grunhiu McGregor, lançando um olhar capaz de fazer um exército inteiro fugir de medo. Um exército inteiro, mas não Leonor.

-- E eu sou sua esposa – rebateu ela em um tom quase zombador. Viu uma veia pulsando irritadamente na têmpora esquerda dele. Estava furioso por estar sendo contrariado. Como ela dizia, importava-lhe uma pulga se ele gostava ou não.

-- O assunto está encerrado. Minha ordem é absoluta: não vai e ponto.

Ela arqueou uma sobrancelha em silencioso desafio, logo deu de ombros.

-- Não se iluda, isso não vai acontecer, McGregor.

Ele estreitou os olhos.

-- Não me desafie, inglesa, não sabe do que sou capaz.

-- Tampouco você sabe do que sou capaz.

-- Eu sou o próprio diabo, não tenho por que temer a ameaça de uma mulher.

Leonor arqueou as sobrancelhas, surpreendida pelo comentário, a fúria rapidamente dissipada pelo choque do significado de suas ásperas palavras. Não havia expressão em seu rosto e os escuros olhos permaneciam insondáveis, mas o instinto de Leonor disse que havia algo muito mais tenebroso por trás daquelas palavras. Como ficou em silêncio, ele virou o rosto para olha-la. Não havia nada mais que uma menina incrédula e surpreendida fitando-o fixamente, avaliando o que ele dissera. Seus olhares se encontraram e ficaram presos, conectados por uma invisível corrente que não parecia estar disposta a ser rompida tão rapidamente. Leonor não conseguia sequer piscar ante a intensidade daquele olhar penetrante e desumano.

A forma como dissera o que era continha uma frieza arrepiante, mostrando a convicção que ele mesmo possuía sobre a veridicidade do suposto fato. A crueldade de Duncan McGregor era conhecida por todas as águas, como se fosse uma lenda viva, imbatível e sem alma ou coração, uma besta inigualável, impiedoso e capaz de matar uma criança e comê-la apenas para satisfazer seu inacabável desejo por morte. Todos diziam isso. Falar seu nome o atraía, portanto, foram-lhe atribuídos nomes que se encaixavam com sua atroz natureza. As mães ameaçavam seus filhos com a existência dele para que as obedecessem. Se não comer tudo, o Feto do Diabo virá lhe pegar. Leonor ouvira muitas mulheres da aldeia murmurando isso, mas nunca pensara no assunto.

Até agora.

Ela não sabia se ele era tão terrível como as histórias que contavam dele, pois não o conhecia. Rumores poderiam ser apenas rumores, como também podiam conter alguma verdade. Ela logo descobriria. No momento, tudo o que era capaz de fazer era perder-se naqueles orbes escuras que a sondavam tão intensamente.

Recuperando-se, Leonor piscou e molhou os lábios, desviando o olhar. Seu coração batia rápido, deixando-a ainda mais desconfortável. O olhar dele estava sobre seus lábios luxuriosamente e ela realmente não quis saber naquela vez o que ele estava pensando. Uma estranha agitação em seu interior a fez saber que temia terrivelmente o momento em que ele reivindicasse seu corpo outra vez, se é que realmente o fizera na noite de bodas. Na próxima oportunidade, ela estaria desperta – ou achava isso – e se lembraria de tudo.

-- Não olhe para mim assim, cabeçudo – grunhiu ela timidamente. Pela careta que fez, não devia estar acostumado a tal xingamento. Logo ele arqueou aquela arrogante sobrancelha.

-- Engraçado você dizer isso, esposa, uma vez que foi seu bocão que quase engoliu minha cabeça.

Leonor o olhou com ultraje. Ela não tinha um bocão! Claro que não! Sua boca era perfeitamente normal, como qualquer outra maldita boca.

Ela empertigou os ombros e franziu aquele orgulhoso nariz. Pelo brilho enraivecido de seus olhos, Duncan sabia que estava pensando sobre sua boca. Ele tinha uma estranha sensação no peito, uma comichão que até então desconhecia e que parecia se aprofundar além da carne. Não conseguia entender. Aquela mulher o levava ao ápice da fúria, para logo então fazê-lo cair em um vão onde não poderia se agarrar a nada. Estava pisando em terreno desconhecido e se sentir impelido a provoca-la o incomodava.

