Power Rangers: Esquadrão Z

29 Garota Boa que virou Má


Notas iniciais
Sinopse do capítulo: Os Rangers percebem que Jessie está cada vez mais violenta no combate e a aconselham a pegar mais leve, porém sua vontade de provar seu valor fala mais alto, o que atrai a atenção de Lokknon para tirar vantagem. Tenha uma ótima leitura (e que o proteja)!

Os Rangers enfrentavam uma corrida contra o tempo para evitar uma tragédia com crianças em um ônibus escolar. Pilotando suas Beasts Cycles, eles seguiam o veículo em uma rota perigosa, com um rochedo à esquerda e um desfiladeiro à direita. Austin alertou seus amigos sobre a urgência da situação, pedindo que acelerassem, mas enfatizando a importância de manter a velocidade segura, evitando manobras arriscadas.

O ônibus amarelo de listras pretas tinha como destino final uma versão aprimorada do conversor subatômico de Mudok. O androide se encontrava a uma certa altura no rochedo com um controle que emitia uma frequência sonora capaz de induzir a vítima a um estado de apatia e desconexão com a realidade. No caso, o motorista e seus passageiros não estavam conscientes da situação agravante a que foram sujeitados.

— Aproxime-se, aproxime-se... — dizia Mudok.

— Odeio dizer isso, mas teremos que arriscar a segurança deles como o único jeito de parar esse ônibus! — determinou Austin.

— Ainda dá tempo de ser mais específico! — disse Damian, tenso.

— Atirem nos pneus! — ordenou o líder.

— Essa estrada é muito estreita! — apontou Jessie.

— Podemos provocar um acidente! — alertou Zoe.

— É quase isso que iremos causar! Mas agindo rápido conseguimos impedir uma queda feia no desfiladeiro! Confiem em mim e em si mesmos! Quando eu disser já. — disse Austin vendo que transitavam alinhados na horizontal rumo ao conversor — Um... Dois... Três... Já! Disparar!

As motos atiraram os lasers alaranjados que acertaram os quatro pneus instantaneamente secando e levando o veículo a se desestabilizar barulhento na pista até se voltar para o desfiladeiro e ameaçar cair tragicamente.

— Disparar cordas! — bradou Austin. Cordas de aço altamente resistente foram lançadas contendo ganchos que prenderam-se na traseira do ônibus cuja dianteira estava voltada para o rio abaixo — Puxem! — as motos desaceleraram para puxar na marcha ré — Isso aí, quase lá...

Graças a força conjunta das motocicletas, o ônibus fora tirado do perigo, suas quatro rodas novamente no asfalto. Os Rangers foram até o veículo entrando invasivamente.

— Vamos, saiam daqui, depressa! — disse Austin tentando chamar a atenção do motorista que aos poucos libertava-se do transe piscando os olhos. Austin virou o rosto do homem para ele — Fale comigo, você está bem agora.

— Está tudo bem, vocês estão livres. — disse Zoe — Pessoal, venham, todos pra fora!

Zoe, Damian e Tim alertavam as crianças a saírem dali e buscar segurança.

— Fiquem atrás do ônibus ou corram para procurar um lugar seguro! — orientou Tim fora do veículo, perto da lateral.

— Ué, cadê a Jessie? — indagou Austin. Logo a viu lutando com Psycho-Bots mandados por Mudok em retaliação — Ela tá lutando sozinha com aqueles palhaços!?

A Ranger Amarela enfrentava os robôs com uma energia mais áspera e intensa utilizando-se das garras raptoras para desferir seus golpes que provocavam estragos de salpicar faíscas a um ritmo atípico. Jessie chutara um dos robôs que sobre outros dois, depois, num ágil ataque vertical, rasgando mais dois, de cima a baixo, com as seis garras afiadas de rapina. Em seguida, saltou para trás, logo chutando as costas de um Psycho-Bot que a atacaria, o qual bateu contra o rochedo e se desmontando em algumas partes.

— Caramba, olha só a Jessie, tá fatiando esses inúteis sem dó! — avaliou Tim.

— Mas com as garras raptoras?! — estranhou Damian — As pistolas Z já bastam pra líquida-los! O que deu nela?

— Ela tá agindo como uma fera indomável. — disse Zoe — Jessie!

— Não venham, eu dou conta deles! Cuidem das crianças! — disse Jessie que levou um chute nas costas enquanto agarrava um braço de um Psycho-Bot. Com as garras, decepou o braço do robô e chutou o que atacara-a antes, depois indo ao chão ficando quase deitada sacando a pistola Z e atirando em três que vinham e foram repelidos com estouros de faíscas no corpo. Guardou a pistola e saltou rapidamente, planando no ar desferindo golpes brutais com as garras que derrubavam cada soldado pelo caminho, os quais saíam severamente lesionados ou com as cabeças arrancadas.

— Já chega! — disse Mudok logo após os soldados danificados serem teleportados de volta a nave. O androide saltou para baixo enfrentando Jessie com chutes que ela defendia e esquivava com agilidade. O atacou com as seis garras, o derrubando, logo saltando para subir em sua Beast Cycle. Acelerou e disparou lasers alvejando o conversor subatômico — Não, meu conversor! — disse ele levantando e vendo sua máquina similar a um detector de metais de aeroporto ruir aos pedaços com faíscas.

— Segura essa, Mudok! — disse Jessie visando atropela-lo com a moto — Modo Míssil Turbo!

A motocicleta e sua piloto foram envolvidas por uma potente energia amarela em aceleração máxima. Mudok tentou para-la segurando a roda dianteira erguida no auge de sua força física, seus pés arrastando com forte atrito na pista ao ser empurrado até o desfiladeiro. O androide fora jogado a uma queda de aproximadamente 15 metros.

— Estão longe de me fazer desistir em acabar com todos vocês, Rangers! O pior está por vir, aguardem! — ameaçou Mudok enquanto caía, mas teletransportara-se em retorno à nave de Lokknon.

— Só se for pra você, lata velha. — disse Jessie saindo da moto, os demais correndo até ela.

— Jessie, tá tudo bem mesmo com você? — indagou Austin.

— E por que não estaria? Vocês viram como eu me saí ótima estragando o dia do Mudok. Ele deve estar se sentindo muito humilhado agora se lamentando por seus brinquedinhos quebrados.

— Não é a esse detalhe que nos referimos. — disse Damian.

— Peraí, eu fiz tudo aquilo sozinha e você chama isso de detalhe, Damian? Gente, eu mereço um parabéns, no mínimo, né? — contestou ela.

— A questão é que você tava agindo como se... — disse Zoe hesitando em dizer a verdade dura a amiga — ... como se estivesse fora de controle. Aquela não parecia a Jessie que luta sem desespero.

