Prazer, Demoníaca

2 Uma garota, um demônio e um mesmo corpo


O sol, porque o sol acerta o meu rosto com tanta precisão, porque essa droga de luz tem que me acordar, dia após dia, como se fosse fazer alguma diferença?

–Maldito, porque não pode me deixar em paz – Resmunguei, a voz ainda arrastada por conta do sono, olhei para o céu e cobri os olhos, para ter uma visão mínima da grande esfera alaranjada – Bom dia, senhor infernal, como esta a minha lista de hoje?

O sol, ridiculamente eu me sinto melhor em culpa-lo pelos meus problemas, um astro tão grande para carregar toda a minha culpa, isso me parece satisfatório, me parece bom.

Levantei-me do chão recoberto por folhas, que tipo de garota de 17 anos passa a noite em uma floresta? Ah o cansaço, depois de uma noite promissora é a primeira coisa que eu sinto, hoje eu estou melancólica, tive problemas com o serviço de ontem, um homem na meia idade, impossível ter mais de 45 anos, ele era realmente forte, por um momento pensei que a vitima seria eu, mas ele não deixou, o maldito Sol, não o astro, mas o Sol que queima no meu interior

Bom dia minha casca favorita, como você dormiu?

–Bem, obrigada pela consideração, aproveitando que esta de bom humor, que tal ir dar uma volta no inferno? – Murmurei para a voz no interior da minha mente, a mochila que usei como travesseiro já estava pendurada nas minhas costas e eu caminhava pela trilha quase totalmente apagada na floresta

Admito ser tentador, mas sua mente é tão problemática, tanta culpa, tanto ódio, tanta fúria, esse desejo, essa fome, e não é superpopulado, sem duvida melhor do que o inferno

A gargalhada ecoou na minha mente e eu senti minhas têmporas latejarem, caminhei sobre as ultimas folhas até chegar do lado de fora, as arvores se encurvavam na direção da cidade, mas ficavam bem fixas no chão, com medo de sair da segurança do floresta escura, ou talvez essa fosse apenas a minha sensação. Segui na direção das casas de madeira, que dia é hoje mesmo? Outubro não é? Esse mês é realmente tenebroso, acho que a forma com que se escreve, apenas com Os e Us, não, não é isso, ah sim, eu me lembro, o Halloween, assustador, uma época maravilhosa, não é?

2055, esse era o ano, outubro, mas o dia, eu não consigo me lembrar da porcaria do dia em que estamos. Isso não importa, vamos a minha missão, ei senhor infernal, o que você tem pra hoje?

Falando comigo por vontade própria, isso é suspeito. De qualquer forma seu serviço, senhor rico, costumes estranhos, manias pervertidas, maltratando cachorros, roubando joias, enriqueceu assim, essa existência insignificante dele, francamente, isso me tira do sério

–Não dou a mínima para a sua motivação, se eu matasse quem me irrita metade do mundo já... – Não, isso está errado, eu mato quem me irrita, simplesmente perdi toda a moral depois disso – Enfim, porque mesmo eu tenho que fazer essas coisas?

Esqueceu de novo, você devia organizar melhor sua mente, é simples amor, eu estou na sua cabeça, você é uma esquizofrênica, eu sou um demônio, eu falo na sua cabeça e você me obedece, sem chiar, sem reclamar, abaixe a cabeça e obedeça, ou o inferno que você tem dentro da mente vai te perseguir na vida real até o fim dos seus dias. O porque é: os humanos, essa maldita raça, que se acham no direito de tudo, superiores ao resto do universo, eles simplesmente não merecem perdão, quanto mais morrerem melhor, encher o inferno de escravos humanos para poder pisar nas almas podres deles e você, minha querida capsula, é o que vai realizar esse sonho de um demoniozinho adorável.

