Pra que Decidir?
3 Dia.
Notas iniciais
Acordou com uma forte dor de cabeça, o ‘bip bip bip’ irritante do celular acabava com o bom humor matinal de qualquer um –se é que isto realmente existe.
Talvez se jogasse aquele aparelho na parede ele ficasse em silêncio para sempre, com certeza ficaria, infelizmente não o fez, simplesmente desligou o aparelho e soltou um suspiro longo, relembrando da madrugada anterior.
Não sentou-se, ainda estava com uma boa dose de preguiça. As cenas da noite anterior, das vozes, as presenças… Naquele momento eram tão reais, no entanto, agora não passavam de meras lembranças para si, um pesadelo como outro qualquer que merecia ser esquecido.
Passou mais cerca de dez minutos refletindo, fitando o teto, procurando alguma mancha ou coisa assim que merecesse sua total atenção, estava sem coragem para ir até a escola.
“—É… Só pode ter sido um pesadelo mesmo.” – Acabou por sorrir tranquilamente, falando em voz alta, para confirmar a si mesmo que era um pesadelo.
“—Na verdade não, Diogo.” – Soou uma voz doce, já conhecida.
“—Abel?”
O loiro estava sentado sobra uma das cômodas daquele quarto.
Sorria, trajava um uniforme masculino da ‘Escola Preparatória Simon’, a mesma que Diogo frequentava.
O uniforme consistia em uma calça verde, folgada, junto com uma blusa composta, branca, cujos botões eram fechados a frente. Para completar, uma gravata e um casaco verde, além dos tênis, é claro. Mas estes, ficavam a critério dos próprios alunos.
O uniforme completo de Abel estava impecável, não havia um vinco sequer em sua calça, camisa ou casaco e a gravata estava com um nó simplesmente perfeito. Os longos cabelos do rapaz estavam trançados com muito cuidado, ao passo de que seu rosto não mostrava sinal nenhum de abatimento ou cansaço.
“—Um dos ‘poderes’ dos alquimistas é não sentir sono?” – Indagou-lhe, coçando os olhos enquanto se espreguiçava.
“—Não… Eu gosto de madrugar mesmo.” – Sorriu-lhe novamente, balançando as pernas.
“—A propósito… Que roupa é essa? Ou melhor, porque está com ela?”
“—É meu uniforme, ué. Como acha que vou ficar o tempo todo grudado em você?”
Abel Charles de Lancaster, nascera em meados do século XIII na Inglaterra.
Desde pequeno, o loiro gostava de histórias fantasiosas, com magia, heróis e mocinhas em perigo.
Esta espécie de paixão acompanhou-lhe por toda a vida, até que quando fez 16 anos, encontrou algumas anotações de seu pai, que desaparecera anos antes.
Estas anotações estavam dentro de um baú de mogno, escondido no interior de uma árvore cujo interior era oco. Abel a encontrara por acaso, estava procurando cogumelos nos arredores de sua casa e encontrara a dita árvore.
Eram anotações alquímicas, cheias de fórmulas confusas, felizmente, nas últimas folhas havia uma espécie de explicação o que permitiu ao jovem Lancaster começar seus estudos.
Dois meses depois, ele encontraria um tutor, um homem misterioso que lhe daria uma boa dose do elixir da longa vida e lhe ajudaria bastante no avançar de suas fórmulas.
O Elixir obrigou a Abel passar o resto de sua vida com a mesma idade aparente, dezesseis anos.
O rapaz teve que adotar inúmeras identidades no decorrer dos anos, ao menos enquanto a família Lancaster estava dominando as economias.
Abel levou cerca de 100 anos para concluir seus estudos de alquimia, produzindo assim a tão sonhada pedra filosofal.
Era neste momento que começava a vida de um alquimista.
“—Sinto que não terei mais um pingo de privacidade…” – Reclamou Diogo.
“—Você acertou, agora vá vestir o seu uniforme, esperarei do lado de fora.”
“—Como vai passar pelos meus pa-“ –Calou-se vendo o outro sair pela janela.
O loiro saiu pela janela e pulou do batente desta até o chão. Nada menos que dois andares de altura.
Havia deixado suas coisas da escola numa mochila sob a sombra matinal de uma árvore. Seu plano era bastante simples, dali por diante seria somente Abel Charles, estudante de intercâmbio dos EUA.
Sentou-se sobre a grama, encostando-se naquela árvore, sendo recebido com carinho pela brisa fresca que emanava de todo lugar.
Aquela para si era a mais bela hora do dia, logo após o amanhecer, antes de o sol começar a cegar a todos. Naquela fase de transição, não haviam nuvens nos céus, muito menos o sol obrigava ninguém a sentir sua presença. Só as árvores respiravam, somente isso.
Alquimistas tinham muitos segredos, no entanto, estes só poderiam ser revelados com o tempo.
No resto da madrugada anterior, Dante perdera uma aposta, tendo que ceder o primeiro dia -que era de direito da criatura mais nova- para o alquimista que já tinha mais de 500 anos.
Não que o vampiro tivesse achado ruim, pelo contrário, este aproveitara que estava ali, e fora procurar alguma casa noturna, saciar desejos.
Enquanto observava o ruivo caminhar até si ainda com o semblante sonolento, Abel pensava no quão errôneas as pessoas eram ao achar que após a perfeição, não haviam mais desejos.
Errado, muitíssimo errado. Não era porque o alquimista conseguira a vida eterna e sofrera a metamorfose que levava a perfeição, que os desejos deveriam diminuir.
Eles tinham uma restrição.
“—Não tomou café?” – Indagou-lhe com a voz doce preocupada.
“—Estou sem fome.” – Respondeu bocejando. “—Vamos?”
