Notas iniciais
Sinopse do capítulo: Durante uma batalha contra Psycho-Bots, Austin deixa cair seu morfador e o esquece. Porém, um garoto o encontra, acabando por morfar como Ranger Vermelho e espalhando para amigos que é o legítimo. Tenha uma ótima leitura (e que o poder o proteja)!

A prova prática de educação física reservada para o 6⁰ ano-A havia sido marcada para aquela tarde de sol forte na qual Austin saiu em sua bicicleta. Para a avaliação que consistia em jogadas de basquete, o Ranger Vermelho optou por uma regata vermelha com listras brancas até a metade e uma bermuda preto-esverdeado, além de tênis esportivo branco.

— Já deve ter começado... Não, o treinador Brooks não começaria sem mim, ele sempre me colcoca de capitão da equipe. Pelo menos uma vantagem pra atraso. — disse Austin que não arriscaria atalhos perigosos — Nada de atalhos, Austin, só mantém o ritmo e...

Contudo, ao passar pelo área de lazer perto de uma pista de skate, parou ao lado de uma passarela em um flagrante de pura delinquência.

— Ah não, esses dois não se ajeitam... — disse ele vendo Brock e Stuart encurralando um garoto da 6⁰ ano-B na parede. Ele verificou no relógio e em seguida tornou a olhar a cena lamentável — Se eu tentar impedi-los de fazer uma besteira, me atraso feio. Se eu seguir em frente, deixo um garoto indefeso ser saco de pancadas de valentões. Pensa, Austin...

A dupla inconveniente se aproximava em intimidação ao alvo que tremia e suava nervosamente.

— Não querem checar meus bolsos?

Brock olhou para o parceiro com ar risonho.

— Ainda bem que ele pediu!

— Nossa, como ele é educado! — disse Stuart dando sua risada escandalosa e maluca.

— Ninguém nos diz o que fazer, tá legal? Se decidimos fazer algo, não precisamos ser lembrados. Ah, vira de costas aí! — disse Brock que logo enfiou suas mãos nos bolsos e retirou uma cedula de dois dólares — Só essa merreca? Tá mais pobretão que a gente! — o empurrou contra a parede gargalhando — Vambora, Stuart, desse poço aqui não saiu água nem pra lavar o...

— Tô interrompendo alguma coisa? — indagou um garoto moreno de cabelos meio despenteados e usando casaco preto.

Austin o avistou com curiosidade.

— Quem é aquele ali? Será do 7⁰ ano?

Brock e Stuart viraram-se encarando-o torto.

— Se manda daqui, chegou tarde pra proteger o floco de neve! — disse Brock com autoridade.

— Você não tá afim de se ver conosco em público, né? — falou Stuart.

— Que em público o quê, seu doido? Tá vendo esse lugar lotado agora?

— Mas vai lotar daqui umas duas horas. — retrucou o parceiro.

— Acho bom devolverem o que pegaram. — mandou o garoto — Ou querem fazer uma aposta? Sou eu quem mando nesse pedaço. A galera do skate me respeita como um rei.

— Apostar o quê? Que te enchemos de porrada até sair chorando que nem uma menininha? — perguntou Brock desafiando-o ao se aproximar com os punhos cerrados. Stuart ficou ao lado numa expressão canalha enquanto aquecia as mãos.

— Eu apostaria alto nisso também. — disse o garoto sorrindo com ironia — Mas por mim.

De repente, ele dera um chute duplo acertando-os no peito e fazendo-os caírem. Austin arqueou as sobrancelhas com a destreza do rapaz.

— Uau, ele é dos bons. Quanta agilidade. Aposto que por essa eles não esperavam nem um pouco.

— Querem mais ou vão desistir? Os covardes desistem no primeiro golpe. — disse o garoto em posição de luta.

— Bora mostrar o quanto somos covardes, Stuart! — disse Brock levantando. Avançou como um touro, gritando. Porém, o rapaz pulou sobre o valentão que acabou entrando fundo numa lata de lixo repleta de papéis. Stuart sacou uma corrente e a manejou com exibicionismo e o atacava tentando desferir um golpe, mas não acertava-o já que ele se esquivava habilmente. Pegara Stuart pelo braço direito e o imobilizou por trás, logo o chutando na bunda contra outra lata de lixo na qual se enfiara. Austin riu comemorando a derrota da dupla que esbarrou um no outro andando cambaleantes presos nas latas.

— Stuart, seu paspalho! Olha por onde pisa!

— Olhar como?

Ambos acabaram caindo de uma escada de concreto, rolando pelos degraus enquanto gritavam apavorados. O menino salvo rira deles e virou-se para seu protetor.

— Aí, valeu por dar um sacode naqueles dois.

— Aqui, acho que isso é seu. — disse o garoto entregando a cédula — Nem vou aceitar como pagamento.

— Não, o que você fez por mim vale mais que essa nota, cara. — afirmou o menino — A gente se vê por aí.

— Falou, meu chapa. — disse, acenando ao vê-lo ir. Austin correu até ele trazendo sua bicicleta.

— Ei, eu assisti tudo, você mandou bem demais.

— Aquilo não foi nada, mas aqueles malucos mereciam uma lição nem que fosse só brincando.

— Não me pareceu tão brincadeira, acredito que foi só o aperitivo. — disse o líder dos Rangers se aproximando com simpatia — Eu reconheço um bom karateca quando vejo uma demonstração.

— Também luta artes marciais? Nossa, que sorte a minha encontrar alguém que se interessou pelo meu jeito de lutar.

— O meu pai me ensina toda semana, de vez em quando quase todos os dias. — informou Austin — Tudo o que sei sobre a arte da luta aprendi com ele desde muito pequeno. Ele é minha maior referência em matéria de karatê.

Os dois foram caminhando juntos.

— Há quanto anos ele é faixa preta?

— Acho que bem antes de eu ter nascido. — revelou Austin dando uma risadinha — Sabe, ele poderia dar aulas, ter uma turma de alunos e tudo mais.

— Tipo um dojo? Seria ótimo se ele é tão profissional. Não que eu esteja duvidando, OK?

— Olha, você bem que podia aprender uns macetes com ele. Se quiser, eu agendo uma visita, quando ele estiver livre dos serviços da oficina pode te oferecer aulas gratuitas. Pois é, ele também é mecânico autônomo.

— Gratuitas? Tá falando sério?

— Seríssimo. Podem ter sido poucos movimentos, mas eu, como um bom aprendiz de karateca, enxerguei um potencial incrível. Aquele chute duplo, o modo como você se inclinou pra mover os pés... foi sensacional.

— Beleza, eu vou pensar nesse assunto. Seu pai deve ser um cara maneiro. Me chamo Jared. — disse ele estendendo a mão para Austin.

