Pra onde quer que eu vá...
4 Kiara
Notas iniciais

Grávida.
Rio sozinha, ainda trancada no banheiro. O destino as vezes tem seus próprios métodos. Talvez isso seja um sinal. Merda, isso só pode ser brincadeira! Olho novamente para os três testes de farmácia, esperando que eles mudem pra negativo, mas é claro que isso é impossível. Deus, espero que você saiba o que está fazendo.
Pego os testes e guardo na minha bolsa. Me olho no espelho e fico satisfeita por meu visual continuar impecável, apesar da bagunça que habita meu interior. Saio do banheiro e por incrível que pareça, consigo caminhar confiante. Pago minha conta e saio do restaurante. Respiro fundo e sigo pra empresa de Thierry, meu (ainda) marido.
O táxi me deixa em frente ao imponente prédio espelhado e me sinto tão assustada. Quando chego no ultimo andar a recepcionista pede que eu espere, pois ele está ocupado. Me acomodo em uma das poltronas brancas da recepção e aguardo. Apesar de ser casada com o dono de tudo isso, eu sempre respeitei a etiqueta e agora não seria diferente. Vejo Larissa voltar, mas antes que ela fale algo, vejo Thierry se aproximando com uma loira pendurada em seu ombro. Ela me olha de cima a baixo, e me sinto enjoada.
-Espero que tenha vindo assinar os papéis do divorcio. -fala a loira e a ignoro. Me levanto e encaro Thierry.
-Precisamos conversar. -digo.
-Querida, nós estamos de saída, se não for sobre o divorcio, esquece o meu namorado. -a loira volta a se intrometer, e a olho chocada.
Faz menos de uma semana que Thierry saiu de casa. Após dois anos de casamento as diferenças falaram mais alto, ele passava tempo demais na empresa e eu comecei a parecer uma esposa troféu, sendo exibida nos eventos, enquanto ele fazia novos contatos. É claro que eu administrava minha própria empresa desde antes do casamento, mas ao contrario dele, não passava dia e noite trancada num escritório e isso não diminuiu minha empresa e nem a mim. Mal nos víamos e eu estava cansada de me sentir sozinha, das suas viagens de última hora, da sua completa ausência. Eu não tinha me casado pra ficar em casa, eu queria ser feliz, construir uma família ao lado do homem que amava e juntos, continuássemos crescendo profissionalmente. Eu fiquei insatisfeita e Thierry pediu o divorcio, alegando que eu era incompreensível.
-Antes de ser seu namorado, ele ainda é legalmente meu marido, então para que tá feio. -retruco. Sinto que a qualquer momento minhas pernas vão fraquejar e não quero que isso aconteça na frente de ninguém.
-Eu estou de saída agora, Kiara. Marque uma hora com a Larissa e ficarei feliz em discutir qualquer problema que você tiver. -fala Thierry. Começo a rir, me sinto insana nesse momento.
-Ah, claro, vou mesmo marcar hora pra resolver um problema NOSSO. -exclamo, exaltada. -Merda, Thierry, você já foi melhor que isso.
-Você está bêbada? -pergunta, gargalho.
-Eu estou grávida, seu idiota! -grito, perdendo o controle. -Se eu preciso mesmo marcar uma hora pra te falar isso, então estamos certos em nos divorciarmos. -falo amarga. Ele me encara com uma expressão indecifrável. A loira me olha como se eu tivesse duas cabeças e todos os funcionários do andar estão fingindo que não há um escândalo acontecendo.
Me viro pra ir embora, magoada, mas faço isso rápido demais e minhas pernas cedem. Antes que eu caia, sinto braços me sustentarem, então eu apago, sem forças.
Acordo com um forte cheiro de perfume. Abro os olhos e vejo Thierry em cima de mim, o perfume vem dele. A ânsia me invade e eu me levanto rapidamente, tentando me situar. Reparo que estamos na sua sala e corro para o banheiro. Me jogo no chão e vomito tudo o que há em meu estomago. Thierry aparece e segura meu cabelo. Sinto lágrimas nos meus olhos e uma ardência na minha garganta. Levanto ainda tremula e lavo meu rosto, tentando me acalmar. Volto pra sala e vejo que a tal loira e Larissa estão lá. Me sento no sofá e Larissa me estende um copo de água.
-Vanessa, eu te ligo mais tarde. -diz Thierry, pra loira que o olha irritada.
-Você não vê que ela está mentindo só pra ter você de volta? -grita. Thierry respira fundo.
-Pode deixar que eu resolvo isso sozinho, agora me dê licença. -retruca Thierry, impaciente.
-Sua vadia, você não vai conseguir ele de volta, ele é meu! -grita histérica. Fecho meus olhos, começando a sentir dor de cabeça.
-Já chega, Vanessa. Larissa, faz o favor de acompanha-la até a saída, por favor. -ordena.
-Não precisa, eu sei o caminho. -responde.