“—Claro…” – Sorriu e deixou o ruivo tomar a frente. Realmente era uma pena que aquele garoto de olhos verdes já estava em estágio terminal. Era uma pena mesmo.
Os dois caminhavam em silêncio, Abel sorrindo mediante a aquele convite maravilhoso da natureza para festejar este novo dia e Diogo bocejando, passando as mãos sobre o casaco amarrotado numa tentativa fútil de esquentá-lo.
Não foi nada difícil passar pela diretoria, a escola preparatória não perdia uma chance de destaque, e logicamente um aluno de intercâmbio traria fama para lá.
Abel sentia falta de poder assistir a uma aula, não fazia isso a séculos, literalmente, assim seus olhos estavam vidrados no quadro, onde a letra caprichada do professor de literatura era gravada.
Além disso, era muito mais divertido estudar quando você viveu na época daquele acontecimento.
As aulas passaram voando para Abel, em compensação, Diogo estava tendo mais dificuldades em acompanhar as matérias do que nunca.
Os dois caminharam até o pátio, desviando dos montes de crianças que corriam para todos os lados, o loiro sorria olhando ao redor, parecia estar matando grande parte de sua nostalgia.
Caminharam até a sombra de uma das maiores árvores do colégio sentando ali em seguida. Abel ainda olhava maravilhado para os demais alunos que corriam e conversavam pelos cantos, Diogo suspirava, tentando escolher uma dentre as várias perguntas que circulavam por seu cérebro.
“—Ei Abel…” – Chamou-o, com a cabeça baixa.
Não obteve resposta.
“—Abel?”
O loiro estava com os olhos fechados, sentindo a brisa fresca que se espalhava pelo pátio apesar de já serem mais de dez da manhã.
Era uma bela visão, o ruivo tinha que admitir… Apesar de tudo, o alquimista não se parecia com um garoto de forma nenhuma, suas feições eram andróginas ao extremo, a boca era carnuda, os cílios longos, as mãos finas e o resto do corpo altamente esguio.
“—Abel!” – Chamou uma terceira vez, dando uma cotovelada no rapaz.
“—Sim!! O que é?!” – Soou a voz doce, um pouco assustada.
“—Porque eu?”
O que era bem mais velho sorriu, mostrando seus dentes altamente brancos. Todas as pessoas a quem era encarregado, perguntavam o mesmo. A curiosidade humana era algo incrível. Era algo que Abel não queria perder.
“—Você é importante para nós, isso é tudo o que precisa saber.” – Falou-lhe calmamente.
“—E qual a vantagem de ser um alquimista?” – Era neste ponto que o loiro tinha que agir e assim puxar o ruivo para seu lado.
A cerca de cem anos, os vampiros venciam os alquimistas e todas as outras raças no quesito ‘adeptos’. Afinal, apesar de tudo, os vampiros eram uma das raças mais famosas, muitos deles também podiam usar magia, não tinham a vida sexual afetada em momento algum e tinham a maior sensualidade dentre todas as criaturas mágicas. Não era realmente justo.
Também não haviam apenas duas raças, era uma infinidade de corpos e cheiros, visões e espíritos diferentes… Mas como fora dito antes, na terra as pessoas só podiam ter duas escolhas.
Nos confins daquele planeta, haviam coisas inimagináveis, desde cidades subterrâneas com raças de elfos negros, até pequenas ilhas contendo descendentes dos Atlantis.
Apesar disso, os vampiros eram a raça mais grandiosa destas, e estes poderiam conviver com as pessoas normais, todos os dias.
“—Ser alquimista, depende somente de você e de sua dedicação. Não são todas as pessoas que conseguem ser alquimistas ou que tem a oportunidade de se tornarem um.”
“-- …” – Prestava bastante atenção, os olhos verdes sobre o rosto do mais velho.
“-- Você só pode se tornar alquimista, com muitos e muitos anos de estudos, aí é que você pode atingir a perfeição e então acaba sofrendo uma metamorfose.”
“—Anos e anos?! Eu tenho três meses!” – Exclamou assustado.
“—Mas neste caso, eu mesmo posso te providenciar o Elixir da longa vida para que você possa fazer seus próprios estudos.” – Sorriu mais uma vez.
“—Elixir?”
“—Sei que você não está interessado em estudar pelo resto da eternidade…” – Riu alto, levantando-se e limpando sua calça.
“—Oh! Você leu os meus pensamentos!!!” – Exclamou com um certo sarcasmo, coisa que não atingiu Abel nem de leve.
“—Mas posso te mostrar coisas melhores.” – Segurou na mão do ruivo, sorrindo para este enquanto sua trança começava a levitar e se de desfazer aos poucos.
Enquanto o loiro levantava Diogo, ambos viam todas as pessoas passarem por seus olhos como que em imagens bastante aceleradas, o sol também se movia de uma forma incrivelmente veloz.
O tempo corria, cada segundo mostrava-se como um milésimo do que deveria ser, assim, em pouquíssimos minutos, ambos –humano e alquimista-, puderam ver seus corpos caminharem em direção ao portão de saída da escola.
O loiro correu naquela direção, puxando Diogo pela mão, até que cada um deles tocou em seu próprio corpo, unindo novamente corpo e alma, cérebro e coração.
O rapaz de olhos verdes colocou a mão na cabeça, sentindo uma leve tontura. Achara aquilo incrível, simplesmente incrível!
Aquele dia estava apenas começando, Abel mostraria a Diogo mais vários outros segredos alquímicos, quase certo de que o ruivo se deixaria levar por aquilo.
Estaria ele certo?
Notas finais
Respondam nos comentários, digam de quem estão gostando. Neste capítulo foi notável o maior ponto de vista do Abel, gosto de fazer estas mudanças, ele é bastante calmo...
Atenciosamente
L. Kathar~b29;
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