–Você... porque justo eu? – Indaguei olhando ao redor, as mulheres fechavam as janelas ao me verem passar, homens, senhores, crianças, todos desviavam do meu caminho “Uma garota de roupas assim? Ela é um daqueles do reformatório?” “O cabelo, ela parece um demônio de cabelos de fogo” “Esses olhos infernais, não é possível, nenhuma pessoa tem olhos vermelhos” isso já ajuda a me descrever, apenas bruxas tem olhos dessa cor, meu cabelo é assustador para os demais moradores morenos e, no máximo, loiros, portanto não só a criatura que luta contra o meu eu interior mas também todo o meu exterior mostram o que eu sou e, acredite, ele não é bonito.

Você esta atrasada, corra, corra, ou não chegará à casa do velho a tempo

–Cale a boca, impertinente – Reclamei parando em frente a um casarão antiquado, as madeiras da varanda começavam a cair e apodrecer, o cheiro de mofo e velharia apenas dava um ar ainda mais fantasmagórico ao lugar – Viu só? Eu disse que chegaria a tempo, confie na sua casca favorita.

Esquizofrênica, assassina, estudante de uma escola especial para visitantes frequentes de reformatórios, minha vida, o que minha vida está se tronando?

Zoey O’Conner o que diabos pensa que está fazendo? Já lhe disse, nem me lembro quantas vezes, independente do nível, isso é um serviço e você deve estar sempre 100% focada no que terá de fazer, por isso não saia por aí pensando na vida, sua garotinha fútil

–Tsc, eu já te mandei calar a boca – Falei trincando os dentes e entrando na casa ao pular o muro, nada de cachorros, nem guardas, segurança mínima, que tipo de ricaço idiota é esse velho?

Caminhei até uma arvore próxima a casa e arrumei meu material, facas, correntes, pistolas automáticas, binóculo, roupa preta e um pedaço de pano com estampas de caveira por cima da boca, essa será a ultima visão da minha missão. Caminhei pelos galhos da arvore até chegar próxima à janela, como previsto estava aberta, descuidado, merece seu destino.

–Que comece a diversão, demônio

Deixo esse com você, afinal ele parece bem fácil de se lidar

Estou dentro, observei o cômodo no qual aterrissara, livros, uma mesa de mogno no centro do aposento, um lustre chamativo e poltronas confortáveis em todos os lugares, sem duvida alguma era uma biblioteca. Caminhei até a porta em silencio, girava a faca em uma das mãos enquanto a outra se mantinha firme na corrente, matar com algo que não seja uma corrente, isso não tem graça nenhuma. Ao sair pela porta dei em um corredor longo e bem iluminado, quadros de pessoas diferentes nas paredes, os ancestrais do ladrão? Provavelmente, nada de empregados, nem um único ruído vinha de lugar algum, deserto, silencioso, suspeito. Andei lentamente, casas grandes são as piores, só servem para nos fazer perder tempo procurando pelo senhorio.

Um estrondo vindo de algum quarto as minhas costas fez-me virar repentinamente e eu apertei mais a corrente, não era o velho, um jovem apareceu, ele tinha cabelos loiros e olhos... não consegui ver seus olhos porque ele usava um capuz, trazia algo como uma espada nas mãos e eu senti um arrepio ao ver sua cabeça na minha direção. Parei a faca apontada para ele e girei a corrente, venha até aqui garoto, venha até a morte...

Zo... Zoey... corra!

– Está brincando? Finalmente encontro resistência nessa droga de casa e aposto que o velho está atrás daquela porta, eu vou passar — Girei a faca, segurando sua lamina e mirando no peito do garoto, controle a respiração, olhos no alvo, de um impulso para frente e vai.

A lamina cortou o ar com um zunido, por um momento eu a vi se alojando ao lado do coração do rapaz, mas em menos de um segundo, como se ele tivesse parado o tempo e depois voltasse a fazê-lo funcionar, ele saiu da mira da faca, barrou sua passagem com a espada e a chutou de volta para mim, ele balançava a cabeça, tente de novo, deixe-me humilha-la mais uma vez. Eu nunca errei um alvo, não com uma faca. Peguei no cabo dela, corri, girei, abaixei-me, tudo para despista-lo e a lancei, no olho, cegando o jovem, a espada tapou os olhos dele, a faca caiu no chão com um tinido e mais uma vez ele a chutou, fazendo com que a arma deslizasse até meus pés, uma duas, cinco vezes, não morre, eu não acerto, ele sempre sabe onde ela estará, o que eu irei fazer.

