Praga Olimpiana
1 Capítulo 1 - A Filha de Zeus
Notas iniciais
Euphemia Torenaraide nunca gostou muito de chuva, mas o verão da Califórnia era tão quente que ela começava a sentir falta de alguns pingos. Mas ela não se preocupou muito com o fator, já que, de acordo com uma das suas visões, eles estariam fora de lá em breve. O verão continuaria, é claro, mas ao menos ela esperava que houvesse mais chuva.
– Eth, você acha que foi uma boa ideia deixar Reagan sozinho? – perguntou, enquanto corriam rua abaixo.
Era o começo da noite e o céu estava escuro. Entretanto, as árvores perfeitamente alinhadas nas ruas e as mansões envoltas pelas árvores de Beverly Hills não a deixava ter medo, parecia até mesmo ter caído numa espécie de paraíso.
Porém, sua preocupação atrapalhava um pouco aquele paraíso. Reagan era um dos únicos semideuses existentes. Um filho de Ares, deus da guerra, bastante sanguinário e insano sem medo nenhum, graças à uma antiga benção de Deimos, deus menor do medo. Estava vigiando a área em volta, mas provavelmente se meteria em algum problema. Era, no mínimo, típico dele.
– Bem, Eppie, nunca foi uma boa ideia, certo? – Respondeu Ethan Madwhite, talvez o, até agora, mortal mais poderoso existente.
Ele estava um pouco à frente de Euphemia, o cabelo escuro e os olhos azuis claros lhe davam um ar excessivamente atrativo. Por outro lado, a espada na mão dele quase lhe causava calafrios de medo, principalmente por ela conhecer suas habilidades.
– Eu estou preocupada, ele sempre arruma um jeito de se meter em confusão. – disse ela, revirando os olhos e dando uma risadinha. Ethan deu de ombros.
– Vamos descobrir logo, eu acho.
E eles continuaram em frente. Enquanto andavam, Euphemia olhava de relance para o céu, implorando para que Apollo, deus grego do sol e da poesia, bloqueasse suas visões até que aquela pequena missão estivesse pronta. Euphemia não sabia exatamente o motivo de ser a escolhida, mas recebera o dom da visão dos deuses gregos desde o momento em que nascera. Desde sempre os monstros as perseguiam e as visões lhe assustavam, mas com dezessete anos havia se acostumado.
Com um arco e uma alvajava em mãos, olhava em volta furtivamente. Nos dias atuais, poucas pessoas acreditavam nos deuses gregos, dessa maneira, pessoas como ela, que havia uma ligação com eles, eram muito raras. Ethan era uma delas. Ele também tentava descobrir ou entender o motivo, já que ele havia recebido diversas habilidades especiais dos deuses. Juntos haviam chegado à conclusão de que eram uma espécie de arma para os gregos, entretanto as dúvidas remanescia.
Em parte, ela sabia o motivo de ela mesma ser ligada com eles. Fora chamada uma vez de “Olhos e ouvidos mortais do Olimpo” por Hermes, um de seus guardiões. Haviam vários problemas mitológicos no mundo, mas nenhum mortal percebia por eles serem encobertos pela névoa. Ethan e Euphemia haviam sorte de terem se encontrado, em realidade. Geralmente, os mortais que tinham coisas especiais como eles acabavam sendo mortos antes que pudessem pensar em se esconder.
A garota que eles estavam procurando também era extremamente sortuda. Além de morar num quase palácio, ia ser encontrada antes que descobrisse que era semideusa. Ao mesmo também era exageradamente azarada. Era filha de Zeus, deus dos raios, rei dos deuses. E estar sozinha, nas condições presentes, significava que cada segundo de sua vida poderia ser mortal. A sorte fora Hermes, que havia avisado Euphemia à pouco tempo. Geralmente os deuses não faziam nada com os semideuses até os seus quinze anos, já que geralmente morriam antes. Euphemia achou estranho ter sido avisada, esperava que eles desejassem que a garota morressem por representar muito perigo. Mas já que os deuses haviam dito para encontrá-la... ali estavam eles.
Após algum tempo, Euphemia gemeu.
– Eu não aguento mais subir essa maldita montanha! – exclamou, mas continuou a andar com o arco em mãos.
– Aguente firme, Eppie. – disse Ethan, de repente parando de andar. Ele olhou em volta, as sobrancelhas franzidas
– O que aconteceu? – perguntou ela, dobrada e ofegante, mas em pé.
– Eu… eu sei lá. Não sei exatamente onde a gente está.
Euphemia se levantou com um salto, os olhos escuros arregalados. O rabo de cavalo alto balançou com o movimento, jogando alguns fios igualmente negros sobre o seu rosto pálido.
– Como assim não sabe onde a gente está? – Euphemia bateu um dos pés no chão. – Ethan!
Ele levantou as duas mãos ao lado do corpo na altura dos ombros, as palmas viradas para cima.