— Desespero? Eu tentei poupar o trabalho de vocês, foi muito exaustivo puxar esse ônibus e quis quebrar um galho fazendo todo o resto.

— Que nós teríamos feito sem nenhum problema porque não ficamos tão cansados depois de salvar aquelas pessoas. — pontuou Austin — Era pra ser como sempre fazemos: juntos. Ninguém precisa se virar sozinho pra nada, somos uma equipe, já disse isso antes.

— Mas fala sério, Jessie: por que nós estaríamos cansados depois daquele esforço de puxar o ônibus e você não? — questionou Tim.

— Eu não usei de tanta força pra me sentir cansada. Olha, que tal comemorarmos a vitória com o Sr. Dickerson e a Karen?

— OK, mas vê se não fica tão estressada da próxima vez que lutarmos. — disse Austin a tocando no ombro — Vamos lá.

Os Rangers apertaram os botões de teleporte, transformando-se em pilares de luzes com suas respectivas cores, logo chegando a Central de Comando. Dickerson os recebeu de bom-humor.

— Rangers, ainda bem que resolveram vir. — disse o mentor se aproximando.

— Sinto cheirinho de novidade. — disse Austin retirando o capacete ao que os demais também faziam.

— E não é qualquer novidade. — disse Karen virando-se a eles sentada na cadeira giratória.

— A revitalização da célula verde está próxima de ser concluída. — revelou o explorador — Já determinei uma previsão concreta.

— Quando o Owen vai poder voltar ao time? — perguntou Tim.

— Eu estipulo que bem no início do ano que vem. Talvez pouco depois do retorno às aulas.

— Ah, que demais, Sr. Dickerson. — disse Austin — A gente tá mega-ansioso pra receber o Owen de volta porque não tem sido nada fácil ultimamente.

— Concordo, Lokknon tem enviado monstros cada vez mais duros de lidar. — disse Zoe — A sensação é de trabalho ainda mais redobrado.

— Não, que exagero, gente, nós cinco continuamos aguentando firme mesmo com esses monstros mais fortes. — disse Jessie.

— Pra quem disse que dava conta de um monte de Psycho-Bots sozinha é meio estranho dizer isso. — cutucou Tim entrando no assunto delicado do momento.

— Ah não, vocês não vão esquecer daquele meu surto, né? Relaxem, não tem nada de errado comigo.

— Mas naquela hora em particular você definitivamente não estava agindo de acordo com o seu perfil. — disse Damian com intenção de entendê-la.

— É, Jessie, seria melhor você abrir o jogo sobre o que aconteceu ali. — aconselhou Austin — Você não age sendo violenta e passando dos limites pra mostrar que é durona.

— Dickerson e eu também reparamos na maneira como você, Jessie, atuou naquela luta. — disse Karen — Não nos entenda mal, mas é que... não é do seu feitio partir para um confronto sozinha enquanto os outros cuidam de uma função que deveria envolver os cinco e só depois, juntos, irem ao combate.

— Por que eu tô sendo criticada? Eu fiz um bom trabalho, eu queria fazer com que eles não gastassem mais energia depois de salvar o ônibus, só isso.

— Essa desculpa não colou antes e não vai colar agora. — disse Zoe se aproximando dela — Amiga, seja sincera conosco e consigo mesma.

— Não é o seu feito que, sim, foi realmente muito bem executado, Jessie. — ressaltou Dickerson — Mas a raiva com a qual você se deixou levar para guiar seu espírito de luta.

— Verdade, eu senti muita raiva, mas foi pelo Mudok atrair pessoas inocentes pra uma armadilha como aquela. Aquilo me deixou revoltada como nunca antes. — explicou Jessie. Porém, o relato não foi satisfatório.

— Pela cara da Zoe, não foi muito convincente. — disse Damian.

— E sabemos que ela é uma das poucas pessoas que sabem quando você tá mentindo. — disse Tim.

— Eu não tô mentindo, que saco! — disse a Ranger Amarela, exasperada, virando de costas e pondo o capacete na mesa com força. Jessie se forçou para não formar um semblante de tristeza.

— Então qual é o problema, Jessie? — indagou Austin ainda mais curioso — O que você tá com tanto receio de nos contar?

— Eu... venho tentando ser mais enérgica e ativa nas lutas porque... — disse a loirinha que virou-se aos amigos com olhos marejados — Porque eu não me sinto boa o suficiente.

Num curto instante silencioso, os amigos a encararam condescendentes. A insegurança de Jessie com seu desempenho como Ranger passou a ofuscar ou levemente fazer esquecer o progresso relacionado a célula de morfagem verde e por uma boa razão. Afinal, era a estrutura emocional de uma integrante da equipe em jogo, nada estaria acima daquilo.

— Jessie, você não tem necessidade de provar mais nada como uma Power Ranger. — disse Dickerson — Cada um de vocês individualmente são excelentes heróis, já se colocaram à prova e não podem exigir mais do que são capazes.

— Mas acho que essa lição eu não captei muito bem. — disse Jessie meio cabisbaixa.

— Jessie, você é linda, inteligente e forte o bastante pra superar qualquer obstáculo. — disse Karen — Mas sozinha isso nem sempre é possível. É preciso valorizar o papel de cada um na equipe, sabendo respeitar os limites deles e de si mesma.

— Obrigada, Karen. A você também, Sr. Dickerson. — agradeceu Jessie com um sorriso fraco — Gente, me desculpa, eu fui longe demais hoje. Tentei provar meu valor, mas acabei diminuindo o de vocês lutando sozinha.

— Sem ressentimento, Jessie. — disse Austin vindo até ela com o restante — Todos nós podemos passar por momentos assim em que duvidamos das nossas capacidades e agimos sem pensar nas consequências.

— Saiba que entre nós você tem sim muito valor. — disse Zoe — Se me perguntassem qual de nós duas é a mais forte e corajosa do time, eu responderia que é você imediatamente.

As duas deram as mãos simbolizando o elo amistoso que as mantinha inseparáveis.

— Não vai mais bancar a durona e deixar a gente de fora, né? — indagou Tim com sorriso brincalhão.

— Tá bom, eu prometo pegar leve daqui em diante. Eu amo vocês. — confessou a Ranger Amarela que ganhara um carinhoso abraço coletivo observado com satisfação por Dickerson e Karen.

Enquanto isso, Lokknon analisava as imagens minuciosamente do embate de Jessie contra os Psycho-Bots e posteriormente contra Mudok pelo visualizador multifocal.

— Mestre, ainda assistindo a essa vergonha audiovisual! — disse Barooma voltando à sala principal. Aracna o advertiu a fazer silêncio com um dedo na boca e chiando.

— Quando o mestre fica muito concentrado desse jeito, é sinal de que ele está bolando um novo plano genial pra atormentar os Rangers.