-- Eu não... – e bufou impropérios que o divertiram ainda mais. Para sua surpresa, Leonor sorriu. Um simples repuxar de lábios que o fez estreitar os olhos. Dentes brancos e perfeitos, lábios graciosos e sensuais... Por que não notara antes? Sua esposa tinha o sorriso mais lindo que vira na vida, o típico maldito sorriso que fazia qualquer homem desejar fazê-la feliz só para encontrar aquele sorriso todos os dias. Duncan esperara que ele tivesse um ataque histérico, que o chamasse de parvo e bastardo como já estava acostumado e a única resposta a sua provocação fora um belíssimo repuxar de lábios que atraiu até mesmo a atenção de Fergus, que corou. Aquilo era absurdamente ridículo. – Muitos homens não teriam tal opinião, marido.

-- Eu não sou como muitos homens, esposa.

-- Creio que sim.

Então ela iniciou um monólogo com a clara intenção de fazê-lo conversar.

Deus, ela falava demais! Depois de tanto tempo em total silêncio, ele chegou a pensar que sua língua irrefreável tinha adormecido depois de tanto ser exercitada, mas estava completamente enganado, uma vez que sua voz voltara a lhe aporrinhar a paciência. Nem Fergus conseguia deixa-lo naquele estado de inquietação. Com certeza não.

Duncan estava acostumado a mandar e a ser ouvido, simplesmente ser contrariado de forma desavergonhada por uma mulher, ainda por cima inglesa, deixava-o furioso. O que mais o deixava desconfortável era que tinha acabado de perceber que ela não o temia de jeito nenhum. Mesmo depois de ter dito que era o próprio diabo, tudo o que vira fora incredulidade. Ela rechaçou completamente o fato de que ele era bestial como se lhe importasse uma banana quem ele era. Ninguém jamais o tratara daquela forma e ele não sabia como reagir a isso.

-- E eu não tenho o bocão – continuou ela com seu monólogo – Minha boca é perfeitamente normal, ao contrário da sua, que é muito pequena, mas talvez ela pareça diminuta por causa do seu cabeção.

-- Você, por acaso, é incapaz de ficar calada?

-- Minha voz lhe irrita, marido?

Ela estava testando sua paciência sem qualquer receio.

Quando Will lhe dissera que precisaria de uma paciência de monge para lidar com ela, não achou que fosse tanto. Agora, tinha absoluta certeza de que necessitaria de uma paciência divina para manter um diálogo com ela. Duncan conhecia uma forma bem efetiva para silencia-la, mas não era tão parvo para toca-la diante da própria prima e de Fergus e Iain. Apesar de sua pouca humanidade, ainda era capaz de não ser tão bruto como era Lachlan McGregor.

-- Sim – respondeu ele com indiferença.

Se pensou que ela ficaria ainda mais ofendida, estava cegamente enganado.

-- Então falarei até suas orelhas apodrecerem e caírem.

-- Boa sorte, esposa.

Ela não ameaçava da boca para fora e tão logo ela começou a tagarelar, muito cedo ele percebeu que estava arrependido de tê-la provocado. Leonor realmente falou sem nem pausar para respirar ou molhar a garganta e sua habilidade de suprir monólogos fazia Fergus parecer um mudo agradável. O som de sua voz percorreu seus canais auditivos como uma lixa, despertando aquela maldita dorzinha de cabeça nascida de um som persistente e irrefreável. Mesmo quando chegaram ao porto na praia, ela ainda falava. E continuou falando até que viu o birlinn. Seus olhos brilharam de uma infantil empolgação e o sorriso que repuxou seus lábios fez com que muitos homens no porto se voltassem para contempla-la. Duncan franziu o sobrecenho e devia estar muito sombrio, pois as pessoas foram abrindo espaço aos tropeções para que passassem. Desmontou com o humor da peste. Não gostava que cobiçassem libidinosamente aquilo que era seu.

