Príncipes

3 Térata: O Reino dos Monstros


Em uma noite sem estrelas, uma força de caos surgiu



Kim Nam-Joon


" Por muito tempo eu acreditei que ser um monstro era algo do qual eu deveria me envergonhar. Não era fácil ler nos livros que sua espécie destruía as outras como animais irracionais, impactaria qualquer criança. Apesar de as histórias sempre dizerem que as deusas eram amáveis e compreensivas e que elas viram que havia bondade em criaturas criadas para destruição, nunca diziam exatamente porque éramos dessa forma. Na verdade, ninguém sabia me dizer, não importava a quem eu perguntasse, onde procurasse, do jeito como são escritas as histórias, parece até que os monstros apenas apareceram pelo mundo, sem razão e sem propósito, como não mais que pragas.


Mas isso não é possível, afinal tudo surge de algo e por alguma razão. Meu povo cometeu erros, mas na minha percepção, enquanto crescia, percebia cada vez mais que isso não nos fazia diferentes de qualquer outra criatura desta ilha. Então por quê só os monstros não tinham origem?


Desde então, olhei para meu povo de forma diferente. Eu devia ter por volta de onze anos quando começei a me perguntar, mas só aos 16 pude olhar para meu reflexo no espelho com os olhos abertos, olhos repletos de honestidade e de incertezas. Mas eu sabia exatamente o que eu era: Um monstro.


Um monstro, parte de um todo, de um povo arrependido do seu passado violento. Um todo que passou por cima de toda rejeição externa, refez sua sociedade e tenta escrever uma nova era. Térata tem um povo pacífico desde o dia em que as deusas nos deram o perdão divino. Já faz milênios que os monstros não apresentam ameaça aos outros povos, mas ainda assim não é o bastante. Nunca aceitaram o perdão que suas próprias deusas nos deram, nunca deixaram que Térata sequer pudesse mostrar outra postura. Iniciaram uma guerra, tomavam as terras que as próprias deusas nos deram e ainda assim, o reino de Térata manteve a honra e a promessa de uma mudança, apenas se defendendo.


Eu passei a ter orgulho e amor por quem eu era, porque meu povo me fazia sentir isso. Via nossa lealdade a promessa que nossos antepassados fizeram, e aquilo me fez um homem honrado e um príncipe dedicado para o melhor dos propósitos: buscar respostas. Não me consideraria satisfeito como rei enquanto não conseguisse desvendar nossa história, eu descobriria de onde viemos, eu nos faria respeitar pelo restante de Theous."


[...]


Foi chocante ver cara a cara o príncipe de um dos reinos que mais tentou destruir meu povo. Mais ainda foi reconhecer que sua presença não demonstrava ameaça alguma. Minha imaginação tendia a esperar um homem mais intimidador, devo admitir, em algum lugar dentro de mim senti certa vergonha.


Um fato que todos deveriam aprender, por mais destruidor de fantasias que ele seja, é que os retratos da realeza são todos uma bela farsa. Eles são sempre fabricados para passar a ideia que a família deseja. Algumas vezes, em Térata, tive como ver o rosto do príncipe Kim Seok-Jin através do seu retrato, e nele a sua pessoa tinha uma aura bem mais séria do que a que se apresentava na realidade. Nós nos apresentamos mais por hábito e modos da realeza do que por qualquer outra razão. Já sabiamos muito bem de quem nos tratávamos, apesar de sermos também, completos estranhos. Minha cabeça estava uma bagunça, aquilo era absurdo. Eu estava sendo emboscado?


"Você ainda não me disse o que veio fazer aqui, Kim Seok-Jin."


Seok-Jin arregalava os olhos de tal forma que parecia tão nervoso quanto eu. Será que ele também acha que está sendo emboscado? Ou só está com medo de talvez ser uma isca viva? Quando estava perto de formar uma terceira teoria mais conspiratória que as duas passadas, Seok-Jin me respondeu:


"Eu treino aqui todas as manhãs, mas hoje me atrasei e pensei em repor durante a noite... eu não sabia que iria encontrar outra pessoa aqui. É que costuma ser vazio de manhã.