— Genial era o nome do meu plano, isso sim. — declarou Mudok, frustrado — Mas aquela Ranger Amarela insolente resolveu tomar a linha de frente sozinha para impressionar os amigos, ainda por cima desmanchando minha trama. Ela me atropelou pra que eu caísse daquele penhasco.

— E daí? Eu teria gostado de ver você se espatifando todo no chão que nem uma geleca. — disse Aracna.

— Pro seu desgosto eu fui esperto de usar o teleporte e bater em retirada com dignidade. E também não quebraria fácil no impacto. — retrucou Mudok — Mas aquilo me intrigou. A Ranger Amarela não costuma ser tão agressiva em combate, embora seja menos delicada e frágil que a Rosa.

— Rosa! Aí está a palavra-chave! — disse Lokknon subitamente, assustando-os.

— Acho que furamos a bolha da concentração do mestre. — disse Aracna, temerosa.

— Parece até que ele estava fazendo palavras cruzadas. — comentou Mudok em tom baixo com a parceira. Barooma irrompeu entre os dois sem pedir licença.

— Mestre, diga-nos: o que extraiu de utilidade para uma estratégia contra os Rangers?

— Mulheres normalmente são associadas a flores pela delicadeza. Na Terra isso não é diferente. — disse o imperador cofiando seu queixo — Esse ímpeto de brutalidade da Ranger Amarela vai de encontro ao que se espera de um comportamento feminino padrão.

— Mestre, com todo o respeito, ser feminina não é sinônimo de fragilidade como um padrão, isso já é bem ultrapassado mesmo entre os terráqueos. — disse Aracna — Mas acho que sei onde quer chegar para atingir a loirinha sem sal e, por tabela, os amiguinhos dela.

— Barooma, me crie um monstro inspirado em rosas exóticas, mas que possua características únicas jamais vistas em flores pelos terráqueos! Uma flor personificada cujo aroma desperte o mal interior de cada indivíduo a partir da raiva! — ordenou Lokknon apontando para o cientista.

— Muito bem, só mais um pouco... E está pronto! O bio-modelador foi abastecido com as informações referentes a rosas de todos os tipos e apropriada a executar a tarefa que o senhor demandar! — disse Barooma indo até a alavanca, a qual baixou com força — Que venha com muita saúde!

A máquina piscava seus relâmpagos azuis aliados ao vapor branco que espalhava-se em baixa altura pela sala. Quando a porta deslizou para o lado, a criatura logo tratou de se apresentar. Saía dali um corpo feminino de farta volúpia revestido com uma pele preto-azulada de textura similar a rosas, mas não com a mesma fragilidade de uma.

— Mestre Lokknon, em qual jardim o senhor deseja que eu cultive minhas estonteantes rosas? — perguntou ela retirando um rosa negra que saíra de seu pulso e jogando para ele. O imperador cheirou o perfume da flor.

— É a rosa mais aromática que já vi. — disse ele, o efeito desinibidor não o afetando, pois sua malignidade total estava aflorada.

— Há muito mais de onde veio essa. — disse a criatura o tirando do trono ao pega-lo pela mão, uma atitude que surpreendera Aracna.

— O que ela pensa que tá fazendo com o mestre?

— Quanto atrevimento. — disse Mudok.

— Você é de uma beleza inigualável, espero que isso corresponda ao seu empenho na missão. — disse Lokknon aparentemente dançando algo semelhante a valsa com ela — Vejo que precisa de um estímulo para ser impulsionada ao trabalho. — colocara a rosa entre os dentes.

— Sim, eu sempre quis que um homem de tamanho charme e elegância dançasse comigo. Agora me sinto motivada a realizar qualquer desejo seu.

Lokknon a inclinou suavemente com seu rosto próximo ao dela, o que Aracna julgou como algo a ser impedido o quanto antes.

— OK, OK, a valsa acabou! Será que podemos voltar o foco ao plano de transformar a Ranger Amarela numa super garota malvada?

Lokknon pigarreou forte retornando ao trono.

— Sabe o que deve fazer, aja fria e calculista. — retomou sua austeridade.

— Será um imenso prazer, milorde. — falara ela com reverência.

— Lotus é a minha flor favorita da Terra. É isso... Lotusa, assim você se chama. — disse Aracna com uma simpatia forçada.

— Jessie está vulnerável sem os amigos por perto agora. — disse Mudok mostrando-a para Lotusa pelo visualizador — É sua hora de entrar em ação.

— Essa garota tem uma bondade transparente demais pro meu gosto. Como qualquer outra, ela certamente não resistirá a minha beleza e muito menos ao meu aroma!

Lotusa teleportou-se à Terra. Lokknon vagarosamente removia as pétalas da rosa negra, imerso em pensamentos.

— O mestre está naquele estado que só um alarme muito urgente pode desfazer. — ressaltou Mudok.

— Eu tenho por mim que o perfume dessa rosa despertou nele o oposto do que faz. — disse ela.

— Lotusa, não me desaponte, minha bela dama floral. — disse o imperador novamente levando a rosa às suas narinas, inebriado com o aroma.

***

No resto da tarde, Jessie resolveu ir a praça dar sequência à leitura de um livro voltado a meninas da sua faixa etária. Enquanto a leitura seguia imperturbável, uma rosa negra surgia ao lado esquerdo da Ranger Amarela. Quando virou uma página, sua visão periférica descobria a tal rosa.

— Ué, de onde foi que veio essa flor? — indagou Jessie franzindo a testa ao pegar a rosa e a examinar — É uma rosa preta... Não fazia ideia de que existia. Será que costumam desabrochar nesse começo de inverno?

Ao sentir o aroma perfumado, Jessie tivera os olhos emitindo um brilho azulado escuro. Largou a rosa tentando se reorientar.

— Que cheiro mais forte... Mas até que gostei. — disse ela numa expressão maliciosa. Olhou para o livro, mas já não a interessava mais — Argh, isso é leitura pra garotas choronas! Como fui perder tempo com essa porcaria melosa? Amor... Amor é para os fracos!

Fora até uma lixeira próxima na qual jogara o livro. Saiu bufando com a boca

— Ai, que chatice!

A flor negra logo se materializou em Lotusa sentada com as pernas cruzadas no banco observando Jessie se afastar.

— Uma nova garota má acabou de nascer! Mal posso esperar pela transformação final, hahaha!

***

Na manhã seguinte, Zoe possuía somente um objetivo que a movia pela Angel Grove Middle School ao entrar: convencer Jessie a pôr as cartas na mesa entre elas depois que a poeira aparentava ter baixado. Brock e Stuart vinham até a Ranger Rosa com sorrisos bobos.

— Posso saber que caras de felicidade são essas? Ganharam na loteria?

— A sua nova amiga acabou de dar o telefone dela pro Brock. — contou Stuart.

