Pr3liminares
1 Ócio do dia
Ócio do dia
Eu deixei a mochila no chão e olhei para cima. Céu escuro meio assim transbordando uma tempestade que não vem. Dou um riso esquivo, sozinha no ponto. Tudo parecendo realmente uma tempestade inacabada, congelada em fase de preparação, era o que me parecia, num daqueles momentos cotidianos que só o ócio salva. Dói pensar que nessas horas em que tento desesperadamente ser alguém, poderia estar me dedicando a alguma atividade mais produtiva, tipo servindo, ou engolindo conteúdo vomitado de minhas apostilas. Não, fico pensando nessas questões, nos rumores de tudo. Ameaça para todo lado. Eu não tiro o celular do bolso, o cara de jaqueta estranha passou com a moto aqui. Já devo ter visto antes, encasqueto, só me faltava estar sendo seguida. Ou cara leva minha bolsa lotada de papel ou me leva para jogar em matagal. Olha lá, ouço a voz indignada de um jornalista na tv do bar, não é que mataram uma menina de novo? Aguardando o ronco da motocicleta. E nada. A tempestade continua em viés de preparação, e exagero, besteira pensar que enquanto tento desesperadamente ser alguém, são interrompidas muitas outras. Rosas que murcham, corajosas, vertendo sangue.
Coloco as mãos nos bolsos, balanço os pés e sinto o tempo se esvair nessa ampulheta invisível, que de grão em grão fatal custa meus atrasos e minha imagem. Eu mesma devo ser uma tempestade inacabada. Ando a me ameaçar de mudança (sempre para melhor), caem gotas, vem seca; tudo na mesma ou com uma sede pior. Penso em desfalecer na areia (ou num trilho de metrô?). Sabemos que a velocidade reduzida é por causa de um cara decepado. Uma dessas insanidades dessa tempestade que não chove. Dias em que se prefere ser aberto e destruído em público, do que continuar, entre outras insanidades sanas.
O ônibus aponta na subida e eu quase dou graças a deus. O motorista está com cara de quem comeu e não gostou, e eu tento, depois de entrar, manejar bolsa, corpo, cartão, passagem, um sinal verdinho, massacre de gravidade, finalmente: um lugar na janela, perfeito para isolamento. Vou até esse terminal metida dentro do cérebro, sem que as bitucas de cigarro pelo chão, os cachorros abandonados e as casas mal-acabadas façam sentido. Não quero saber, quero um pouco de conforto para prosseguir, abraço minha mochila, junto os pés e logo o tranco da lombada me tira do eixo; que conforto? Talvez dentro daquele carro vermelho, levantando poeira; não sei, às vezes você é reduzido ao que tem.
Vendedor na jangada motorizada, balançando entre as violentadas, diz que tem família para criar e o desemprego os tem comido e jogado às margens do que para mim é toda só uma margem. Tudo muito doente. Tem uma bala no meu colo, tenho a cabeça para alimentar invés de filho. Os livros custam a alma e as crianças noite sem dormir, ainda mais com carteira zerada. Devolvo pro cara a bala, estamos todos ferrados, ele manda deus me abençoar. Sorrio, agradeço, quase sou sincera: pelo jeito que vai, Ele abandonou todos nós. Imagine. Não perca a fé, um testemunha de jeová me entregou folhetinho na frente da estação. Imagine. Eu guardo aquilo dentro do bolso com as propagandas de político, apartamento e academia e vou pensando que a solução é sempre de papel.
Daí dói na garganta e treme a estátua aqui frente à linha amarela esperando a máquina que promete dar meu futuro, mas que é só um trem lotado. Nós, um monte de estátuas de cidade, arrumados e cheirosos e fingidos dos ratos que vão comendo nosso lixo. Nós, que nos consolamos com uma mensagem de chat, filme, sexo, música às sete da manhã no fone, comida. Nós, frutos da tempestade, da revolução que não estoura, do amor que não dura, da vida que sobrevive, da guerra invisível e da insanidade que não se cura. A gente que tentamos desesperadamente sermos alguém, numa terra que há milênios não nos dá nada. Outro saco de bala no meu colo.
Suspiro, dou de ombros e vou dormir.
Fale com o autor