Eu fazia o mesmo, mas no horário da noite. Então nenhum de nós estava sendo emboscado? Seria um caso de coincidências casuais entre pessoas que moram em uma ilha?


Não posso dizer que Seok-Jin nunca me pareceu uma ameaça, pois isso seria uma mentira descarada. Talvez muitos pensem que eu estava suspeitando até demais, só que quando se está em guerra você acaba desenvolvendo certas couraças mais rígidas. Seok-Jin tinha cabelos castanhos e olhos da mesma cor, ele tinha um rosto bonito e olhar sonhador, e ainda que a expressão nervosa não favorecesse seus traços, era um verdadeiro príncipe encantado dos contos de fadas. Sua pintura já mostrava tais coisas, mas ser real diante dos olhos é muito impressionante.


Ficamos muito tempo só olhando um para o outro, como quem está vendo algo completamente inacreditável, até o ponto onde estava ficando deselegante. Tentamos então continuar com o que viemos decididos a fazer. Cada um foi para um canto, tentando ignorar e fingir que esse encontro nunca aconteceu, mas não demorou para aquilo se provar impossível. A existência de Seok-Jin causava tanta curiosidade para mim quanto uma terra inexplorado causa a um aventureiro e parecia que ele sentia o mesmo, pequenas espiadas aqui e ali, viradas de giros que mais pareciam desculpas do que mudanças de posicionamento, nenhum de nós foi sutil. No entanto, alguém ainda precisava quebrar o gelo e Seok-Jin foi quem teve o impulso mais forte:


"Por que aqui? Não é perigoso pra você crusar a fronteira?"


Ele não tinha aquele tom de "esse não é seu lugar", que era metido e malicioso. Não, Seok-Jin parecia apenas um rapaz com curiosidade genuína. De certa forma até senti algum certo tom de preocupação, mas não deveria ser, pelo histórico não teria sentido, mas ele estava sendo cordial, então eu não deveria tratá-lo diferente:


"Em condições normais, até seria, mas hoje em dia a fronteira é meu menor problema. Digamos que eu tenho os meus segredos, segredos que eu não conto nem mesmo a meus pais. E esse lugar é especial, não acha?"


"Ah, com certeza. É lindo, eu o considero o mais encantador de Mágissa, o único que tem essa paz."


"Sim..."


Meu rosto fechou um pouco. De Mágissa... claro... mesmo cordial, ainda era quem era. Seok-Jin percebeu o expressão infeliz, rapidamente perguntando:


"Eu disse alguma coisa? Não queria ser indelicado."


Por que se importava? De novo aquela expressão, então era realmente preocupação? Pelo quê? Por que se preocuparia com o inimigo? Decidi que era melhor manter as coisas as claras, ele não era perigoso, e se fosse, eu era incapaz de perceber, então que diferença faria qualquer coisa que fizesse?


"É que esse riacho fazia parte da divisão original do reino de Térata, sabia?"


A expressão de preocupação aumentou de tamanho, ele era estranho.


"Sério?"


"Sim, antes dos primeiros ataques. Depois o território foi tomdo e as fronteiras da guerra começarem a se desenhar."


Ele olhou pro chão como quem procurava alguma coisa. O que esperava encontrar? As linhas que diziam Mágissa ou Térata? Essa era mais adiante, se chamava "fronteira". Voltou-se logo para mim, um pouco melancólico.


"Nunca tinha ouvido sobre isso... eu... sinto muito."


Palavras quase bobas para um príncipe, mas de alguma forma, não senti que agia como príncipe. Desde o início da noite, sendo bem honesto, nenhum de nós estava agindo como príncipe. Seok-Jin me disse, e seu rosto realmente mostrava que sentia muito. E eu pensava que talvez ainda estivesse mais desconfiado do que imaginei.


"Não é tão incomum... estamos em guerra. A informação se perde e se transforma em questãode segundos, imagine em anos."