— Eu sou o Austin. — apresentou-se apertando a mão dele — Te olhando bem agora você não me é estranho. Acho que já te vi uma vez na escola.

— Entrei faz pouco tempo. Sou do 7⁰ ano-A. O garoto que salvei era do sexto B.

— Legal, Jared. Tenho que ir nessa, vai rolar uma prova de campo hoje na quadra. Pensa bem na proposta, meu pai tem certificado de mestre karateca, ele pode te ajudar a evoluir.

— Tá OK, Austin. Nos vemos por aí. Também vou indo nessa, minha galera tá me esperando no campinho. Falou, boa prova pra você.

— Falou. — despediu-se Austin que subiu na bicicleta tornando a pedalar rumo ao colégio.

Austin passava pela praça onde havia uma fonte ornamental. Outra conferida no relógio.

— Cinco minutos, ótimo!

No entanto, um exército de Psycho-Bots surgiu em teleporte cercando-o. Austin acabou por frear com um pé quase caindo de lado. Deixou a bicicleta deitada e se posicionou para lutar.

— Eu devia imaginar que o Lokknon tava de olho! Será que não consegue ser mais inteligente pra me fazer perder a prova? Podem vir, palhaços!

Um dos robôs o chutou nas costas. Austin virou-se num giro dando um chute tobi-geri que mandou o robô direto a cair na fonte e se danificar em contato com a água. O Ranger Vermelho enfrentava os robôs, repelindo-os com chutes básicos e desviando de alguns dele. Mas logo foi atacado no peito sendo lançado ao chão, caindo de costas. Ainda estava com a mochila de alça diagonal e o golpe fez com que o zíper abrisse na queda, deixando cair o morfador que parou pertinho de um banco da praça.

O líder Ranger reergueu-se usando as pernas e tornou a lutar aplicando chutes habilidosos, além de socos em alguns deles. Mudok apareceu nas imediações assistindo ao injusto embate.

— Restam apenas três minutos. Provável que ele não alcance o colégio antes do início da prova se for a pé. Desmontem essa bicicleta!

Quando Austin notara que retorciam sua bicicleta, removendo peças e quebrando outras, um impulso explodiu em seu corpo.

— Não, minha bike! Parem! — correu para impedi-los.

Porém, foi agarrado pelos robôs, tomando alguns golpes na barriga, mas revidando facilmente. Mudok apareceu sobre a estátuas de anjo na fonte.

— O que achou dos retoques na sua bicicleta patética?

— Pois te faço outra pergunta, Mudok: o que acontece se você for chutado e cair nessa fonte? — falou Austin, levantando.

— Eu o desafio a descobrir. Isso se eles permitirem. — disseno androide com uma risadinha. Os robôs não davam um segundo para respirar ao Ranger Vermelho — Chega, é o bastante, a diversão, por ora, acabou! Dispensados!

Apertou um botão no pulso, teletransportando os soldados e a si mesmo de volta à nave. Austin correu até a bicicleta detonada.

— Lokknon deve estar mesmo com muita falta do que inventar pra apelar assim. — lamentava ele, seu comunicador tocando — Oi, na escuta. Já tô a caminho, só tive um... contratempo, pra dizer o mínimo.

— Então vem logo, o treinador já quer fazer a chamada com ou sem você. — avisou Jessie.

— Tá, já tô indo. Peçam pra ele esperar só mais um pouco. — desligara — Só mais um pouco. — disparou a correr como um maratonista.

***

Mudok dera um zoom ampliado ao máximo na tela do visualizador.

— Vejam, o Ranger Vermelho deixou cair um pertence de suma importância.

— Mas é o morfador Z, uma das invenções mais estupendas de Wallace Dickerson... — disse Lokknon fitando o aparelho com cobiça — E se pudéssemos tê-lo aqui conosco para conduzir inúmeros experimentos até o majestoso ápice que seria criar meu próprio Ranger maligno?

— Um Ranger só nosso? Ai, adorei! — disse Aracna, vibrando ao sonhar acordada.

— Um que valesse pelo poder de cinco. — salientou Lokknon — Não é irrealista almejar tamanha obra-prima. Aracna, preciso que vá até lá e pegue esse bendito morfador, agora!

— Nem precisa pedir, mestre. — disse ela, altiva por ser escolhida à tarefa.

— Espere um momento. Vem vindo alguém. — avisou Mudok olhando na tela.

Transitando pela praça, Jared reparou num objeto do tamanho de uma carteira largado atrás de um banco. Ele franziu a testa indo verificar. Apanhou o morfador de Austin e o estudou com curiosidade.

— Uma coisa é certa: esse troço aqui não é um celular de última geração. — disse ele ficando de pé analisando o aparelho — Espera aí... Tá me parecendo que é um brinquedinho dos Power Rangers... É, eles tem isso acoplado nos cintos. Pelo que vejo, é do Ranger Vermelho. — um sorriso foi formando-se na face e uma ideia audaciosa construía-se — Será que é com isso que eles se transformam? Caramba, se eu pudesse... Não, ninguém ia acreditar. Ou... talvez sim. Por que não tentar? Que baita sorte a minha.

Enfiou o morfador no bolso da calça e saiu andando em contentamento estampado no rosto. Aracna enfureceu-se.

— Mas que ousadia a desse pirralho! Eu ia pegar! O que esse idiota vai fazer com um objeto que não tem ideia de como usar?

— Ele tentará descobrir por conta própria. — disse Mudok — Mas o Ranger Vermelho está em apuros, não pode reaver o morfador sem que comprometa sua identidade, até porque esse garoto tornou-se amigo dele.

— E daí? O Dickerson pode criar outro novinho em folha. — retrucou Aracna revirando os olhos.

— Mas não em um tempo hábil para contornar o desfalque grave.

— Hum... Nós podemos aproveitar isso de uma outra forma. Criando um outro Ranger Vermelho. — disse Lokknon esfregando levemente as mãos ao elaborar a artimanha malévola da vez.

— Tipo... ajudar esse pirralho a morfar como Power Ranger? Mestre, odeio discordar do senhor, mas soa bem arriscado. — disse Aracna.

— Não há risco que nos leve a hesitar já que esse garoto não passa de um amador. Imaginem só os Power Pirralhos e os cidadãos diante de um líder fraco e inexperiente. — disse Lokknon, a motivação crescente.

— Todos vão pensar que o Ranger Vermelho foi do nível classe A para classe Z da noite pro dia. — acrescentou Aracna que soltou uma risada zombeteira.

— Então devemos pegar a célula de morfagem de Austin quando ele não estiver por perto. — disse Mudok — Eu me encarrego disso, mestre.

