Príncipe de Fogo
1 Destino.
Notas iniciais
Lily o sentiu antes de o ver.
Era engraçado, ela pensou, no quanto havia se familiarizado com aquela sensação nos últimos meses e, embora devesse estar mais brava com toda aquela situação levando em conta o fato de que estava sendo caçada, era reconfortante perceber que, mesmo tudo em sua vida tendo mudado drasticamente nos últimos tempos, aquela parte continuava a mesma.
A terra ao seu redor estremeceu levemente, de forma tão quieta e indistinguível que o único modo de ela ter sabido daquilo era porque grande parte de seu treinamento como Avatar se concentrava em sentir os elementos. E, também, porque havia passado tanto tempo fugindo dele que desenvolvera quase um sexto sentido para encontrá-lo.
Erguendo-se da pedra onde estivera meditando, Lily dobrou o ar para sobrevoar sobre Sirius, Remus e Marlene, seus amigos adormecidos, não querendo acordá-los no meio da madrugada para presenciar outra investida de seu – de acordo com Sirius – “nêmesis”.
Lily tinha certeza de que conseguia lidar com ele sozinha, principalmente quando o conhecia o suficiente para fazê-lo cooperar. Não que mais alguém precisasse saber sobre aquilo.
Pelo menos não ainda.
Suspirando para si mesma, ela pousou sobre a ponta dos pés e então fechou os olhos, deixando a energia do ar penetrar em sua alma, deixando que a terra sob seus pés revelasse o que não podia ver, deixando que os elementos lhe mostrassem onde ele se escondia.
Ela sorriu quando descobriu, correndo sorrateiramente e a toda velocidade para o meio da floresta, utilizando suas sombras para embrenhar-se entre árvores e montes sem ser descoberta.
Quando chegou à beira do riacho onde sabia que o encontraria, parou de correr, deixando que seus pés se acostumassem ao solo rochoso e úmido enquanto caminhava com tranquilidade próxima à água.
— Não quis trazer seus cachorrinhos de guarda hoje? — Foi o que ele perguntou, seu tom zombeteiro fazendo com que ela rolasse os olhos.
— Não achei necessário acordá-los para algo tão sem importância. E eles não são cachorros. São meus amigos. Não que você saiba o que é isso, é claro. — Lily deu de ombros antes de tocar a água com os pés e suspirar com alegria ao senti-la leve e refrescante contra sua pele.
Sendo nascida da Tribo da Água do Norte, Lily se sentia feliz toda vez que tinha oportunidade de estar em contato com o elemento. E, embora a terra e o ar fossem incríveis também, sempre haveria aquela familiaridade distinta toda vez que a água estava por perto.
— Eu tenho amigos. — Ele praticamente cuspiu tais palavras, movimentando-se em sua direção, embora longe o suficiente para não estar sob sua mira. — Você parece despreocupada demais levando em conta que está aqui sem qualquer proteção e que eu poderia te capturar e ninguém descobriria isso até ser tarde demais.
— Eu posso me defender sozinha, Vossa Alteza. — Lily deixou o comentário soar maldosamente ao seu redor antes de finalmente voltar-se em direção às árvores para encará-lo.
Cabelos escuros e bagunçados, olhos castanho-esverdeados que pareciam capazes de queimar cidades inteiras (e, confie em Lily, podiam), roupas vermelhas com detalhes dourados, longas o suficiente para cobrirem a cicatriz que Lily sabia se estender do braço direito até o peito do Príncipe da Nação do Fogo e que fora causada pelo Rei da Nação do Fogo. Seu próprio pai.
James Potter.
E ele a encarava de forma calculista, observando-a com atenção enquanto Lily caminhava na beira do rio.
— Você realmente pode? — James perguntou e deu mais um passo em sua direção, suas mãos erguendo-se para uma posição de combate.
Lily arqueou uma sobrancelha.
— Você quer testar, Potter? — Indagou e estreitou os olhos para as duas bolas de fogo que se formaram nas mãos do rapaz.