Ele esta sendo bonzinho, por favor Zoey, saia daqui, saia agora!

–Eu já te mandei calar a boca, seu demônio raquítico irritante, falando, falando, falando a todo momento, eu sei o que tenho que fazer, você me deu um trabalho e eu vou cumpri-lo, agora pare de me perturbar – Gritei, ao ouvir a palavra demônio o jovem hesitou, uma fresta, mas quando eu tentei atingi-lo com a corrente ele simplesmente a segurou com a mão enluvada e puxou-a, levando-me ao chão – Droga! Quem é você e porque esta protegendo esse ladrão?

Ele soltou um som, algo que eu identifiquei como uma risada, virou as costas para mim com a espada apoiada no ombro, quando voltou-se novamente eu vi e essa imagem assombra meus dias, o rosto, os olhos, um sorriso de orelha a orelha, psicopata, olhos totalmente negros, sem pupila, apenas escuridão e o corpo dele tremeluzia, como uma imagem refletida na água em movimento, era assustador mas tão... familiar

–Demônio – Sussurrei para mim mesma me levantando e dando alguns passos para trás, mas antes que eu pudesse fugir o meu próprio bichinho interior resolveu se mostrar

Astuto, ele conseguiu disfarçar sua alma de tal forma que eu pensei que seria preocupante, mas por sorte é apenas um subordinado, é fácil

–Não, espera, eu não preciso que você apareça... – A voz de trovão ecoou pela minha mente, meu corpo começou a ficar inconsciente e de repente meus braços podiam se mover sozinhos, eu devia ter aquele sorriso demoníaco e o olhar, aquele olhar sem olhos.

O rapaz hesitou, surpreso, virou de costas para nós e correu, deixando a espada cair no meio do caminho, eu queria ir atrás dele, acorrenta-lo e fatia-lo, como ele bem merecia, no entanto o demônio não deixou, ele se virou para a porta e voltou a perturbar-me apenas mentalmente.

Esse é o seu serviço, não saia fazendo o que bem entende e me obedeça, sua garota teimosa

Ignorei o sermão e entrei no cômodo, não havia nenhum móvel e a única luz do lugar vinha de uma vela, ao lado de um velho tremulo e assustadiço, seus olhos cravaram-se na porta, onde eu caminhava lentamente em sua direção

–Como... você, ele era... o demônio, nenhum humano jamais poderia vencer alguém daquela raça – Balbuciou minha vitima, eu apenas girava a corrente, esta passava zunindo ao lado do rosto do velho e a cada passo meu ele recuava alguns até que não aguentou mais e tentou fugir, passou correndo ao meu lado e disparou pela porta.

–Corra, corra franguinho, porque a raposa quer se exercitar – Eu não precisei correr, após dar cerca de dez passos achei o homem encurvado, ele olhava desesperadamente para os lados, em busca do seu “guarda” – Porque todos fogem? Só torna a caçada mais divertida

Ele pulou ao ouvir minha voz e tentou correr novamente, o que foi inútil, estava ao lado dele, meu sangue fervilhando e queria acabar logo com aquilo, a corrente envolveu o pescoço do velho e eu a apertei, lentamente, dolorosamente, ouvindo cada estalo do osso e o som do homem se sufocando, sentindo o gosto de sangue na boca, até que enfim o osso se partiu e o velho tombou mole, eu soltei a corrente e a girei mais algumas vezes, antes de prende-la ao cinto, fiz o mesmo caminho para voltar, aproveitando para guardar a faca, um nome a menos na lista, o próximo, ei demônio.

Está realmente faminta hoje, não é? Dessa vez é uma mulher, respire fundo que a historia é nojenta

– Vai contando, depois falamos sobre aquele visitante – Ameacei-o pulando a janela e guardando as armas na mochila, eu ouvia o que o demônio dizia, entendia as palavras, mas não conseguia assimilar elas a nada, a única coisa que rodava e rodava na minha mente era: quantos como eu existem?