— Brilhante, Mudok. — elogiou Lokknon — Mas que tal roubar a célula para clona-la? Barooma, você mesmo pode tornar isso possível, não pode?

— Fazendo um rápido escaneamento espelhado, posso replicar a interface da célula e incorporar num modelo derivado da estrutura original externa! É genuinamente viável, senhor!

— Eu amei esse plano, mas... — disse Aracna incerta quanto a um detalhe — Como o pirralho vai usar a célula se não sabe como morfar? Os Rangers tem um código de ativação, não tem?

— Eles simplesmente dizem "é hora de morfar" a plenos pulmões. — citou Mudok.

— Mas alguém precisa dar instruções. No caso, um mentor. — disse Aracna andando devagar em torno de Mudok — Quem de nós três é mais capacitado pra um disfarce desse tipo? — o tocou suavemente nos ombros.

— Eu já assumi minha função! — disse o androide se afastando com rudeza dela — Se há alguém disponível para cumprir essa parte, é você!

— Mas vou estar ocupada confeccionando a fantasia de falso mentor na minha mesa digitalizadora. Isso conta como um cargo, não?

— Então Barooma vai. — apontou Mudok ao cientista — Ele pode fazer uma pausa nos reparos do bio-modelador, não vai lhe custar mais do tempo que forçou o mestre a esperar.

— Mestre, não permita que Aracna me transforme num bobo da corte! — clamou Barooma.

— De certa forma, você já é um bobo da corte. — disse Aracna insultante.

— Decidido! Barooma, você tem maior qualificação para se passar por um mentor. — decretou Lokknon apontando para o subordinado — O seu rosto amigável aliado ao disfarce estará acima de qualquer suspeita.

Aracna se colocou atrás do cientista e foi o empurrando pelos ombros.

— Não precisa ficar com vergonha, Baroominha. Prometo ser uma ótima estilista. Hahaha!

— Aracna, se me expor ao ridículo, eu juro que... — disse Barooma ao ser forçado a acompanha-la.

***

Austin chegara ofegante na quadra da Angel Grove Middle School após deixar sua mochila no armário do vestiário. O cansaço considerável foi rapidamente percebido pelos Rangers que correram até ele.

— Dá pra ver que você suou a camisa mais do que poderia jogando na prova. — disse Jessie.

— Por onde esteve andando, Austin? Parece cansado e exausto... — disse Zoe.

— Não foi nada, meninas. Quero dizer... — disse o líder que se aproximou delas de modo confidente — Aconteceu algo sim, mas conto depois.

— Ei, se for fofoca, não me deixem de fora. — disse Tim juntando-se ao lado de Damian.

O treinador Brooks retornava após uma pausa para ir ao banheiro e apitou forte.

— Três minutos de aquecimento! Alongamentos e polichinelos, já! — notara a presença de Austin — Finalmemte o capitão do sexto A está entre nós. Se tivesse atrasado mais, sua tripulação ia afundar.

— Não, eu nunca ia deixar isso acontecer, nem o pior dos obstáculos me impediria. — disse Austin simpático com o preparador físico — Tô pronto pra comandar esse navio, hehehe.

— Quero ver se está mesmo. Não me desaponte ou irá ganhar seu primeiro B-, que é o máximo de uma nota baixa a se esperar de você, Austin. Comecem a se aquecer enquanto vou definindo as posições.

Os Rangers assentiram e se afastaram do resto da turma para ouvir o relato que justificava o atraso de Austin.

— Diz aí, Austin: o que rolou pra você se atrasar pra uma prova tão importante. — disse Tim alongando os braços — Isso nunca aconteceu antes, cara.

— Primeiro flagrei Brock e Stuart importunando uma garoto até que veio um cara do 7⁰ ano-A simplesmente arrebentando com eles. O nome dele é Jared, mas ainda parece ser faixa branca.

— Qualquer aspirante que nunca pisou num dojo de karatê faria aqueles dois beijarem o chão. — disse Damian alongando as mãos.

— Faixa branca é só maneira de dizer, ele se diz bem amador e quer aprender de verdade. — falou Austin começando a alongar as pernas dobrando-as para trás favorecendo os joelhos e segurando firme o pé — Daí que eu convidei ele a receber aulas com meu pai na minha casa.

— Nossa, ficaram tão amigos numa conversa só? Tô ficando com ciúme hein. — brincou Tim.

— Ele é um cara legal, acho que trazer ele pra praticar vai fazer meu pai se encorajar a abrir uma academia de luta no futuro e quando se aposentar me tornar o sucessor dele como mestre do karatê.

— Sonhar nunca é demais. — disse Zoe.

— Mas é preciso ser cuidadoso, Austin. — recomendou Jessie — Você nem conhece direito esse garoto e já deu permissão pra ele te visitar em casa. Eu não confiaria nem de olhos fechados. Vai que ele rouba alguma coisa.

— Ah, para, nem todo mundo do 7⁰ ano-A é delinquente. — afirmou Tim fazendo polichinelos.

— Eu não tenho porque duvidar do caráter dele, fui testemunha, ele protegeu aquele garoto e ainda recusou o dinheiro que iriam roubar dele. — disse Austin sem razões parar desconfiar — Ele é da galera skatista, espero um dia apresentar ele pra vocês se o convite for aceito.

— Mas você veio cansado demais pra ter pedalado da sua casa pra cá. — apontou Zoe — Mesmo estando quase atrasado.

— É que... — disse o líder olhando em volta cauteloso e inclinou-se para falar reservadamente — Os Psycho-Bots apareceram pra me atacar e não tive escolha, eles me cercaram.

— Lokknon tá agindo fora da rotina esses dias. — disse Jessie — Nenhum monstrinho sequer.

— O que sinaliza um desafio barra-pesada pra gente muito em breve. — destacou Damian.

— Vai ver ele tá com falta de pessoal. — especulou Tim.

— Pra mim não importa, aqueles robôs desgraçados detonaram com minha bicicleta. — contou Austin, chateado.

— O seu pai também conserta bikes, né? — indagou Tim.

— Conserta sim, mas... o problema vai ser contar a verdade já que ganhei de presente dele depois que aquela outra virou churrasquinho no nosso primeiro dia como Rangers.

— Tempo de aquecimento esgotado! — disse Brooks batendo palmas para agrupar as equipes — Hora de iniciarmos, turma, preparem-se!

Paralelamente ao início da prova, Mudok surgia em teletransporte no vestiário masculino e fixou seus olhos no armário de Austin após vê-lo através do visualizador multifocal guardar sua mochila. Abrira com um truque simples e pegara a mochila, logo abrindo-a e enfiando a mão dentro a procura da célula. Tateou, sentindo o formato retangular.

Retirou a célula vermelha como um mágico tirando o coelho da cartola.

