Power High
13 Arco 2 Capitulo 1
Notas iniciais
/Power High, dois meses depois, 14:00./
O pátio principal da área verde estava inteiro decorado, muitas cores preenchiam o local, as árvores secas já sem folhas misturadas ao sol alaranjado que pintava os céus simbolizavam a última semana de outono e do festival. Connor observava a paisagem pela janela da biblioteca enquanto andava com um carrinho de livros de devolução.
Kyle caminhava com o amigo não com sua melhor aparência. Estava com olheiras enormes e uma barba rala que o deixava com aparência de sem teto.
— Qual foi a última vez que você dormiu? – Connor perguntou para o amigo.
— Dois dias atrás. – O norueguês respondeu bocejando.
— Devia relaxar hoje, vamos para o festival... Sohye tem perguntado de você. – Sugeriu o loiro.
— Não tenho tempo. – O mais alto respondeu abrupto. – Quem sabe na próxima.
— Okay... então vai pro dormitório e descansa, eu cubro você hoje. – Kyle olhou confuso. – Anda logo antes que desista de ser legal com você.
Kyle sorriu sumindo rapidamente do local. Connor andava preocupado com o amigo, desde o ocorrido na Noruega ele andava pesquisando e dando uma de detetive, Tom o ajudava, mas não ao ponto de ficar parecendo um sem teto.
/Área verde, 14:05./
Tom estava sentado a frente de Manu que nesse festival resolveu desenhar no rosto das crianças, no momento sua tela era Tom.
— O que vai querer? – A garota perguntou sorrindo.
— Pode ser o símbolo do Batman mesmo. – Tom entregou sua bochecha.
— Okay... – Manu flutuou o pincel com tinta preta e movimentando os dedos ele começou a pintar. – E o treinamento do Connor?
— Bom... ultimamente ele tem treinado sozinho, — Tom explicou. – Mas começou a me ajudar também com o lance do disparo de previsão.
— Ele é um bom alvo móvel? – Manu riu de sua piada.
— Sim, mas eu sou bom de pontaria. – Gabou-se o moreno. – Mas eu ando meio preocupado é com o Kyle...
— Com o Kyle? – Manu estranhou. – Sei que estão investigando juntos, mas ele está tão ruim assim?
— Connor solicitou pra ser vizinho de parede dele... disse que as vezes ele dá uns gritos. – Tom pontuou sobre o que o loiro o contara. – As vezes ele escuta o Kyle se remexer.
— Deve ser difícil, sabe... perder a irmã tão jovem. –Manu baixou o pincel. – Terminei.
— Sim. – O estadunidense concordou olhando para o espelho vendo o morcego perfeito. – Mudando de assunto... baile de outono no sábado, quer ir comigo?
— Sabe que eu também ia te convidar. – Manu provocou dando um beijo na ponta do nariz do rapaz. – Convite aceito.
— Okay. – Tom sorriu. – Nos vemos lá.
/14:20/
Luna e Sohye trabalhavam a mil por hora com as planilhas do festival, não podiam parar.
— Não sei porque me convenceu a fazer isso. – Luna debochou anotando no notebook.
— Porque te rendi notas altas esse semestre. – Sohye jogou na cara rindo. – Tem visto o Connor e o Kyle?
— Connor anda ocupado demais treinando, Kyle não vejo faz um mês. – Luna respondeu deixando a amiga cabisbaixa. – Relaxa, ele precisa desse tempo pra ele.
— Já fazem dois meses que a gente não conversa. – Sohye falou. – Sei que não somos tão próximos, mas depois de sentir tudo aquilo... ficou meio difícil de desligar.
— Como assim?
— Geralmente sinto ele do outro lado. – A asiática sentia o rapaz. Quase todas as noites quando deitava e nem a água noturna a fazia deixar de sentir. – Com raiva, triste, obstinado, intenso... até demais.
/Dormitório masculino, 14:20/
Kyle caminhava pelos corredores a caminho de seu quarto, admitindo internamente que precisava descansar e refrescar um pouco o cérebro. Seus devaneios repentinos foram interrompidos ao ouvir enormes botas pesadas atrás de si.
— Ivon. – Kyle se virou vendo o russo a sua frente. – Algum problema.