– Eu simplesmente não sei, ué. Eu achei que sabia onde a gente estava e de repente esqueci.
– Você carrega caminhões, mas não sabe encontrar uma casa?
Ele franziu as sobrancelhas, um dos lados do lábio contorcido para baixo. A super-força era uma das suas habilidades mais aparentes e perigosas, afinal o controle sobre ela era quase raro.
– Eu não pedi pra ter nada disso. – declarou ele, cruzando os braços.
– Mas pediu pra encontrar a casa. – Euphemia suspirou e colocou as mãos na cintura. – Tá, qual é o número da casa?
– 506, eu acho.
– Você acha? – A garota perguntou, as mãos largadas ao lado do corpo. Então ela se endireitou e olhou para o céu, tentando se lembrar. Repentinamente, o seu rosto foi devastado por um sorriso largo, quando a memória lhe atingiu. – Eu sei onde é e nós já passamos, gênio. Me siga, rápido, rápido!
Sem mais palavras, eles saíram correndo, dessa vez com Euphemia à frente e Ethan atrás. Voltando algumas casas para trás, Euphemia o fez parar em frente a uma mansão de cor amarelo claro. Um caminho de pedra para carros redondo ficava na frente da entrada, atrás um arco grande de madeira que possuía quase dois andares de comprimento, a cor igual ao do telhado triangular. A caixa de correio ficava entre o paisagismo perfeitamente arrumado e cuidado, ao lado do caminho de pedra. Na frente deste, um pequeno muro com uma grade preta, ambos baixos.
Euphemia e Ethan pararam na frente da casa e a observaram sem se mover, por um longo tempo.
– Certo, é essa. – disse Euphemia, ficando em silêncio novamente. – O que a gente faz agora?
– Entramos, eu acho. – disse Ethan, encolhendo os ombros levemente.
– Mas assim do nada? Aqui é Beverly Hills, a gente não pode entrar assim do nada.
Ethan assentiu, com o polegar e o indicador no queixo.
– Vamos para o plano B, então.
– A gente tem um plano B? – perguntou Euphemia, com as sobrancelhas franzidas.
– A gente vai ter que ter um agora.
Euphemia não se lembrava exatamente quando tinha concordado com o plano, mas antes que pudesse recusar estava em cima do telhado. Ela se encolheu perto da chaminé com uma careta, enquanto observava a ponta do telhado. Se caísse... a culpa ia ser de Ethan.
Olhando por cima da chaminé, viu o garoto ao longe, escondido. Euphemia deveria observar as janelas do andar de cima e ele os debaixo, verificando quem havia na casa ou não. Ambos apenas rezavam para que ninguém estivesse desocupado demais para olhar pela janela e ver dois adolescentes desconhecidos observando a casa de um jeito furtivo. Ao menos ela podia não se preocupar um pouco com os monstros já que Reagan e Graham – outro raro semideus prole de Athena – estavam exterminando os da área.
Com um aceno positivo de Ethan, Euphemia escorregou deitada devagar para a borda do telhado, agarrando as telhas escuras com firmeza. Quando estava na borda, se segurou nas extremidade e colocou o pescoço para frente, ficando de ponta cabeça. Tudo estava ao contrário, mas ela conseguia enxergar bem.
Indo para os lados, ela começou a observar os quartos. Viu cômodos gigantes, eletrônicos avançados finos e caros e banheiras tão grandes que pareciam piscinas. Foi aí que, num dos quartos, ela viu uma garota. O vidro não lhe permitia observar seu rosto com clareza, mas viu cabelos louros lisos e compridos e olhos grandes incrivelmente azuis, quase parecendo falsos.
Euphemia voltou para cima do telhado, se encolheu atrás da chaminé novamente e assobiou uma melodia de três notas, indicando que havia encontrado a garota. Dado o recado, ela foi até a janela onde a havia visto e permaneceu na mesma posição, entretanto dessa vez se segurou com mais força. Fechando os olhos, se jogou para a frente, dando uma cambalhota no ar e caindo reta e pendurada. Se não fossem pelos seus dedos, estaria morta.
Primeiramente, Euphemia mexeu os pés, procurando apoio. Não encontrou nada e o pânico a invadiu rapidamente. Olhou para baixo e viu, um pouco atrás de si, um pequeno parapeito. Quase tremendo de medo, deu um impulso para trás e se soltou.
Conseguiu atingir o alvo, entretanto o seu corpo bateu com força na janela, causando um pequeno estrondo. Euphemia se virou rapidamente, a ponto de ver a garota loira se virando com a expressão num misto de indignação e susto. Euphemia levantou as mãos num gesto de rendição, imaginando que a desconhecida fosse gritar. Mas ao invés disso ela apenas se aproximou da janela e a abriu, encarando Euphemia.
– Olha, se você quer drogas, eu não vendo, entendeu? E você poderia ter só ido pela porta da frente ou sei lá! – ela disse, primeiramente revirando os olhos e depois erguendo as sobrancelhas claras.