Fosse quem fosse, Leonor era sua esposa e não queria que a comessem com os olhos. Era sua propriedade. Apenas por isso se obrigou a ajuda-la a apear. Ela parecia muito disposta a simplesmente pular do cavalo e enrubesceu graciosamente quando ele a tomou pela cintura e a colocou bruscamente no chão. Sua cintura era estreita e o contato com o corpo feminino agitou seu sangue. Sem lhe dar muita atenção, Duncan seguiu para o birlinn, puxando pelas rédeas a égua da inglesa e seu garanhão, que estava terrivelmente incômodo com a presença da fêmea. Bill, um homem velho e de olhos simpáticos, aproximou-se hesitantemente deles. Tinha sido Bill o responsável por providenciar uma embarcação inglesa que transportasse os cavalos e a arca para a Ilha de Skye e, a julgar por seu sorriso, tudo estava indo de acordo com o planejado. Iain se ocupou de conversar com o velho, negociando o preço do aluguel do barco, com as adições de comida e água para os animais. Duncan ouviu ofegos de júbilo e se virou apenas para franzir ainda mais as sobrancelhas. Uma coisa era um homem entrar na água para subir no birlinn, outra muito diferente era uma mulher erguer suas saias até os joelhos e atravessar as suaves ondas para ir até onde ele estava. A visão daquelas canelas firmes e brancas fez sua virilha despertar dolorosamente, mas ele não era o único que sofria esse efeito.

Lady Mary vinha logo atrás, igualmente erguendo as saias para não molhar a roupa e esta foi a primeira vez que ele viu Iain boquiaberto.

Leonor parou ante ele e esticou a mão em um silencioso pedido para que a ajudasse a subir no birlinn. A água a cobria até pouco acima dos joelhos, molhando as pontas de suas saias e suas pernas. Duncan teria ficado embevecido com a visão, se tantos outros tolos não estivessem se deixando levar pela cabeça errada. Bruscamente, segurou-a pela cintura outra vez e a ergueu, ajudando-a a entrar na embarcação. Fergus já tinha ajudado Lady Mary, então, segurando na borda, agilmente Duncan se colocou para dentro do birlinn. Sua esposa estava com as bochechas rosadas de empolgação, olhando para os remos com uma admiração que o encheu de orgulho por possuir aquela galera.

Deixando-a de lado, focou sua atenção no vento. Estava forte e a seu favor, então era bastante provável que não necessitassem remar. O birlinn era menor que uma embarcação inglesa e com uma vela grande e larga. Por ser projetado para águas rasas e fundas, sua leveza era uma vantagem. Quando o vento estava forte, era como se voasse sobre as ondas. Como um ilhéu, ele era apaixonado por navegar, por sentir o vento contra o rosto e ver como seu birlinn era mais veloz que qualquer outro. Já era capaz de sentir a ânsia de se colocar em movimento sobre as águas, de vencer tempestades como se fosse superior à Mãe Natureza.

Iain logo se juntou a eles.

-- É um bom dia para navegar – comentou Iain, os cabelos dourados sendo agitados violentamente pelo vento – Chegaremos em breve, finalmente.

-- Sim – anuiu Duncan – Não acho que haverá uma tempestade, mas as águas são imprevisíveis.

-- As moças são fortes, podem aguentar bem.

Duncan o olhou com desconfiança. Achava estar notando que seu primo lançava certas olhadas para Lady Mary, mas não era de sua incumbência. De todo modo, já era hora de colocar a galera em movimento e partir para a Ilha de Skye. Lançando ordens a seus primos, Duncan coordenou a partida, também trabalhando com eles. As moças tinham se sentado em um dos bancos e conversavam com a donzela como se esta fosse uma igual, fato este que parecia tentar fazê-lo ver Leonor com outros olhos.

O que não aconteceria. Ela era apenas sua propriedade.

Partindo do porto inglês, eles começaram a remar para o horizonte, deixando cada vez mais Ulster para trás.