— Ela é uma tremenda gata. — disse Brock sonhando apaixonadamente — Nunca imaginei que fosse um dia conquistar o coração dela.

— Nova amiga minha? De quem estão falando?

— Vai lá e descobre, hehehe. — disse Stuart indo com o parceiro.

— Avisa pra ela que vou dar uma ligadinha hoje hein. — falou Brock mostrando o papelzinho com o número escrito bem perto do rosto de Zoe que afastou com desconforto.

— Idiotas. Que garota seria louca de dar o telefone pra eles? — balançou a cabeça em renovação.

Ao se dirigir até seu armário, viu que Jessie organizava o dela, a porta ocultando grande parte de sua cabeça.

— Jessie, temos uma colega novata na nossa sala? Brock e Stuart passaram dizendo que ela deu o número de telefone achando que a conquistaram. Dá pra imaginar? Mas não entendi quando disseram ser minha nova amiga.

— Deve ser porque estejam falando de mim. — disse Jessie fechando a porta do armário e revelando um visual radicalmente mudado que deixara Zoe estupefata a olhando de cima à baixo — Sou a novata mais veterana da classe.

— Ma-mas o que aconteceu com você?! Esse estilo nem combina com seu cabelo!

— Ah, que pena você não ter gostado do meu visual pop punk e gótico. — disse Jessie se portando com uma certa indiferença e altivez — Mas não ligo pra opinião de quem não tem paga minha mesada. Meus pais adoraram e, principalmente, eu adorei.

Tim e Damian vinham juntos e se espantaram com a aparência repaginada de Jessie.

— Garota nova no pedaço? — disse Tim com olhar de flerte.

— Ahn, as aparências costumam enganar e nesse caso é verdade. — disse Damian estranhando o visual adotado por Jessie — Essa é a mesma Jessie que conheço?

— Minha aparência nova não engana a ninguém, ela reflete quem escolhi me tornar. Uma garota independente, forte, corajosa e madura.

— Jessie, será que você não percebe que mudou tanto da noite pro dia?

— Parem de me encarar como se eu não tivesse me olhado no espelho hoje! Todos mudam um dia! Por que eu não posso ser quem eu quiser?

Austin viera por trás de Damian e Tim, reagindo com assombro diante da nova Jessie.

— É você mesma, Jessie?

— Austin, agora não tô afim de discutir. Tenho que terminar uma lição, vocês fiquem aí perdendo tempo falando da garota que eu sou agora.

— Essa mudança sem sentido é por causa do que fez ontem contra o Mudok e os Psycho-Bots? — indagou Austin.

— Sem sentido?! Não sabem o quanto eu estava farta de me sentir a garota boazinha que sempre depende dos amigos sem poder tomar decisões próprias.

— Mas Jessie nós sempre te valorizamos na equipe, nunca colocaríamos você pra baixo. — declarou Zoe soando aflita com o humor áspero da amiga.

— Jessie, tenho que admitir que ficou linda de cabelo solto, mas esse modelito não é nada a sua cara. — disse Tim.

— Se estou linda como esse meu visual não é minha cara? Tim, você calado é um poeta, só sai idiotice dessa sua boca.

— Para de agir assim! — disse Zoe a tocando firme nos ombros — O que deu em você? Somos seus amigos, jamais íamos te desvalorizar!

Jessie retirou as mãos da amiga agressivamente e recuou alguns passos.

— Eu percebi que apenas eu mesma posso me valorizar melhor do que vocês! Ser uma Power Ranger mais forte do que nunca imaginaram!

— Esqueceu de tudo que o Sr. Dickerson e a Karen aconselharam a você? — perguntou Damian.

— A fúria irracional não é o caminho correto pra se evoluir como Ranger. — relembrou Austin.

— Ah, eu tô cheia de vocês! Só querem confundir a minha cabeça com essa psicologia barata! Fiquem longe de mim! — vociferou Jessie virando as costas para seguir até a sala de aula.

Zoe virou-se aos meninos com os olhos encharcados.

— Ela tá muito diferente. E está sofrendo! O que vamos fazer pra ajuda-la?

— Isso me recorda de um péssimo dia. — disse Damian — Quando eu virei aquele bad boy que cismou com o Austin por causa da cor vermelho.

— Bem lembrado. Essa nova Jessie é sinistra, parece que ela almoça e janta num cemitério. — disse Tim.

— Talvez aconteceu algo fora da nossa vista que atingiu ela. — especulou Zoe enxugando as lágrimas — Algo vindo do Lokknon.

— Eu não duvido nada. Mas pra termos certeza absoluta de que o Lokknon tramou isso pra fazê-la se voltar contra a gente, vou perguntar a ela no recreio. — determinou Austin — Sei que foi depois de sairmos da Central de Comando, ela iria à praça sozinha ler um livro no horário.

— Dessa vez sinto um medo mais profundo. — disse Zoe olhando tristemente Jessie se distanciar pelo corredor entre os alunos — Medo de nunca recuperar minha melhor amiga.

Durante o momento da saída após o toque de final das aulas, os estudantes se deparavam com rosas negras e inúmeras pétalas espalhadas. Alguns alunos apanhavam as rosas, atraídos pelo exotismo e sentindo o aroma gélido e agradável. Zoe foi uma dentre tantos a se interessar pela beleza mórbida daquelas flores.

— Mas o que significa isso? O pátio virou um mar de pétalas de rosas... E rosas pretas ainda por cima. — disse ela pegando uma — Existem mesmo ou é algum tipo de cor artificial? Hum... — aproximou-a do nariz.

Porém, Austin veio impedi-la de inalar o aroma bem a tempo.

— Não, Zoe! — disse o líder tirando a flor das mãos dela e a jogando no chão — O aroma dessa flor é venenoso, eu falei com a Jessie.

— O quê? Mas... O que isso tem a ver com ela?

— Ela me contou no final do recreio que viu uma rosa negra no banco da praça, pareceu ter surgido do nada. — revelou Austin — Quando ela sentiu o aroma, teve uma explosão de sentimentos que fizeram ela mudar o jeito de ser, foi com essas palavras que ela me disse antes de me mandar embora e nunca mais falar com ela.

De repente, um alarido foi gerado consistindo numa briga generalizada entre garotos e entre meninas, atraindo uma maioria fazendo coro repetindo "briga, briga, briga".

— Mas que confusão toda é essa? — indagou Zoe, afligindo-se

— São essas rosas! — apontou Austin — Todos que cheiram o perfume se tornam violentos!

Tim e Damian vieram juntos olhar a algazarra se aproximando dos demais.

— Que quebra-pau mais doido! — disse Tim — É noite de lua cheia hoje? Dizem que todo mundo fica bom de briga quando a lua tá cheia.

— Isso parece mais um surto coletivo do que uma briga generalizada comum! — avaliou Damian — Cadê a Jessie? Falou com ela, Austin?