Bem, creio que você não quer saber toda a historia da vida dela, como sempre, por isso deve se contentar com o porque: ela detesta pessoa e tem mania de acorrenta-las no seu porão e tortura-las,He He, ela é pior que você Zoey, enfim, isso é ruim, é muito ruim e eu quero que você acabe com essa brincadeira. Mas cuidado, ela tem dois capangas muito grandes e relativamente perigosos.

– Sim, senhor – Ironizei caminhando até a cidade, ele também fora possuído, ele também tinha aquilo dentro do seu corpo, corrompendo a sua alma, te matando por dentro, pouco a pouco.

Mais uma coisa, ela mora no centro, por isso tente não chamar muita atenção, não quero que você seja mandada ao reformatório, de novo.

–Sim, chefe – Irritante, impertinente, insuportável, inconveniente, quais outros adjetivos com i descrevem esse cara?

Eu ouço seus pensamentos, para de me xingar dessa forma, ou eu não a ajudo mais

Ah, isso seria reconfortante, no entanto ele vai sempre estar aqui, ele faz parte de mim, um pedaço crucial da minha vida e, por mais que eu negue e deteste isso, algum instinto me diz que sem isso que vive na minha mente eu deixo de viver também.

Caminhei, que cidade era essa mesmo? Quebec? Ontário? Algum lugar do Canadá, disso me lembro perfeitamente, mas a cidade... Como é grande e que frio, por mais que essas roupas sejam quentes, continuo congelando, espere, por onde era a casa? Colorida, certo? E grande...

Olhei para a construção na minha frente, cada parede com uma cor diferente, flores de espécies diferentes enfeitavam o jardim junto ao gramado verdejante e, em meio a tudo isso, uma mulher, no máximo 40 anos, descansava em uma cadeira, um livro em mãos e óculos de leitura, seus olhos eram recobertos pela franja loira, era um corpo esbelto e tinha uma aparência jovial, no entanto eu podia ver seu olhar astuto, atento, eram olhos de caçador, eu realmente conheço olhos assim, afinal os encaro todos os dias quando olho no espelho.

Rodeei a casa, nada de janelas, frestas, um cachorro nos fundos e dois homens cochilando, ela esta em um nível completamente diferente do ricaço, agora sim alguma diversão. Escondi-me entre as arvores nos fundos da casa, automática, corrente, binóculos, nenhum movimento, o Pit Bull está solto, mas ele não parece ser um cão de guarda, não, ele é só uma fachada para afastar quem pense em invadir, a verdadeira ameaça está em dupla e finge cochilar. Peguei a faca, armas são muito barulhentas e, antes mesmo de arma-la para matar o segundo capanga ele já estaria em cima de mim, segurei na lamina da faca e a joguei, acertou o alvo em cheio, entre os olhos, o seu parceiro levantou-se com um sobressalto ao ouvir o colega se sufocando com o próprio sangue e olhou ao redor, você pode me ver? Sim, ele podia, identificou-me em meio as folhas e correu, em questão de segundos, ou menos, estava ao meu lado, a mão fechando-se ao redor do meu pescoço, enquanto um morri sufocado com o sangue eu morri sufocada com a vingança, escuro, dor, minha cabeça vai explodir e eu sinto essa dor, força, velocidade, estratégia, esse homem em si é desumano.

Agora eu entendi Zoey, você simplesmente vive cercada por demônios.

Essa observação foi a ultima coisa que ouvi antes de minha cabeça ser arremessada na direção da arvore, mais dor, está quente e úmido, escuro, está muito mais escuro.

O quarto era claro demais, a cama muito macia, as janelas, enfeites, tapete, tudo dava ao cômodo um ar de alegria, paz e aquilo ardia meus olhos.

–Mas que... onde eu estou? – Questionei-me olhando ao redor e coçando a cabeça, como se aquilo pudesse me trazer as lembranças perdidas, única coisa nítida do que acontecera era a frase do Sol, você simplesmente vive cercada de demônios – Tsc, o que você quis dizer com aquilo? E o que eram aqueles dois? E o garoto loiro? O que é que está acontecendo demônio?

