Pra sempre Sempre Acaba
1 Capítulo 1
PRA SEMPRE SEMPRE ACABA...
Depois dos casamentos de Saga e Terpsicore e Aioros e Elektra, Shura começou a repensar sua vida. O fato é que cada um estava se arranjando ali naquele microcosmos que era o Santuário...
Saori e Seiya foram os primeiros, seguidos de Shun e June... Shiryu logo estava voltando para os Cinco Picos e para os braços de Shunrey... Ikki andou namorando Elektra, mas como soltavam mais faíscas que coraçõezinhos, o esquentado cavaleiro de Fênix achou a tranquilidade em águas mais calmas, traduzidas na irmã suave de Seiya, Seika.
E os cavaleiros de ouro? Desde que Afrodite arriscou tudo se declarando a Carlo de Câncer e após inúmeros desencontros ficaram juntos, o amor resolveu arrombar as portas dos corações amedrontados. Camus colocou um assustado Escorpião na parede, na base do “now or never” quase matando Milo de ansiedade. A família do Milucho foi contra desde o principio, mas a mãe e os irmãos foram sendo também conquistados pelo charme sutil do francês. O pai nunca aceitou, mas foi voto vencido... Mu e Shaka saíram do “chove não molha” no casamento de Afrodite e Aldebaran achou sua cara metade no meio da grande família Thorsson logo após a cerimônia. O que prova que língua nunca foi barreira para um verdadeiro amor (quantas pessoas no mundo falam norueguês?). Aioria resolveu assumir a paixão eterna por Marin e seu irmão Aioros com jeitinho fisgou a princesinha explosiva. Até Saga e Terpsicore tinham se casado, por Zeus e por Atena! Aquilo sim era algo jamais sonhado. Ta certo que voavam coisas pela janela de vez em quando e Saga dormia no sofá da casa de Kanon, mas...
_ Mas ta na hora deste cabrón criar juízo e se ajeitar na vida. Não é mais nenhum chiquitito, daqui a pouco ta um velho babando sozinho, enquanto sus amicos estão rodeados de netos...
Não que Shura tivesse problemas de solidão. Seus últimos meses tinham sido acompanhados de perto por uma italiana de sangue quente e língua afiada. Algumas roupas dela estavam em seu armário, assim como uma escova de dentes. Até uma cópia da chave da porta da frente Shina possuía. Numa das noites em que tomava uma cerveja com Afrodite e Carlo na varanda da casa de Peixes, Shura falou o que estava pensando:
_ Acho que ta na hora de eu me casar.
_ Acho que ta na hora de você parar de beber. – riu o italiano. – Já vai começar a falar merda.
_ Estoy hablando sério, carcamano. To ficando velho e cansando de dormir e acordar sozinho...
_ Quando começa essa sensação, ta na hora mesmo... – suspirou Afrodite.
_ Pronto, despertou a parte romântica do Peixe. – provocou Carlo. – Agora ele vai sonhar a noite toda com o seu casamento... Já arrumou uma maluca que te queira?
Shura tomou um gole de cerveja, ponderando a resposta. Eram seus melhores amigos, eles saberiam lhe dar um bom conselho...
_ Pensei em pedir a Shina em casamento.
Carlo que estava com a long neck pronta para virar, parou. Mas Afrodite já tinha dado uma golada, engasgou legal. O marido o socorreu, batendo em suas costas, soprando em seu rosto, como se faz com uma criança, Dido ficou meio roxo, mas se recuperou.
_ Shura, já te falei. Você está bêbado, figlio da puttana. Muy borracho, se assim me entende... Calma, Mozinho... Já passou...
_ Mas o que foi que eu falei demais? Nós estamos juntos já faz tempo, ela tem as coisas dela lá em casa, as mulheres não gostam de homens que assumem compromissos?
_ As mulheres GERALMENTE gostam. – Afrodite frisou bem a palavra. – Shina é um espírito livre. Tente prendê-la e vai perdê-la.
_ Ela também não é mais nenhuma criança. Ta ficando velha e tem mais que sossegar aquele rabo gordo...
_ Fale isso e vai perdê-la mais rápido ainda. – Afrodite bateu com a almofada em que estava encostado em Shura. – E de lambuja ainda leva um “venha cobra!” no meio da fuça.
Riram, descontraindo o ambiente, mas Shura passou a noite pensativo. Shina não era mulher de compromisso, mesmo? Se até Terpsicore, sempre arrogante, de nariz empinado, descartando os homens assim que eles pisavam na bola com ela sem pensar duas vezes, se rendeu ao casamento – e com um homem bem machista, diga-se de passagem – porque não a Shina?
