Notas iniciais
Sinopse do capítulo: Tim nutre uma paixão platônica justo pela garota mais esnobe e mesquinha do colégio, Cindy Harper. Ele a tem como namorada virtual num site de namoro, porém as coisas não saem conforme o esperado pois um monstro de Lokknon invade a conversa se passando por Cindy e marca um encontro. Tenha uma ótima leitura (e que o poder o proteja)!

A ansiedade estava prestes a alcançar o limite naquela noite nada proveitosa para Tim em deixar a tarefa escolar de casa para um horário no qual, segundo a sua mãe, deveria estar na cama no nível mais profundo do sono. O Ranger Azul dava olhadelas no relógio e no computador ligado cujo ecrã exibia a página de uma sala de bate-papo numa badalada rede social chamada Tabloo. Estava à espera de conversar com alguém especial que conheceu via internet, mas precisava finalizar o dever antes que sua mais nova amizade virtual estivesse online.

— Só mais um pouquinho... — dizia ele, suando de aflição. Escreveu o que restava, logo expirando de alívio — Ufa! Finalmente livre. Eu nunca mais quero ter que copiar texto de livro como punição por conversar na aula. Mas pelo menos aqui, no mundinho virtual, ninguém pode me impedir de falar o que eu quiser.

A pessoa aguardada finalmente entrava para iniciar a conversa.

— Ah, ela chegou! Boa noite, minha flor... — disse ele, digitando, mas logo se deteve — Não, isso é muito brega. O que eu digo? Ahn... Boa noite, minha cara dama. — pensou um instante — Também não, elegante demais, ela vai odiar.

A garota postou sua primeira mensagem:

Cindy: Olá, namoradinho!

Tim: E aí, minha princesa? Tá afim de um rolê?

Cindy: Você quer dizer um encontro?

Tim: Melhor, um passeio. Que lugar prefere?

Cindy: A gente começou não faz nem uma semana e já quer um encontro pessoal?

Tim: Rápido demais pra você? Desculpa, não quis parecer um idiota sem paciência.

Cindy: Gostei da proposta, mas acho que devíamos esperar. Precisamos nos conhecer melhor ainda aqui pelo chat. É mais seguro.

Tim: Seguro? Eu não sou um cara adulto se passando por alguém da sua idade pra fazer coisas horríveis, pode confiar.

Cindy: Me dá uma dica.

Tim: Sou alguém da escola, a Angel Grove High School. Não vale tentar adivinhar agora kkkkkk

Cindy: Seu bobo, claro que não kkkkk

Tim: Tem certeza mesmo que não é hora de nos vermos cara a cara? Sabe, olhar nos seus olhos, tocar nas mãos, tascar uns beijinhos...

Cindy: Nossa, você é todo cheio de...

— Ah, não, ela parou de digitar, falei bobagem. — disse Tim pondo as mãos na cabeça em apreensão pela resposta — Voltou... Caramba, não briga comigo, por favor.

Cindy: Nossa, você é todo cheio de... entusiasmo.

— Ah, que alívio. — disse Tim, suspirando.

Tim: Pensei que tinha ficado brava.

Cindy: Não kkkkk Você sabe usar bem as palavras pra me fazer sonhar com nosso encontro.

Tim: ah bom, assim fico sossegado.

Cindy: me diz uma coisa... Você é alguém que conheço de vista?

Tim: não só de vista como também de nome. Só que normalmente você não me nota tanto. Mas olho pra você todos os dias como alguém contemplando as estrelas.

Cindy: Oh, você é um amor

Tim: Minha mãe tá me mandando dormir, afinal temos que acordar cedo amanhã pra escola.

Cindy: Tudo bem, nos falamos amanhã depois da aula ou durante o intervalo.

Tim: Combinado. Boa noite, princesa dos meus sonhos.

Cindy: Boa noite, docinho!

***

Na manhã seguinte, no movimentado corredor principal da escola, Tim confabulava com os amigos a respeito de sua namoradinha virtual, revelando o relacionamento.

— Eu tenho uma namorada virtual! — disse ele com enorme prazer e sem nenhuma discrição.

Austin, Zoe, Jessie e Damian olharam uns para os outros com ares risonhos, inflando suas bochechas ao se segurarem, mas a resistência durou pouco. As gargalhadas levaram Tim a fechar a cara.

— Desculpa, Tim, nada pessoal. — disse Austin, se recompondo — É que... pra nós você não tem muito jeito com as garotas.

— Pois é, até o Damian teria mais chances que você numa paquera. — disse Jessie.

— Ué, por que eu? Ah sim, sou o nerd desajeitado, nada atraente. — disse Damian, cruzando os braços com olhos fechados encostado nos armários.

— Oh, não quis ofender, desculpa. — disse Jessie dando uma apertadinha na bochecha dele — Mas com certeza iríamos apostar alto se o Tim resolvesse conquistar uma garota.

— A facilidade é que tudo começou na internet. — disse Zoe — Já parou pra pensar se teria a mesma atitude pessoalmente?

— Agora que você falou... Eu não tenho certeza. Se bem que eu já chamei ela pra um encontro em menos de uma semana de namoro. — disse Tim fazendo Austin controlar uma risada — Ah, qual é, me dá uma moral. A Cindy é um doce de pessoa, a gente se dá super bem, ela é ótima.

— Espera, você disse quem? — indagou Jessie, franzindo a testa.

— Cindy. — respondeu Tim que se inclinou para frente falando baixinho com a mão direita perto da boca para abafar o som — Cindy Harper.

