Pra que Decidir?

6 Lembranças.


Notas iniciais
Yo!!! Agradeço a todos que estão acompanhando(e me cobrando, pessoal, tenho uma memória terrível, então me cobrem!). Mas este vai ser dedicado a T-chan b29; Afinal de contas, ela gosta do Abel :3 Ah, ignorem os erros, eu REALMENTE estava sem saco para revisar D:

Pra que decidir?

Capítulo seis – Lembranças.

Fic por: L. Kathar

“—Assim, da mesma forma que os minutos necessários para a composição deste texto não hão de voltar nunca mais, a beleza desgastada pela palidez do calendário mudo é efêmera e irreversível…” – O loiro estava sentado sobre o telhado da enorme mansão que o ruivo –protagonista desta história- habitava.

Já cochilara ali algumas vezes, por isso resolvera voltar a tomar anotações para seu manuscrito que já tinha cerca de quinze anos de textos. Abel só escrevia em latim, era um vício seu. Estava preocupado porque nem vampiro nem humano haviam chegado de onde foram. Já passava um pouco das duas horas da manhã, alquimistas apesar de tudo ainda eram humanos, precisavam dormir.

Arregalou os olhos que carregavam um brilho de curiosidade ao escutar um barulho alto, algo como gargalhadas afetadas pelo álcool. Nem precisou olhar para a rua para confirmar que eram os dois, aqueles que estava esperando.

Com movimentos rápidos porém discretos, ele entrou no quarto do indeciso, guardando os manuscritos dentro das próprias roupas e sentando-se na cama de Diogo.

Era bastante fácil ouvir a conversa no andar de baixo.

Esta começou com o barulho de uma camapainha irritante, uma daquelas serventes foi atender, e estranhamente, Dante que estava mais sóbrio que nunca, explicou para a empregada os detalhes(obviamente falsos) do caminho que trilhara com o ruivo.

“—E eu o encontrei lá, tive que trazê-lo, claro, afinal não deixaria um amigo naquela situação.”

Fora tão convincente, que a empregada sorriu-lhe e permitiu que ele dormisse lá. Que belo ator seria se não fosse aspirante a juiz.

Subiu as escadas, arrastando Diogo consigo, rindo internamente por ver aquele indeciso esbaldar-se tanto.

Prostitutas, álcool, drogas, aquela fora uma noite memorável, e por pouco, o próprio Dante não tomara o corpo do ruivo para si. O fato era que sabia que Diogo ficaria dolorido no dia seguinte, e o risco de ele lembrar de tudo era grande, por este motivo, simplesmente deixou-o divertir-se com aquelas garotas.

Chegou até o quarto do anfitrião e abriu a porta, vendo Abel sentado na cama, um calor subiu por seu corpo, Dante tinha preferência por garotas, e olhar para aquele corpo e face tão femininos, ele teve que pigarrear, pedindo a ajuda do alquimista para despir Diogo e dar-lhe um banho.

“—Quero não…” – O ruivo reclamou emburrado, dando um soco fraco no vampiro, que riu.

“—Você é muito fraco para bebidas, Diogo.” – Falou-lhe com uma voz incrivelmente mais simpática.

Abel olhava para ambos com o olhar estreito, na verdade preocupado com o humano. Ajudou-o a se despir e em seguida o levou para o banheiro junto com Dante.

O processo foi trabalhoso, mas algumas horas depois lá estava o indeciso, deitado em sua cama, vestido e coberto por alguns lençóis. Dante e Abel estavam ensopados, o loiro continuara no banheiro, alegando que precisava secar-se. A curiosidade do vampiro era maior, ele entrou naquele pequenino cômodo, vendo o outro de costas para si, sem camisa.

Sabia que os alquimistas eram andróginos, entretanto, não imaginava que eles fossem chegar a tal ponto. A cintura do menino era bem marcada, realmente semelhante a de uma menina. A pele clara era aparentemente macia, parecia implorar para ser tocada.

O moreno de longos cabelos negros se aproximou, abraçando o outro por trás, levando seus dedos longos de imediato aos mamilos dele.

Logicamente Abel ficou assustado, assim empurrando Dante de si, estreitando os olhos grandes para ele. Apesar de tudo, quando escolheu ser alquimista o garoto não sabia que seria privado de sua masculinidade, tanto que deixou a garota que amava morrer, não tendo coragem de mostrar-se a ela.