_ Bien, só vou saber se arriscar. Que venga la serpiente.
Uma coisa é dizer, outra é fazer. Shura andou ciscando o terreno por uns dias, jogando verde aqui e ali, até que a italiana se estressou:
_ Ma che cosa hai? Você anda muito estranho esses dias, Shura. Se tem alguma coisa entalada, solta logo, cazzo. Eu to ficando ansiosa, já.
“Direta. Como sempre. Então vamos direto, sem rodeios também.” _ Estava pensando em nós dois, sabe?
Shina segurou a respiração por um minuto. Será que ele se cansou das juras de amor e ia dispensá-la? Difícil. Ainda mais porque Shina Agnello não era mulher de ser descartada. Ela que dispensava os homens. E podia ser cavaleiro de ouro, de prata ou de bronze, ela não ia ser dispensada. Não outra vez.
_ Pensando em nós dois, hein? E a que conclusão você chegou?
_ Que talvez estivesse na hora da gente se casar.
A primeira reação dela foi de rir. “Deve estar bêbado, já”. Mas olhou bem dentro dos olhos verdes e viu que era sério. Era sério... E o riso aumentou para uma gargalhada feliz. Pulou nos braços dele, beijando-o.
_ Ta falando sério, mesmo?
_ Claro que estou. Todos os nossos amigos já estão se casando, tendo filhos, assumindo uma vida de adultos. Acho que já chegou a minha vez.
_ Não vai fazer isso pra imitar aos outros, né?
_ Não. Vou fazer isso porque eu te amo.
Se abraçaram novamente. E tudo parecia bem. Shura ainda pensou em depois contar a reação dela ao Afrodite. Shina, no fundo, era uma mulher como as outras.
Deram uma festinha de noivado simples na Casa de Capricórnio. Saori e Afrodite foram ao céu e voltaram com a possibilidade de um novo casamento. A mãe de Shura quase enfartou de alegria no telefone, que aquele filho dela não ia morrer solteirão. (Essas mamas... só pensam nisso...) Mas a proximidade do casamento fazia Shina mais e mais pensativa. Ela se pegava horas e horas pensando nos pequenos detalhes da vida a dois. Coisas toscas como bafo de manhã, rabugice matinal, pasta de dente espremida no meio, toalha molhada em cima da cama, briga por calcinha no chuveiro e meias no meio da sala... Peidos debaixo da coberta, pés gelados encostados nas pernas quentes (isso é o maior motivo dos divórcios... e por justa causa! *risos*) jogo de futebol na hora da novela. Barriga de gravidez, enjôo, estrias, vômito de crianças, cocô mole, cocô duro, cocô verde, febre, noites e noites sem dormir e muito choro. Sair sempre com o marido, ataques de ciúmes, passar o resto da vida com aquele mesmo homem... Ver o cabelo dele cair, os dentes amarelarem, a barriga ficar flácida, do tamanho de um barril, fazer bodas de prata, chegarem a bodas de ouro: 50 ANOS!
E num dia, ela estava subindo para a casa de Capricórnio, os pratos estavam voando na casa de Gêmeos. Muitos gritos e muitos palavrões em grego. Até que se ouviu o som de um tapa, o barulho de um corpo caindo no chão e tudo se acabou. Shina começou a tremer. Teve vontade de ir lá e socorrer Terpsicore. Mas imaginou seu casamento assim, por causa dos gênios fortes e não quis mais. E saiu correndo escada acima. A casa de Capricórnio estava vazia ainda. Shina suspirou. Ia ser mais fácil assim.
Quebrei o teu prato/ Tranquei o meu quarto/ Bebi teu licor/ Arrumei a sala/ Já fiz tua mala/ Pus no corredor
Percorreu toda a casa, buscando alguma coisa sua que estivesse à vista. Pegou tudo que era seu no banheiro. Tirou as roupas de dentro do armário. Encheu duas sacolas de papel que encontrou. Estava escrevendo um bilhete para Shura quando ele chegou. Tirou a aliança e estendeu para ele:
_ Shina? Que pasa? Porque está me devolvendo a aliança?
_ Não posso, Shura. Com todos os demônios, me odeie se você quiser, mas não posso fazer isso. Seria cruel com você e comigo. Não fui feita pra casar.
Shura não estendeu a mão. Ergueu a cabeça e fechou os olhos. “Bem que me avisaram. Mas eu sou teimoso, quis tentar. Eu quis tentar. Me matem por querer...” De olhos fechados ainda ouviu o som da aliança rodando na mesinha da sala e da porta da frente fechando.