— O quê? — disseram os outros quatro, perplexos.

— Estão surdos? Eu disse...

— Não, a gente ouviu com todas as letras. — disse Jessie — Mas o problema não é o nome e sim a pessoa que foi registrada nele.

— Olha ela vindo aí. — disse Tim, passando a mão esquerda na língua e depois no cabelo meio raspado — Como é que eu tô?

— Tá suando mais do que tampa de panela em ebulição. — disse Damian.

— Ela não sabe que é você, sabe? — indagou Zoe.

— Por enquanto. — disse o Ranger Azul, autoconfiante, olhando a garota de chamativa beleza passando pelo corredor acompanhada de duas amigas. Cindy esbanjava todo um charme elitista com seus lisos cabelos pretos e suas roupas de grife — Que princesa.

— Que nojeira. — disse Jessie, olhando-a torto.

— O que vocês tem tanto contra ela? Se vissem a nossa conversa, mudariam de opinião. — disse Tim.

— Cara, as pessoas podem ser uma coisa na internet e outra no mundo real. — disse Austin.

— Não dá nem mesmo pra chamar de amigo uma pessoa com quem você conversa online. — disse Zoe.

— Além do mais, ela não é só sua namoradinha virtual, ela é também a garota mais esnobe e mesquinha entre as mais populares do colégio. — disse Jessie.

— Tô sentindo uma certa inveja em você ou é impressão minha, Jessie? — perguntou Tim, aborrecido.

— Inveja? Eu? Dela? — disse a Ranger Amarela, logo dando uma risada — Acho que só do hidratante caríssimo que ela usa pra deixar esse rosto tão limpo. De resto, pra mim ela não é grande coisa. Tão comum quanto uma pedra.

— Pois pra mim ela é tudo que se pode admirar numa garota. — disse Tim se derretendo pela patricinha ao observa-la conversando com as amigas no outro lado do corredor — Acho que vou lá falar com ela.

— Tim, se toca, amigão. — disse Austin, tocando-o no ombro — Ela pode não se encaixar em você como espera. Melhor deixar tudo às cegas.

— Mas não ia contar que sou o namorado virtual dela. Só uma palavrinha. Vocês vão ver, ela vai se amarrar em mim se eu souber chegar nela com todo o meu estilo. — disse Tim andando para trás a fim de puxar um papo com Cindy. Estalou os dedos das duas mãos com uma postura confiante e vaidosa.

— Eu não quero nem olhar. — disse Jessie cobrindo parte do rosto com o fichário.

— E aí, Cindy. Sabe quem eu sou? — perguntou Tim se apoiando no armário com a mão esquerda lançando um olhar e sorriso sedutores.

— Eu deveria? — disse ela, olhando-o de cima a baixo, arrancando risadinhas das amigas — Hum, lembrei, você é daquela turminha que está logo ali vendo você se esforçar em me galantear. Eu não gosto de ser incomodada por quem não é do grupo classe A.

— Não é incômodo nenhum, gracinha. Eu só quero um papo reto e tranquilo. Você já parou pra se perguntar qual é o seu animal espiritual?

— Animal espiritual? Hum, deixa eu ver...

Jessie sussurrou uma possível resposta:

— Uma cobra.

— Ah, já sei, eu acho que é um pavão. Deslumbrante e gracioso. — disse Cindy, altiva.

— Mudei de ideia, acho que tá mais pra galinha. — disse Jessie fazendo os outros rirem baixo.

— E me vejo como um tubarão... que vai te devorar inteirinha. — disse Tim se aproximando.

— Acho que você tá mais pra um sapo. — falou Cindy encarando-o com desdém.

— Que será beijado e virar príncipe?

— Não. Que tem chulé e não lava o pé. — rebateu Cindy causando gargalhadas nas amigas e batendo suas mãos nas delas com sorrisos infames, logo saindo de perto. A expressão atônita de Tim ficou estática por uns segundos, o Ranger Azul boquiaberto. O resto da turma vinha para consola-lo após aquele forte golpe.

— Tim, você... tá legal, não tá? — indagou Austin, preocupado com o estado emocional do amigo — Porque esse foi o maior fora que já vi na minha vida.

— Claro, eu tô... numa boa. — disse Tim, virando-se, mas com um olhar distante ainda em choque.

— Para de fingimento. Não queria que ela arrasasse seu coração? Aí está, você ganhou. — disse Jessie, dura — A gente avisou que essa garota não presta.

— É, desencana. Ela não vale a energia que você gasta babando por ela e nem quando está no chat. — aconselhou Zoe.

O sinal para todos os alunos se dirigirem às suas salas de aula tocou gerando grande movimentação no corredor. Os Rangers seguiram rumo à sala da 5ª série-A com Tim indo na frente.

— Melhor irmos logo, senão vamos entrar por último e ganhar dever de casa extra. — disse Damian.

— Eu não vou desistir da Cindy. Ela não me conhece por inteiro, quero dar a ela a chance de saber que existe um cara legal por trás do mané que não soube dar uma cantada. — disse Tim, a confiança inabalável, se recuperando rápido demais da humilhação sofrida.

***

Em sua nave, Lokknon assistia ao momento em que Tim é rejeitado maldosamente por Cindy na frente dos amigos. Sentado em seu trono, o imperador soltou uma risada de escárnio junto de Aracna e Mudok.

— Esse Ranger Azul é patético, acredita que conquistará uma fêmea da sua espécie com esses trejeitos ridículos se sentindo um cavaleiro branco metido a salvar uma princesa. Me embrulha o estômago, argh!