“—O que pensa que está fazendo, filhote insolente?!” – Perguntou-lhe com uma voz altiva, sequer parecia o menino doce de sempre.

“—O que acha que estou fazendo?”

Abel riu do vampiro. Será que ele sabia com quem estava se metendo? O Mestre de Avis era um garoto doce, entretanto, sabia quando deveria agir.

“—Alquimista, você na verdade não sabe com quem está lidando…”

E era verdade, o vampiro a muito aspirava um lugar dentre os treze juízes, e o que Dante mais queria era honrar o nome dos vampiros, a raça que até o presente momento liderava todas as disputas.

“—Além do mais, você sequer é um homem, nem sei porque ainda pensa carregar tal posto.” – Sua voz saiu banhada em escárnio.

“—Como ousa?!”

O alquimista arregalou os olhos sentindo as mãos do moreno tocarem onde deveria estar sua intimidade, assim, por cima da roupa, e onde na verdade não tinha nada.

Lembrou-se de quando ainda não tinha sofrido sua metamorfose. Bons tempos aqueles.

Ele corria apressado pelas ruas de sua cidade natal, o rapaz de cabelos curtos e loiros, e que aparentava ter cerca de dezessete ou dezoito anos, trajava roupas medievais e que denunciavam sua ‘profissão’.

Procurava-a, ela, Elizabeth, a garota de longos cabelos vermelhos e cacheados que fazia seu coraçãozinho bater mais forte. Ambos já eram noivos a mais de dez anos.

Charles era ajudante de um alquimista famoso, naquele tempo chamado ‘mago’. Seu treinamento estava no fim, Charles e Elizabeth estavam contentes, pois finalmente se casariam, teriam filhos e dinheiro suficiente para realizar o sonho da garota, comprar uma grande propriedade e construir um castelo.

Nas mãos finas por causa dos experimentos que fazia, Charles carregava um enorme buquê de rosas vermelhas, vermelhas como os cabelos dela e com as folhas verdes como seus olhos.

“Elizabeth!”, foi o que gritou, vendo-a tecendo num tear antigo, fazia peças belíssimas.

“Charles, querido!”, acenou-lhe sorrindo, afastando-se de seu trabalho.

Foi com um sorriso gigantesco que entregou-lhe o singelo presente, cortejando-a.

Charles de Lancaster fora prometido para Elizabeth Rapone quando a garota nascera, naquele tempo, os jovens eram prometidos um ao outro e muitas vezes sequer se conheciam até o dia do casamento. Mas no caso de Charles e Elizabeth, o casamento arranjado dera muito certo, ambos se gostavam em demasia, e sempre passavam horas conversando sobre determinados assuntos.

Os passeios eram frequentes, pela beira de lagos ou por jardins extensos.

Até que aconteceu.

Num dia calmo, Charles percebera que seu treinamento chegara ao fim. Seu mestre, o ‘mago’ havia viajado, precisara comprar algumas coisas, e naquele dia claro de domingo, o loiro estava sozinho no enorme laboratório.

“Agora basta, finalmente me tornarei um alquimista de verdade!”

Charles sentiu uma dor terrível invadir sua mente, deixando-o tonto ao passo que ele caía no chão torturantemente frio.

Estava novamente no âmago do interior do útero materno, sentia todo o calor gostoso daquele líquido que o envolvera e agora voltava a envolver, alimentando-o e acariciando-o, várias imagens curiosas passavam por sua cabeça. Rapidamente seus olhos se fecharam e ele respirou um ar quente, morno e aconchegante.

Quando abriu novamente os olhos, estava num lugar aberto. Sabia disso porque sentia uma brisa fresca, gelada como a brisa noturna. Estava vendado mas ouvia inúmeras vozes, estas o estavam deixando tonto. Passou as mãos por seu corpo. Onde estavam as vestes de alquimista?

Estremeceu, sentindo-se coberto por uma espécie de túnica aberta na frente, do tipo das que aqueles que eram condenados a forca usavam quando eram levados até o sacrifício. A manga direita estava enrolada até o cotovelo e a perna esquerda da calça, arregaçada até o joelho.

Levou as mãos alvas ao pescoço, infelizmente sentia a corda ali. Estremeceu por instantes, ficando aterrorizado ao sentir seus fios loiros escorrerem da cabeça como se estivessem soltos.

Não tinha mais cabelos, estava completamente sem pelos por todo o corpo.

