Príncipe
1 bad day
Notas iniciais
deveria estar postando na minha longfic, mas esse plot não sai da minha cabeça.
espero que gostem. qualquer erro, me avisem. escrevi e vim correndo postar.
boa leitura!
Sakura se considerava uma mulher otimista, nunca foi do tipo resmungona ou coisa parecida, entretanto, aquele tinha sido um legítimo dia de merda. As coisas não costumavam dar tão errado daquele jeito, porém a impressão é de que havia amanhecido do lado errado da cama.
Tudo começou quando o despertador não tocou pela manhã. Sakura sempre achava que aquela era uma desculpa esfarrapada de quem perdia o horário dormindo, mas quando acordou com o canto dos pássaros, sentindo-se descansada como uma rainha, estranhou o silêncio da rua quatro andares abaixo, sempre demasiadamente movimentada, e quando conferiu as horas no display do celular, o coração foi à boca e desceu como uma bomba direto ao estômago. Estava meia hora atrasada.
Bom, se Sakura tivesse cronometrado o tempo que levou entre tomar banho, vestir qualquer roupa que não estivesse fedendo e escovar os dentes, provavelmente teria atingido algum recorde de velocidade.
Quando finalmente chegou até a parada de ônibus e descobriu que os motoristas estavam de greve, com os horários reduzidos e que o próximo ônibus só seria dali uma hora, aquela máxima “quem tem cu, tem medo” fez sentido para Sakura. Orochimaru, o enfermeiro-chefe, arrancaria seu couro na unha.
E depois de gastar uma cacetada num Uber mal educado e pé de chumbo, enfim chegou no trabalho e tentava, inutilmente, se preparar psicologicamente para encontrar com aquele homem asqueroso pelos corredores.
Apesar do registro do ponto ser competência do RH, Orochimaru sempre sabia quem estava ou não trabalhando, quem havia se atrasado e quem estava matando trabalho.
Tudo bem que aquilo era uma emergência do hospital referência da região, mas paz parecia uma doce fábula infantil naquele lugar. Desde que tinha terminado a faculdade de enfermagem, nunca tinha passado por uma chefe tão carrasco como aquele. Sempre se benzia depois de um sermão dele.
Então, o quanto conseguiu durante aquele dia, esgueirou-se pelos corredores e dava meias-voltas quando pressentia a possibilidade de encontrar o réptil — apelido gentilmente dado pelos subordinados.
Mas, por óbvio, a vida de proletariado jamais seria fácil e numa das diversas fugas, Sakura foi alcançada e a reprimenda que levou foi digna de uma aspirina.
Depois do sermão, o olhar de satisfação de Orochimaru em lhe censurar pelo atraso surgia toda vez que a reencontrava até o final do turno. Precisou se controlar para não passar no estacionamento e arranhar a lataria daquele carro elétrico idiota que o réptil fazia questão de se gabar — do que adianta evitar poluentes se você é um escroto?
Tão logo que acabou o expediente e partiu de volta para casa, o tempo se encarregou de acabar com o resto do seu humor. Uma chuva torrencial despencou do céu mais nublado que Sakura já havia visto em sua vida — e ela sem um bendito guarda-chuva. Tinha esquecido de olhar a previsão do tempo pela manhã, já que havia olvidado até de acordar.
Precisou embarcar no ônibus lotado, encharcada e usando roupa branca. Por sorte, um rapaz se apiedou da sua situação e cedeu o lugar da janela para a pobre coitada.
Ao chegar na sua parada, chafurdou o pé numa poça de lama, fazendo dos seus tênis brancos uma mera lembrança.
Já tinha perdido a conta de quantas vezes havia inspirado e expirado profundamente durante as últimas horas, mas se continuasse assim, reduziria de forma drástica a quantidade de oxigênio no planeta.
Na portaria, foi abordada pela síndica, cobrando sua presença nas próximas reuniões de condomínio, como se não soubesse que Sakura estava sempre de plantão. Ainda fez questão de fazer piadinha com a sua roupa molhada. Se ela soltasse mais algum comentário, a Haruno se encarregaria de propor um abaixo-assinado para desapossar a velha do cargo de síndica.
Assim, subiu quatro andares com a força do ódio, pisando forte, quase provocando rachaduras na estrutura do prédio.
No meio do corredor, escorregou no rastro de xixi do cachorro do vizinho. O desgraçado fazia questão de fingir que não via que o maldito Lulu da Pomerânia mijava o hall do andar inteiro.