— Sim, ela me deu uma pista do que tá por trás dessa mudança dela. Agora temos a resposta do mistério bem na nossa frente!

— Essas rosas negras que não param de aparecer! — dissera Zoe vendo mais pétalas se arrastaram no chão com a brisa — Quem sente o perfume delas, acaba despertando seu lado mal como aconteceu com a Jessie.

Os comunicadores tocaram numa hora que julgaram essencial para fugirem dali.

— Temos que dar o fora daqui antes que sejamos pegos nesse tumulto! — disse Austin que correra para as proximidades do bosque, logo acompanhado dos amigos. Os Rangers esconderam entre arbutos observando a celeuma — Na escuta, Sr. Dickerson.

— Rangers, já estamos de olho no cenário caótico, não só na escola de vocês, como também em diversos pontos da cidade. — disse o mentor conferindo pelos monitores junto à Karen filmagens de câmeras mostrando cenas lamentáveis de agressões — Muitos que inalaram o perfume dessas rosas negras tiveram suas inibições quebradas e deixaram aflorar todos os sentimentos negativos que acumularam, em especial a raiva e o ódio.

— A Jessie também teve contato com uma rosa dessas. — informou Austin — Tudo que a fazia se sentir desvalorizada na equipe foi colocado pra fora transformando ela numa garota revoltada.

— Ela mal falou conosco durante as aulas. — disse Tim — Se isolou no fundão ficando de papo com aqueles dois retardados como se fossem melhores amigos.

— Isso é o de menos. — disse Zoe — Eu tenho que traze-la de volta antes de enfrentarmos quem está espalhando essas rosas.

— Receio que palavras não convencem facilmente alguém dominado pela ira. — pontuou Damian.

— Traremos a Jessie de volta todos juntos. — decidiu Austin — Sr. Dickerson, vamos atrás dela. Pode rastrea-la? Ela saiu tão rápido e nos ignorou.

— Karen já encontrou o paradeiro.

— Ela está no cemitério Angel Park, escrevendo no que me parece um diário. — disse a tecnóloga semicerrando os olhos — Epa, espera aí. — ampliou a visão da imagem — Há alguém se escondendo atrás de uma estátua numa lápide vigiando a Jessie. Acho que é a dona da floricultura do mal.

— Vamos nessa! — disse Austin, disparando a correr rumo ao cemitério com os demais.

Jessie escrevia tranquilamente no diário encostada numa lápide de grande porte. Lotusa via-se parcialmente escondida observando-a.

— Lá está minha garotinha rebelde. Vejamos se ela ainda prefere escrever seus sentimentos num caderno. — soprou suas pétalas negras até ela.

Algumas pétalas caíram sobre as páginas do diário e outras passaram raspando no nariz.

— Aquele cheiro de novo... O aroma da rosa negra. — disse ela que levantou-se olhando a chuva de pétalas escuras ao redor.

Os olhos da Ranger Amarela tornaram a emitir o brilho azulado, indicando um agravamento no efeito nocivo do perfume. Balançou negativamente a cabeça piscando os olhos.

— Mas que droga de diário! — disse ela encarando o caderno com repulsa, logo o jogando para trás — Isso é coisa de garota fraca, chorona e sofredora, cansei de escrever do que sinto porque não quero sentir mais nada!

Foi andando zangada a passos largos. Lokknon a assistia pelo visualizador tendo uma ideia.

— Ela precisa de um incentivo para extravasar a fúria. Psycho-Bots, ataquem! — disse o imperador batendo sua mão fechada num botão do braço do trono.

Os robôs a cercaram após surgirem em teleporte.

— Vocês tinham que aparecer, hein seus babacas! Péssima hora pra me desafiarem! — disse Jessie se posicionando para a luta. A Ranger Amarela foi desferindo chutes em saltos eficazes, derrubando com certa facilidade alguns dos robôs. Pegou impulso com o pé numa lápide alta, logo chutando um deles e caindo por cima. Depois, ficou de ponta a cabeça dando um chute em um que veio por trás e outro duplo em dois que avançaram.

Se pôs de pé novamente, retirando sua célula e morfador.

— Eu tô sendo boazinha demais com vocês! Vamos energizar essa luta! — esticou os braços para encaixar os dois itens — Hora de morfar! Águia Flavescente!

Após morfar, a Ranger Amarela fora enfim avistada pelos amigos a uma boa distância.

— A Jessie lutando sozinha com Psycho-Bots outra vez. Por que não tô surpreso? — disse Tim.

— Queira ela ou não, iremos ajudar! — disse Austin retirando sua célula e morfador tal qual os outros três — Esse lugar tá bem vago, estamos seguros. Prontos? É hora de morfar!

— Touro Ônix!

— Tubarão Cobalto!

— Arraia Rósea!

— Leão Escarlate!

Os Rangers saltaram acrobáticos aterrissando na batalha que Jessie fazia questão de restringir à ela.

— Não falei pra ficarem longe de mim, seus ridículos? — implicou ela rasgando dois robôs com as garras raptoras na mesma medida que sua fúria incontrolável demandava.

— Numa hora dessas não deixamos ninguém agir sozinho! — disse Austin chutando alguns robôs, de frente ou para trás.

Tim usava suas barbatanas cortantes se defendendo dos golpes de três robôs acima de uma sepultura. Os chutou com os dois pés, logo lançando as armas que acertou dois deles diretamente na cabeça enquanto o terceiro veio dando socos defendidos habilmente pelo Ranger Azul que sacou sua pistola Z e disparou três vezes à queima-roupa, o derrubando com estouros de faíscas. Zoe atirava com sua pistola Z em cima de outra lápide, acertando com destreza quatro Psycho-Bots que caíram fácil.

— Jessie, tenta entender o quanto nos sentimos fortes tendo alguém como você na equipe! Não seria a mesma coisa na sua ausência!

— Nada do que disserem vai me fazer voltar a ser aquela garota frouxa e legal com todos! — disse Jessie cravando brutalmente as garras nas cabeças de dois Psycho-Bots e as arrancando com ferocidade. Sua fúria crescia conforme a luta prosseguia — Chega, chega...

O descontrole emocional chegara a um patamar crítico de modo que Jessie passou a descontar tamanha raiva nos Rangers, primeiro atacando Tim e Damian, os ferindo e derrubando com as garras. Austin veio segura-la por trás.

— Essa raiva sem controle não te leva a lugar nenhum!

— Cala a boca! — retrucou ela se desvencilhando e atacando o Ranger Vermelho várias vezes seguidas com as garras batendo fortes e faiscantes no corpo. Finalizou com um duplo chute de pés juntos executado em horizontal com um giro incrível. Austin foi jogado e bateu as costas numa lápide. Quando Zoe correra para tentar aplacar a fúria em Jessie, Lotusa interceptou lançando suas rosas negras como projéteis. A Ranger Rosa foi tirada do chão com uma explosão flamejante.