Euphemia respirou fundo, aliviada. Um sorriso confuso surgiu nos seus lábios e ela se segurou nas extremidades da janela, ainda com medo.
– Eu vim em paz, não quero nenhuma droga.
– Ah. – a garota disse, dando um passo para trás, a desconfiança surgindo nos seus olhos. – Então o que você quer? E que arco gigante é esse aí?
Euphemia olhou para o lado, sem saber exatamente como responder. Ela balbuciou, indecisa em relação à maneira de como explicar toda aquela história de deuses gregos. Entretanto, antes que ela pudesse completar o raciocínio, sentiu uma coisa muito pesada derrubando-a para dentro do quarto. A desconhecida deu um gritinho e saltou para trás, com os olhos arregalados.
Euphemia mal conseguia respirar por um momento, até que sentiu sendo liberada da massa gigante sobre si. E é obvio que a massa era nada mais nada menos que Ethan.
– Mas que porra, Eth? Você me esmagou. – disse ela se levantando devagar, apertando uma das costelas.
– Desculpa, Eppie, desculpa. – respondeu ele, se levantando também.
– Será que eu posso saber o que diabos está acontecendo aqui? – perguntou a garota. A cara contorcida numa feição de um aparente nojo, as mãos na cintura.
Passos se ouviram no corredor, uma voz de mulher pediu permissão para entrar. Euphemia e Ethan congelaram por alguns segundos, mas a garota a dispensou, felizmente sem hesitar.
Quando ficou de pé, o olhar de Ethan cruzou com o da desconhecida como se um raio caísse entre eles. Logo percebeu o quanto ela era do tiporiquinha, como provavelmente o resto das garotas ali eram. Entretanto, ambos sentiram uma atração visual imediata, embora o sentimento não transparecesse em nenhum dos dois rostos.
Quando Euphemia se levantou, os observou se encarando. Ethan finalmente voltou à realidade quando a desconhecida disse:
– O que são vocês, ninjas? – ela olhou para o arco de Euphemia e a espada de Ethan, dando um passo para trás. – Isso é algum tipo de assalto novo?
– Na verdade, nenhum dos dois. – Ethan respondeu, dando de ombros. – Nós somos mortais abençoados por deuses gregos, basicamente. Já você, é uma semideusa, filha de um deus grego com uma mortal. Agora, nós temos que sair rápido daqui e você precisa vir junto.
Por um momento, a garota permaneceu impassível, como se absorvesse as informações. Até que finalmente ela revirou os olhos claros grandes, sua feição de nojo se agravando.
– Você nasceu idiota ou o quê? Fica invadindo as casas das pessoas dizendo coisas retardadas sempre? É obvio que eu não vou, idiota. – e jogou o cabelo louro para trás, com um ódio frio estampado nas orbes.
Ethan suspirou, irritado, e Euphemia ficou parada, sem saber exatamente o que dizer.
– Tudo bem então, Califórnia, fique aqui e morra. Mas a gente tem que ir encontrar nossos amigos antes que eles ou a gente sejamos mortos. Boa sorte então, mas você provavelmente não vai chegar aos dezesseis anos sendo filha de Zeus.
Ethan se virou para a porta, Euphemia permaneceu parada. Ele se interrompeu, entretanto, quando a garota falou.
– Penny.
Ethan se virou para ela, as sobrancelhas franzidas.
– O quê?
– Penny, meu nome é Penny, não Califórnia. Bem, na verdade é um apelido de Penelope. Enfim, e como você sabe quantos anos eu tenho? E que história é essa de pai?
– Bem, Penny, eu te explicaria isso se você nos acompanhasse. Eu sou Ethan, aliás, e essa é Eppie. Mas já que você quer morrer…
Euphemia dirigiu um sorriso cálido para a garota.
– Na verdade meu nome é Euphemia, mas Eppie é mais bonitinho. – deu de ombros. – Bem, o que o Ethan-cabeça-dura quis dizer é que a gente tem muita coisa pra te explicar, mas a gente realmente precisa que você nos acompanhe.
Penelope Tranderhill permaneceu em silêncio por alguns momentos, encarando o carpete branco do seu quarto. Até que ela finalmente levantou os olhos.
Havia uma coisa que a estava impulsionando a ir, a verdade sobre seu parentesco: era adotada. Nunca descobrira quem eram os pais biológicos, mas quando fora num hospital perguntar sobre sua mãe morta, ele haviam dito que o pai era desconhecido e que ela havia enlouquecido. Podia ser estúpido acreditar na história de deuses gregos, mas se eles soubessem alguma coisa ela ia querer descobrir.
– Certo, eu vou. Mas se vocês me assaltarem ou me matarem, vão arder na cadeia.
Euphemia deu de ombros.
– Como quiser.
Sem mais delongas, ambos mortais foram até a janela, dando a localização de onde deveriam se encontrar. Já Penelope permaneceu parada no quarto, observando o vazio da janela, pensando. O quão louca estava em segui-los?
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