— Aqui está. Vou apenas pegar emprestado hehehe. — disse Mudok que fechou a bolsa, guardara de volta no armário que foi fechado. Voltou a nave de Lokknon mostrando a célula — Enfim, o item-chave que roubei como doce da mão de pirralhos. Os Rangers tem um líder irresponsável de trazer seus equipamentos pra lugares onde fazem atividades comuns.

— E ele pagará caro por esse deslize estúpido. — disse Lokknon, sorrindo de contentamento — Mudok, para não atrasar Barooma ainda mais nos reparos do bio-modelador, gostaria que você se encarregasse de replicar a célula.

— Com muito prazer, mestre. Farei exatamente conforme explicado por Barooma. — disse o androide que se retirou da sala rumando a sua oficina de maquinários.

Na Central de Comando, Karen, sentada frente ao painel de controle, constatava que o morfador de Austin se deslocava para uma localização distante de onde estava a célula de morfagem. A tecnóloga encarou o estranho fato formando uma ruga na testa.

— Dickerson, você não criou nenhum upgrade de poder que possibilitasse os Rangers de estarem em dois lugares ao mesmo tempo, certo?

— Mas é lógico que não. Nem seria possível, aliás. — disse o explorador indo até ela com curiosidade — O que está havendo?

— O morfador se desloca a cerca de oito quilômetros da escola. Austin está lá fazendo uma prova de educação física. Mas a célula está lá com ele.

O sinal da célula repentinamente foi perdido.

— E agora ela se foi. Perdemos o sinal.

— Não há dúvidas: Austin deixou cair o morfador pelo caminho e esqueceu de pegar. Mas ele não seria tão descuidado, nem que estivesse com vários minutos de atraso. — declarou Dickerson a preocupação lhe fazendo gelar as mãos.

— Mas como explica o sumiço da célula? Não é má qualidade do radar, atualizei o sistema ontem mesmo pra versão 30.1.

— Ao menos está óbvio que o morfador foi roubado. — afirmou Dickerson sedento para localizar o autor do furto.

Mudok logo retornara ao vestiário, devolvendo a célula à mochila e se teleportando. O pontinho vermelho brilhante ressurgiu na tela do monitor.

— E voltou. — disse ela, estranhando cada vez mais — Mas que loucura tá acontecendo?

— Tente contatar os Rangers, talvez estejam no intervalo da prova. Se não atenderem, podem também ter deixado os comunicadores nos armários. — solicitou Dickerson.

Karen acionou a chamada para os Rangers que estavam descansando do primeiro tempo do jogo de basquete. Os aparelhos tocaram deixando-os tensos.

— Epa, péssima hora. — disse Tim tapando sua pulseira com expressão de aflição.

— Era disso que eu tinha medo. — disse Zoe.

— Não pode ser uma emergência que nos obrigue a sair agora. — disse Damian.

— E se for? É uma prova, não podemos resolver o problema com o tempo que temos. — enfatizou Jessie.

— Mas há tempo de sabermos do que se trata. Venham, por aqui. — disse Austin que se dirigia às arquibancadas. O grupo se manteve reservado perto da estrutura que sustentava os lugares do público. O líder atendera ao chamado — Na escuta, Sr. Dickerson.

— Ótimo, estão no intervalo. Serei bem direto: Austin, sinto informar, mas seu morfador foi roubado em plena luz do dia.

— O quê? Não, eu trouxe ele comigo e a célula também pro caso de uma emergência. Estão na minha mochila.

— O radar não nos engana, você realmente esqueceu seu morfador na praça dos fundadores.

— Droga... Foi quando eu estava lutando com os Psycho-Bots, fiquei tão desesperado com o atraso que não percebi. Algum detalhe sobre quem roubou ou onde está agora?

— Iremos verificar agora com a varredura via satélite para identificar o nosso ladrãozinho. — garantiu Dickerson executando o sistema junto com Karen.

O som estridente do apito de Brooks assustara-os, fazendo-os se virarem estremecidos.

— Será que o grupinho pode dar uma pausa nas conversas privadas e vir a quadra se preparar pro segundo tempo? Eu ficaria agradecido.

— Já vamos, treinador. — disse Damian — Austin, vai ficar tudo bem, Dickerson e Karen localizarão o seu morfador.

— E o pegaremos de volta, relaxa. — reforçou Jessie.

— Só não deixa nosso time perder com isso martelando na cabeça, irmão. — orientou Tim.

— Quem quer que tenha sido, não vai fazer nada que prejudique sua função como líder ou impeça de ser achado. — tranquilizou Zoe.

— OK, vou tentar focar na prova. Vamos nessa, galera. — disse Austin tentando não transparecer ansiedade, logo correndo com os amigos de volta a quadra.

***

Barooma vinha acompanhado de Aracna estando finalmente caracterizado como o "mentor" que se proclamaria como porta-voz dos Power Rangers. O traje criado por Aracna consistia num túnica roxa com estrelas douradas em diversos formatos, uma barba branca com pelos artificiais, além de um chapéu cônico da mesma cor da túnica.

— Olha quem alterou o visual radicalmente. — disse Aracna em zombaria o trazendo para Lokknon e Mudok verem o resultado.

— De onde tirou esse mentor? Uma casa de repouso para idosos? — ironizou Mudok.

— Não caçoe de mim, Mudok! No meu lugar, você certamente não estaria diferente, aposto que até mesmo muito pior!

— Eu não seria vestido com uma roupa tão extravagante. — retrucou Mudok.

— Verdade, você ficaria ótimo com uma peruca loira e uns chifrinhos. — disse Aracna.

— Pensando bem, não acho seu visual tão ridículo, Barooma. — corrigiu o androide.

— Estou certo de que fará uma excelente performance. Mudok, a célula de morfagem. — disse Lokknon sentado no trono.

— Então você já cuidou disso?! Mas era a mim que cabia falsificar a célula!

— Ora, pegue logo isto e pare de reclamar! — disse Mudok agarrando a mão direita do cientista e o forçando a segurar a célula — O mestre decidiu que isso lhe pouparia tempo!

— Mestre, poderia considerar o sucesso desse disfarce como uma garantia de não ser condenado a solitária?

— A condição vale unicamente para o fim dos reparos no bio-modelador! — frisou Lokknon, irritando-se — Esta é uma situação isolada e impassível de punições. Agora vá até lá e convença o pirralho a morfar como Ranger Vermelho!

— Se algo der errado, culpem a Aracna! — disse Barooma que logo se teleportou à Terra.

Jared estava sentado numa rocha perto do campo de golfe analisando o morfador.

— Como é que se usa esse troço? Eles passam algum tipo de cartão nessa entrada aqui, será?

— Eu posso sanar todas as suas dúvidas, pequeno jovem questionador! — disse Barooma bem atrás dele.

