Notas iniciais
Queria agradecer primeiramente a quem comentou, porque isso me deixou feliz a ponto de eu querer tomar sorvete *oo* Aqui está o primeiro capítulo da historinha haha Boa leitura!

A força da alcateia está no lobo e a força do lobo está na alcateia

Rudyard Kipling


CAPÍTULO UM

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24 de agosto de 1104,

Ilha de Skye, Dragon Seafront Castle


Duncan McGregorolhou para a missiva que acabara de chegar a suas mãos com um desprezo tão patente que parecia estar diante da data de sua execução. Assim como muitos, ele não fora minuciosamente educado e não sabia ler para reler pela terceira vez as palavras de Edgar. Era como estar diante de outro idioma, ainda não conseguia entender. O tabelião sabia falar, ler e escrever em gaélico, inglês e francês, mas as palavras escritas ali ainda não pareciam compreensíveis a seu ver. Apenas para se certificar, leu uma quarta vez. Sim, não estava enganado. Maldito seja, não estava enganado.

-- O que há? – inquiriu saber Fergus. Seu primo esticou-se por sobre seu ombro, arregalando os olhos para a missiva. Duncan não se deu ao trabalho de amassar a folha, uma vez que seu primo também não sabia ler. Tentava decifrar o que tornava o conde tão circunspeto e irritadiço, mas não era capaz de compreender o significado dos rabiscos do rei. Até pronunciar o que Edgar dizia fazia Duncan ter asco. – O que o rei disse?


–- Falou com Henrique – grunhiu, ainda sem desviar os olhos da missiva.

–- Henrique, rei da Inglaterra?

Fergus parecia assombrado e curioso.

–- Não, Henrique rei da Babilônia – ironizou Duncan com o humor de mil demônios – Claro que é esse, conhece outro?

Fergus revirou os olhos.

–- E o que ele falou com o inglês?

Certo. A inevitável e desprezível afirmação de um inescapável fato.

Sentiu-se impelido a ir até Edimburgo, invadir o salão real e confrontar Edgar. Eram amigos de longa data, lutaram lado a lado para destronar Malcolm III anos atrás, um cuidando das costas do outro, até Edgar furar os olhos do antigo rei... Detalhes a parte. De todo modo, o que Edgar lhe ordenara era um castigo, não uma compensação. Duncan ganhara terras e um patrimônio depois de ajudar Edgar a ascender ao trono, mas tudo isto lhe importou uma uva se comparado ao seu novo presentinho. Duncan sempre cumprira com seu dever corretamente, seguindo fielmente as ordens reais, mas agora...

Também não lhe servia de nada exigir que Edgar pensasse melhor. Já podia imaginar as palavras do parvo. Edgar, o que significa isto? Ele sorriria com a tranquilidade que lhe era característica. É que não sabe ler, conde de Trotternish? Seria apenas estressante. Mais estressante, corrigiu-se.

–- Quer uma aliança por meio de matrimônio.

Fergus ponderou, absorvendo a informação. Franziu as sobrancelhas, mas por um motivo completamente diferente do de Duncan.

–- E o que há de mal nisso?

–- É inglesa – cuspiu com desprezo.

–- Primo, nosso rei quer a paz com a Inglaterra e você o apoiou, ou já esqueceu?

Engoliu em seco.

–- Não esqueci. Ainda apoio seus ideais.

–- E...?

–- A maldita criatura é uma Knightley – só o nome daquela família fez que todo o salão fizesse um silêncio sepulcral, e Duncan e Fergus estavam falando baixo. Seus homens mais fiéis se voltaram para a cabeceira do lorde, os olhos arregalados e as bocas formando um O. As mulheres que serviam às mesas estancaram, congeladas no mais profundo terror. Antes um traidor na família que um inglês. O silêncio perdurou de forma incômoda. Ninguém parecia se recuperar da notícia. Duncan quase acreditou que estavam pálidos também. Ao verem o semblante antipático do líder, voltaram a conversar e a beber, mas estavam rígidos e irritados. Um espelho de Duncan, por assim dizer, a ninguém agradou a novidade.

–- Está de brincadeira? – Duncan o olhou com todo seu áspero sarcasmo na expressão, o que por si só já era uma resposta suficiente – Não acredito que... Ah. Edgar quer encerrar a batalha. Ele acha mesmo que um casamento acabará com décadas de animosidade?