— Zoe! — disse Austin que saltou para ajuda-la. Tim e Damian juntaram-se a eles depois — Tá tudo bem?

— Eu tô legal, mas... cuidado com ela, não é frágil como uma rosa.

— Se os Power Rangers vão querer sua amiguinha rebelde de volta terão de passar pelas pétalas! — disse Lotusa.

— Sem problema! — disse Austin que invocara seus punhos selvagens e avançou tentando desferir golpes precisos nela. Lotusa desviava, logo chutando-o no peito num giro. Em seguida, veio Damian golpea-la com a marreta avalanche, o que ela defendeu ao segurar firmemente.

— Nunca lhe disseram que não se pode bater numa mulher nem com uma flor?

O virou bruscamente, logo dando um chute que o mandou contra uma lápide. Zoe avançara junto de Tim cortando as pétalas com o ferrão de arraia e as barbatanas de tubarão.

— O perfume das suas rosas horrorosas não nos afeta! — disse Zoe.

— Eu mostrei como minhas pétalas podem ser leves como penas, agora chegou o momento de verem como são afiadas igual espadas! — bradou Lotusa controlando mais pétalas e as mandando em peso a dupla. Zoe e Tim foram atingidos sentindo na pele o poder cortante.

Austin e Damian saltaram para ajuda-los, mas acabaram também cercados pelas pétalas negras que pareciam enxames de insetos os ferroando em vários pontos do corpo e produzindo faíscas.

— Hahahaha, viram como minhas pétalas não se deixam fraquejar? São como lâminas orientais atacando simultaneamente, cada uma delas!

— Não... Jessie... — disse Austin sofrendo com os múltiplos golpes das pétalas.

— Nos ajude! — clamava Damian não aguentando os sucessivos ataques.

— Galera, eu tô morto... — disse Tim caindo de joelhos.

— Já chega disso! — mandou Jessie atrás de Lotusa — Vocês os deixou no limite.

— Tem certeza? Hum, vejo que está aberta a uma parceria. Se importa de me acompanhar?

Os Rangers estavam combalidos e ajoelhados após a enxurrada de ataques. Mas a dor provocada pelas pétalas não foi mais dolorida que a escolha de Jessie.

— O que tá fazendo? Você é uma Power Ranger, não pode se aliar com o mal! — disse Zoe, exausta e ferida.

— Que vantagem eu tenho participando de um time de fracotes que nem vocês? Lutando ao lado do Lokknon talvez eu receba mais crédito do que vocês nunca deram!

— Não tem noção do erro que tá cometendo! — avisou Damian.

— Volta pra gente, Jessie! — pedia Tim.

— Se escuta-la, vai se arrepender! — alertou Austin.

— Ela fez a sua escolha, portanto, respeitem as decisões dela! — disse Lotusa — Eles nunca fizeram isso por você, não é?

Jessie os encarou por um instante. Dera sua mão direita a Lotusa à esquerda dela.

— Não, nunca. — respondeu ela, friamente.

— Então, vamos nos divertir fazendo essa cidade experimentar a mais bela primavera! — decretou Lotusa, logo se teleportando com Jessie.

— Não! — gritou Austin — Jessie...

— Não podemos ter perdido ela... em definitivo. — disse Damian.

— A gente apanhou pra pétalas de rosas, cara! — destacou Tim — Talvez a Jessie tenha razão, somos um time de fracotes.

— Aquelas palavras não eram delas. — disse Austin levantando com bravura — Não vou desistir de resgata-la!

Zoe subitamente correu para a esquerda.

— Zoe, aonde você tá indo? — questionou Austin.

— Eu tive uma ideia! Volto assim que conseguir o último recurso pra libertar a Jessie!

A Ranger Rosa seguiu saltando em super-velocidade pelas lápides. Lotusa e Jessie seguiam lado a lado pela cidade propagando caos e pânico por onde passavam, a primeira lançando suas rosas como projéteis que explodiam carros enquanto a segunda disparava lasers da pistola Z.

— Está se divertindo, minha águia ferina?

— Eu tô quase pirando de tanta emoção! — disse Jessie não cessando os tiros a esmo que explodiam faíscas perto de cidadãos aterrorizados — Eu admito: é mais divertido ser má!

Aracna surgira ali para se intrometer.

— Será que nesse rolê cabe mais uma? — indagou ela se aproximando altiva.

— Aracna, que ótima hora pra se juntar a nós! — disse Lotusa — Um é pouco, dois é médio, mas três é perfeito!

— Olha você aí, Ranger Amarela, toda venenosa atacando gente que você costumava salvar. Isso não te machuca bem lá no fundo do seu coraçãozinho?

— Machucar? Eu tô adorando isso! Aquela Jessie que você enfrentava está morta e enterrada! — disse ela que atirou três vezes contra postes de placas.

Os Rangers apareceram de inesperado saltando para mais uma rodada.

— Pois pra nós ela continua viva aí dentro! — disse Austin.

— Vocês gostam tanto assim de apanhar? Desistam de mim, acabou, eu tô em outra!

— Amigos de verdade nunca desistem uns dos outros! — contrapôs Tim apontando para ela.

— O fato de insistirmos só comprova o quanto nos importamos com você! — disse Damian.

— Jessie, se juntar ao Lokknon é uma cilada das grandes, a sua mente tá transtornada! — declarava Austin — Deixa a gente te ajudar!

— Quer dar uma dose dupla pra colocar esses pirralhos enxeridos no lugar deles? — sugeriu Aracna a Lotusa.

— Aceito com imenso prazer!

Ambas carregaram raios púrpuras das mãos direitas e dispararam contra os Rangers. O trio foi tirado do chão com a forte explosão resultante. Jessie deu alguns passos adiante.

— Eu assumo daqui! Lotusa, por que não sai por aí espalhando suas rosas com a Aracna?

— Tirou as palavras da minha boca. Aproveite! — disse Lotusa que tomou uma direção ao lado de Aracna. Jessie partiu num salto contra os garotos invocando as garras raptoras, desferindo golpes das armas intercalados com chutes que eles esquivavam.

— Jessie, não queremos te ferir! — disse Austin, desviando de uma rasteira num salto para trás.

— Mas eu tô louca pra ferir vocês! — disse ela que rosnou em fúria ao avançar com as garras.

Zoe permanecia morfada e vira a mãe de Jessie sair do carro para voltar à sua casa. Logo fora aborda-la.

— Sra. Stone! — chamou ela aproximando-se.

Hayley virou-se, reagindo surpresa.

— Ranger Rosa?! Você é a amiga da Jessie, a...