Sakura apenas se sentiu segura quando trancou a porta e a fechadura de segurança, como se pudesse aprisionar do lado de fora toda a coisa ruim que a acompanhou ao longo do dia.
Atirou os sapatos dentro de um balde na área de serviço, sem saber quando teria coragem de lavá-los.
Aquele tinha sido um dia ruim de verdade. Lá fora, ainda chovia, mas de forma mais mansa.
Só haviam três coisas que poderiam amenizar os acontecimentos do dia: um banho quente, uma pizza e um chardonnay.
Assim, ligou para a sua pizzaria costumeira e pediu seus sabores favoritos: calabresa, lombo com abacaxi e chocolate com nozes, com a promessa da entrega daqui a quarenta e cinco minutos, o que daria tempo para um banho digno, com direito a óleo corporal — o que a faria amargar quando fosse limpar o box do banheiro, mas um dia de cada vez.
Colocou o vinho para gelar e escolheu a playlist pop anos 2000. A primeira música já a fez arrancar a roupa ao som da batida, era Crazy In Love e nenhum mal poderia alcançá-la agora.
Ainda terminava de se enxugar quando o interfone tocou. Precisou correr de toalha até a cozinha, quase escorregando no piso gelado.
— Senhorita Sakura?
— Oi seu Takashi!
— Hã, a sua encomenda já está aqui…
— Já desço, obrigada.
— O rapaz disse que entrega na sua porta — Sakura estranho, porém apenas concordou.
Encomenda, que jeito gozado de chamar uma pizza, pensou Sakura. Mas seu Takashi era um senhorzinho muito simples, então deixou pra lá.
Voltou ao quarto e colocou seu pijama comprido favorito de bolinhas pretas. Escovou o cabelo molhado de qualquer jeito e revirou a bolsa atrás da carteira, o motoboy já batia à porta.
Correu até a sala e abriu as trancas com agilidade, estava morta de fome, contudo, sua expressão simpática para cumprimentar o entregador se desmanchou quando percebeu que o rapaz usava mangas bufantes e botas até o joelho.
— Boa noite, vim resgatar a princesa da torre do dragão — anunciou o homem alto, de cabelos escuros e arrepiados, estonteantemente bonito, exibindo o sorriso mais malicioso que já havia sido direcionado a Sakura.
— Ahm, o quê? Quem diabos é você? — Sakura tentou fechar a porta, mas, por óbvio, um cara de 1,90m era potencialmente mais forte que ela. Que dia péssimo para ter tirado o cepo de facas de cima da bancada que separava a cozinha da sala de estar.
— Meu nome é Sasuke e eu serei seu príncipe essa noite — a mulher se afastou da porta e o tal de Sasuke atravessou o portal do apartamento, fechando a porta em seguida. Ao fundo, começou a tocar Pump It do The Black Eyed Peas e Sakura cogitou ser uma excelente música para matar um homem desconhecido.
— De onde você saiu? — ela perguntou enquanto ele arrancava o casaco que vestia e largava junto da maleta que trouxe consigo.
— Diretamente dos seus sonhos para vivermos um conto de fadas — ele abriu a blusa num puxão, relevando um abdômen trincado. O rosto de Sakura pegou fogo e ela se sentia cada vez mais atordoada.
— Eu tenho certeza que nunca sonhei com nada disso — afirmou, tentando se distanciar do desconhecido que fazia questão de se aproximar.
Sakura tentava se esgueirar do homem de tronco desnudo, atrás de alguma coisa que pudesse usar como arma.
— Eu não sei o que você quer, — a mulher anunciou — mas eu não tenho dinheiro.
Ela não fazia ideia se o rapaz era realmente um criminoso com físico de modelo, contudo, de qualquer forma, se ele continuasse a tentar aproximar, Sakura não deixaria barato.
— Eu não quero dinheiro, princesa. Eu só quero levá-la para o meu reino para que sejamos felizes para sempre.
E no “felizes para sempre”, o tal Sasuke arrancou as calças num puxão, ficando apenas de cueca boxer e botas de montaria no meio da sala de estar de Sakura, que gritou como uma menina da quinta série.
— QUE PORRA É ESSA?! — exclamou, atirando a primeira coisa que estava em seu alcance, que era, lamentavelmente, uma almofada.
— Ei, que isso princesa — pronunciou, malicioso. — A noite recém começou, vamos ter tempo para brincar de guerra de travesseiros e…
Foi quando ele conseguiu tocar seu braço que Sakura se esgueirou até a cozinha e apanhou a maior faca do cepo, fazendo a melhor cara ameaçadora que conseguia, porém a mão que impunha a faca tremia.