–- Parece que sim. Está tão obstinado com a paz que não percebe estar jogando uma víbora nas minhas entranhas.

–- Quando ocorrerão as bodas?

–- Semana que vem. Quer que eu parta o quanto antes.

–- Para chegar a Ulster semana que vem, teríamos de partir no máximo amanhã.

–- Vou sozinho. Não há necessidade de levar uma escolta.

Fergus pôs os olhos em branco.

–- Enlouqueceu? Não pode pisar em terreno inimigo sozinho. É uma mulher, mas tem sangue Knightley. Vai envenená-lo antes que perceba.

–- Chamar atenção com um exército também não está a nosso favor.

–- Eu e Iain vamos contigo.

Duncan revirou os olhos. Não adiantava discutir com seu primo. Quando Fergus tinha algo em mente, nada o impedia de seguir adiante. Mesmo se o proibisse de ir, Fergus arranjaria uma forma de acompanha-lo. Iain, seu outro primo, também tinha essa mesma desgraçada obstinação. Não permitiriam que Duncan seguisse sozinho até a Inglaterra para buscar a moça. A maldita inglesa. Ou seja, teria de ir acompanhado dos dois highlanders que o conheciam desde a mais tenra infância, quando seu pai ainda era vivo.

–- Então vão se preparar, partiremos ao anoitecer. – decretou, levantando-se.

☺

Ulster, Irlanda

–- Eu não entendo – disse Mary, franzindo as sobrancelhas douradas. Leonor olhou com ainda mais curiosidade para Tess, a donzela de ambas, quase se inclinando sobre seu bordado para ouvir melhor – Como é possível que ele faça isso?

A donzela enrubesceu ainda mais.

–- Milady, eu não deveria...

–- Não pode permitir que continuemos na ignorância, Tess – alegou Leonor, fazendo um biquinho infantil, a típica expressão que sempre fazia com que sua tia Elizabeth se derretesse de amores pela menina. Tess olhou ao redor, indecisa se continuava ou não, temerosa de que alguém a surpreendesse falando dos assuntos matrimoniais com as moças.

Pressentindo a indecisão da donzela, Mary colocou seu bordado sobre a cama e correu para a porta do quarto, fechando-a e se voltando desafiadoramente para a donzela, cruzando os braços diante do corpo. Leonor sorriu, reprimindo a vontade que tinha de gargalhar. Passaram os últimos dias perseguindo a pobre Tess para que lhes contassem o que realmente acontecia na intimidade entre um homem e uma mulher. Agora que estavam perto de serem cortejadas, queriam saber ainda mais sobre o que Elizabeth não abria a boca para falar nem sob ameaça de morte. Pressionada, Tess tinha começado a narrar coisas confusas sobre dedos e anéis.

Mary, determinada a conseguir sua informação, sorriu vitoriosa ao contemplar a expressão de coelho encurralado por lobos, pega em uma armadilha cuja única escapatória seria saltando através da janela da torre. Religiosa como Tess era, não correria o risco de ser renegada em terra sagrada quando morresse.

–- São umas raposas! – amaldiçoou a donzela, batendo o pé no chão. Leonor lhe sorriu carinhosamente, deitando o bordado ao lado do de Mary e se levantando para confrontar a indignação de Tess. – Vou gritar até alguém vir a meu socorro!

–- Por favor, Tess, que mal há em nos contar?

–- Lady Leonor, não adianta fazer essa carinha, eu sou difícil, sabia? – a donzela olhou para a janela, mostrando-se tentada a usar todos os meios a sua disposição para escapar, mas logo desistiu e olhou para Leonor – Não acredito que montaram uma armadilha para mim.

–- O mundo é dos espertos – Mary deu de ombros – Quer que falemos com os homens, Tess?

A donzela empalideceu e ficou boquiaberta.

–- Não! – gritou, benzendo-se três vezes seguidas – Por Deus, nem o tentem! Eles estarão mais que dispostos a lhes explicar, também vão demonstrar... Não, eu falo! Tudo bem. Mas se Lady Elizabeth desconfiar, fui ameaçada com um punhal e água fervendo.