— Hã? Quem disse isso? — indagou Jared levantando — Que voz engraçada, parece até um peru falando que nem um robô.

— Estou bem aqui atrás de você, seu pirra... Digo, meu caro incipiente!

— Me chamou do quê? — perguntou Jared virando-se para ele e ficando estupefato — Caraca... Um Merlin vindo do espaço tá querendo papo comigo do nada. Esse dia tá ficando mais esquisito.

— Não vim do nada e nem do espaço! Eu me chamo... me chamo...

Na nave, Aracna se atemorizou.

— Ops, esqueci de inventar um nome legal.

— Desnecessário. — disse Mudok que apertou o botão do comunicador no seu ouvido esquerdo — Diga que se chama Barooma, não interessa pra ele qual seu nome. Vá direto ao ponto!

— Sou Barooma, mestre ancestral do poder magnífico que os Power Rangers possuem!

— O mestre dos Power Rangers é você?! Ah já sei... — disse Jared soando desanimado — Você quer o aparelho do Ranger Vermelho de volta, né? Toma, eu não sei como ativar a transformação, só achei largado e peguei pra dar uma olhadinha.

— Negativo, ele pertence a você a partir de agora! O Ranger Vermelho original se desligou da equipe para viver uma vida longe de perigos extraordinários sem me dar a menor satisfação!

— Ele... simplesmente desistiu? — indagou Jared olhando para o morfador — Então se me escolheu como o novo líder dos Power Rangers... Como ligo essa coisa?

— A morfagem é acionada com este objeto! — disse Barooma entregando a falsa célula vermelha. Jared a pegou com brilho nos olhos — Basta que você encaixe a célula no morfador que é este aparelho que encontrou! Mas deve fazê-lo com os braços esticados!

— Assim? — perguntou Jared na posição correta.

— Agora repita comigo em voz alta: é hora de morfar! — orientou o "mentor" — E ao mesmo tempo encaixe!

— É hora de morfar! — disse Jared seguindo a instrução devidamente. Seu corpo foi embebido pela energia em cor vermelha, tornando-se o Ranger Vermelho do Esquadrão Z — Isso é que eu chamo de poder! Senti como se um raio tivesse me acertado sem me fritar! — falava ele, olhando as mãos e todo o corpo trajado — Até que essa lycra não é tão apertadinha como eu pensava. Meus amigos vão ficar babando de inveja quando verem o mais novo líder dos Power Rangers no pedaço! Eu, Jared Collins!

Lokknon levantou-se do trono como um torcedor de futebol comemorando um gol.

— Perfeito! O teste da célula foi um genuíno sucesso! Meus parabéns, Mudok!

Barooma retornava em teleporte, arrancando a barba e jogando no chão.

— Eu nunca senti tanto alívio após uma experiência desafiadora como essa! Não me submeto a esse papel nunca mais!

— Mas há uma experiência da qual você deve se submeter imediatamente. Volte agora ao trabalho! — ordenou Lokknon, áspero.

— Sem demora, milorde. Agora se deleitem com o declínio da reputação do Ranger Vermelho! Esse pirralho deslumbrado será o bode expiatório mais odiado da Terra!

Jared se apresentava aos amigos como o próprio Ranger Vermelho no campo de beisebol em que jogavam.

— Tá brincando que isso não é fantasia barata, Jared. — disse um deles.

— Vocês querem uma prova? Saca só! — disse o novo "líder" vermelho que sacou a pistola Z do lado direito e disparou contra três latinhas postas sobre uma pedra. Soprou a fumacinha que saia do cano da arma, se exibindo com uma pose — Que nota vocês dão pra essa mira?

— Cara, entre zero e dez, eu dou cem. — disse outro, perplexo.

— Cem é pouco, merece nota mil com folga. — disse outro deles tão maravilhado quanto o parceiro.

— Pensaram ser de brinquedo, né? — disse Jared se vangloriando — Sigam-me os bons e eu vou contar tim-tim por tim-tim como eu consegui os poderes do Ranger Vermelho. — saiu andando com altivez, atraindo seus amigos que não hesitaram em acompanha-lo.

Após o término da prova, os Rangers se reuniram sozinhos no vestiário masculino.

— O zíper da minha mochila tá aberto de novo. Mas eu fechei quando cheguei. — disse Austin.

Os comunicadores novamente tocaram.

— Fala, Sr. Dickerson. — atendeu Austin.

— Encontramos o falsário. — disse o arqueólogo encarando com temor às imagens de Jared como Ranger Vermelho se beneficiando dos poderes para burlar máquinas de refrigerante e indo em máquinas caça-níqueis — Mas já é um pouco tarde pra uma devolução pacífica.

— Quer dizer que ele... tá morfado como se fosse eu? — disse Austin, espantado.

— Inteiramente. Ele atende pelo nome de Jared, está se exibindo para os amigos e dizendo ser o real Ranger Vermelho para outros.

— Peraí, Jared não é o nome do seu novo amigo lutador? — indagou Tim para Austin.

— É sim... — respondeu ele, chocado — Foi ele quem pegou o morfador... Mas, afinal, como ele tem uma célula de morfagem?

— Só pode ser isso. — afirmou Damian matando a charada.

— O quê, Damian? — indagou Zoe.

— A mochila do Austin aberta. Alguém esteve aqui e roubou a célula original para clona-la. Provável ter sido Mudok ou a Aracna.

— Mas como vamos saber qual é a original e a cópia? — questionou Jessie.

Karen os informava com segurança.

— Crianças, o sinal que vem do colégio pertence a célula verdadeira. A cópia está com o usurpador.

— Nesse caso, só quatro irão morfar e tentar arrancar o morfador dele na força bruta. — determinou Dickerson.

— Jessie, você assume o comando na minha ausência, tá legal? — definiu Austin — Já que foi você quem liderou a equipe antes de eu chegar.

— Pode deixar, conta comigo. — disse a Ranger Amarela sacando sua célula e morfador junto aos demais — Todos prontos? É hora de morfar!

— Touro Ônix!

— Tubarão Cobalto!

— Arraia Rósea!

— Águia Flavescente!

Numa rua bem populosa, Jared distribuía doces a crianças tirados desonestamente de máquinas, além de dar autógrafos a um mutirão em seu entorno.

— Calma aí, turminha, um de cada vez! Façam fila, eu tenho o dia todo! — disse o falso Ranger Vermelho cercado de crianças afoitas com papéis e camisas dos Power Rangers clamando por assinaturas — Aqui pra você, valeu! — disse devolvendo uma camisa e a caneta — Próximo! Deixa eu ver quem será...

Lokknon se efervercia no trono.