— Eu não sei quem é você, mas é melhor que você comece a explicar direito essa história de príncipe de conto de fadas.
Uma expressão de horror dissolveu a aura devassa que rodeava o homem misterioso e ele se prontificou a impor distância entre os dois.
— EI EI! Calma, garota! Abaixa isso que nós vamos conversar — pediu, erguendo as mãos em frente ao corpo desnudo, como um escudo.
— Sem essa! O que caralhos você tá fazendo aqui? — Sakura bradou, passando a segurar a arma com as duas mãos, avançando até a sala e encurralando o rapaz no sofá.
— Calma! Eu sou stripper e suas amigas me contrataram para comemorar seu aniversário — declarou de forma tranquila e pausada, tentando estabelecer convicção nas suas palavras.
Diante da informação, parte do medo se dissipou e confusão tomou seu lugar na cabeça de Sakura. Stripper?!
— O quê, não é meu aniversário — contrapôs.
Foi a vez de Sasuke ficar atônito.
— Como não?! Você não é a garota de cabelo colorido do 23B? — o rapaz indagou e as peças da história finalmente se encaixaram na cabeça da Haruno.
Ao fundo, iniciou Pon de Replay da Rihanna e Sakura começou a se arrepender da escolha da playlist.
— Não — afirmou. — Eu sou a garota do cabelo colorido do 23D.
Sakura nunca tinha visto um homem de cueca e botas de montaria ficar tão corado.
— Puta merda — ele escondeu o rosto nas mãos e afundou no sofá da mulher, indiferente a situação toda.
Antes que Sakura pudesse dizer algo, Sasuke levantou e passou a vestir a calça de stripper.
— Que porra, mil desculpas! Eu fiz uma merda de confusão. Cheguei lá embaixo e pedi só pelo número, elas não me falaram que haviam outros apartamentos 23 — esclareceu, enfiando o tecido da calça para dentro das botas.
A mulher largou a faca sobre a mesinha de centro, ainda aturdida, e ajudou a recolher a blusa, entregando ao homem.
— Ahm, tudo bem, eu acho. Acho que também é uma coincidência que existam duas pessoas de cabelos coloridos morando em apartamentos de número 23 — Sakura argumentou, vendo o rapaz abotoar os botões de pressão.
Sasuke olhou para os lados e fixou os olhos no relógio da cozinha.
— Que merda, tô muito atrasado. Espero que a garota certa não tente me esfaquear — Sasuke comentou despretensiosamente. — É brincadeira.
Nunca que Sakura imaginou que coraria diante das palavras do stripper que ameaçou esfaquear, principalmente agora, quando percebeu o quanto o rapaz era bonito.
— Sei lá, não são todas as mulheres que gostam de príncipes que invadem apartamentos alheios — contrapôs, tentando disfarçar o rubor.
— Touché — sentenciou o homem, acintoso. Ele recolheu o casaco e a maleta do chão, já vestido. — Agora preciso encontrar o apartamento certo.
— É o 23B, certo? São dois andares para baixo — explicou, acompanhando o homem já não tão estranho até a porta.
— Certo, dessa vez, vou tentar acertar — brincou. — Afinal, qual é o seu nome?
— Sakura — disse e o rapaz buscou algo dentro do casaco e alcançou a mulher um cartão.
No papel preto e fosco, em letras brancas, a informação era a seguinte: “Sasuke Uchiha, stripper e barman”, alguns telefones e um e-mail para contato.
— Prazer Sakura — esticou a mão direta em cumprimento, o qual foi retribuído pela mulher. — Mais uma vez, peço desculpas. Pode me ligar qualquer dia desses. Posso te fazer alguns drinks para te recompensar por tudo isso.
— Nada de dança? — Sakura gracejou, vendo o homem se afastar em direção as escadas.
— Talvez, quem sabe — ele declarou, já abrindo as portas corta-fogo. — Da próxima vez, sem fantasia de príncipe.
O rapaz se despediu com um aceno e Sakura fechou a porta do apartamento, sentindo-se perturbada pelo evento de agora pouco, com a sala bagunçada e a faca na mesinha de centro.
Encarou o cartão preto do homem em sua mão e corou ao cogitar a possibilidade de ligar para o rapaz mais tarde.
Antes que pensasse em qualquer outra bobagem, o interfone tocou novamente e Sakura torcia para que fosse somente a pizza dessa vez.
Aquele, com certeza, tinha sido o dia mais estranho da vida de Sakura.
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