— Adorei a recepção desta terráquea, eu teria feito a mesmíssima coisa. — disse Aracna simpatizando com o jeito de Cindy — Acho que pra coroar a cena, ela deveria ter pisado nele. Ele deve ser daquele tipo desprezível que põe o casaco numa poça d'água pra sua amada não se molhar quando atravessa a rua.

— O que acham de tirarmos algum proveito dessa relação dupla que eles vivem? — sugeriu Lokknon — Um monstro que invada a rede de computadores interferindo na conversa que o Ranger Azul tem com sua adorada donzela. — esfregou as mãos lentamente, excitado com a ideia — Barooma, acione já o bio-modelador!

— Tratei de colocar o boneco na máquina antecipadamente, mestre. Agora mesmo irei forjar nosso mais novo guerreiro com a devida função para esse plano! — disse Barooma que logo baixou as informações referentes a vírus de computadores e outros elementos associados ao universo da internet. Puxou a alavanca engatando a fabricação do monstro.

O bio-modelador artificial exalou sua fumaça na hora da formação da criatura que sairia dali. O monstro logo se apresentou após o nascimento.

— Saudações, família! Cheguei para dar pane no seu sistema! Por onde eu devo começar?

— Ele é bem animadinho, acho que tá disposto a ir até as últimas consequências. — disse Aracna — Seu nome será...

— Spyware. — disse Mudok, interrompendo a parceira que o encarou furiosa e o empurrou de leve.

— O que pensa que tá fazendo? Eu quem assumi a função de dar nomes às aberrações do Barooma!

— Uma vez eu não posso participar? Além do mais, você dá nomes horrorosos! — retrucou o androide.

— Chega dessa discussão os dois! — bradou Lokknon, levantando do trono enfurecido.

— E minhas criações não merecem ser chamadas de aberrações! — contestou Barooma.

— Muito bem, me mostre do que é capaz. — disse Lokknon ao monstro — Quero que entre no servidor da minha rede virtual.

— Mestre, tem certeza de que é seguro deixar ele fazer isso? — indagou Aracna.

— Por que? Está com medo de ele ver seu histórico de pesquisa? — perguntou Mudok.

— Vocês duvidam? Olhem só! — disse Spyware que tocou num cabo de alimentação do visualizador multifocal e se converteu numa faísca azulada que percorreu até o mainframe do computador. Rapidamente, o monstro surgiu na tela acenando com a mão direita — Olá, mamãe, eu estou na TV!

— Que senso de humor irritante. É bom que ele sirva pra alguma outra coisa mais útil que entrar sem ser convidado. — disse Aracna.

— Pronto, mostrou ao que veio. Já pode sair. — mandou Lokknon.

— Logo agora? Aqui é tão quentinho, repleto de dados que eu posso distorcer ou transferir para múltiplos endereços!

— Nem pense nisso! — disse Mudok sacando sua espada — Volte imediatamente!

Spyware retornou a sua forma física ao sair pelo cabo no qual se introduziu.

— Preciso que invada o computador deste garoto quando ele estiver online numa sala de conversa com uma garota. — disse Lokknon mostrando a Spyware imagens de Tim em sua casa enquanto estava na internet.

— Será fácil como apertar Ctrl+Delete. — disse o monstro, empolgando-se para dar início a sua travessura cibernética.

***

Durante o intervalo, Tim estava irrequieto ao ver a garota dos seus sonhos passar com suas amigas a uma certa distância com suas bandejas de lanche no refeitório. O acompanhando como de praxe, Damian o observava e ria por dentro dianre da expressão de fascínio bobo do amigo.

— Ahn... Você quer um guardanapo ou um babador?

— Eu pareço um idiota, né? Assim não vou conseguir impressionar ela agindo feito um fã maluco. — disse Tim se desfazendo da postura de admirador com a frustração — E eu não tava babando. — enxugou rapidamente um pouco de saliva que escorria do canto da boca.

— Olha, tenta sair dessa, ela tá fora do seu alcance. Até os caras do futebol americano sofrem pra conquistar essa garota. Além do mais, eu seguiria o conselho da Jessie, a Cindy não vale o esforço. — disse Damian furando uma caixinha de suco de laranja — Às vezes precisamos saber quando desistir, ainda mais se aquilo que perseguimos só se afasta da gente.

— Mas eu estive bem pertinho dela no corredor hoje. — retrucou Tim franzindo a testa.

— Ah, esquece, nada do que eu diga entra nessa sua cabeça de miolo mole. — disse o Ranger Preto tomando seu suco e conferindo sua tabela de estudos no notebook. Tim voltou a atenção para o dispositivo tendo um lampejo impulsivo.

— Ei, me empresta aqui só um segundinho! — disse o Ranger Azul tomando de súbito o notebook de Damian que segurou-o forte.

— Peraí, o que vai fazer? Eu tava organizando meu cronograma! — reclamou Damian tendo que soltar o computador pela insistência.

— É rapidinho, ela tá no celular agora, deve ter entrado na internet vendo se tô online. — disse Tim certo de que Cindy o aguardava. Digitava veloz, sedento pelo encontro. Entrou no site, logando em sua conta e verificando a sala — Ela tá on! Eu sabia!

— Shhh! Não faz estardalhaço ou senão ela pode olhar pra cá e descobrir o admirador secreto dela.

— Admirador que nada, sou o namorado dela, aquele que vai provar todo o amor que sente desde a primeira vez que a viu. — declarou Tim, empolgado — Nem sei o que escrever. Opa, ela disse "oi". Oi pra você também, chuchuzinho.