— Ah você tem todo o resto do dia para tirar o máximo proveito da fama de Ranger, mas eu não tenho o resto do dia todo pra esperar algo que faça a imagem do líder dos Power Trouxas cair em descrédito! Barooma, está me ouvindo?

— Sim, mestre! Alto e claro! — disse Barooma em cima de um prédio industrial — Estou vendo tudo de um ponto privilegiado! Ele não passa de um aproveitador! Diria que só está melhorando a popularidade do Ranger Vermelho!

— Isso é porque ele ainda não foi testado diante de uma ameaça concreta!

— Irá enviar os Psycho-Bots?

— Não! Você é quem cuidará disso! O seu cajado concede vida própria a seres inanimados, certo? Use-o em qualquer coisa que encontre, mas que seja conveniente.

O cientista correu os olhos, logo avistando uma construção de arquitetura gótica na qual haviam as famigeradas estátuas conhecidas como gárgulas.

— Ali está! — disse Barooma, logo invocando mentalmente seu cajado — Que venha com muita saúde! — apontou a arma na direção de uma gárgula robusta e com aspecto selvagem e monstruoso e disparou o raio azul que logo atingiu a estátua. A criatura nascia como se saísse de uma casca de pedra que quebrava em pedaços, rugindo animalesca — Bem-vindo à vida... Gargothic!

A criatura pulou da estrutura, aterrissando com impacto no chão ao ponto de racha-lo e quebra-lo em alguns fragmentos. Gargothic se direcionou imediatamente para onde situava a distribuição de autógrafos, grunhindo com seus olhos vermelhos fumegantes e deixando pegadas profundas enquanto corria.

— Isso, formem uma fila assim mesmo! Eu não saio daqui enquanto não satisfazer todo mundo!

— Mas Ranger Vermelho... — disse um garoto de 8 anos — E se aparecer um problema? Não tem que salvar o mundo das forças do mal?

— Eu tô tranquilo sobre isso, não apareceu nada até agora. Acho que os vilões querem me dar folga.

No entanto, a aparição de Gargothic o contrariou tremendamente. Um vozerio de gritos tomou conta da rua, a legião de fãs se dispersando aterrorizada com o gigante de pedra maligno.

— Ops, acho que a folga tá cancelada. — disse Jared não sabendo como lidar frente àquilo.

— Ranger Vermelho, chama seus amigos! — disse uma menina escondida atrás de um carro.

— Meus amigos... — disse Jared, preocupado — Não preciso deles, eu mesmo acabo com esse monstrengo!

Mas os demais Rangers surgiram em saltos e o barraram.

— Olha só, eles chegaram! — disse o falsário caminhando até os quatro em postura soberba — Vamos lá, galera, eu tô doido pra transformar esse pedregulho aí em cimento fresco!

— Um momentinho aí, ô ilegítimo. — disse Jessie o barrando com uma mão no peito e o empurrando de leve — Não vai enfrentar essa coisa usando algo que não lhe pertence.

— Como é? Ilegítimo!? Mas é claro que sou legítimo! Senão não teria me transformado! O que há com vocês? O antigo líder desistiu, eu quem assumi o lugar!

— Nosso amigo não abandonou o posto de Ranger Vermelho. — disse Damian.

— Ele jamais faria uma loucura dessas sem mais nem menos! — disse Tim.

— Quem te fez acreditar nisso? — indagou Zoe.

— O nosso mentor! Um cara com barba de velho e vestido que nem o mago do Rei Arthur. Ele tinha até um sorrisão medonho, sem falar dos olhos arregalados, parecia mais um robô.

— Nosso mentor não tem nada desse perfil. — informou Damian — Jared, você foi ludibriado a ser um impostor por um outro impostor!

— E pela descrição deve ser o feioso do Barooma. — disse Jessie.

— Que deve ter roubado a célula original pra clonar. — adicionou Zoe.

— Ladrão que engana ladrão tem zero anos de perdão. — comentou Tim.

— Eu não sou ladrão! Achei o morfador largado por aí, achado não é roubado! Vocês não vão estragar meu dia de glória!

O falso Ranger saltou por sobre os demais e se lançou ao confronto contra Gargothic, embora claramente hesitava. As crianças observaram atentas.

— Eu não sou acostumado a lutar contra oponentes grandes... — disse Jared, temeroso.

Gargothic avançou após um comando psíquico de Barooma. Jared foi desviando dos golpes, porém a defensiva durou pouco e tomou um soco pesado que o lançou contra uma árvore.

— Orra, essa deve ter doído! — disse Tim.

Mas o usurpador reergueu-se e saltou para aplicar um chute, porém a criatura pedregosa segurou sua perna e começou a batê-lo contra o chão de um lado para o outro, deixando os pequenos fãs desgostosos.

— O Ranger Vermelho tá levando a maior surra. — disse um garoto — Não tô entendendo!

— Era pra ele ser o mais forte! — disse outro menino — Será que o poder dele tirou folga também?

— Socorro! — gritava Jared — Me larga!

Jessie se prontificou na liderança.

— Pessoal, vamos dar cobertura! Garras Raptoras! — disse a Ranger Amarela, suas armas surgindo nas mãos.

— Ferrão de arraia!

— Marreta Avalanche!

— Barbatanas cortantes!

Os Rangers atacaram, primeiro Jessie com suas garras num giro veloz, depois Tim em cortes ágeis das suas barbatanas, em seguida Zoe saltando num corte vertical do ferrão fazendo explodir faíscas no monstro e por fim Damian batendo sua marreta no chão gerando uma onda de terra que o empurrou alguns metros, salvando Jared enfim livre das pesadas mãos rochosas. Gargothic caiu para trás após tanto cambalaear com a onda terrosa, mas logo se reerguia disparando raios de seus olhos que atingiram os Rangers em simultâneo, menos Jared que estava caído meio distante.

— Não vou desistir, você vai ver só! — insistiu o falsário levantando e avançando contra Gargothic novamente num salto. Porém, o monstro lançou mais raios oculares que explodiram faiscantes no peito do falso Ranger.

— Jared! — disse Jessie correndo para ajuda-lo.

— Eu não sabia que tomar esse ataques doíam tanto! — reclamou Jared se contorcendo de dor.

— Mas nossos trajes tem uma resistência, apesar de também sofrermos danos! — disse Jessie ajudando-o a levantar — No seu caso, você só tá usando uma roupa de spandex normal.

— Mas por que? Eu deveria ter me tornado o novo Ranger Vermelho! Talvez igual ou até melhor do que o anterior!

— Só pode existir um único Ranger de cada cor numa mesma equipe. — disse Damian.

— Por conta de estar usando uma fonte que não é legítima, você não pode se igualar em poder ao Ranger Vermelho original. — disse Zoe.

— É, cara, se toca! Não sabe que pirataria é crime? — repreendeu Tim.