— Não tem ideia do quanto, Evans. — Ele disse e, pela primeira vez na noite, sorriu. Isso antes de mover suas mãos rapidamente a fim de atingi-la com o fogo.
Movendo-se até ter a cintura submersa, Lily desviou das chamas, erguendo os braços e criando laços afiados com a água antes de jogá-los em direção ao garoto que também desviou e voltou a atacar, desta vez com um redemoinho de fogo que foi desfeito por Lily com um sopro potente de ar.
— Nada mal, Alteza. Mas acho que vai precisar de mais do que isso. — Lily disse e então correu sobre a água, batendo com o calcanhar no solo rochoso a fim de formar várias flechas de pedra e lançá-las em direção ao príncipe.
Com um movimento gracioso, James puxou sua espada, desviando os projéteis com maestria ensaiada, um sorriso arrogante cresceu em seus lábios enquanto se aproximava de Lily através de sua investida, chamas cintilando por toda extensão de sua arma ao brandi-la para ela.
Suspirando, Lily puxou sua própria espada, rolando os olhos para o dramatismo do garoto. Sempre querendo fazer uma cena. Movendo sua mão livre para o rio atrás de si, Lily coletou água o suficiente para lançar em direção à espada do garoto, apagando suas chamas no exato instante em que suas armas se chocavam.
— Você precisa mesmo fazer isso toda a maldita vez, Potter? — Ela perguntou enquanto se movia rapidamente entre golpes, elevando e baixando sua espada, faíscas voando ao seu redor enquanto batalhavam com ardor. Suor escorria de suas testas e suas respirações eram ofegantes, mas nenhum deles estava perto de desistir.
— Oh, mas é claro! Você não é aquela que me chama de teimoso? Talvez tenha razão, Avatar. — O garoto murmurou para ela, olhos castanhos perfurando os verdes antes de lançar-se para outro golpe.
Eles giraram em volta um do outro, seus corpos movendo-se com agilidade e perfeição numa dança que parecia ensaiada e, levando em consideração a quantidade de vezes que se encontraram em tais posições nos últimos meses, não era bem uma mentira. Espadas se chocavam no ar e seus rostos estavam a apenas alguns centímetros de distância em um momento e a vários metros no outro. Suas respirações se misturavam e se afastavam e seus olhos nunca perdiam o foco, apenas observando, esperando, julgando qual seria o instante certo para...
— AH! — O grito de James foi alto o suficiente para fazer com que alguns pássaros voassem de seus ninhos no alto das árvores, mas nenhum deles se importou, pois, naquele instante, sua espada estava em chamas novamente fazendo com que Lily pulasse para trás.
Cambaleando, os pés dela encontraram a água novamente e, fechando os olhos, usou sua dobra d’água para fazê-la subir por toda extensão de seu corpo e à toda sua volta, criando uma onda grande o suficiente para que James, que ainda tinha os olhos arregalados em horror diante do que acabara de fazer, se assustasse.
— O quê- — Ele começou a perguntar, mas ela não lhe deu tempo. Com um movimento dos braços, fez com que a onda o submergisse, puxando-o em sua direção e para dentro do rio.
Quando, por fim, ele estava à sua frente, Lily deixou seu poder esvair, sentindo a água escorrer por seu rosto e cair no rio que os cobria quase até os ombros.
Ela o encarou por longos minutos, esperando pelo momento em que ele finalmente erguesse os olhos para os dela.
Quando percebeu que não aconteceria, Lily suspirou.
— James...
— Não. — Ele a cortou e então passou uma mão pelo cabelo num gesto que ela conhecia bem o suficiente para saber que representava nervosismo.
— Você-
— Eu disse não! — Ele finalmente a encarou e foi penoso para Lily perceber a dor contida em seus olhos, o fogo completamente extinto, deixando espaço para apenas escuridão.
— Por quê? — A voz de Lily era suave assim como seus movimentos sob a água enquanto se aproximava do garoto com calma, não querendo espantá-lo.