— Chuchuzinho?! Quanto romantismo. — implicou Damian meio constrangido.

— Ela disse que achou meio brega, mas agradece a atenção. Que tal eu dizer que tô a poucos metros de distância?

— Se quiser ferrar com seu anonimato, vai fundo.

— Vou dar uma dica: direi que tô usando um laptop com... — disse Tim parando para conferir a marca do notebook atrás da tela — ... um símbolo de maçã comida.

— Não tem algo menos óbvio? Fala que tem dois caras da quinta série A, um negro descolado quase careca e um branco nerd de óculos de grau. — ironizou Damian.

— Daí ela pode adivinhar qual de nós dois é o namorado virtual! Cara, você é um gênio. Ah não, peraí... Ela vai pensar que é você! Nunca que ela imaginaria que fosse eu.

— Do jeito que você demonstra sua paixão tão obcecado, é capaz dela apontar pra você e certamente não vai ser com um sorriso no rosto.

— Eu não tô obcecado, mas sim apaixonado. Ela é linda demais pra não ser admirada como eu admiro ela. Se ela soubesse... que existe um garoto legal que realmente gosta dela mais do que qualquer idiota do futebol... Eu não tenho coragem de tentar de novo.

— E nem deve. O que você vai fazer?

— Vou manter tudo como está, por enquanto. Aí, tive uma ideia: me empresta um pen-drive pra baixar uma música romântica e enviar pra ela. Por favorzinho!

Damian fechou a cara, mas cedeu a súplica. Tirou o pen-drive do bolso da calça e o colocou na mesa.

— Valeu, mano! — disse Tim, pegando-o. O sinal do fim do recreio soou alto.

— Mas faça no seu computador, o meu tem coisa mais útil pra consumir dados. — disse Damian pegando de volta o notebook.

***

Tim havia reservado um bom tempo da tarde para prosseguir sua conversa com Cindy iniciada no intervalo no colégio e entrou na sala de bate-papo conforme a hora marcada. A felicidade estampada no rosto do Ranger Azul foi encarada com repulsa por Spyware que o espionava pela janela despercebido.

— Mas que estúpido esse garoto. Mal sabe ele que será o pior encontro de sua vida. Vamos acelerar um pouco esse romance idiota.

O monstro se metamorfoseou, reduzido a uma faísca azulada que adentrou pela fiação elétrica e percorreu até chegar ao sistema operacional do computador de Tim, posteriormente invadindo o site e a conversa. Se transformou em um anúncio em forma de X falando de uma promoção que surgiu apenas para Cindy que estranhou. Mas ao clicar justo no X, a tela de seu computador apagara, assustando-a.

— Não! Droga, só podia ser um vírus! Ah não... Mas por que ficar tão desesperada? Meus pais podem mandar consertar ou mesmo comprar outro novinho. — disse ela que deu de ombros e se afastou do computador, bem menos preocupada com a situação.

Para Tim, tudo parecia inalterado. Aliás, melhor do que nunca. Spyware mantinha a conta de Cindy ativa, se passando por ela ao digitar as mensagens.

C: Eu pensei bem a respeito do nosso encontro... Quero que seja hoje à noite, às nove em ponto.

T: Não brinca, eu nem sei o que dizer.

C: Pode dizer sim, bobinho kkkkk

T: Nossa, você tá mesmo super afim! Eu te amo.

C: Também te amo, meu príncipe. Tô louca pra saber como é seu rosto e o gosto do seu beijo.

T: Caramba, você já quer ir rápido assim? Eu tô quase tendo um ataque do coração! Tá marcado, vou aparecer hoje as nove. Onde é?

C: No parque ecológico. Tô te esperando lá ♥

T: Mas... toma cuidado, o parque é meio perigoso a essa hora.

C: Eu te aconselho o mesmo. Não se atrase.

T: OK, a gente se vê. Eu te amo mil vezes!

C: Eu te amo mais cem milhões!

Tim praticamente saltou da cadeira de tanta alegria, erguendo os braços e urrando eufórico.

— Ela é minha, eu venci! A melhor noite do ano será hoje! Vou contar cada minuto!

Aproveitando a distração, Spyware se deslocou pela unidade de processamento diretamente ao pen-drive com o qual Tim baixaria a música para Cindy, tarefa que ele havia esquecido completamente de executar.

***

No lugar e hora marcados, lá estava Cindy pacientemente à espera de seu amor virtual. Colhia flores de um arbusto e sentou-se numa pedra removendo as pétalas roxas como num "bem me quer, mal me quer". Tim surgia atrás dela com um feixe de flores amarelas e dera um sorriso largo ao vê-lá.

"De costas é tão linda quanto de frente!", pensou ele, suspirando.

— Cheguei. Meio atrasado, foi mal.

— Não importa, você foi corajoso de sair só pra me ver, isso é admirável. — disse a falsa Cindy, virando-se para ele.

— Pois é, tive que sair escondido da minha mãe.

— Vem mais pra perto, quero ver como você é, tá muito escuro aí. A lua hoje tá divina.

— Tem certeza? Tudo bem, lá vou eu... — disse Tim dando hesitantemente uns três passos adiante, saindo da escuridão sob a árvore alta. O rosto enrubescido do Ranger Azul se expôs ao luar — Oi, Cindy... Sou eu, seu namorado virtual.

— Então... era você o tempo todo?!

— Você tá desapontada, eu sei! Me desculpa por hoje no colégio, eu não quis ser inconveniente!