— Nenhum. – Respondeu ameno. – Só queria dizer que... sinto muito pela sua perda. – Kyle arqueou uma sobrancelha. – Sei como deve ser difícil perder alguém tão próximo e se precisar conversar...
— Okay. – Kyle interrompeu. – Obrigado, eu acho.
— Se cuida, você tem pessoas preocupadas com você.
Kyle observou Ivon sumir pelo corredor estranhando a atitude do russo, jamais iria esperar uma atitude assim do russo.
/Salão de ginástica, 14:30./
Elena treinava suas transferências de barra paralela. Nunca fora de comemorar o festival de outono, não via nada de muito especial, mas vez ou outra aparecia para agradar Sohye que ficava feliz com sua presença.
— Já tentou jogar o seu transversal pra trás ao invés de para cima? – Elena se assustou ao ouvir a voz de Ivon. – Te assustei?
— Nem um pouco. – A ruiva mentiu tomando um gole de água. – Veio me irritar ou treinar?
— Os dois. – Ivon sorriu caminhando até a namorada.
— Falou com o Kyle? – Perguntou curiosa.
— Falei. – Afirmou. – Sohye tinha razão ele está um caco.
— Ninguém devia culpar ele... – Elena advertiu.
— Ele se culpa... Sei bem como é.
— Mais alguma coisa que queira dizer antes de começarmos? – A russa perguntou aguardando um convite para o baile.
— Nenhuma, podemos começar então.
— Okay... – Concordou sem deixar transparecer seu desapontamento.
— Vamos lá senhorita Starkov.
/Prédio principal, 19:00./
Connor corria para fora do prédio apressado olhando para o relógio na tela do celular, estava atrasado. Quando se viu fora do prédio voou para o terraço avistando Luna sentada no parapeito.
— Atrasado. – pontuou a morena rindo.
— A biblioteca estava interditada hoje. –O britânico respondeu pousando e colocando os óculos de grau, o que foi estranhado pela amiga. – Sempre tenho dor se cabeça preciso usar, recomendação médica desde que meu crânio rachou.
— Isso explica tudo. – Luna conteve um riso. –O que vai ser hoje?
— Aguenta aí. – O loiro ajoelhou.
— Wow tá fazendo o que? – A garota perguntou nervosa.
— Pegando minha mochila... – Respondeu confuso tirando o objeto das costas para tirar polainas de peso. – Cada uma tem dez quilos, acha que consegue se manter no ar com vinte quilos a mais?
— Posso tentar. – Luna tomou os apetrechos os prendendo um em cada perna.
— Precisa de um empurrão? – Connor provocou.
— Sei me virar sozinha, quatro olhos. – Luna começou a soltar sua rajada de ar com muita força fazendo os cabelos de Connor se agitaram junto com a poeira do chão e o resto de folhas que sobrava mas árvores. A italiana começou a alçar um vôo baixo e lento. – Viu.
— É. – O loiro debochou jogando um pequeno círculo de fogo em baixo da concentração de ar fazendo com que Luna subisse, mais de maneira desequilibrada.
— Filha da... – Luna amaldiçoou Connor internamente por sua atitude infantil. –Quando eu descer daqui eu vou matar você.
— Então pousa. Só vai com calma pra... – Luna encerrou a corrente de ar começando a cair rápido para aterrissar. – Merda. – Connor não conseguiu segurar o riso ao ver a morena aterrissar sobre ambos os joelhos e acertar uma cabeçada em um por conta da velocidade abrupta que a jogara no chão. –Isso é curtição. – O loiro gargalhava.
— Por que não me avisou?
— Eu tentei. – Falou ainda rindo. – Mas você não escutou. – Caminhou até a italiana abaixando para ver aonde a mesma havia recebido a pancada. Afastou os fios castanho com os dedos,contato esse que deixou Luna um pouco sem jeito. – Tá um pouquinho vermelho.
— Ótimo. – Luna revirou os olhos em seguida os fixando nos azuis de Connor.
— Que foi? – O loiro encarou os olhos da amiga.
— Quer ir ao baile de outono comigo? – Connor ficou rubro e começou expelir vapor.
— Bom eu... acho melhor... não sei dançar. – Vendo a vergonha estampada do rapaz Luna o silenciou com o indicador.
— Não precisamos dançar, só vamos. – Sugeriu. – Todo mundo vai e eu falei pra Sohye que eu tinha um par.