Seok-Jin me olhou, ainda parecia para baixo:


"Não quero ferí-lo, de forma alguma."


Imaginei que não, se não já deveria tê-lo feito. Como resposta me sentei a beira do riacho, observando as rãs saltarem para a água. Ainda incerto, Seok-Jin se sentou ao meu lado, e só quando ele parecia ter relaxado, voltei a falar:


"Gosto daqui pois tem dias que o mundo é muito barulhento. Eu queria um lugar onde ninguém me achasse, então pensei que valia o risco tentar encontrar esse pequeno paraíso."


O rapaz ao meu lado soltou uma bela risada:


"Me desculpe!"


Ninguém se desculparia por uma risada como aquela. Ele tentava, sem muito sucesso, conter o riso enquanto eu o observava:


"Desculpe! É que eu também buscava um refúgio quando encontrei esse lugar. E é irônico o fato de estarmos tentando nos esconder do mundo, mas mesmo assim termos nos encontrado!"


Ele estava certo, era irônico. Mais que isso, era antes de tudo uma história que se eu contasse ninguém acreditaria. Ou então pensariam se tratar de uma piada, até aquele momento eu também pensava que poderia se tratar de uma. A conversa acabou rendendo, em pouco tempo já havíamos nos esquecidos de qualquer treino. Seok-Jin gostava de conversar casualidades e seu sorriso era charmoso. Me perguntava se eu gostava de ler e com toda a curiosidade inocente, se haviam bons teatros em Térata. Estava gostando da noite, era divertido ter conversas despretensiosas, apesar de Seok-Jin não parecer totalmente satisfeito. Algo em seu olhar parecia chamuscar às vezes, quase a beira de se acender, mas ele se controlava. Esperava do fundo do coração que não fosse um instinto violento, porque seria desagradável lutar com outro príncipe. Especialmente o de Mágissa. Especialmente na fronteira deles. No meio de um cessar fogo. O que é certo dizer, é que eu e Seok-Jin agora éramos conhecidos. Daquele tipo que se conhece e é difícil de esquecer.


Quando saiu naquele fim de noite, eu senti assim que nos despedimos... que ele não iria me deixar esquecê-lo.


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Kim Seok-Jin


A sensação de estar totalmente sem rumo que eu tinha enquanto ia ao riacho, sumiu completamente depois que pus os meus olhos naquele rapaz. Eu sabia bem quem ele era, estudei sua linhagem, só que no retrato que eu tinha ele era diferente. Seus cabelos eram da cor do ébano, não rosas, como quando o conheci.


Talvez para o restante do mundo parecesse invasivo e descuidado mas para nós dois... digo, ao menos para mim, foi apenas casual. Conversar com ele foi como receber uma resposta, só me provou ainda mais que o povo de Térata não é movido pelo terror! Nam-Joon era tão educado, inteligente e gentil, tinha uma conversa boa e covinhas sempre que sorria, ainda que estivesse um pouco desconfiado. Cada palavra nossa me fazia sentir que tínhamos uma certa sintonia, não queria que aquilo acabasse nunca, mas eu precisava voltar.


Só então percebi que havia sujado mais minhas roupas do que o de costume ao me sentar na margem. Tomar um banho relaxante teria sido bem mais fácil se minha cabeça não estivesse martelando ideias cada vez mais malucas sobre como poderia tentar vê-lo novamente e fazê-lo ler um certo documento que se encontrava em minha bolsa de estudos. Eu precisava, não, eu queria desesperadamente vê-lo de novo! Não poderia de forma nenhuma apenas dizer ao meu parlamento que queria visitar o príncipe de Térata, seria tolice! Pior ainda seria tentar ir para o reino inimigo escondido, ainda há gerra, eu poderia me colocar em apuros. O único jeito, mas também o mais incerto, seria tentar revê-lo da mesma forma no dia seguinte.