— Não... Tá tudo bem, eu... Te perdoo, mas aquilo não foi nada. Sou eu quem devo desculpas por te tratar tão mal. Lembrando das nossas conversas, eu vejo que você é um garoto doce, gentil e incrível.

— Sério mesmo? Você de agora em diante vai passar a gostar de mim? Mas promete que também vai respeitar meus amigos, principalmente a Jessie.

— Prometo. Quero conhece-los melhor.

— Olha, te trouxe essas flores. — disse Tim mostrando as flores bem próximas do rosto dela. Cindy expressou um nojo evidenciado pela boca torta em aversão as flores perfumadas — Escolhi essas pelo aroma que lembra você.

— Ora, pare! — disse a falsa Cindy que derrubou as flores e pisou sobre elas — Eu sou alérgica a flores... e a pirralhos idiotas como você também! — seus olhos brilharam em azul.

— Não tô entendendo! Acabou de me elogiar e do nada volta a ser a antiga Cindy! Meus amigos tinham razão! Você é uma garota muito falsa, sabia?

— Pois é, eu sempre estou por aí escondendo minha real faceta. — disse Spyware que desmanchou sua farsa transformando-se ao que de fato era. Tim recuou, abismado — E aí, Ranger Azul? Deu match ou não deu?

— Essa não, um monstro do Lokknon! Eu fui um tapado de não desconfiar que tava muito estranho! — disse Tim, os olhos lacrimejando — A Cindy nunca diria aquelas palavras pra mim.

— Será que dessa vez caiu na real, seu trouxa? — indagou Spyware que o empurrou com um chute. Tim se reergueu com as duas pernas e avançou contra o monstro desferindo chutes de artes marciais, porém levou uma bofetada seguida de uma rasteira — O que foi? Não vai se transformar em Ranger?

Tim tateou os bolsos da calça e do casaco.

— Meu morfador! Esqueci em casa!

— A diversão tá só começando! — disse Spyware que desapareceu teleportando-se.

— Não fuja, seu covarde! — disse Tim, levantando com dor no peito pelo golpe. Acionou o comunicador — Sr. Dickerson, na escuta? Sr. Dickerson!

O explorador acordava com o barulho interminável do seu comunicador no criado-mudo e o pegou coçando os olhos.

— Olá, quem tá na escuta?

— Sou eu, o Tim! Eu não acordei o senhor, acordei?

— Tava quase tirando um cochilo. — mentiu ele que bocejou alto — Mas o que foi? Por que ligar a essa hora?

— Tem um monstro do Lokknon à solta! Melhor reunir todo mundo na Central de Comando. Vou contar tudo que aconteceu até agora.

— Está certo, vou contatar Karen. Você avisa aos outros Rangers. Já estou indo pra lá. — disse Dickerson, sério, logo desligando e saindo da cama — É, o dia estava tranquilo demais.

***

Na Central de Comando, Tim havia relatado todos os fatos até ali ocorridos, não escondendo sua tamanha decepção com o encontro que limitava sua força de vontade.

— E de repente... a Cindy que eu acreditava ter mudado não passava de uma mentira! Sabem como eu me sinto, não sabem?

— Claro que sim, mas agora temos problemas bem maiores. — disse Austin.

— Vocês estão pouco ligando pra como eu tô depois desse rolo, né? Tudo bem, se vocês querem que eu termine com a Cindy, eu vou. — resmungou Tim, aborrecido.

— Mas... vocês nunca nem começaram. — disse Zoe — Uma relação de verdade acontece quando existe contato visual, olho no olho.

— A Zoe daria uma boa psicóloga, não acham? — comentou Jessie.

— Minha mãe faz terapia e repassa umas coisinhas pra mim. — disse a Ranger Rosa.

— Tim, ninguém aqui está minimizando sua frustração com o encontro. — disse Dickerson, compreensivo — Acontece que agora virou uma questão de interesse geral entre nós, uma missão Ranger.

— E é pessoal também. Eu quero dar uma lição naquele desgraçado pra ele ver que ninguém tapeia Timothy Ray Dixon e sai impune.

— Falou como um justiceiro durão de história em quadrinhos. As revistas que eu te dei serviram hein. — disse Damian tocando o amigo no ombro ao lado dele — Você não chorou feito um bebê depois que ele fugiu, né?

— Que bebê o quê! Eu fiquei furioso e ainda tô! Ele vai se ver comigo, ah vai.

— Vai se ver conosco. O Lokknon pode ter colocado um alvo em você, mas se mexe com um, mexe com todos. Ele talvez não tenha esse espírito de equipe com os soldados dele. — disse Austin.

O som do alerta reverberou em toda a sala e os Rangers voltaram o foco a Karen que rastreava a ação de Spyware na cidade.

— Hora de se mexerem, crianças! Nosso bichinho virtual está atacando um parque de diversões lotado... ou pelo menos estava lotado antes dele vir. — avisou a tecnóloga — A polícia está evacuando a área, nada mais que isso.

— Certamente esperam que os Power Rangers venham salvar a noite. Estão prontos? — perguntou Dickerson virando-se aos heróis.

— Sempre estamos. — disse Austin pegando sua célula de morfagem e o morfador.

— Ah, peraí, só um instante! — disse Tim andando depressa até Karen — Ei, Karen, pode me fazer um favorzinho? Eu ia baixar uma música pra Cindy, mas acabei esquecendo. Só lembrei no meio do caminho pro encontro. Toma aqui. — entregou o pen-drive à ela — Mas tem que ser uma música bem romântica hein, um... um sucesso bem atual, não acho que ela goste de música antiga dos anos 80 ou 90, ela acha brega e cafona...