As duas jovens se entreolharam e explodiram em sonoras gargalhadas completamente impróprias de moças de alto berço. Aporrinhar Tess era um passatempo imperdível desde sempre. Tess era uma mulher pouco mais velha que elas, com longos e encaracolados cabelos cor de mel e olhos ambarinos. Seus seios fartos faziam inveja às duas meninas que acabavam de completar seus dezesseis anos. Tinha a beleza clássica dos ingleses e poderia facilmente se fazer passar por uma lady, se não fosse por suas mãos ásperas pelo trabalho pesado das cozinhas. Conhecia Leonor desde que chegara a Ulster, assim como também já era familiarizada com Mary de Ulster, filha de Elizabeth. Mary e Leonor cresceram como irmãs, compartilhando vestidos e traquinagens. O pai de Mary, Richard Campbell, era o alvo preferido de ambas. Adotara Leonor como filha.

Desde a morte de Isabel, quando Leonor tinha dez anos, seus tios a aderiram completamente à família. Era chamada de filha por eles e mencionada como irmã de Mary nos bailes. Mesmo assim, Leonor não se esquecera de suas origens. Passara a infância ouvindo a tia Elizabeth e sua mãe conversando sobre a batalha que levara a vida de seu pai.

Lachlan McGregor. O nome do bastardo nunca sairia de sua mente. Permanecia incrustado em seu coração como um espinho maligno, envenenando-a. Aquele homem destruíra a vida de sua mãe e roubara a de seu pai.

Leonor balançou a cabeça, livrando-se de tais pensamentos e se concentrando em uma Mary torturadora de Tess. A pobre donzela estava tão atormentada, que Leonor não se surpreenderia se desmaiasse.

–- Então – insistiu Mary, os olhos ametista brilhando de curiosidade e diversão – O que é que quis dizer com o anel encaixando no dedo?

Tess cobriu o rosto com ambas as mãos, gemendo de vergonha.

–- Isso não é elegante – gemia, encolhendo os ombros. – O homem... Ele tem... Um aparato. Isso, um aparato.

Leonor franziu as sobrancelhas.

–- Um aparato? – indagou Leonor confusa.

–- Sim, um aparato. Parece um pescoço de frango – balbuciou, logo agitando a cabeça em negativa, os cachos revoltando-se sobre seus ombros. Corou absurdamente ao ver as expressões confusas das moças. Leonor tentou imaginar um pescoço de frango, mas não lhe cabia com perfeição na mente – É como um dedo.

Mary fez uma careta.

–- Mas não era um pescoço de frango? – contestou.

Tess parecia desesperada.

–- Mas agora é um dedo!

–- Eu não entendo – disse Leonor, cruzando os braços diante do corpo como fazia Mary.

–- Eu também não.

–- O homem tem o dedo e vocês têm um anel – resmungou Tess, olhando para a porta. Leonor não sabia se ela rezava para que alguém entrasse e a salvasse de explicar ou que alguém entrasse e a flagrasse murmurando tal assunto com as meninas. Tio Richard ficaria furioso. – Então, ele coloca o dedo no anel.

Leonor e Mary ficaram boquiabertas.

–- Só isso? – disse Mary. – A julgar pelo seu medo, pensei que algo mais incrível acontecesse.

–- Não vai ficar tão desapontada quando sangrar...

Leonor arregalou os olhos e correu para perto de Mary, que já se adiantava para fechar o certo em torno da donzela.

–- Como assim? – Leonor perguntou, empalidecendo. De repente, não queria mais casar.

Tess recuou até bater as costas na coluna da cama, encolhendo os ombros como se assim fosse desaparecer. Mas Leonor e Mary não permitiriam que fugisse. Oh, não, não agora que algo lhes chamara a atenção.

–- N-não é na-nada – gaguejou Tess, olhando para todos os lados, buscando uma rota de fuga que não fosse a janela – É que...

Então a porta foi aberta e Tess soltou um deselegante suspiro aliviado. Will, irmão de Mary, entrou com seu típico sorriso matreiro no rosto que arrancava suspiros apaixonados de todas as mulheres que o viam. Vestia uma camisa de linho branca e calças negras. Era um rapaz muito bonito e comprometido com a condessa de York. Seus olhos cor de avelã brilharam maliciosamente para Leonor e para Mary, o que significava que pensava igualmente em uma forma de importunar a pobre Tess.

Ao ver que a atenção das moças estava em Will, Tess disparou porta afora como uma flecha, no tipo de carreira que dizia claramente que nunca mais ficaria sozinha no mesmo aposento que elas. Na verdade, era muito provável que nunca mais fosse correr o risco de andar na companhia delas.