Passou os dedos desde o seu couro cabeludo –agora despido de fios- até o cós de sua calça, sentindo que realmente não havia nenhum tipo de pelos. Sacodiu-se para mandar para longe todos os pelos que estavam presos em sua túnica, estava assustado, era verdade, o que acontecera? E o fim de seus estudos? E a sua ascenção como alquimista verdadeiro?

Sentiu uma angústia absurda, tendo a venda tirada e finalmente se olhando de frente a um espelho enorme, de corpo inteiro.

Não tinha mais íris, seus olhos eram só duas bolas brancas sem vestígio algum de cor, naquele momento não pareceu mais olhar para seu reflexo, tomou o papel de observador de si mesmo, realmente, aquilo estava bastante estranho.

Tudo ficou escuro e novamente Charles não vira nada, perdeu a noção do tempo, não sabendo se haviam passado dez segundos, minutos ou anos, estava perdido completamente no espaço.

Quando voltou a abrir os olhos, estava num lugar escuro, deitado de lado num chão frio e quadriculado, de preto e branco. Era uma saleta pequena, cheia de homens vestidos com batas negras e capuzes refinados. Eles entoavam cânticos em latim, mantras que deixavam o aspirante a alquimista atordoado.

Não usava mais roupas, estava nu e envergonhado, imediatamente, lembrou-se de anotações do livro sagrado que falavam de quando os seres humanos haviam perdido sua pureza. Estranhamente todos aqueles pensamentos o deixaram mais calmo… Mais… Leve…

Fechou os olhos e começou a sentir vários homens batendo em seu corpo, porém, naquele momento Charles não era corpo, ele era mente e os machucados graves causados por aqueles homens não passavam de barulhos incômodos ao longe.

Ali, Charles da Rosa de Lancaster deixou de ser Charles, passou a ser mente e misticismo, era só alma e lembranças… Naquele momento o –agora- alquimista escolheu seu nome mágico.

Era Cain. Para todo o mundo, todas as forças superiores, todo o misticismo, Deus, Buda, Alá, A grande Mãe, Zeus, Alma… Era somente Cain, aquele era seu nome místico.

Por um milésimo de segundo Cain entendeu que era Deus, ele fazia parte de uma conciência conjunta, um emaranhado de mentes fantásticas que só esperavam pelo momento certo para se retesarem e mostrarem ao universo do que eram capazes. A notícia ruim, fora a de que isto, este presságio de ser Deus foi muito curto, não ficou registrado na memória de Cain.

Depois daquilo ele mergulhou novamente no escuro.

Estava perdido no âmago negro e morno como o útero, estava acostumando-se novamente ao calor agradável e tenro daquele pequeno espaço. Não tinha gravidade, não tinha dor. Não precisava respirar, nem comer… Fazer nada, era só mente e alma, o corpo era irrelevante.

Ainda conseguia mover os braços, apesar de ser minimamente. Não via nada apesar de estar com os olhos abertos. Levou as mãos até a boca, tocando onde deveriam estar seus dentes. Desesperou-se, onde estavam seus dentes? O que estava acontecendo. Não tinha mais cabelos, nem dentes.

Com mais um curto ataque, o corpo de Cain começou a se contorcer dentro da cúpula de transformação, a pele desprendia-se, parecia derreter. Os ossos todos amoleceram, adquirindo novos comprimentos.

Os quadris ficaram mais largos, os ombros estreitos, os membros mais longos e esguios. Naquele exato momento era uma massa disforme de carne, sangue e ossos dentro de uma cúpula de transformação.

Foi quando começou a tomar forma. Cain, o ex-Charles, era agora um rapaz de pele clara, corpo esguio e afeminado… E na verdade, nem garoto era, pois não tinha mais sexo.

As últimas partes da tranformação estavam para ocorrer, o rosto parecia ser pouco a pouco moldado por mãos habilidosas, surgiu a boca pequena porém de lábios cheios, os olhos negros se abriram e o nariz levemente arrebitado tomou forma. Com mais um pouco de dor, Cain sentiu seus dentes nascendo rapidamente, tomando os devidos lugares numa cadeia perfeita, sem um erro, por menor que fosse.

E os cabelos, ah… Os cabelos cresceram loiros como os que tinha como Charles, entretanto, ficaram longos, demasiadamente compridos, tanto que por pouco não tocavam o chão. Eram distribuidos, os fios, em cachos fartos.

Depois tudo se tornou silêncio.

Cain estava no útero, não via luz, não via nada, só sentia aquele calor reconfortante, sem som nenhum… Parecia estar morto, e naquele momento aquela morte era tão agradável, que o jovem alquimista preferia não mais acordar.

