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1 Capítulo 1


Em nossa vida, sempre há aquele acontecimento que tende a nos fazer repensar todo um aspecto de si mesmo. Tem aquelas pessoas que se escandalizam com isso, acabando por negar a questão apresentada mesmo com fatos muito evidentes, outras apenas ficam em choque. Cássio, entretanto, não ouviu de Joaquim nem um “ai”. Para falar a verdade, o amigo até abriu os braços de forma afetuosa e disse:

— Vem cá.

Cássio nem precisou dizer ou fazer algo, uma vez que Joaquim já o tinha abraçado com uma força a ponto de quebrar uma costela ou duas.

— Oi? — Cássio disse, sem entender, com um sorriso nervoso.

Estava indeciso se aquele gesto se tratava de boas ou más notícias.

— Eu aceito! Totalmente! — Joaquim disse em um tom alegre.

—... sério? — Cássio disse com emoção. — Sempre achei que éramos destinados!

— Eu também...! — Joaquim disse, apertando-o ainda mais se fosse possível. — Temos que tirar uma foto comemorativa!

— Também precisamos contar a Débora! Com sorte, ela já chegou do cursinho e pode saber o quanto antes!

— Não sei se poderíamos chamar isso de sorte, se for o caso — Joaquim disse, soltando o outro com alguma relutância, o tom de voz pensativo. — E se ela pirar como sempre?

— Não é como se ela pudesse fazer algo para impedir de vivermos esse amor! — Cássio disse, apertando no botão de “enviar mensagem” do celular, após descrever brevemente a situação. Depois, franziu as sobrancelhas para a resposta que recebeu poucos minutos depois. — Ou talvez sim... apesar de não ser trabalho direto dela.

— Que foi? — Joaquim disse, inclinando-se sobre o ombro do namorado e, ao ver o conteúdo da mensagem do celular, seus olhos se arregalaram de pavor. — Não...! Não pode ser possível!

— É, estamos ferrados.

— Quais as chances de a gente conseguir terminar todos esses exercícios antes da aula de amanhã?

— Estamos ferrados. — Cássio repetiu com a mesma certeza que tinha que se chamava Cássio.

— Bem... para ela nos avisar, mesmo depois de você ter contado sobre a gente, não deve ter reagido tão mal... — Joaquim disse pensativo.

— Ela nem mencionou nada na mensagem... — Cássio disse, massageando a nuca.

— Hum... talvez tenha reagido um pouquinho mal. — Joaquim disse, cruzando os braços. — Mas nada que uma amizade desde a infância não segure!

— Melhor que esteja certo, Débora não é de perdoar quem não é amigo dela. — Cássio disse meio inseguro.

— Eu não ligo, por isso não disse nada. — Débora disse direta. — Vocês, por acaso, já analisaram a interação cotidiana de vocês? Porque eu sim querendo ou não. Acho que já estavam nessa relação há anos e nem sabiam!

Joaquim e Cássio trocaram olhares entre si de muita surpresa e confusão. Conheciam-se, todos os três, desde que iam a mesma creche quando crianças. Então, a mesma escolinha. Depois, o ensino médio. Nunca integraram nenhum grupo específico, apesar dos dois garotos se darem bem com toda a classe e saírem com muitas garotas de outras classes.

Quer dizer, podiam até mesmo namorar por alguns meses, mas, pensando bem, sempre havia uma mesma causa para o fim dos relacionamentos.

“Não posso deixar meu brô na mão” Teria dito um deles. “Não posso escolher entre os dois!” Teria dito o outro.

Já tinham ouvido um colega ou outro tocar no assunto. Contudo, antes, não incomodava nenhum deles. Até que, aos poucos, Cássio foi notando que para ele era mais agradável bagunçar os cabelos de Joaquim do que de qualquer outra garota que havia saído. Cássio suspeitava que para Joaquim a experiência devia ter sido semelhante, ao se lembrar de algumas encaradas que o outro fazia sem um motivo aparente.

— Oh...! Acho que tivemos mais um vislumbre de sua sabedoria infinita, Deby! — Joaquim disse muito impressionado.

— Como recompensa ao seu esforço e tolerância cotidiana a nós dois, você tem direito a metade do meu sanduíche mordido! — Cássio disse animado.

Antes que Débora dissesse alguma coisa, ouviram o sinal para o retorno das aulas. A garota acabou por dizer em tom de derrota:

— Droga... nem toquei no bolo direito.

— Balões com doces? — Joaquim questionou ao outro.

— Ok. — Cássio disse, ao terminar de prender com fita adesiva o último no teto.

— Mais besteiras? — Joaquim apontou para a amiga deles.

— Operantes. — Débora disse, balançando a cabeça depois, provavelmente se perguntando como tinha amigos tão bobos.

— O jogo também está ok, então... Let’s Party! — Joaquim disse animado, levantando uma das mãos ao ar.

Cada um dos três pegou seu Bii Remote, religaram, e iniciaram a partida do Wario Party.

— Essa Louise, maldita! — Débora disse irritada, 6 horas depois. — Sempre ganhando todos os mini-games!

— Shh! Baixo! Minhas preciosidades estão dormindo! — Joaquim disse, deixando o remote de lado por um momento para alisar a gatinha que dormia próxima de Cássio, que também dormia.

—... eles parecem muito bem. — Débora acabou por falar, sem pensar muito.

— É, espero que isso não mude tão cedo. — Joaquim disse, beijando de leve a testa de Cássio.

Nada como uma bagunça de papéis de bala, balões estourados, e pacotes de salgadinho no chão junto com seu jogo favorito, sua melhor amiga, e a pessoa que se ama bem próximo.

Notas finais
Até!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!