— Tim, vem logo! — chamou uma impaciente Jessie.

— Já tô indo! Não esquece tá?

— Pode deixar, acho que não será uma pesquisa muito árdua. — disse Karen. Dickerson deu uma risadinha de boca fechada para ela.

— Muito bem, galera! — bradou Austin com todos já posicionados — É hora de morfar!

— Touro Ônix!

— Tubarão Cobalto!

— Arraia Rósea!

— Águia Flavescente!

— Leão Escarlate!

A equipe chegava ao parque de diversões em saltos acrobáticos sobre-humanos, alguns amedrontados cidadãos da Alameda dos Anjos num corre-corre pelo arredores. Spyware lançava rajadas oculares, destruindo brinquedos diversos que estouravam faíscas e explosões.

— Aí, não toca no carrossel, é o meu favorito! — disse Zoe vindo junto aos amigos.

— Ah, finalmente chegaram! Power Chatos, não vão estragar meu triunfo sobre esse mundinho ridículo que é o de vocês!

— Quer dominar o mundo, é? Talvez você seja um rei na internet, mas vamos te provar que na realidade a coisa é bem diferente! — disse Austin — Rangers, atacar!

Os heróis partiram com tudo para cima de Spyware, executando chutes habilidosos. Porém, após brevemente se defender dos golpes, o monstro se subdividiu em fragmentos metálicos que flutuavam em conjunto no ar e se moviam com grande rapidez.

— Que doideira é essa? — perguntou Tim.

— Parece um enxame de abelhas! — disse Jessie.

— Ou uma nuvem de gafanhotos! — adicionou Zoe, surpresa.

— Ele se fragmentou em nanorrobôs, o corpo dele deve ser composto disso! — aferiu Damian.

Em sua forma de nuvem de fragmentos, Spyware se moveu, dividindo-se em cinco outras nuvens que atacaram os Rangers ferozmente, cada um tomando um golpe na intensidade de um empurrão que produzia faíscas no uniforme e depois caindo. O monstro, em seguida, retornou a sua forma original, os fragmentos reagrupando.

— O que acharam do meu truque genial?

— Vai ter que fazer melhor do que isso! — disse Tim levantando-se com garra — Barbatanas cortantes! — invocou suas duas armas.

O Ranger Azul correra até Spyware visando retaliar.

— Tim, espera! — avisou Austin.

O monstro virtual se esmiuçou novamente, desviando da investida de Tim e atacou o Ranger Azul com força máxima na forma de nuvem em todas as partes. As faíscas salpicavam com estouro a cada agressão.

— Tim! Não! — disse Zoe, preocupada — Temos que fazer alguma coisa! Ele não vai parar de machucar o Tim!

— Pistolas Z! — disse Austin, sacando as pistolas prateadas, os demais o fazendo também. Uma chuva de lasers disparados abateu sobre a nuvem de fragmentos que não cessava os ataques à Tim — Detonador Max! — chamara a pistola vermelha exclusiva que possuía poder de fogo elevado e disparou junto aos outros. Foi com tal reforço que Spyware recuou, voltando a forma original.

— Vocês são uns estraga-prazeres em mil terabytes!

Os Rangers correram ao amparo de Tim.

— Tim, cê tá legal? — indagou Austin ajudando-o a levantar.

— Só meio zonzo, ele me fez girar que nem pião atacando assim, parecia que tava por toda parte! Meu corpo todo tá ardendo, mas passa.

— Saiu correndo feito um louco. Essa briga não é só sua. — disse Jessie.

— É tempo da gente revidar à altura! — disse Damian — Juntos!

— Cansei desse joguinho sem graça! Tentem passar desse nível intermediário! Psycho-Bots, atacar! — disse Spyware jogando para o alto as esferas nas quais os soldados monoculares eram armazenados. Os robôs pousavam no solo com seus detonadores em forma de rifles.

O monstro saiu pelo parque em fuga na sua forma multi-fragmentada enquanto os Rangers se digladiavam com os soldados robóticos. Na Central de Comando, Karen procurava a música de Tim tranquilamente. Porém, a imagem na tela se distorcia, logo surgindo a figura de Spyware.

— Saudações, amigos dos Rangers! Aqui quem fala é Spyware! Eu não sou muito de fazer cerimônias, então vou apenas brincar um pouquinho com esse banco de dados tão vasto! Não é justo que só vocês tenham informações tão valiosas! É bom que tenham feito um backup. Ops... Não fizeram! Hahahaha!

— Não pode ser... — disse Karen se afastando do painel aterrorizada.

Uma barra de download apareceu na tela principal avançando rápido no percentual.

— Ele está mesmo dentro do nosso computador?! Ah não... — disse Dickerson.

— Pior. Transferindo nossos dados. Tudo que se refere a tecnologia da Intercorp está sendo desviado pra rede de Lokknon!

— Isso é gravíssimo. Rangers, se apressem! Spyware gerou um clone de si mesmo se instalando no pen-drive de Tim para criar uma armadilha que pode custar muito caro pra Intercorp. Agora mesmo ele envia dados da nossa rede ao Lokknon. O destruam antes que a transferência se complete!

— Tá brincando, né? — disse Damian lutando contra um Psycho-Bot — Não pensei que o problema ficaria tão sério! Temos que para-lo imediatamente!

— Mas ele fugiu e nos deixou lutando com um monte dos soldados pregos do Lokknon! — disse Tim — A culpa é toda minha! Devia ter esperado voltar pra casa quando tudo acabasse!