Após algum tempo, ele viu um rosto belíssimo, com traços femininos e gentis.

“Deus…”,foi o que sussurrou. Ali, nem Elizabeth existia.

Seria a face de Deus vindo buscá-lo? Não acreditava nessas coisas, mas naquele momento, qualquer ideia por mais absurda que fosse o deixava temeroso.

“Seja bem-vindo, Cain.”, Soou uma voz breve, porém intensa.

Rapidamente a voz agradável sumiu por completo, assim como aquele rosto divino. Barulhos assustadores eram ouvidos, Cain não queria se mexer, mas estava incomodado com aquilo, ouvia vozes bizarras, irritantes, chamando por ele como ecos de demônios infernais de vozes bestiais.

Ali todo o cosmo se dividiu em dois, o útero estava resgado e o loiro não queria sair daquele lugar. Mãos suspensas e assustadoras se estenderam para pegar seu corpo pálido, tirando Cain de seu mundo perfeito, silencioso e calmo.

“Não!!! Não!!!”, ele berrou assustado, debatendo-se contra um corpo feito de ar gelado e tirturante.

Caiu num lugar gelado e duro, cuspindo todo o seu calor… Até que como um bebê que respira pela primeira vez, deixou o ar congelante entrar por seus pulmões, numa dor excruciante. Seu corpo todo estava em chamas mas Cain sentia frio.

Desfaleceu ali, só acordando dias depois, como um alquimista completo.

Abel lembrou-se também do nome que escolhera para ser chamado por todos, afinal seu nome mágico não poderia ser solto assim aos quatro ventos.

Escolhera Abel, pois se como cain era divino, enquanto Abel permaneceria humano, humilde, comum.

Tirou as mãos de Dante de si, olhando-o como quem fita uma presa que não vai consumir.

“—Nunca mais toque em mim novamente, vampiro.” – Sua voz saiu como um sussurro rouco, ao passo de que ia vestindo-se, mantendo o olhar no de cabelos negros.

Dante realmente riu. Aquele alquimista maldito não perdia por esperar, estava ansioso para colocar as mãos naquele maldito e tomar a vida de Diogo para si, afinal, porque o loirinho não cederia aos prazeres da carne?

xX

O dia foi muito pesado, Dante saiu de vista e Diogo demorou bastante para levantar-se. Abel já estava muito irritado, perdeu um dia de ação e de conquista.

E o pior de tudo, Diogo não parecia levar a sério o fato de morrer em menos de três meses.

Aquela semana passou-se daquele jeito, sem muitas novidades de nenhuma das duas partes.

“—Diogo, porque não vai mais para a escola?” – O alquimista estava preocupado, afinal de contas, se ele faltasse demais corria o risco de perder o ano.

Além disso o ruivo vinha passando tempo demais conversando com Dante, parecia ter pendido para os lados dos vampiros.

Só de pensar naquilo, o alquimista estremecia.

“—Eu tenho a ligeira impressão de que a aula seria mais agradável se estivéssemos lá, Abel.” – Comentou o moreno, dando uma piscadela para o loiro que fez careta.

E lá se foram os três para a escola, com os uniformes correspondentes e os cadernos. O ruivo não estava muito animado, estava até um pouco indisposto por causa da noite anterior novamente com Dante. Era uma sexta e o garoto não criara muitas expectativas para aquele dia.

Entraram na escola e se direcionaram exatamente para a sala, conversaram bastante e tudo estava ocorrendo normalmente até o diretor entrar na sala e fazer um pronunciamento.

“—Pessoal, silêncio por favor.” – Pouquíssimos pararam de conversar. “—Nós temos… Um aluno novo, de intercâmbio.” – Sua voz soou mais calma, entretanto, com aquela frase todos pararam para escutar, todos sempre prestavam atenção quando havia um aluno novo. “—Deem boas-vindas ao jovem Saülo Diederich.”

Todos os olhares recaíram sobre o garoto de cabelos verdes, pele extremamente pálida e olhos cor-de-rosa intenso.

Usava a farda da escola, carregava uma mochila negra e em seus braços, estava aninhado um boneco semelhante aos de voodo.

Abel e Dante se retesaram e se encolheram em suas cadeiras imediatamente, assustados com aquele garoto. Mas o que demônios o futuro Caos estava fazendo na terra?!

16/10/10

Notas finais
O que acharam? Ç.Ç