— Sim, sou eu, a Zoe. — disse ela que a puxou pelo braço para falar perto de arbustos que tornavam a conversa reservada. Tirou o capacete — A Jessie tá passando por uma fase horrível.

— Então é isso... Toda essa mudança de comportamento dela tem a ver com algum plano do imperador Lokknon, certo?

— Acertou, ela foi modificada pelo perfume de uma rosa negra que veio de um monstro do Lokknon. Eu não sabia mais a quem recorrer. — relatou Zoe, deixando uma lágrima escorrer — Você talvez seja a única pessoa que pode fazê-la voltar ao que era antes.

Hayley refletiu sobre a decisão com peso emocional.

— Tudo bem, me espere aqui. Vou pegar algumas coisas.

Na luta, Jessie aplicava golpes impiedosos com as garras em Tim e Damian que se limitavam a usar ataques marciais por hesitação. Austin levantava-se tocando no peito ferido.

— Chega, hora de equilibrar o jogo. Punhos Selvagens!

Ao invocar suas armas, ativou os canhões internos e disparou nas costas dela a fazendo cair com as explosões de faíscas.

— Muito covarde atacar por trás! — reclamou ela, avançando para revidar.

— Você não me deu escolha! — disse Austin, esquivando e defendendo-se com as armas. Jessie girou desferindo um chute que Austin desviou se abaixando. O líder chutou-a, mas Jessie defendera com o braço esquerdo e agarrou a perna o virando e logo realizando cortes eficazes com as garras que o mandaram para longe com estouros de faíscas no corpo enquanto "voava" com rodopios verticais.

— Me respondam: cadê a Zoe?

— Preocupada com ela? Isso é um bom sinal. — disse Tim reerguendo-se.

— Calado! Enquanto não usarem suas armas, vão continuar perdendo! O Austin usou as dele, por que vocês, fracotes, não?

— Acha que eu gostei de apelar pros meus punhos? — perguntou Austin, levantando recomposto — Nenhum de nós iria te atacar desse jeito por querer, mesmo nessa situação!

As pétalas de Lotusa voltaram em peso como uma nuvem de insetos, atacando os Rangers, exceto Jessie. A rosa negra personificada retornava com suas pétalas esvoaçantes.

— Quer uma ajudinha?

— Se cansou da Aracna?

— Ela é uma metida, acha que estou abaixo dela! Eu não me dobro a ninguém que não seja meu amado mestre Lokknon!

Zoe surgiu num salto golpeando Lotusa com o ferrão de arraia num corte vertical. Jessie veio colérica para cima da parceira, movendo suas garras velozmente enquanto Zoe defendia-se com o ferrão.

— Por onde andou hein? Se escondendo com medinho de mim?

— Medo de você? A única coisa que sinto por você agora, Jessie, é pena e eu odeio isso! — disse Zoe que não manteve a defesa ante a velocidade dos ataques de Jessie e tomara alguns golpes faiscantes no corpo. Lotusa disparou suas rosas, porém Jessie virou-se e cortara as rosas em pedacinhos.

— Ela é minha! Não se meta!

— Mas que arrogância, eu só quis ajudar, sua malcriada! — resmungou Lotusa — Ótimo, vou acabar com vocês, então! — mirou nos garotos contra os quais avançou numa luta corpo a corpo.

Jessie lançou cortes ferozes das garras em forma de X que empurraram Zoe contra uma fonte jorrando, as costas dela batendo na borda. A Ranger Amarela aproveitou a brecha para um ataque decisivo vindo por cima, porém Zoe defendeu-se com o ferrão que faiscava com o choque de lâminas.

— Jessie, eu não quero aceitar que te perdi pro Lokknon. Somos melhores amigas, nos apoiamos sempre que uma precisa da outra!

— Mas isso teve fim, eu sou uma Ranger completa! Descobrir aquela rosa foi a melhor coisa que já me aconteceu!

— Eu sabia que não iria me ouvir... Mas sei de alguém que você não vai rejeitar as palavras. Olha pra trás!

Jessie virou-se para olhar o lado oposto. Hayley, sua mãe, vinha andando temerosa e devagar. Os meninos seguiam combatendo Lotusa. Damian usou sua marreta batendo-a no solo para destruir as rosas em pleno ar com a onda de choque.

— Seu pivete insolente, ninguém destrata minhas rosas! — vociferou ela, lançando mais rosas negras as quais penetraram nos corpos dos Rangers e infligiam dor os fazendo cair com faíscas saindo.

— Acho que perdi o medo de injeção! — disse Tim, sofrendo ao se debater.

— Minhas rosas penetram como agulhas! Hã, o quê? O que está havendo ali?

Com a desatenção de Lotusa, os Rangers sentiram as rosas perderem o efeito doloroso e as retiravam.

Jessie sentia os joelhos bambearem com a presença da mãe.

— Mãe... O que a senhora veio fazer aqui?

— Recuperar a minha filha. — disse Hayley emocionada.

— É inútil tentar me convencer, eu mudei e mudei pra melhor! Por que ninguém consegue me entender? Que droga!

— Jessie, por favor, não ceda aos desejos do mal. Você é a garota mais forte que conheço. É forte porque você veio de mim que fui uma Ranger que também tinha suas falhas.

— Tudo que eu quis foi... ser uma Ranger melhor do que eu podia mostrar.

— Filha, não podemos ir além dos nossos limites se não soubermos como alcançar um outro nível da maneira correta. Você exagerou agindo guiada pela raiva.

— Não, não faz isso comigo, mãe, me deixa em paz!

— Voce não está em paz, Jessie. Só estará quando finalmente admitir suas limitações e conviver com elas. Fazer isso não demonstra fraqueza, filha, acredite. A verdadeira força de um Ranger... está nos amigos que ele faz pelo caminho.

Hayley deixara no chão fotos de quando Jessie era mais nova.

— Se isso não bastar, eu trouxe essas memórias que você pode não ter mais, mas eu tenho... e elas traduzem todo o amor que eu sinto e que você sempre foi capaz de retribuir.

Jessie foi aproximando-se e apanhara as fotos, olhando cada uma. Se não estivesse de capacete, suas lágrimas as molhariam. Contudo, Lotusa interferiu manipuladora.

— Jessie, não a ouça, estão tentando confundir sua mente para que a fraqueza volte a fazer parte do seu ser!

— Cala a boca! — disse Zoe — Não escuta ela, Jessie! Sua mãe te ama na mesma medida que nós, seus amigos, também amamos!

Preocupando-os, Jessie puxara a pistola Z largando as fotos. A mirou trêmula em Hayley.

— Atire nela, Jessie! Ela tentou manipula-la!

— Filha... Não teria coragem de ferir sua própria mãe. Pense bem.

A tensão maltratava os Rangers a cada segundo.

— Jessie... — disse Austin — Você não quer fazer isso.