— Você sabe o porquê!
— Não, eu não sei.
Soltando um riso sem humor, James rolou os olhos para ela.
— Lily, eu sou o príncipe da Nação do Fogo. Meu pai está por trás dessa guerra e ele me odeia tanto que foi capaz de me expulsar da minha própria Nação, dizendo que só posso recuperar minha honra e retornar quando eu te capturar! Eu sou seu inimigo-
— Mas não precisa ser. — Lily suspirou e fechou os olhos, sentindo-se exausta.
Era apenas... eles já haviam tido aquela conversa incontáveis vezes nas últimas semanas. Desde que ela percebera o quanto custava para James ter de caçá-la, o tanto que aquilo parecia exauri-lo não apenas fisicamente.
Havia dor nos olhos do garoto que, por meses, fora seu maior medo. E, por mais que quisesse odiá-lo, por mais que quisesse culpá-lo por todas as coisas ruins que aconteciam ao seu redor, pelo estado do mundo, pelo seu futuro como Avatar... aquela não era a culpa dele para levar.
E, ao perceber aquilo, Lily também percebeu que James, apesar de não querer demonstrar, estava tão perdido quanto ela. E fora por conta disso que decidira tentar salvá-lo também. Por isso e por todos aqueles sentimentos estúpidos que povoavam sua mente e seu corpo toda vez que ele estava por perto.
E ela sabia que eram recíprocos.
Afinal o olhar que ele tinha quando a observava mesmo quando estavam lutando, aquele olhar cheio de raiva misturada com admiração, era o mesmo que Lily tinha depois de perceber as várias camadas que haviam por debaixo de toda aquela fachada arrogante de príncipe da Nação do Fogo.
Ele era bom. E só o fato de não a atacar mesmo ela estando tão desprotegida e despreocupada naquele momento, mesmo estando diante dele de olhos fechados, comprovava isso.
Ao abrir os olhos novamente, Lily deparou-se com os castanho-esverdeados de James já a observando. E, pela primeira vez em um longo tempo, eles não estavam toldados com chamas raivosas.
Não.
Ainda haviam chamas, mas elas eram confortantes e cheias de sentimentos que Lily sabia que James não deixaria transparecer para qualquer outra pessoa. Sentimentos que ele tinha por ela e que ela aprendera a ler ao mesmo tempo em que decifrava os que tinha por ele.
Sem dizer nada, Lily ergueu suas mãos até o rosto do garoto, tocando-o com gentileza enquanto o observava inclinar-se em direção ao seu toque.
Eles ficaram daquele modo por longos minutos, apenas respirando o mesmo ar e esperando, esperando e esperando... até que James suspirou e fechou a distância entre eles, colocando seus lábios sob os dela com doçura e paixão.
Sentindo-se estremecer, Lily moveu suas mãos até estarem afundadas nos cabelos de James, puxando-o para mais perto a fim de aprofundar o beijo, deixando-o apertá-la ainda mais contra si, seus braços fechando ao redor da cintura de Lily, suas mãos tocando-a em todos os lugares certos enquanto sua língua chocava-se contra a dela.
Ela suspirou e desceu as mãos por suas costas, baixando-as até encontrar a abertura da camisa, sem se importar muito antes de enfiá-las sob ela, arranhando a pele quente e macia que encontrou, recebendo gemidos roucos em resposta.
Quando sua mão esquerda tocou o ombro direito de James, sentiu-o apertá-la ainda mais. A pele ali era mais áspera, inconstante assim como as chamas que certamente o haviam atingido. Lily tocou-o com suavidade e carinho, deixando sua mão vagar levemente e tentando transmitir através do beijo tudo o que sentia por ele deixá-la tocar em seu ponto mais vulnerável.
A água ao redor deles ficou mais quente devido aos sentimentos abrasivos do príncipe de fogo, mas Lily não se importou, pois, embora ele estivesse causando aquilo, ela confiava nele o suficiente para saber que ele não a machucaria.