— Porra... Eu nem tenho um terno... – Luna encarava o piromaníaco com um sorriso debochado. –Okay eu vou, caralho, é difícil dizer não pra você.
— Eu sei. – A morena piscou para o rapaz. – Agora vamos tentar de novo.
/Dormitório feminino, 19:00./
Manuella terminava suas anotações e organizava os modelos dos desenhos para o dia seguinte do festival. Não achava que desenhar bichinhos nos rostos alheios seria uma tarde extremamente cansativa. Colocou todos em uma pasta organizadora e se encaminhou para um banho, mas não antes de ter sua atenção tomada pelo celular tocando.
— Está interrompendo meu banho. – Brincou sabendo que era Tom do outro lado da linha.
— Olha pro lado de fora. – O rapaz pediu.
— Okay. – Manu se escorou no batente da janela observando o céu escuro. – Não tem nada
— Olha de novo.
Acima da altura do dormitório masculinos um feixe vermelho se formou escrevendo a frase “Quer ir ao baile comigo?”
— Esse ano você se superou. – Manu riu sem jeito ao telefone. – Quero sim.
— Perfeito. – Tom comemorou. – Ano que vem vai ser ainda melhor.
— Garanto que vai. –A brasileira concordou. – Posso tomar meu banho agora?
— Fique a vontade.
— Boa noite Olho Laser. – Manu esperou o rapaz se despedir e desligou para em seguida suspirar alegre, ela e Tom tinham um relacionamento, porém, nunca fizeram um pedido real de namoro, não que fosse necessário, mas seria cativante para ambos.
/Dormitório masculino, 20:40./
Tom E Connor estavam sentados na cama do loiro jogando videogame, a três semanas Connor havia conseguido trazer para seu quarto e como a vida em Power High pode ser monótona e chata, não resta muita coisa para fazer.
— Total de vinte a quatorze. – Connor bateu no peito. – Parece que sou o rei do mortal kombat.
— Se lutasse tão bem quanto joga o Ivon não teria rachado seu crânio. – Tom provocou fazendo o amigo fechar a cara.
— Vocês estão gostando de falar da minha cabeça não é? – Connor perguntou retoricamente. – Mas eu vou tentar de novo nos jogos daqui um mês e meio.
— Vamos ver se dessa vez é diferente. – Tom apoiou. – Só não inventa história de novo...
— Ficou sabendo? – O loiro surpreso recebeu um aceno positivo de cabeça. – Elena te contou?
— Ivon me contou. – Respondeu o olho laser. – Elena me contou a parte dela.
/Uma semana depois do incidente na Noruega, 16:32./
Connor treinava suas sequências e poderes no boneco de treino na tarde de quinta-feira quando estava livre da biblioteca.
— Faísca, sombra agora! – Elena entrou tirando os tênis para pisar no tatame ficando apenas com a legging preta e uma regata também preta, os cabelos estava presos e as mãos com faixas brancas.
— Sem tempo ruiva, pede pro seu namorado. – Connor respondeu ríspido tendo o ombro tocado forçando-o a olhar para a ruiva.
— Fiquei sabendo que inventou algumas coisas enquanto estava fora. – A russa afrontou o loiro.
— Ah sobre isso. – Connor sorriu prepotente. – Eu precisava de uma coisa para distrair o seu amiguinho, então eu usei o que deixa ele mais instável... você.
— Claro. – Elena revirou os olhos. – Espero que tenha sido a última vez, não vai gostar de resultado se fizer de novo. – Connor riu com escárnio.
— Se essa é sua melhor ameaça. – Os olhos de Connor brilharam alaranjados. – Precisa melhorar muito. –O corpo do loiro já fumegava.
— Acredite, eu nem comecei. – Connor se ajoelhou no chão percebendo sua pele ficar mais clara a cada segundo. – Tenho que admitir,começar a congelar seu sangue é difícil.
— Vai se ferrar. – Connor grunhiu aquecendo mais o corpo caminhando na direção de Elena.
— Opa, pensa que vai aonde? – Elena levantou uma das mãos fazendo Connor se ajoelhar novamente. – Tá sentindo frio? É seu sangue congelando. – Elena se divertia vendo as veias saltadas na testa e pescoço de Connor ficarem roxas. – Agora pensa bem antes de inventar alguma história, ou seu crânio não vai ser o único osso que vai ter que colar! – A ruiva terminou sua ação vendo o rapaz cair de quatro tossindo. – Com isso ficamos quites. – Elena caminhou para fora do tatame.