Duncan já sabia o que o esperava quando chegasse a sua casa. Havia apenas problemas sobre problemas, nada que valesse a pena voltar. Mas ele era o líder, não abandonaria suas terras porque seu povo o temia e desprezava sua amizade antiga com Edgar. Os ilhéus detestavam ser tratados como escoceses, gostavam se sua independência, mas Duncan sabia que um dia as Hébridas fariam parte da Escócia. E o reinado de Edgar desagradava a todos, apesar de ser mais agradável que o de Malcolm III e Donald. O povo sabia que Edgar era um bom rei, mas seu apreço pela Inglaterra e sua forma pacifista de ser um dia o levariam à morte. E Duncan estaria lá, ao seu lado, como o soldado que lhe jurara apoio – Skye não era aliada da Escócia, nenhuma ilha era, mas Duncan ergueria sua espada sempre que Edgar pedisse.

As pessoas da Ilha de Skye não o aceitavam, mas se submetiam por medo que ele pegasse seus filhos durante a noite e os devorasse no desjejum. Ao menos sua reputação servia para alguma coisa. No entanto, Duncan sempre estava esperando um ataque sorrateiro, mesmo em casa, como se estivesse em um campo de batalha. Sabia que não podia confiar em ninguém, e agora, principalmente em sua esposa.

A tarde estava caindo como um véu sobre eles, o céu colorido por ternas cores, em um festival gracioso de laranja, rosa, azul e lilás. O vento salgado estava forte e úmido, soprando e assobiando por eles. Mais algumas horas e chegariam à casa de seu marido, de acordo com Fergus. Mary e Leonor passaram o dia conversando tolice com Tess, divertindo-se e observando como os homens trabalhavam. Era a primeira vez que viajavam em uma galera – na verdade, sequer pisaram em um navio, a não ser um barquinho que acharam na baía, quebrado e atolado na areia, onde brincaram com os meninos por anos, como uma espécie de esconderijo só deles – e a experiência estava se mostrando única e perfeita. Aventureiras como eram, Mary e Leonor se emocionavam cada vez que as ondas batiam contra a lateral do birlinn e quando a temperatura caiu absurdamente, quase esperavam uma tempestade.

Sabiam que era ridículo. Tempestades eram perigosas e muitos homens morreram por causa de uma, sem mencionar as bestas que moravam no mais profundo do mar. No entanto, gostavam da emoção de viajar na galera escocesa. Leonor se ofereceu a Iain para remar com eles, mas ele recusou com uma tranquilidade tão passional, que ela chegou a pensar que nada jamais o tiraria do sério. Ao contrário de seu marido, que permanecia inexplicavelmente mal-humorado.

Durante o almoço fora de hora, Tess abriu uma sacolinha com pães, odres de vinho, queijo e uvas. Elas comeram enquanto conversavam e Tess lhes disse que deveriam oferecer aos homens também. Mary levou um pouco para Iain, que lhe sorriu amavelmente e aceitou sua companhia além do alimento. Antes que Leonor pudesse fazer alguma coisa, Tess pegou uma parte para levar a Fergus. E Leonor ficou com a tarefa de alimentar seu estranho e antipático marido.

O crepúsculo era belo e o frio rosava suas bochechas. Leonor amava o mar e se pudesse, estaria nadando naquele momento. Ou, cavalgando com Vento Selvagem pelos escarpados e praias de Ulster. Porém, encontrava-se viajando com sua prima para as terras de seu marido... Ou, esclarecendo o poder dele: para a ilha de Duncan McGregor. Ainda não acreditava que ele era um Senhor de Ilha.

Com a refeição na mão, ela se aproximou timidamente dele. Sentou-se a seu lado e não conseguiu não admirar a forma como os músculos dele se contraíam quando movimentava os braços, remando sem qualquer preocupação na expressão.

-- Trouxe algo para você comer – ela disse baixinho. Ele sequer a olhou.

-- Não tenho fome.

-- Passou o dia sem comer, McGregor, claro que está com fome.

-- Não estou.

Certo, ele era teimoso e cabeção. Um cabeça-dura irremediável.