Ah isso realmente importa? De qualquer forma o lugar em que você está nesse momento e o fato de não ter cumprido a sua missão não é muito mais importante?

– Tem razão, onde eu estou? – Indaguei levantando-me, eu estava seminua, apenas com minhas roupas de baixo e por alguma razão não via sinal das minhas roupas, olhei ao redor, em cada canto, no armário, na poltrona, não podia sair e chamar alguém e o meu adorável demônio particular não dava indícios de querer me esclarecer qualquer coisa.

– Já se cansou de bancar a idiota? – Virei-me de costas sobressaltada ao ouvir uma voz desconhecida.

Identifiquei o autor da pergunta, uma garota de estatura baixa, cabelos negros e longos, que ultrapassavam sua cintura e alcançavam a parte de trás dos seus joelhos, os olhos eram azuis, quase tão claros que quase podiam ser brancos e o rosto repleto de sardas, ela girava minha corrente nas suas mãos e tinha um sorriso diabólico no rosto.

– O que está fazendo? – Perguntei cruzando os braços e a encarando – É alguma pervertida ou algo assim?

– Você invade meu quarto e a pervertida sou eu? Quanta ironia.

–Não sei se você reparou, mas quem segura uma corrente enquanto ameaça uma garota apenas com suas roupas intimas é você.

A baixinha corou, não posso dizer se foi de raiva ou vergonha, no entanto ela logo se recuperou e jogou minhas roupas na cama em que eu estivera deitada anteriormente.

–Certo, certo, agora invasora, a boa educação diz que devemos nos apresentar ao aparecer repentinamente no quarto de alguém – Essa garota... como se eu fosse ficar mais tempo ao lado dela.

–Tem razão, é mesmo uma pena que eu não tenha sido criada pela boa educação, não é? – Respondi-lhe saindo do quarto e fechando a porta com um estrondo – Cara, câmbio, eu quero respostas, agora!

Ei estressadinha, não é porque teve um encontro desagradável com a Hazel que deve descontar em mim, sem contar que eu não posso responde-la se você não fez perguntas.

– Hazel? Como você sabe o nome dela? Ah, de qualquer forma é irrelevante, eu quero saber onde estou, porque todas aquelas pessoas eram demônios e porque eu estou aqui – Falei, no entanto minha voz saiu mais alta do que eu esperava e as pessoas que passavam ao meu lado olharam-me espantadas.

O demônio fazia ruídos estranhos na minha mente, pensando se me responderia ou não, enquanto isso eu tentava achar a saída, o lugar, ou seja o que for isso, era como um labirinto de escadas, portas e salões, tudo era feito com madeira nobre, o chão estalava cada passo meu e isso começou a me irritar, nunca fui tão barulhenta ao caminhar, nem mesmo ao quebrar as folhas secas na floresta.

Pois bem, como você sabe todos os alunos que gostam de reformatórios e estão sempre os visitando, isso não tem nenhuma relação com você, tem de estudar em uma escola interna, que seria como uma extensão do próprio reformatório, o que eu particularmente acho uma bobagem, colocar todos esses loucos em uma mesma sala, tendo de enfrentar o estresse de seis horas seguidas de aulas, eles querem ter um ataque suicida em massa? Enfim, o diretor do colégio tem feito uma pesquisa sobre todos esses adolescentes que estão matando com tanta frequência e adivinha o que ele descobriu? 90% deles dizem terem sido “obrigados” ou “ordenados” a fazerem tal coisa pelo demônio que fala em suas mentes, com o passar do tempo ele começou a entender o que acontece: demônios têm possuído humanos para poderem realizar o trabalho sujo imposto por Lúcifer, no entanto alguns se rebelaram com relação a isso e negaram realizar estas tarefas ou o fazem de forma que não sejam de todo algo ruim, como no meu caso, então ele fundou esta escola, onde os alunos não só aprenderam a controlar seu “demônio interior”, isola-lo, aprenderem a usar toda a força que um Demonic pode ter e aprender a suportar os anjos, urgh!