Eu limpei minha vida/ Te tirei do meu corpo/ Te tirei das entranhas/ Fiz um tipo de aborto/ E por fim nosso caso acabou/ Está morto...
Shina desceu mais rápido do que subiu. E veio pelo caminho secreto para não passar pela casa de Gêmeos. Foi uma pena, porque senão veria Saga e Terpsicore na varanda, ele sentado, encostado na pilastra, ela com as costas apoiadas no peito dele, enquanto ele segurava uma bolsa de gelo no braço dela, aquele que ela machucou ao cair na cozinha, depois de escorregar num caco de prato. O barulho do tapa foi ela mesmo, na parede, ao cair. Shina teria visto Saga, o poderoso cavaleiro de Gêmeos, chorando junto, pedindo mil e uma desculpas e beijando o topo da cabeça da esposa, jurando não ser mais tão grosso...
Jogue a cópia da chave/ Por debaixo da porta/ Que é pra não ter motivos/ De pensar numa volta...
Na casa de Capricórnio, Shura, ligado no piloto automático, tirava a própria aliança e guardava as duas na caixinha, depois recolhia a chave extra da casa que Shina tinha deixado ao lado da aliança e jogava na gaveta da mesa do telefone. A dor da decepção era tanta que ele nem se atrevia a chorar. Se sentou no sofá e ficou, esperando ela diminuir. Foi assim que Carlo o encontrou, depois que Afrodite lhe contou. Já era noite e o cavaleiro de Capricórnio nem tinha se mexido...
Durante semanas Shina foi tratada friamente por quase todo o Santuário. A mãe de Shura xingou muito mas foi prática: “antes ahora que despues.” Ele ficou muito abatido, mas foi se recuperando. E um dia, estava na arena vendo o treino dos aprendizes, notou uma morena que treinava com Carlo. Perguntou ao Milo:
_ Quem é aquela, que tem o topete de treinar com o Máscara?
_ Ah, é a Sukhi. O rabugento tem sua própria aprendiz de Câncer agora. Bravinha, parece muito minha prima Pipe... Sabe como são, baixinhas, topetudas e de língua afiada. – Milucho estalou a língua. – São as melhores.
_ Ele não me contou nada...
_ Deve até ter te contado, mas você deixou passar... Fala a verdade... Não é um pitéu?
Shura deu um murro no ombro de Escorpião:
_ Tu é casado, já. Ou vai desvirar a mão?
_ Sou casado mas não sou cego. E olha, espanhol, por aquela morena, vale a pena desvirar a mão...
Shura ficou olhando e teve que concordar com Milo. Um dia, foram apresentados. Com o passar do tempo, foram convivendo juntos, pois tinham Carlo e Afrodite como amigos em comum até que... Shura tomou coragem e convidou Sukhi pra sair. Ela aceitou, vai que vai, começaram a namorar. A esquentadinha amazona de Escorpião encostou a não muito calma amazona de Câncer na parede no dia seguinte:
_ Quais as suas intenções com o Shura?
_ Como assim? Aliás, porque eu tenho que lhe dar satisfações, mulher?
_ Porque Shura é meu amigo, porque ele acabou de sair de um noivado desastroso e eu não quero que ele se machuque de novo. E se me chamar de mulher de novo, arranco os seus olhos com as unhas. Odeio que me chamem assim. Meu nome é...
_ Terpsicore. Seu nome é Terpsicore. Carlo me falou. E não se preocupe. Sou bem diferente da vagabunda da Shina. Se a coisa virar a sério, não costumo pular fora. Se for brincadeira da parte dele, EU pulo fora antes...
Pipe soltou dos ombros de Sukhi. Sorriu.
_ Gostei de você. Então, estamos entendidas.
Fique junto dos seus/ Boa sorte, adeus.
E foi no aniversário de Pipe e Milo que Shura levou Sukhi como namorada oficial. “Essa é pra casar”, dizia ele aos amigos mais chegados. Shina continuou afastada do convívio dos cavaleiros de ouro por mais um tempo. Marin ficou brava e chamou Pipe pra ajudar a reintegrar a amiga.
_ Depois de tudo que nós passamos, essa daí fica com frescura. Deixa disso, Shina. O Shura já se recuperou, tudo voltou ao normal. Até quando você vai ficar se martirizando?
_ Eu já te perdoei, sua vagabunda. Ou será que você se arrependeu?
_ Eu? Eu não. Ele que seja feliz lá com a baixinha dele, que eu to muito bem como espírito livre que sou. – Pipe semicerrou os olhos e não respondeu. – Vamos ao cinema hoje? É sexta, dia de pôquer dos homens...
Fique junto dos seus/ Boa sorte, adeus.
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