— Não se culpe, Tim. Nem você ou a Karen teriam como saber. — disse Dickerson pelo alto-falante do painel — Acabem logo com eles e vão atrás de Spyware. O upload já está em 50%.

— O comandante Leozor vai nos jantar vivos... — disse Karen — Não, não vou ficar de mãos atadas! Há vários antivírus instalados na rede, posso roda-los em conjunto.

— Mas ele não é um vírus qualquer.

— Esse clone age como um vírus convencional, deve ser afetado por nossos programas que você sabe que não são publicamente acessíveis. Não custa tentar. — disse Karen executando os antivírus em simultâneo.

No parque, os Rangers derrotaram o último Psycho-Bot que caiu desmontado.

— Vamos nessa! — falou Austin correndo. Spyware lançava raios dos dedos em mais brinquedos e foi surpreendido pelos Rangers logo atrás dele — Duvido você escapar agora!

O Abatedor Feroz já se encontrava formado e o Ranger Vermelho bradou o tiro duplo fatal. Os dois raios laranjas atravessaram Spyware que tombou e explodiu intensamente. O download na Central de Comando foi interrompido para o alívio de Dickerson e Karen. Em sua nave, Lokknon não reagiu com tanta fúria.

— A transferência... foi abortada! — disse Aracna.

— Ainda não acabou. Barooma, laser regenerador! — ordenou Lokknon.

— É pra já, mestre! — disse o subalterno que bateu no botão vermelho, disparando o raio esverdeado sobre os restos de Spyware que se reconstituiu agigantando-se para o desprazer dos Rangers. E desprazer maior foi para Dickerson e Karen com o download sendo retomado.

— Viram? Não há com o que se preocupar. Enquanto o Spyware original estiver firme e forte, o clone seguirá operando. — disse Lokknon, sorrindo otimista.

O gigantesco monstro alvejou a roda gigante do parque e levou suas garras, assustando a todos que estavam preso no brinquedo. Os Rangers se alarmaram, mas foi Tim quem mais se inquietou.

— Ah não... Aquela ali é a... Cindy!

— A Cindy tá lá em cima?! — disse Jessie sem acreditar — A gente vai salva-la?

— É o nosso trabalho. Fazer o bem sem ver a quem. — disse Zoe a amiga.

— OK, primeiro assistimos ela se apavorar todinha, depois salvamos. — idealizou Jessie.

— Eu vou! — assumiu Tim saltando alto para a roda gigante cor-de-rosa. Cindy gritava por socorro com a proximidade de Spyware que abria sua boca como se quisesse devora-la.

O Ranger Azul a pegou nos braços, pulando de volta ao solo. A garota o olhou de forma serena ao ser posta no chão como uma princesa salva.

— Você tá legal, Cindy? — indagou Tim que pigarreou e alterou o tom — Você está bem?

— Nem acredito que... fui salva por um Power Ranger. Ainda mais sendo da minha cor favorita. Eu não costumo agradecer as pessoas, mas... a você eu devo sim. Obrigada. — disse Cindy que logo dera um beijinho no capacete de Tim. Ele tocou no ponto beijado, bem na bochecha.

Os outros vieram chama-lo.

— Azul, depressa, temos que detê-lo! — disse Austin.

— O dever me chama. Até mais! — disse Tim que correu de volta aos amigos. Cindy ficou a observa-lo suspirando, tendo criado uma espécie de paixonite instantânea.

— Enviando os zords animais agora! — disse Dickerson. As máquinas saíam de seus hangares direto ao local da batalha. Os Rangers saltaram para seus respectivos zords que corriam valentes.

— Chave de Comando inserida! — disse Austin girando o objeto — Iniciar sequência Megazord!

Os zords ligaram-se uns aos outros dando forma ao opulento Megazord Z. Spyware veio ao ataque se fragmentando novamente e cercando o robô gigante.

— Aperte Enter para se render!

— Vamos te mandar direto pra lixeira! — disse Tim.

— Campo Expansível! — disse Austin apertando um botão inédito. Uma energia azul se concentrou em todo o Megazord que a liberou explosiva num campo de força, repelindo e desmachando a nuvem de fragmentos — Yeah! Gostei dessa função!

Spyware se recompôs e disparou seus raios óticos. O escudo Z defendeu os Rangers e ainda rebateu o golpe que acertou de volta os olhos do monstro.

— Não! Estou cego, estou cego, que droga!

— Sabre Selvagem! — disse Austin invocando a espada prateada que caiu na mão direita do Megazord.

— Insígnia Feroz! — disseram os cinco em uníssono. A espada formou o círculo com os ícones de cada Ranger em sentido horário — Partir! — decretaram fazendo o gesto diagonal de corte imitado pelo Megazord com o sabre.

Spyware foi acertado e recuava cambaleante envolto de raios azuis.

— Conexão falhando... Sistemas off-line...

O monstro caíra, explodindo em fogo e fumaça. A população aplaudiu os Rangers calorosamente.

— Os heróis do dia também salvam a noite. — disse Austin. O Megazord fizera um joinha em agradecimento.

A barra de download desapareceu tanto na Central de Comando quanto no computador de Lokknon.

— Ufa, ainda bem. Nenhum antivírus era rápido ou potente o bastante pra frear o upload. — disse Karen, cansada — Esse foi um peixe graúdo.

— Já podemos ir dormir tranquilos. — disse Dickerson, aliviado — Parabéns, Rangers. Um feito e tanto. Isso merecia uma medalha.

Na tela de Lokknon aparecia "Transferência Cancelada". O imperador disparava lasers em toda a sala central da nave, sua fúria implacável externada.