– Um Demonic? Quanta criatividade, foi algum tipo de piada? Agora estamos sendo nomeados? E anjos? Isso está virando algum tipo de Best-Seller adolescente? – Perguntei furiosa, chutando o corrimão de uma escada – Anjos também tem possuído pessoas?

Não, sua idiota, são os próprios humanos que os deixam entrar e seguem seus conselhos, o que eles dizem, mandam, os humanos adoram ter alguém para obedecer, não é? Esse é o seu instinto natural

– E tem um nome bonitinho para aqueles que tem um anjo dentro de si?

Engraçadinha, na verdade apenas Anjos Caídos tem possuído humanos nos últimos tempos, por algum motivo a corte de Deus está desmoronando e muitos dos seus subordinados tem fugido do Paraíso, assim Ele os manda para a terra para ficarem de olho em nós, demônios, por isso só os chamamos de Fallen.

–Cara em que droga você foi me meter, maldito? – Ralhei encostando-me em uma porta, estava tão perdida, naquela historia bizarra e no colégio, como era mesmo o nome? Dream and Nigthmare, ou algo assim – Então a garota do quarto era uma...

Demonic, isso, no entanto aqui só temos os demônios quase do bem, vocês não estão preparados para o horror, para aquelas criaturas assustadoras e assassinas que vivem na escuridão, a espreita de alguém para corromperem a ponto de se suicidarem, uma criança como você tem muito o que aprender antes de pensar em sair desse internato.

–Sim, papai – Murmurei ao encontrar a saída, corri porta a fora, por mais que os gritos de repreensão por parte do Sol mandassem eu voltar apenas o ignorei e continuei a correr, ultrapassei o portão, corri entre arbustos secos e arvores mortas, pelo visto aquele colégio emanava podridão e matava qualquer coisa viva ao redor, mas minha preocupação não era essa, só queria me livrar de qualquer resquício daquela historia – Não me coloque nessa, seu inútil, já é bem ruim eu ser uma Demonic, não, não, eu não sou algo assim, apenas uma esquizofrênica, uma maldita serial killer esquizofrênica, não preciso me meter nessa historia babaca de anjos e demônios renegados, eu não suporto a ideia.

Eu sou seu senhor, me obedeça sua maldita mimada, eu estou mandando você voltar, seu serviço é ser devidamente treinada e matar os demônios reais!

– Dane-se você, dane-se seu maldito serviço e dane-se a porcaria de inferno particular que eu vou ter se você resolver revelar o que tem na minha mente, eu não vou entrar em um lugar onde ficarei cercada de pessoas, onde eu corro o risco de fazer amizades, não, isso nunca, não quero ter de cortar meus laços com alguém na base do sangue!

Soquei uma arvore próxima e ela cedeu sob meu punho,tornando-se apenas um monte de farelos, eu rangi os dentes e voltei a andar, mas dessa vez mais lentamente, eu já chorei tanto, minha vida toda, durante os 3 anos desde que comecei a matar eu chorei, por isso não consegui faze-lo agora, uma hora minhas lagrimas teriam de acabar.

Eu não virei para trás ao me afastar da escola, mas sentia dois pares de olhos colados em mim, olhos ferozes, mas ao mesmo tempo bondosos, como se um anjo possuído encarasse minha nuca, um arrepio percorreu minha espinha e eriçou meus cabelos, podia ouvir um leve farfalhar, apesar de não ter folhas ao redor.

Se presa tanto assim a liberdade eu correria, ela está furiosa e eles estão no seu encalço, sentem o cheiro de morte que cada fibra do seu corpo emana e estão loucos de colocar as garras no seu pescoço, por isso ao menos me escute uma vez na vida Zoey e corra

Nenhuma parte do meu cérebro se lembra o que aconteceu depois, a única coisa que me recordo é de vê-los, olhar para o céu em desespero e correr como nunca, mesmo se fosse uma besta eu não fugiria daquela forma, a única coisa que pode descrever aquilo é: eu estava completamente em pânico.

Notas finais
Não seja um leitor fantasma ou o meu fantasma é que vai puxar seu pé a noite, uuuuuh
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.