Mary e Leonor lançaram-se nos braços de Will, pendurando-se em seu pescoço e beijando-o em todas as partes do rosto. Ele sorria e as abraçava, apertando-as contra o peito.

Will tinha passado alguns anos na corte de Henrique e elas sentiram tanto sua falta que poderiam acorrenta-lo em uma cadeira para que nunca mais partisse.

–- Moças, moças – ele ria, pondo-as delicadamente sobre o soalho do quarto – Sou de todas, acalmem-se.

Leonor bufou de forma tão deselegante que mais pareceu o resfolegar de um cavalo. Will a encarou e estalou em gargalhadas infantis e adoráveis.

–- É um idiota – disse Mary, revirando os olhos.

–- Com quem estão andando, com Bran, o cavalariço? – brincou Will – Achei que mamãe gostasse de damas refinadas.

–- Conte a ela e lhe cortamos a língua – ameaçou Leonor com um sorriso adorável.

Will se afastou delas para observá-las. Olhou Mary dos pés a cabeça antes de voltar-se a Leonor. Parecia encantado com as transformações que via. Até quatro anos atrás, Mary tinha uma juba loura descontrolada, um corpo quadrado e pés tortos. Agora... Bom, ainda tinha os pés levemente tortos, mas possuía curvas graciosas e seu cabelo era liso com halos luminosos nas pontas. Sua irmã era realmente a mais linda que já vira, com uma beleza angelical e um sorriso totalmente persuasivo. Esse nunca mudara. E Leonor... Aquela menininha de dentes tortos, alta e magricela realmente tornara-se uma mulher que fazia um homem querer pecar.

Mary e Leonor eram contrastes inegáveis: uma era loura e de aparência imaculada, a outra morena e de traços pecaminosos.

Will teria muito trabalho em manter a raia todos os homens que posassem os olhos nelas mais tarde. Talvez devesse andar com sua espada em punho para evitar maiores problemas.

–- Minhas garotinhas estão crescidas – disse, arrancando mais sorrisos delas. Leonor e Mary intercambiaram olhares que antes lhe davam arrepios na coluna, porque não significavam nada de bom. Will esperou que algo terrível lhe acontecesse, mas elas se limitaram a dar de ombros com resignação.

–- Por que voltou da corte? – inquiriu saber Mary, arqueando uma dourada sobrancelha para ele. Quem diria que sua irmã antes parecia um pinto de granja...

–- Voltei para vê-las – Will informou. Leonor estava desconfiada. As últimas cartas de Will diziam que estava adorando a corte, porque era cheia de intrigas e confusões e isso eliminava seu habitual tédio, além da variedade de mulheres com as quais tinha o prazer de se encontrar. Leonor e Mary voltaram a cruzar os braços diante do corpo, sinal este de que não o deixariam escapar sem a sincera resposta que desejavam. Will praguejou entre dentes. – Mamãe mandou uma missiva me falando das suas bodas – olhou para Leonor, que empalideceu – e que você começaria a ser cortejada. – disse a Mary.

O mundo de Leonor caiu aos pés.

Como assim, seu casamento?

Ainda não fora cortejada e os únicos homens que conhecia eram os irmãos de Mary e seu tio Richard. Não havia com quem casar. Tia Elizabeth a teria apresentado ao seu noivo caso o tivesse. E noivos não apareciam do nada, brotando do vento. Havia todo um processo. De onde surgiu esse homem?

Mary franziu as sobrancelhas para Will, mas Leonor não prestava atenção. Sua mente funcionava rapidamente, buscando e qualquer lugar do encéfalo alguma informação que esclarecesse quem cargas d’água era seu pretendente, mas não conhecia ninguém. Não importava o quanto pensasse, só sabia certamente que noivos não surgiam do ar.

–- Quem é? – perguntou a Will.

Ele pareceu confuso, como se esperasse que ela já soubesse. A própria Leonor esperava saber.

Como seus tios puderam esconder um casamento dela? E logo o seu casamento.

Will meneou o cabelo, irrequieto e desconfortável.

–- Duncan McGregor.

O mundo de Leonor afundou até o submundo.



Notas finais
CAMPANHA: Comente e ganhe um kit alegria - uma jujuba diet e um beijinho na bochecha !! *--*