Dando de ombros com forçada indiferença, Leonor tirou uma uva do cacho e a colocou na boca. Tess tinha tirado todos os caroços, o que tornava a tarefa de devora-las ainda mais deliciosa. O mel da uva escorreu deleitosamente por sua língua. Quando lambeu os lábios, viu olhos escuros e brilhantes observando-a. Enervava-a não saber o que se passava na cabeça dele. Leonor sentiu o rosto esquentando, o rubor proveniente da atenção que lhe dedicava espalhando por suas bochechas. Pegou outra uva e se forçou a coloca-la na boca. Olhou-o pelo canto do olho, apenas para enrubescer ainda mais com o olhar fixo de seu marido. Intenso. Estava começando a desistir de comer uvas perto dele, quando ele limpou a garganta e desviou o olhar, concentrando-se austeramente em sua tarefa de remar.

-- Sirva-me, esposa – era uma ordem, mas foi a primeira vez que se dirigiu a ela com suavidade, sem “esposa” parecer um xingamento. Leonor não gostava de receber ordens, mas estava cansada de discutir por bobagens.

Revirando os olhos, abriu o odre de vinho e o colocou na boca de seu marido, entornando devagar para que ele pudesse engolir sem se afogar. Viu os movimentos em sua garganta enquanto bebia, como se tivesse sede. Logo ela afastou o odre e partiu um pedaço de pão, que ele mordeu com vontade.

-- Para quem não estava com fome, você me parece muito disposto – brincou ela. Ele se limitou a olha-la enquanto mastigava. Ela lhe deu mais um gole profundo de vinho antes de partir outro pedaço de pão. A tarefa era natural para ela e ele pareceu perceber isso.

-- Já alimentou outro homem antes?

A pergunta a surpreendeu.

-- Sim – respondeu sinceramente – Quando meus primos estavam doentes, Mary e eu cuidamos deles. Tia Elizabeth nos ensinou como fazer e passávamos o dia inteiro sentadas com eles, às vezes, sem dormir. Dei de comer em várias ocasiões a Cain e a Tristan.

Ele aquiesceu com a cabeça.

-- Parece gostar muito deles.

-- Amo-os. Nunca tive irmãos e eles são isso para mim. – ela não sabia por que estava falando aquilo, mas não conseguia mais apenas guardar para si – No começo, não gostávamos uns dos outros. Os meninos não gostavam de brincar com Mary por ser uma menina e me chamavam de estranha. Will diz que eu tinha dentes tortos e meu cabelo parecia o pelo de um cavalo.

Ele a olhou com complacência, remando com apenas uma mão e usando a outra para segurar o odre e regular seus goles da bebida.

-- E quando a aceitaram?

Leonor sorriu.

-- Quando alguns garotos da aldeia se engalfinharam com Cain por causa de uma garota. Ele era o mais velho e adorava um rabo de saia. Eu tinha seis anos na época. Outras crianças os rodearam, incitando a briga e a tal menina ria, provavelmente muito tola para ficar feliz por dois garotos brigarem por ela. Meus primos se envolveram para ajudar Cain e os amigos do garoto também. Na minha cabeça, foi um massacre.

As comissuras dos lábios dele quase se puxaram em um sorriso e Leonor só percebeu que estava em expectativa por não vê-lo sorrir quando ele realmente não sorriu e ela ficou desapontada.

-- Nunca tinha visto uma briga, moça?

-- Não. Até os três anos, era filha única. Depois de partir para Ulster com minha mãe, não podia sair do castelo. A não ser naquele dia, quando Mary e eu seguimos os meninos para a aldeia. Estávamos curiosas para saber o que eles faziam. Então, quando a briga começou, ficamos apavoradas. Acho que me lembrei muito vagamente de quando... – a voz dela tremeu inconscientemente – De qualquer forma, nós criamos um plano para pará-los.

McGregor parecia entretido, não mais aborrecido por seu tagarelar e isso a animou a continuar com os detalhes de suas aventuras.

-- Soltamos as galinhas e nos armamos com os ovos – continuou Leonor, a diversão pelo fato iluminando sua expressão. Os olhos dele brilharam de algo que parecia orgulho, mas ela duvidou muito que fosse – As galinhas serviram de distração e os ovos foram nosso ultimato. Meus primos se aproveitaram e nocautearam os garotos.