Ouso passos se afastando e Thierry se agacha a minha frente. Abro meus olhos, o encarando. Agora somos só nós e não sou capaz de esconder minha decepção.
-Você foi rápido. Ela dará uma ótima esposa troféu. -digo amargurada.
-Como você está?-pergunta e dou uma risada seca.
-O que você acha, Thierry? -retruco.- Eu desejei isso desde o dia que nos casamos e agora que finalmente aconteceu, estamos no meio de um divórcio e você não esperou nem seu lado da cama esfriar!
Fecho meus olhos e me recosto no sofá. Lágrimas inundam meu rosto e não tenho forças pra segura-las. Me sinto exausta. Thierry me surpreende se sentando ao meu lado e me puxa pros seus braços.
-Me solta, Thierry, antes que eu vomite em cima de você. -alerto, irritada. Além do perfume dele me enjoar, o fato dele já ter arrumado outra me deixa enojada.
Ele me coloca de volta no sofá, mas não se afasta.
-Sinto muito por Vanessa. -diz.
-Ah, eu também sinto muito, principalmente por ter sido burra de achar que esse bebe mudaria alguma coisa. -confesso. Ele não diz nada. Então decido ir embora. -Pode pedir um táxi pra mim?
-Não quero me divorciar. -solta. O encaro.
-Não quer? Engraçado, não foi isso o que você disse semana passada! -grito.
-Nós não íamos ter um filho na semana passada! -retruca e me levanto.
Sinto como se tivesse levado um soco no estomago. Aquele não é o homem pelo qual me apaixonei e me casei. Me dirijo até a porta e ele me puxa de volta.
-Onde você pensa que vai?-pergunta irritado.
-Embora, não deveria ter vindo aqui. -respondo. Seus olhos encontram os meus.
-Você não quer tentar de novo?-questiona.
-Não por causa de um filho. -respondo sincera e ele parece confuso. Respiro fundo, antes de explicar. -Filho não segura ninguém, Thierry e se fizermos isso será pelo motivo errado e em menos de um ano estaremos pedindo o divórcio novamente.
Thierry me encara por alguns minutos, então me abraça fortemente.
-Me perdoa, Kiara, eu sou um idiota. -pede aos prantos. -Eu agi errado com você, sendo que jurei estar ao seu lado em todos os momentos. Vanessa não significa nada, eu só não queria parecer fraco, me desculpe, eu juro que não aconteceu nada.
Não consigo dizer nada. Até o enjoo do perfume passou. Thierry chora em meu ombro e eu não sei o que fazer além de passar a mão por seus cabelos macios. Mas eu preciso tomar um decisão, para o meu bem e do meu filho. Suspiro e me distancio, ele apenas me olha.
-Vamos parar o processo de divórcio, ao menos por enquanto. -digo e ele tenta se aproximar, mas o afasto.- Não vou perdoar tudo tão fácil. Em uma semana você jogou toda nossa história por água a baixo e se eu não tivesse aparecido aqui, estaria neste momento fazendo sabe-se-lá-o-que com aquela loira. Então não, Thierry, as coisas não vão voltar a ser um mar de rosas porque você se desculpou. As coisas não se tratam mais só de nós dois, tem um serzinho se formando dentro de mim e eu sei que ele vai ser a pessoa mais importante do mundo pra mim. Vamos ver como as coisas funcionam e se não der certo, prefiro que nos separemos antes que ele nasça, para que não sofra.
Thierry esta me olhando surpreso, os olhos brilhando. Eu surpreendi a mim mesma neste exato momento demonstrando essa força. Mas eu não tenho outra escolha, desde já estou pensando no melhor pra mim e esse bebezinho. Sinceramente, depois do que eu vi esses dias, eu perdi a confiança naquele que jurou estar comigo até a morte. Talvez sejam os hormônios alterados pela gravidez, quero chorar de tristeza e decepção ao mesmo tempo que me sinto tão confiante e decidida.
Não espero para não mudar de ideia. Pego minha bolsa e saio de seu escritório. Não sei se ele pretende voltar pra casa após isso tudo, ou continuará no hotel até que tomemos uma decisão mais firme. Pedi ao taxista para me levar até minha própria empresa, focar no trabalho talvez fosse o melhor nesse momento, ao menos era o que eu esperava.
...
Te Amo, Te Amo
Ela diz para mim, eu ouço a dor em sua voz
Então dançamos sob o candelabro
Ela conduz
Foi quando eu vi nos seus olhos
Que estava acabado
As palavras de Rihanna ecoam na minha cabeça. Eu encaro meu vestido de noiva. Amanhã estarei novamente caminhando até o altar e me sinto nervosa como a primeira vez.
Eu havia ficado realmente surpresa com Thierry, por ter organizado tudo sozinho. É claro que nesses últimos messes ele esteve muito empenhado, em fazer nosso casamento dar certo, em conciliar nossas vidas novamente de um jeito que agrada-se a todos.
Eu o amo.