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Voltei ao riacho pelo mesmo caminho e na mesma hora do dia anterior. O coração batendo a mil, mas não de angústia como da última vez, agora era algo positivo. O que eu iria fazer se ele não estivesse lá? E se ele não mais aparecesse depois de nos encontrarmos naquela noite? Seria algo compreensível, pois se eu o traísse e contasse para meus exércitos onde ele costumava ir na calada da noite, considerando que estamos em guerra, não teriam motivos para não levá-lo preso e as consequências poderiam ser terríveis. Pensando dessa forma, ele até poderia fazer o mesmo comigo. Arrumar uma emboscada pela manhã para tentar me capturar e usar de refém. Quanto mais se pensava, mais as escolhas que fiz soavam irresponsáveis e não escondo que de fato era levado não pela lógica ou pelo bom senso, mas pelo coração.


Fui chegando perto do vale ao redor do riacho bem devagar, queria acreditar no sinal que me havia sido dado. Talvez estivesse a fim de me segurar com as unhas na magia que eu senti aquele dia. Sentei, observei as rãs, minha mente repetia insistente:


"Por favor, me provem que não estou perdendo a razão..."


E foi quando sua voz me trouxe de volta a realidade. Igualzinho como no outro dia:


"Bem, você está conversando com as rãs, não é bem um atestado de perfeito juízo. "


Fiquei tão aliviado que me virei subitamente, buscando seus olhos escuros. Ensaiei tudo o que queria dizer mil vezes, mas diante dele, mais uma vez aquela sensação estranha, agora eram como formiganentos subindo pela minha coluna até descer novamente por meus braços. Nam-Joon me observou e abriu um pequeno sorriso travesso:


"Você perdeu a hora de novo, príncipe Seok-Jin?"


Eu lhe dirigi um sorriso sem graça:


"Ah, não... digo, sim, na verdade não exatamente. Hoje não treinei pela manhã, mas foi proposital."


"E sob qual propósito?"


Poderia ter deixado a coisa menos estranha, mas aquela sensação era mais forte, tomou conta de minha razão e de minha língua. Além disso, estava cansado de ficar sendo devagar e diplomático como fazia com o parlamento. Não gosto de ficar pondo esses panos mornos:


"De conseguir vê-lo novamente."


O rosto de Nam-Joon ficou levemente surpreso, mas ainda estava cauteloso. Dava para ver na forma como se mantinha em alerta. No entanto, havia vindo sozinho até onde eu podia constatar, visto que o príncipe de Térata ainda estava sem palavras pelo meu atrevimento, continuei a me explicar:


"Estava com medo de que nunca mais fosse lhe ver, ou então que essa minha ação impensada fosse me colocar em apuros, de acabar a noite como um prisioneiro..."


"Eu jamais faria-"


"Eu sei. Bem, na verdade eu sinto. Senti que não iria me tratar de forma hostil. Só não consigo entender, por quê confiou em mim, sendo que todos os meus medos também deveriam ser os seus?"


Nam-Joon estava com uma expressão levemente assombrada no rosto, talvez eu tenha falado muito rápido. Ele engoliu em seco, respirando bem fundo antes de me responder de fato:


"Sendo sincero, eu confiei que esse lugar era querido por você. Se contasse aos soldados que me viu por aqui, nunca mais voltaria a vê-lo na calma em que se encontra agora."


Para muitos poderia parecer um motivo pequeno demais para quem está em tempos de guerra, mas para mim ele fazia todo sentido. Era honesto e modesto. Ele continuou:


"E você? Não temeu o que eu faria? Não temia que o traísse ou que lhe enfeitiçasse com magia sombria?"


A aura de Nam-Joon se tornou subitamente mais pesada, seus olhos ganharam uma coloração avermelhada. Não como uma luz que se acende, mas como algo que é manchado com sangue. A magia sombria fez desabrochar as flores do mato aos seus pés, como se estivesse forçando-as. E tão logo se abriram, os botões foram também contorcendo e murchando. Quando seus olhos voltaram ao normal e o peso se dissipou do ar, ele ainda parecia me desafiar. Respirei fundo, talvez fosse uma demonstração intimidadora para quem não sabe muito bem o que a magia sombria é capaz de fazer:


"Eu vi que você não era esse tipo de pessoa, senti que nós dois havíamos nos dado bem e que nosso encontro foi um sinal divino."