— Mestre, por favor, acalme-se! A vitória definitiva virá um dia! — disse Mudok se abaixando para escapar dos lasers.

— Estávamos tão perto... tão perto! — esbravejava Lokknon. Ergueu a cabeça quase inclinando para trás e falou para o alto — Que seja maldita toda iniciativa da Intercorp contra meus planos! Dickerson!

— Temos que falar pra ele não comemorar cedo demais! — disse Aracna a Mudok, ambos abaixados.

***

Na Angel Grove High School, o assunto mais comentado entre boa parte dos estudantes era o heroísmo dos Power Rangers que excepcionalmente travaram uma batalha noturna para salvar um parque de diversões e seus usuários. Tim ia até o banheiro, mas ao passar pelo da meninas, cuja porta estava entreaberta, ouviu a voz de Cindy acompanhada das duas amigas, Kate e Lindsey, e parou para escutar a conversa escondido na parede.

— Saiu no jornal, até pedi pro meu pai colocar na página pra que eu lesse, mas não tinha nenhuma foto e deixei pra lá.

— Foto sua? Não chegou a ver nenhum repórter por lá pra dar entrevista? — perguntou Lindsey.

— Minha não, mas... dele. — disse Cindy, relembrando — Ninguém filmou esse momento, mas só de saber que eu vivi aquilo... me dou por satisfeita. Ele não é tão alto pessoalmente, mas o jeito como ele me perguntou se eu estava bem... — suspirou extasiada — Tive até a impressão de que ele falou o meu nome.

Tim tentava controlar o sorriso de felicidade total, tremendo a boca ao ouvir o depoimento apaixonado de Cindy. Sentia o coração bater acelerado a cada palavra.

— Eu quero um dia ter a chance de saber como é o rosto por trás daquele capacete. Sendo bonito ou nem tão bonito... ele é um herói de verdade, acima de tudo. — disse Cindy, emocionada.

— Já eu queria ser salva pelo Ranger Vermelho. — disse Kate, sonhando acordada — É o líder, né? Deve ser o mais gato e charmoso.

— Somos duas, mas acho que o Ranger Preto também não deve ser de se jogar fora. — disse Lindsey. As meninas riram descontraídas.

Tim não ouvia mais nada, pois somente a voz de Cindy ecoava na sua mente. Durante a saída, compartilhava aos amigos uma notícia.

— Não vão acreditar, eu tenho uma nova namorada virtual. Conheci ela hoje no intervalo, ficou amarradona em mim.

— Mas e a Cindy? — indagou Jessie — Me diz que você terminou com ela porque trair pela internet não tem diferença nenhuma com o mundo real.

— Sim, eu disse pra ela que iria mudar de cidade. Ela acreditou e aceitou numa boa, pensei que iria ficar brava ou chorando.

— Nada desapegada ela. — disse Zoe olhando para Jessie que concordou arqueando as sobrancelhas.

— Mas eu vou superar, apesar dela nunca saber que fui o cara que a salvou. Droga, é como nos quadrinhos, o herói nunca fica com a garota. Damian, você tem que me mostrar histórias com finais mais felizes.

— Se quer finais felizes, melhor reler os contos de fadas. — disse Damian a esquerda do amigo.

— E sua namorada nova, Tim? Como ela é? — indagou Austin.

— Tão adorável ou até mais incrível que a Cindy. Louco pra conhecer ela daqui há pouco.

— Ops, lembrei que tenho que correr pra casa, minha mãe planejou uma tarefa urgente e ela precisa muito da minha ajuda. Falou, galera, até mais tarde. — disse Damian indo embora apressado.

— Já marcou um encontro com ela?! Esse pelo visto vai ser um romance com mais futuro. — disse Zoe.

— Fazer o quê, né? A fila anda. Ela deu a isca pro tubarão aqui e vou morder com gosto. A gente se vê mais tarde. — disse Tim, indo ao encontro.

Austin, Jessie e Zoe não contiveram a risada quando o Ranger Azul se afastou ansioso para conhecer a mais nova paixão virtual. Ao chegar no ponto de encontro, uma praça bem arborizada, Tim a viu de costas e se derreteu.

— Morena de cabelos pretos bem compridos... Exatamente como ela descreveu. — falou baixinho. Passou os dedos na língua e depois no cabelo alisando sua quase careca. Aproximou-se da garota de vestido preto — E aí, gatinha? Sou eu, o tubarão sedutor da internet.

Assim que ela virou-se para ele, suas pernas bambearam, mas não por um bom motivo.

— Oh, nossa, você fala tão carinhosamente!

— Ei, o que é isso? Hã? Tá de sacanagem...

Para a desagradável surpresa de Tim, a namorada não era ninguém menos que Damian disfarçado numa astuta pegadinha.

— O que foi amorzinho? Que cara é essa? Você não disse que gostava de garotas góticas? — perguntou ele com voz de falsete feminina.

— Damian, fica longe de mim! Nem pensa nisso!

Por trás de um arbusto, Austin, Jessie e Zoe surgiram em risadas.

— Aí está, Tim! Sua namorada perfeita que arranjamos! — disse Austin.

— Ela não é linda? — ironizou Jessie.

— Espero que casem e tenham lindos filhos! — debochou Zoe.

— Ah, vocês me pagam! Damian, não, não...

— Vem aqui dar um beijinho, vem! — disse Damian correndo atrás dele fazendo um biquinho. Os outros seguiram rindo incontroláveis vendo o novo "casal" correr em círculos.

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