-- O que aconteceu com a moça?

Leonor deu de ombros.

-- Não sei, Cain nunca me contou. Mas confesso que atirei uns ovos nela e não foi sem querer. – ela riu suavemente com a lembrança – Tio Richard teve de reembolsar o granjeiro e pedir desculpas aos camponeses pela surra que demos em seus filhos. Tia Elizabeth castigou a todos nós por não termos dito nada sobre o acontecido. Mary e eu passamos horas ajoelhadas e rezando, pedindo perdão por nossa crueldade ilimitada. Ela também deu uma moeda ao padre por nossas penitências e pediu a ele para purificar nossas almas antes que fôssemos ao inferno.

-- Acredito que essa foi apenas a primeira vez.

-- Sim, foi. Quando eles viram que não tínhamos tornozelos delicados, permitiram a nossa entrada no grupo. Tio Richard nos ensinou muitas coisas, independente de sermos damas ou não.

Eles ficaram em silêncio. Leonor nunca tivera a quem contar suas histórias de infância e tia Elizabeth dizia que jamais um homem deveria saber o que ela era capaz de fazer, principalmente seu marido. Não era correto uma dama ser criada entre homens, aprendendo o que ela aprendeu, como as injúrias extremamente vulgares ditas por Will e Tristan a cada palavra dita em uma frase. No entanto, a Leonor importava um percevejo o que McGregor pensava dela e isso a fazia relaxar mais do que o devido. Era a primeira vez que se sentia impelida a conversar com um estranho e não compreendia aquele estranho desejo de desabafar algumas aventuras com alguém que não a julgasse por não ser... De acordo com o significado de perfeita para o mundo. Leonor podia contar suas qualidades nos dedos, mas jamais seria capaz de enumerar seus defeitos. Oh, não, estes necessitariam de, no mínimo, um mês para serem listados.

McGregor lhe entregou o odre vazio e ela voltou a guarda-lo na sacola de Tess mecanicamente. Era estranho, mas ela se sentia um pouco mais próxima dele. Não no físico, mas...

O quê? Acha que monologar com ele vai te fazer ultrapassar essa fachada diabólica que ele tem? Isto não é um romance e ele é um McGregor, sua tola.

-- Me dê uma uva – McGregor pediu suavemente, remando, os músculos se contraindo com seu esforço.

Acordando para a realidade, Leonor viu que tinha anoitecido e uma densa névoa os engolia em seu interior, fazendo tudo parecer terrivelmente igual. Se não soubesse que seu marido era um ilhéu experiente, estaria apavorada com a ideia de se perder no mar. A comida não duraria para sempre, tampouco a água e só havia mar ali, nada mais. Desistindo de pensar na ideia de estarem perdidos, arrancou uma uva do cacho e a colocou entre os lábios do McGregor. Ela ficou tensa como uma corda ao sentir um estranho calor no ventre quando aqueles lábios tocaram as pontas de seus dedos, sugando a uva com a língua. Foi um ato simples, mas bastante sensual, espalhando calor por seu corpo como uma corrente elétrica. Repentinamente desconfortável e incômoda, Leonor desviou o olhar para a névoa adiante e molhou os lábios, tentando ignorar aquela presença corpulenta e de selvagem virilidade.

-- Como você sabe o caminho? – perguntou ela, mais para distrair a si mesma do que para puxar um assunto entre eles.

-- Sei onde moro – ele explicou, engolindo a uva – Oriento-me pelas estrelas e pelas águas.

Isso era inteligente.

-- Conhece as águas, não é?

-- Sim.

-- Isso é admirável. – ela disse antes de poder deter a própria língua, mas não se arrependia do que dissera. Nunca aprenderia a navegar com tamanha maestria, como ele fazia. McGregor arqueou suas escuras sobrancelhas, mostrando-se completamente surpreendido pelo elogio. Leonor começou a se perguntar se alguma vez alguém o elogiara por seus feitos, uma vez que parecia extremamente desconcertado e sem reação. Ele balançou a cabeça em negação, rejeitando a ideia de que ela pudesse ter dito algo de bom dele.