Certo, posto desta forma realmente pareço alguém longe de qualquer espécie de sanidade. Nam-Joon arregalou os olhos, o que eu estava fazendo? Precisava quebrar o gelo:


"Inclusive, bem impressionante a coisa das flores"


"Não pareceu tanto para você, não moveu um músculo"


"Queria me assustar?"


"Queria ver se você se assustaria, mas não necessariamente queria que tivesse medo."


"Até porque se quisesse realmente poderia ter feito algo muito maior."


"Ah, não lhe importa a morte as flores?"


"Elas crescerão novamente... talvez ainda mais bonitas."


Nam-Joon sorriu divertido. Se aproximou e eu não me movi, deixando que viesse como achasse melhor:


"Você é diferente..."


"Desculpe, não quis deixar a conversa estranha."


"Não é ruim. É diferente do que estou acostumado."


Havia um coisa que eu queria saber, mais do que todas as outras e de maneira desesperada. Nam-Joon parecia perfeito para ouvir e eu queria poder lhe contar e lhe mostrar o que vim pensando por todos esses anos. Quem sabe me ajudasse a tornar meu sonho em realidade! Sei que agi de forma precipitada, mas talvez nunca mais nos vissemos e eu precisava jogar com as cartas que tinha:


"Nam-Joon, você acredita que podemos conviver em paz?"


Ele me olhou profundamente, seus olhos brilhavam com uma intensidade desconhecida ainda por mim:


"Acredito que estamos fazendo isso..."


"Acredita em um tratado de paz?"


"Eu seria desonesto se dissesse que não."




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E assim, Nam-Joon e eu continuamos com nossos encontros noturnos. Às vezes faziamos treinos de magia juntos para que pudessemos nos conhecer melhor. Vê-lo em ação era fascinante, pois a magia sombria sempre me foi descrita como uma distorção de tudo o que era bom na magia. Eu entendia melhor agora, mas nem tudo fazia exato sentido. Haviam feitiços e outras práticas em comum com a magia que eu mesmo fazia, mas além de potencialmente mais perigosa, a magia sombria era imprevisível. O que se diz, é que a dor que um feitiço de ataque comum causa é mil vezes pior se for lançado com magia sombria. Nam-Joon por sua vez, me disse que era mais complexo do que isso, não se trata apenas de uma questão de força ou mera crueldade:


"Magia sombria é magia de monstro, somos feitos dela, assim como as magias elementais, ela está no mundo e dentro de nós. É possível que outras criaturas tentem e consigam usar ela, mas quem ousar vai sentir os efeitos."


"Magia de destruição..."


Sua expressão ficou um pouco estranha, mas ele não corrigiu minha fala. Em vez disso olhou para meus olhos rapidamente, acrescentando depois:


"Não só a do alvo, mas a sua própria. Seu corpo, sua mente, sua alma..."


Engoli em seco. Dito dessa forma, qualquer monstro parecia muito mais forte que outra criatura. Como poderia haver um poder que fosse tão devastador para o restante da existência e que somente pudesse ser utilizado por um grupo seleto de pessoas? De onde vinha tal força? Quando não estávamos criando magia, tínhamos bastante tempo para fazer perguntas pseudo-existencialistas que normalmente ficavam sem resposta, como essas últimas. No entanto, depois de uns 3 encontros, achamos a abertura para falar de política e aí passamos a maior parte do tempo discutindo o que faríamos quando fossemos coroados reis. Discutindo alguns pontos, complementando e editando milhares de vezes meu tratado de paz, tal que agora seria mais correto chamá-lo de nosso. Nam-Joon era rápido e eficiente em apontar as fragilidades do meu trabalho, mas nunca de forma desestimulante. Ele queria ouvir, ele queria fazer isso junto comigo.