As crianças se aproximavam numa distância segura, todas visivelmente desapontadas.

— O Ranger Vermelho virou um fracote!

— Ele nem encostou um dedo nesse monstro!

— Bateu nele que nem pano de chão! Ele é péssimo. Vai ver não sabe nem mais como se luta karatê.

Jared se envergonhava profundamente da impressão que causara, baixando a cabeça com o rechaço unânime do público. Disparou a correr fugindo da luta e das críticas impiedosas.

— Jared, espera! — chamou Jessie.

— E o pedregulho também escapuliu! — apontou Tim.

Gargothic achou mais produtivo sair destruindo aleatoriamente tudo que via como carros, postes e arremessando hidrantes que arrancava com sua força gigantesca. A fuga de Jared estava prestes a ser interrompida.

— Eles tem razão, sou uma farsa! — lamentou, parando de correr — O que foi que eu fiz?

Mudok estava escondido atrás de uma árvore o espiando.

— O seu teste de inaptidão ainda não terminou! Psycho-Bots, ataquem! — disse o androide lançando ao ar as esferas de bolso das quais saíram os soldados que rapidamente encularraram Jared.

— Acho que esses daqui estão a minha altura! — disse Jared que arriscou combatê-los, chegando a socar e chutar alguns de modo eficaz em todos os lados. Contudo, passou a tomar golpes cujos impactos eram absorvidos com dor.

— Caramba, vocês batem forte hein! — disse tentando esquivar, mas levou um chute nas costas e outro na barriga, logo mais outros dois chutes de dois robôs em ambos os lados, golpes que o derrubaram ao ponto de ser linchado num cerco apertado — Para! — gritava enquanto levava pisões e chutes dos robôs.

— É digno de pena. — disse Mudok — Um Ranger Vermelho sendo agredido por um exército de Psycho-Bots! Isso é um registro histórico!

Porém, os robôs se afastaram imediatamente quando o morfador apresentou uma falha gravíssima que fizera raios vermelhos saltarem e envolvendo o corpo de Jared. O impostor se contorcia, mas conseguiu levantar embora desorientado.

— O que tá acontecendo comigo? — questionava ele envolto dos raios — Meu corpo... dói! Aaaahhh!

Karen e Dickerson assistiam temerosos.

— A célula está sofrendo uma rejeição natural do morfador. Mais cedo ou mais tarde isso aconteceria. — disse o arqueólogo.

— Ele pode desmorfar instantaneamente? — indagou a tecnóloga.

— Não, creio que não haja como interromper essa tortura. A oscilação de energia... vai destruí-lo aos poucos de dentro pra fora. — afirmou Dickerson, a tensão estampada na cara.

Austin chegava em teletransporte.

— O que tá havendo com o Jared? — perguntou, preocupado.

— Austin, a célula e o morfador estão sofrendo as consequências da incompatibilidade. — disse Karen — A célula clone causou uma instabilidade que pode acabar... — interrompeu-se, tensa.

— Não, não posso deixar que isso aconteça. Não com o Jared, ele é importante pra mim, pois quero ajuda-lo a ser um lutador experiente. Tem que haver um jeito. Eu quero tentar salva-lo de todas as formas. — disse Austin se aproximando.

Karen olhou para Dickerson que pensava em algo.

— Acho que sei como. Ao menos pra ocultar a sua identidade.

Os Rangers chegavam lutando com os Psycho-Bots enquanto viam a situação agravante de Jared.

— Gente, o que tá acontecendo com ele? — perguntou Zoe agarrando o braço de um dos soldados e o levando ao chão numa rasteira.

— Deve ser a célula! — disse Damian batendo nos robôs com a marreta, os danificando.

— Alguém me ajuda, por favor! — clamava Jared com as mãos na cabeça, padecendo em dor.

Lokknon exigia respostas de Barooma.

— O que significa essa falha, Barooma? A célula pode ser destruída?

— Eu diria que ele sai no prejuízo bem antes da célula se dissolver! O morfador a rejeita e provoca uma variância que pode também leva-lo a destruição!

— Então se o morfador virar churrasco também, o Dickerson precisará criar outro e até que ele acabe os Power Pirralhos ficarão sem um líder! — prospectou Aracna, empolgada — Mestre, acertamos na mosca com esse plano!

— No ínterim que passar, os Rangers ficarão vulneráveis enquanto Dickerson se desdobra criando um novo morfador para Austin! Não há como eles impedirem o fim desse pirralho! Hahahahaha! — disse Lokknon, excitado com o futuro possível.

Um campo de força com os raios se criava em volta de Jared. Os Psycho-Bots foram derrotados, logo os Rangers votltando a atenção para o problema mais emergente.

— E agora? Como desligamos isso? — perguntou Tim.

Eis que surpreendentemente, Austin surgia num salto usando o traje de Ranger Vermelho.

— Austin?! — disse Jessie — É você mesmo?

— Mas... como ele pode ter morfado? — perguntou Zoe, confusa.

— Talvez uma célula reserva? — especulou Damian.

Austin aproximava-se de Jared correndo.

— Eu vou te tirar dessa! Sou eu, o Ranger Vermelho real! Tenho que pegar o morfador!

Porém, ele foi repelido violentamente pelo campo de força elétrico e jogado para longe.

— Ah não, ele nem pode toca-lo! — se afligiu Jessie — Tá tudo bem aí?

— Tá, eu tô bem! — disse Austin com alguns pequenos raios no corpo, levantando com certa dor — Droga, levei um choque daqueles. Jared!

— Eu tô ouvindo... Você... pode me ajudar?

— Posso sim! Mas tem que confiar em mim! Toque nos botões do morfador e diga "desativar", aí você voltará ao normal!

— De... Desa... — tentava Jared tocando no morfador — Desativar!

No entanto, permaneceu no mesmo estado.

— Não deu certo! — disse Zoe — Mas por que?

Karen entrava em contato.

— Rangers, a instabilidade é forte demais, o morfador e a célula não estão mais interligados pra uma desmorfagem! Há uma trava de segurança no morfador que impede desmorfar durante esse processo. Se ela não existisse, Jared teria sido explodido assim que falasse.

Dickerson falava com o líder.

— Austin, ouça com atenção: você pode salva-lo, mas... ele precisa ficar parado, o que obviamente é muito difícil. Recalibre a potência do tiro da pistola Z até o mínimo e mire no morfador. A estrutura do morfador está bem volátil, assim o laser pode atravessa-lo e destruir a célula.

— Certo, vou tentar. — disse Austin sacando a pistola e girando o botão de calibragem — Jared, tente ficar quieto! Vou ter que atirar em você! Digo, não em você exatamente, mas fique parado!