Não agora e nem nunca mais.
E, embora ela tivesse certeza daquilo, certeza de que ele jamais faria algo contra ela novamente, também sabia que James ainda não conseguia aceitar tais sentimentos e que precisava enfrentar a batalha entre sua mente e seu coração antes de ser capaz de aceitar Lily em sua vida como algo diferente de sua caça.
Por conta disso não foi surpresa quando ele se afastou, ofegante, seus olhos arregalados enquanto a observava em um misto de desejo e horror.
— Nós não devíamos ter feito isso. — Ele disse, fazendo com que ela sorrisse levemente.
— Não foi a primeira vez, James.
— Mas precisa ser a última. — Ele tentou soar final, mas havia incerteza em suas palavras.
O sorriso de Lily cresceu.
— Se você diz, alteza.
James estava prestes a responder quanto o som de passos ecoou pela floresta ao redor deles, fazendo com que ambos ficassem alerta.
— São os meus amigos. Eles devem ter ouvido nosso confronto. — Lily murmurou, sentindo o ar ao redor moldar-se de forma conhecida.
— Eu devo ir. — James sussurrou em resposta, afastando-se de Lily e voltando para a área rochosa ao redor do rio.
— Não vai me levar como prisioneira, Potter? — Lily indagou, seus olhos brilhando em diversão enquanto observavam o garoto passar as mãos pelos cabelos molhados para afastá-los de seu rosto de um modo que não deveria ser tão irresistível quanto ele fazia parecer.
— Hoje não, Evans. — James respondeu e então voltou a encará-la, seu habitual sorriso arrogante fazendo uma aparição em seus lábios. — Hoje não.
— Estarei esperando ansiosamente então. — Lily sorriu em resposta. — Talvez você decida ficar da próxima vez.
— Ou talvez eu te leve da próxima vez.
— Eu não acho que você faria isso, James. E acho que você sabe disso. — Ela piscou para ele, saindo do rio e usando a dobra de ar para secar-se.
— Veremos. — O príncipe murmurou mais uma vez antes de usar calor para fazer a água que o molhava evaporar e desaparecer nas sombras da floresta.
— Tchau, James. — Lily disse para o nada. — Boa noite.
— Boa noite, Lily. — O sussurro soou quente contra os ouvidos de Lily e, embora os passos de seus amigos se aproximassem junto de seus gritos nada discretos, a voz de James foi o que ressoou pelos seus pensamentos pelo resto da noite.
Quando Sirius, Remus e Marlene a encontraram na orla do rio e perguntaram, confusos, o que ela estava fazendo, Lily sorriu e respondeu:
— Esperando pelo destino parar de ser estúpido. — Porque, por mais que não houvessem outros sons à sua volta além dos deles, ela ainda era capaz de senti-lo por perto e sabia que estava ouvindo.
— Bem, não estamos todos nós esperando por isso, ruiva? — Sirius bufou e então atirou-se ao seu lado, sorrindo maldosamente antes de jogar água no rosto de Remus, dando início a uma guerra que se estenderia até o alvorecer.
— Meninos. Tão idiotas. — Marlene rolou os olhos, mas então sorriu e atirou-se no rio, gritando para os dois que iria acabar com eles.
Rindo, Lily lançou um último olhar por entre as árvores, soprando um beijo para a escuridão antes de se juntar aos seus amigos, sabendo que não demoraria muito para que o destino, de fato, parasse de ser estúpido.
—--
A apenas alguns metros dali, alto o suficiente entre os galhos para ser capaz de observar os quatro, mas ainda estar escondido, James sorria a contragosto, imaginando se seria assim tão ruim estar errado sobre o que acreditara nos últimos anos.
Imaginando se ser capaz de estar com Lily, realmente estar com ela, seria melhor do que ter o reconhecimento de seu pai.
Tocando em seus lábios, ainda capaz de sentir o gosto de Lily sobre eles, James fechou os olhos e suspirou ao perceber que já sabia a resposta.
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