-- É costume. Você sabe andar perfeitamente em suas terras. Assim é comigo e com o mar.

-- Me ensinaria a navegar?

-- Não é uma atividade para uma moça de sangue azul.

Ele a estava provocando. Isso a fez sorrir.

-- Posso lhe mostrar que meu sangue azul e inglês não me impede de fazer muitas coisas.

Ele a olhou com diversão, um meio-sorriso brincando naqueles lábios que ela estava começando a achar... bonitos.

-- Como o quê?

Foi a vez de Leonor balançar a cabeça.

-- Quem sabe um dia eu te mostre – provocou ela – Me ensinaria a navegar?

-- Pensarei sobre isso, moça.

-- Posso ser bastante persuasiva, sabia?

Ele arqueou uma sobrancelha em desafio.

-- Seu primo me advertiu.

-- Will, certo? É bem da natureza dele escarafunchar...

-- Duncan! – o grito de Iain os sobressaltou. McGregor se levantou de um salto e, segurando-a pelo cotovelo, a fez se erguer. Iain parecia perturbado e Fergus se mostrava apreensivo. Tess e Mary estavam com as sobrancelhas franzidas, olhando de forma vidrada para algo além da névoa. McGregor levou Leonor para perto das outras mulheres rapidamente – Há vikings se aproximando.

O coração de Leonor foi bater nos pés. Ouvira histórias macabras sobre os vikings e conhecera uma moça que foi sequestrada e violentada por todo um navio de bárbaros gigantescos, para logo ser feita de escrava. Ela fora vendida a sarracenos e lutou muito para fugir. Agora era uma das criadas do castelo, as seu rosto deformado pelas crueldades do mundo era uma marca viva de seu passado e da coragem que tivera para sobreviver e seguir em frente. Leonor olhou para Mary e Tess e muniu-se de forças para não permitir que nada daquilo acontecesse com elas. Mary também se mostrou corajosa, mas havia medo em seus olhos. O mesmo medo que gelou o sangue de Leonor. Era apenas eles em uma galera contra vikings.

Leonor congelou de pavor ao ver as enormes sombras de três navios vikings cortando a névoa e avançando para eles como demônios saindo da noite para devora-los. Eram embarcações grandes e imponentes que inspiravam o terror em quem as visse, principalmente ao ver o entalhe e forma de mulher em suas frentes. A estátua tinha metade do corpo de mulher e a outra, de peixe e suas humanas mãos foram unidas como se rezasse. A névoa tornava os navios etéreos e a escuridão os fazia parecer ainda maiores. Leonor controlou a onda de terror e olhou para seu marido. Ele e os outros homens estavam frios e calmos, encarando as embarcações em um sepulcral silêncio. McGregor levou o indicador aos lábios, ordenando-lhe silêncio e ela assentiu com a cabeça.

Agora ela compreendia o motivo de ele não ter içado a vela quando iniciaram a viagem: para não chamar a atenção.

Era um homem ardiloso e controlado, digno de admiração.

Leonor, decidida a ser de alguma ajuda, dirigiu-se a Tess e a Mary e repetiu o sinal que McGregor lhe fizera. Elas assentiram com a cabeça, mantendo a calma ao máximo. Nenhuma delas estava acostumada a uma aventura tão intensa. Ela não queria ser pessimista, mas não havia como escaparem daquilo com vida. Eram três drakar vikings para um único birlinn. Por mais habilidosos que fossem os ilhéus, não eram páreos para tantos bárbaros.

Leonor respirou fundo. McGregor tinha total comando da vela e Iain e Fergus estavam com remos opostos sob controle, prontos para agir quando fosse necessário. Aquela era uma causa totalmente perdida. Quando estava quase pensando com mais clareza, expulsando o terror do peito, um zumbido a fez tencionar as costas. Um arpão passou raspando a lateral do birlinn e Tess soltou um grito de puro terror.

Estavam sendo atacados.

Notas finais
E tchan tchan tchan tchan! Final grandioso, hein? Quando li isso pela primeira vez, arrepiei demais :)
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