Já éramos amigos depois de quase um mês nos encontrando, até tínhamos trocado fios de cabelo para fazer o feitiço do fio. Com o fio de comunicação estabelecido entre nós, agora poderíamos enfeitiçar cartas que apareceriam magicamente em nossos quartos, ainda que sempre preferíssemos os encontros de verdade.


Nossa aliança poderia ser interpretada por nossas leis como conspiração, traição ou tentativa de golpe. Pessoalmente, preferíamos conspiração, era o termo mais adequado. Discutíamos uma forma de fazer meu parlamento se sentir compelido a aceitar minhas ideias, iniciando assim as manobras de conciliação em Theous. Se eles não quisessem... bem... seriam inimigos do povo dessa ilha, deveriam ser depostos. Não pretendíamos dissolver, não acho que seria saudável extinguir sua função, mas em algum momento se deve renová-lo, ainda mais se começam a agir contra o bem estar das pessoas. Mas isso é o plano d, muito pessimista, acredito que vamos conseguir sem precisar recorrer a tanto caos! Nam-Joon não comentou, mas ficou bem explícito que ele não acreditava tanto quanto eu... mas como eu disse, isso é futuro! Nossa prioridade do momento seria menos sobre parlamentares e mais sobre encontrar aliados para nossa pequena empreitada. Por mais que fossemos príncipes, éramos também dois rebeldes solitários e assim não iríamos muito longe.


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No dia em que cheguei mais cedo que meu amigo de Térata, foi quando os primeiros passos em direção ao nosso objetivo inicial chegaram a algum lugar. Sua mão tapou meus olhos por trás, rindo e se culpando por ser responsável pela destruição do meu hábito de acordar cedo. Quando lhe cobrei que tirasse as mãos dos meus olhos, soube que tinha uma surpresa e não gostaria de estragar a coisa toda:


"Eu andei pensando sobre nossa aliança e tive uma ideia, mas... você precisa ter a mente aberta."


Quando demonstrei preocupação com o mistério todo, ele explicou que queria me apresentar a alguém. Me disse que era o amigo em que mais confiava e que sabia que ele entraria no nosso plano sem nem pensar duas vezes. Nam-Joon completou sua apresentação expondo que seu amigo era um pouco inconsequente mas tinha os olhos e feições sérias de um soldado, então removendo as mãos.


"Pelas deusas...!"


Não foi a coisa mais educada para se dizer, mas o que vi em minha frente era impensável! Um garoto pálido e de cabelos ciano, muito mais baixo que Nam-Joon e eu, com um olhar que parecia indiferente a tudo. Tinha uma espada guardada na bainha preta e usava vestes de nobre. Eu sabia quem ele era, todos que viviam no meu mundo sabiam muito bem:


"Prazer, sou Min Yoon-Gi."


Se apresentou, com a voz e a cara mais frias que gelo. Nam-Joon completou o que ele falou, de maneira descontraída:


"Mais conhecido como 'O príncipe-problema'"


Os dois discutiram casualmente, Nam-Joon ria e Yoon-Gi parecia estar emburrado pelo que foi dito a seu respeito. Eu apenas não estava prestando a mínima atenção na conversa, era como se estivessem apenas gesticulando sem verbalizar nada, estava perdido nas minhas próprias paranoias. Eu tinha acabado de conhecer o "príncipe-problema" e ele queria se juntar ao meu plano louco...? É isso mesmo? Eu estava feliz, claro, por alguém ter se interessado. Mas também surpreso por ser ele... incrédulo? Mas não era bem impossível de imaginar O príncipe-problema metido na minha empreitada perigosa, ele tinha fama se entrar de cabeça no perigo.


O 'príncipe-problema'... me perguntei o quão longe poderíamos ir.

Notas finais
Oi, voltei a mexer nisso, espero terminar desta vez. Estou reescrevendo os capítulos antigos para poder seguir em frente, ajustando algumas coisas, mudando outras, muita coisa muda em 6 anos... e essa história é muito mais velha que isso kkkkkk espero que alguém ainda leia isso. Um beijo, obrigado. Capítulo dedicado à minha prima e também à minha irmã, obrigado por tudo.~☆
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.