Talvez sejam apenas os hormônios. A insegurança se instalou dentro de mim no dia de hoje e não sei como afasta-la. Meu marido tem me provado, a cada dia que está arrependido, eu vejo isso, eu sinto. Vanessa ainda não desistiu dele e tem nos importunado, mas isso só serviu pra mim ver o qual empenhado ele está. O meu problema não está nela ou em qualquer outra mulher. Está em mim mesma. Temo não ser mais o suficiente. Eu vi meu castelo ruir em poucas horas e desde a gravidez, eu venho construindo minha própria muralha, com meu filho. Apenas não consegui incluir Thierry nela.
Minha alma chora sem perguntar a razão. Eu disse "te amo".
Talvez essa segunda lua de mel seja tudo o que estamos precisando, Deus queira que sim.
Saio do quarto principal e vou para o de hospedes. Eu preciso de um tempo comigo mesma, em um comodo neutro. Paro em frente ao espelho e analiso meu reflexo. A barriga protuberante, levemente marcada na camisola, sorrio. Apesar da confusão que habita em meu interior, meu filho tem sido meu ponto de apoio. Me foquei mais no trabalho e estou indo tão bem que planejo abrir uma filial dentro de um ano. Eu preciso dessa estabilidade e sucesso, para poder garantir a mim e ao meu filho, caso meu casamento não de certo. Sem falar que esse é meu projeto desde que eu decidi o que queria da vida. Posso dizer que esses tem sido os melhores dias que minha empresa já viu e estou extasiada. Minha equipe tem trabalhado a todo vapor e eu não podia estar mais orgulhosa.
Thierry tem me ajudado nessa questão também. Embora eu não permita que ele se envolva diretamente, ele tem feito comentários muito úteis e principalmente, tem me apoiado. Sinceramente, acho que tenho sido dura demais com ele, o homem faz absolutamente tudo o que eu peço e não peço, tornou-se até cômico. Ele passou a delegar tarefas aos seus diretores subalternos e tem passado cada instante livre ao meu lado, como eu tanto desejei. Sorrio comigo mesma, ainda concentrada em minha barriga. Então mãos fortes me acariciam e encaro os olhos de Thierry pelo espelho.
-O noivo não pode ver a noiva antes do casamento, não era esse o combinado? -questiono, erguendo as sobrancelhas, ele dá de ombros.
-Nós já somos casados e fui eu quem encomendou o vestido. -responde, reviro os olhos.
-Foi você quem disse que queria fazer tudo direito. -resmungo. Então ele me gira, me fazendo ficar de frente para ele. Nos encaramos.
-Para mim, o mais correto é ficar junto da minha esposa grávida. Não importam as tradições, já fizemos isso da primeira vez, nesse momento, eu só preciso ficar com vocês dois. -diz. Sinto as lágrimas inundarem meus olhos, pois estou extremamente emotiva. Ele me abraça. -Se quiser, eu posso ir embora. É só falar.
Engulo seco. A poucos minutos eu estava em dúvida sobre amanhã e é por isso que sinto tanta necessidade para que Thierry fique. O abraço mais forte, despejando sobre ele toda minha insegurança, soluçando minhas decepções, demonstrando meu medo, mas acima de tudo, segurando aquele que é o único para quem eu disse Te Amo.
Sinto que sou depositada sobre a cama, mas não sei como viemos parar aqui. Thierry se deita ao meu lado e me puxa para seus braços, que me envolvem como um casulo. Não sei como parar de chorar e ele parece não ter pressa. Aos poucos, sinto o sono me dominando e Thierry me faz cafune, enquanto eu continuo fungando.
Acordo assustada, está tudo escuro e há um nó na minha garganta. Estremeço. Mas antes que o panico me domine, sinto seus braços me rodearem e me puxarem de volta. Soluço.
-Eu estou aqui. -ele diz. Então me aperta mais forte. -Sempre vou estar. -promete.
É então que eu percebo que não preciso de uma cerimonia de renovação de votos. Uma lua de mel não vai nos concertar. Apenas esse simples momento, esse gesto, essa atitude, me levam a uma decisão que foi tomada há três anos. Eu não disse sim apenas no dia do nosso casamento, diante do padre e de nossos familiares. Eu havia dito sim desde o primeiro instante. Eu pertencia a Thierry desde o momento em que nossos olhares se cruzaram e ele sorriu pra mim, ele também me pertencia.
Todos os casais tem problemas, mas como os resolvemos é que nos define. E eu escolho sermos mais fortes. Finalmente percebi que não preciso permitir sua entrada em minha muralha, ele esteve aqui o tempo todo.
Não sei o que o futuro nos reserva, mas estou ansiosa para descobrir. Há acontecimentos capazes de nos marcar. Eu não sei se nossa separação foi um deles, mas este momento, em que eu estou em seus braços, no meio da madrugada, reafirmando algo que já estava firmado desde o começo, sei que estará em nossos corações.
Acho que significa que eu te amo.
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