Mais um instante se passou e Jessie mantinha a pistola apontada para a mãe, o dedo firme no gatilho.

— Tem razão. Eu fui manipulada. — disse ela.

Para a surpresa de todos, Jessie alterou a mira direto para Lotusa e disparou cinco vezes. A rainha das rosas negras caiu com os estouros de faíscas. Hayley abraçou a filha. Os Rangers se juntaram a elas, vibrando.

— Eu não quero decepcionar mais ninguém desse jeito. — disse Jessie — Mãe, me perdoa.

— Mas é claro, Jessie. Agora vá a luta dando o melhor de si.

— Tá, mas se afasta daqui... — disse Jessie virando-se para Lotusa — Porque vou descarregar minha raiva com quem merece!

— Combinar armas! — disse Austin. As armas foram conectadas e formaram o Abatedor Selvagem que logo foi apontado para Lotusa — Um, dois, três... Disparar!

O laser duplo pegara Lotusa antes que ela tentasse fugir, fazendo-a cair e explodir.

— Traga minha dama de volta com o laser regenerador, Barooma! — ordenou Lokknon.

— Nesse momento! — disse Barooma batendo no botão vermelho que disparou o raio esverdeado sobre os restos de Lotusa. Ela fora gigantizada para o temor dos Rangers.

— Precisamos do poder Megazord! — disse Austin.

Os zords vinham correndo para a batalha final após saírem dos hangares. Os Rangers saltaram para adentrar nos cockpits.

— Chave de comando, ativar! Sequência Megazord!

As máquinas animais ligaram-se, formando o Megazord Z que pousou para a luta. Lotusa liberou rosas negras enormes, porém vivas e carnívoras com dentes pontiagudos.

— Quem disse que cinco contra um não vale? — debochou ela — Ataquem-os! — as quatro rosas avançaram movendo as bocas monstruosas.

— Você não se toca que esse um tem a força de cinco! — disse Jessie.

— Falou bonito, Jessie! — disse Austin, encorajado — Sabre Selvagem!

A espada caíra na mão direita do robô e foi manejada cortando as rosas que se aproximavam. No entanto, uma delas abocanhou o peito do Megazord, bloqueando a visão dos heróis.

— Eca, que saliva gosmenta! — disse Tim.

— Sem falar nesses dentes! — apontou Zoe.

As demais rosas também mordiam em outras partes — pernas, braços e costas.

— Agora drenem cada gota de energia desse homenzinho de lata! — mandou Lotusa.

— Nem vem que não tem! Campo repulsor! — dissera Austin.

O Megazord concentrou o máximo de energia azul para liberar um pulso potente que repeliu e destruiu as rosas. Lotusa expeliu mais seis.

— Lá vem mais! — disse Tim.

— É difícil driblar quando elas atacam todas juntas, o Megazord será mordido outra vez! — analisou Damian.

Dickerson fazia contato.

— Jessie, ative as asas da Águia Flavescente para que o Megazord voe e facilite a luta.

— Finalmente vamos poder voar sem os propulsores que gastavam tanta energia! — disse Jessie — É pra já! Ativar asas de águia!

As asas foram liberadas, levando o Megazord a alçar voo relativamente baixo sendo seguido pelas rosas.

— Podemos desviar das investidas delas! — disse Damian.

— Voar assim é show de bola! — falou Tim.

— Antes tarde do que nunca! — disse Austin. O Megazord voltou-se de encontro às rosas num voo rasante, desferindo golpes com o sabre que as faziam em pedaços.

— Chama Cromática!

Reservou o golpe final contra Lotusa desprotegida com seu exército dizimado. O sabre envolvido pelo fogo multicolorido fizera vários cortes em diversas posições.

— Meu lindo jardim nunca vai florescer! — foram as últimas palavras de Lotusa que, envolta de raios e faíscas, caíra e explodira fatalmente.

Lokknon se ajoelhou frente ao visualizador lamentando a destruição de sua amada.

— Não, minha flor mais bela! Não se vá sem me dar uma última dança!

A rosa negra que segurava se desfez em pó.

— O que eu... estava fazendo? — se perguntou Lokknon, livre do transe.

— Sofrendo de amores por aquela rosa feiosa. — disse Aracna.

O imperador pigarreou ao levantar depressa e voltar ao trono.

— Mas que dor de cabeça infernal! Mudok, meu remédio! — disse Lokknon que caíra de frente ao trono queixando-se da dor — Malditos Rangers...

***

Na manhã seguinte, Jessie retornava ao colégio com um semblante sorridente de satisfação.

— Sabe aquela aluna nova chata que xingava todo mundo? — perguntou a Ranger Amarela para Zoe que arrumava seu armário — Ela foi expulsa. Pelo menos, só fui suspensa.

— Oh, vem cá. — a Ranger Rosa abraçou-a — Eu tô tão aliviada que você voltou a ser... você.

— Alívio também pelas pessoas terem voltado ao normal. Os meninos já chegaram?

— Devem estar chegando. A comemoração de ontem por você foi bem cansativa pra eles.

— Dá pra chamar isso de ressaca?

As duas riram em divertimento, mas o clima ganhou um ar menos agradável com a aproximação de Brock e Stuart.

— Ah não, o dia tava tão calminho. — disse Zoe — O que vocês dois querem?

— O Brock veio se declarar. Zoe, você e eu seremos os próximos.

— Acho que o ditado "quem espera sempre alcança" tem suas exceções. — rebateu ela.

O valentão gorducho mostrara um arranjo de rosas vermelhas para Jessie.

— São pra mim?

— E pra quem mais seria? Escrevi até um poema. Quer ouvir? — disse Brock tirando um papel das flores.

— Não, não, fica pra você. Eu até gostei das flores, mas...

— Ah, então você adora as vermelhas! — disse Brock aproximando o arranjo ao rosto de Jessie — Eu pensei em pegar umas pretas, mas me disseram que não existe! Como não existe? São as mais bonitas!

— Brock, eu disse que gostei das flores, mas... gosto mais delas longe de mim.

— Ué, mas por que?

— Porque sou alérgica. — disse Jessie empurrando o arranjo de volta ao rosto de Brock.

— Mas essas daqui não fazem mal, são bem perfumadinhas, olha só... — disse ele que sentira o perfume das rosas. Porém, seu nariz foi acometido por uma crise alérgica o levando a espirrar continuamente. Stuart foi seguindo desesperado o amigo enquanto ele dava fortes espirros ao ponto de bater nas paredes.

— Parece que as rosas falaram por mim hoje. — disse Jessie abraçando Zoe de lado.

— Até elas sabem que conquistar uma garota assim ficou ultrapassado. — disse Zoe.

As duas caminharam juntas e unidas dando gostosas risadas após se livrarem dos estorvos.

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