— Se vai acabar com isso, então manda ver! — disse Jared se virando para ele sem fazer mais nenhum movimento.

Austin apertou firme o gatilho, a mira posicionada. O laser finíssimo foi disparado ao morfador, transpassando-o conforme falado por Dickerson. A célula era fritada até que caíra da entrada do aparelho ao chão. Jared enfim fora liberto do suplício, caindo ajoelhado. Os Rangers vieram ampara-lo prontamente.

— Jared! Como se sente? — disse Austin ajudando-o.

— Como se eu tivesse sido arrancado de uma fornalha. — disse ele, cansado — Valeu por salvar minha vida, parceiro. Então você é o verdadeiro? Mas como é que tá transformado?

— É só um disfarce pra preservar minha identidade. Acho que... aprendeu uma dura lição hoje, né?

— Com toda a certeza. Toma aqui. — disse Jared devolvendo o morfador a Austin — Agora entendo esse lance de ser um herói. Você tem que merecer. Eu não sirvo pra esse papel.

— Nem todo herói precisa de superpoderes. — disse Austin tocando-o de ombro — Mas do jeito certo, todos podem ser um Ranger. Até você.

Austin fora até seus amigos, deixando Jared pensativo.

— Engraçado... Ele tem uma voz meio familiar...

— Cara, como você tá uniformizado sem o morfador? — perguntou Tim.

— O Sr. Dickerson me vestiu com uma fantasia barata pra disfarçar meu rosto pro Jared.

— Barata nada. — contrariou Jessie — Tá até melhor do que as dos animadores de festa infantil. — tocava no tecido.

A reaparição de Gargothic os colocou em alerta novamente.

— Eita, tinha quase esquecido do pedreira! — falou Tim.

— Foi só baixarmos a guarda! — disse Damian.

— Tá na hora do único e original Ranger Vermelho da equipe voltar a ação. — disse Zoe.

— Logo agora que tava tão bom eu sendo líder. — disse Jessie fingindo frustração.

— Muito bem, estou pronto! — disse Austin sacando a célula — Hora de morfar! Leão Escarlate!

— Power Rangers! — bradavam eles em poses individuais com Austin no centro. Jared aplaudia-os.

— Vocês são demais!

Gargothic disparou raios oculares, os Rangers desviando das explosões de faíscas.

— Detonador Max! — disse Austin com a pistola vermelha surgindo em sua mão. Saltou disparando lasers contra a face do monstro que foi atingida com explosões faiscantes, logo o chutando no peito como impulso para trás, atirando mais vezes e causando mais estouros de faíscas que atordoaram o monstro — Combinar armas!

Os heróis fundiram suas armas próprias, originando o Abatedor Selvagem. Gargothic se enfureceu com grunhidos e avançou bruto.

— Disparar! — bradou Austin. O laser duplo foi lançado, atravessando Gargothic ao deixar dois grandes rombos no seu corpo. A gárgula caíra para trás e estourou em pedaços numa explosão de fumaça escura e faíscas.

Lokknon cerrou os dentes em cólera.

— Estou farto desses fedelhos! Laser regenerador, Barooma!

— É pra já, milorde! — disse ele logo apertando o botão vermelho que disparou o raio esverdeado. Gargothic foi revivido e agigantado pedaço por pedaço, soltando seu rugido bestial.

— Precisamos do poder Megazord agora!

Os zords saíam de seus hangares rumo ao campo de batalha. Saltando para os cockpits, os Rangers preparavam os controles na pilotagem.

— Chave de comando ativar! Sequência Megazord! — disse Austin girando a chave.

As máquinas logo conectaram-se, formando o Megazord Z que se colocou em posição de combate. Gargothic veio para cima dando socos sucessivos, mas o robô agarrou seus vigorosos braços e o chutara fortemente no tórax, derrubando-o.

— Toma essa, pedreira! Nesse vale tudo é você quem beija a lona! — disse Tim.

Mas o monstro reergueu-se, furioso, batendo suas asas e voando sobre o Megazord. Agarrou o robô pelas costas e o imobilizou nos braços.

— Não é possível desprender, ele é bem forte! — disse Damian.

— Campo Repulsor! — disse Austin. Mas nem mesmo o pulso de energia o tirou da cola do Megazord — Droga, grudou na gente como carrapato!

Gargothic levantou voo mantendo-o em seu abraço apertado, subindo a uma altura considerável.

— Não tô gostando desse passeio! — disse Jessie.

— Será que vai nos levar até o espaço? — se perguntou Zoe.

— Rangers, escutem. — falou Dickerson — Ativem os propulsores de cada zord. Ele que será o passageiro e vocês o transporte.

— Sugere que levemos ele até o limite da atmosfera? — questionou Damian.

— Até a ionosfera. O Megazord resistirá ao congelamento, mas ele não. Estou enviando a escala.

— OK, ativar propulsores a jato! — bradou Austin.

O Megazord se impulsionou para mais alto agora levando Gargothic consigo em vez dele leva-los. Com o alcance a ionosfera, Gargothic fora coberto em gelo, seu voo incapacitado. O monstro caíra ao soltar o Megazord que logo mais voou em retorno ao solo.

— Inverter propulsão! — disseram eles.

A impactante queda de Gargothic não o desestabilizou totalmente, apesar do gelo limitar grande parte de sua movimentação. Os Rangers voltaram, invocando o Sabre Selvagem.

— Agora, pessoal! Não vamos deixar pedra sobre pedra! — determinou Austin — Chama Cromática!

A espada se embebeu de fogo multicolorido até a ponta. O Megazord aproveitou a fragilidade de Gargothic e realizou cortes verticais, horizontais e diagonais. Gargothic se despedaçou literalmente, enfim explodindo.

***

Durante a manhã do dia seguinte, no quintal da casa de Austin, Jared já trajava um kimono preto de karateca com uma faixa branca, treinando socos e chutes com seu mais novo amigo e John.

— Tá pegando o jeito. — disse Austin.

— Aposto que passo pra faixa laranja em um mês.

John deixou seu aluno exercitando os golpes sozinho. Austin viera falar com o pai bebendo água.

— O que achou dele?

— Eu fico bem otimista que ele vai se adaptar.

— Obrigado por ter aceitado treina-lo, pai. Pode ver que ele tem vocação e disciplina, só precisa pratica-las.

— Meus olhos não enganam, você tá certíssimo. — disse John com visão atenta sobre Jared — Ah, quando terminarmos, vai me contar o resto da história do morfador roubado hein.

— Pode deixar, mas quase acabou mal.

— Filho, você tomou uma atitude nobre em traze-lo até mim. Nada como a satisfação de ver um lutador promissor com tanta garra.

Jared saltara com exímia destreza, dando um chute tobi-geri no ar com um sorriso largo.

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