— Espero que esteja na arena... – Connor falou com dificuldade ainda no chão. – Pra ver o que vou fazer com seu soldado.
— Você vai tentar.
/Dormitório masculino, de volta ao presente./
— Ela consegue ser pior que o Ivon. – Connor se arrepiou memorando a cena. – Mudando de assunto, tem um terno para me emprestar?
— Pra que quer um terno? – Tom arqueou uma sobrancelha. – E meus ternos não servem em você.
— Respondendo a primeira pergunta. Baile de outono e...
— Você vai? – O moreno perguntou estupefato. – Com quem?
— A Luna me convidou... – Connor não terminou a frase por ver o amigo rindo. – Qual a graça?
— Não teve coragem de chamar ela? – Tom tentava segurar o riso.
— Eu não ia chamar ninguém. – Explicou o loiro jogando os braços para cima. – Ela que foi mais rápida.
— Okay, na minha cabeça a verdade vai ser que você não teve coragem de convidar ela. –O estadunidense sorriu sarcástico. – Vou pedir uma autorização para irmos comprar um terno pra você.
— Isso existe mesmo? – O loiro perguntou surpreso.
— Existe, mas só podemos nos afastar por alguns quilômetros e temos um limite de horas. – Pontuou se levantando. – Mas faço isso amanhã.
— Certo. – Connor se levantou para abrir a porta. – Vou ficar acordado pensando no meu vexame que vou passar sábado a noite.
— Você é dramático não é?! – Tom reclamou. – Não vai ter vexame... Eu espero.
— Prometo não te envergonhar na frente da sua garota.
— Okay, meu idiota favorito. – O moreno levantou a mão esquerda que foi apertada pelo loiro. – A gente se vê.
/21:59/
Kyle caminhava de um lado para o outro no pequeno quarto, as vezes indo até o banheiro lavar o rosto. As olheiras haviam aumentado consideravelmente no último mês, estava desgastado e havia desistido dos jogos entre fraternidades. Seu foco estava em achar o assassino de sua irmã.
O norueguês tinha relatos, capturas de câmeras de segurança e quase cem porcento de certeza que o responsável foi o vilão “Sem forma”, que havia sido dado como morto a oito anos pelas ações do antigo grupo chamado “Quarteto feroz”. Mas ele sabia que de alguma forma ele não estava morto, Tom que o estava ajudando também pensava que o óbito era falso e forjado.
— Tá difícil. – Kyle sentou na beirada da cama. – Seria mais fácil se você estivesse segura ou pelo menos esse filho da puta, preso. – O jovem analisou o desenho que Connor havia feito com sua descrição. – Eu vou caçar esse desgraçado e juro que ele vai pagar, mas antes eu preciso achar ele... o que pelo visto não é fácil. – Se levantou indo até o banheiro jogar água no rosto para se encarar no espelho. – Não enlouqueça, não perca o controle... não seja fraco. – Kyle se jogou no chão batendo as costas contra o piso gelado. – Nada tá fácil aqui, principalmente sem você. Quando fechar os olhos pra dormir vou sonhar com você... é sempre você.
/área da piscina, 00:10./
Cansado de sofrer em seu quarto Kyle correu até o único lugar que sabia que haveria algo para lhe acalmar. Sentou-se na beira da piscina molhando os pés e em seguida acendendo o cigarro de maconha dando uma longa tragada sentindo os pulmões relaxarem pela primeira vez em dois meses.
— Que merda eu tô fazendo? – Perguntou olhando para o baseado em sua mão antes de ouvir passos leves. – Quem tá aí? – Perguntou sem alarde, não importava se fosse alguma autoridade do colégio, estava desgastado demais para continuar com qualquer coisa.
— Oi... – Ouviu a voz muito conhecida por ele, havia a evitado por dois meses, mas agora ela estava ali, bem a sua frente.
— Sohye. – O norueguês virou o rosto. – Tá fazendo o que aqui?
— Tentando me acalmar. – Caminhou até o rapaz com uma toalha entre os ombros. – Mas tem sido difícil desde que voltamos da Noruega. – Kyle sabia o porque.
— Desculpe. – Pediu sem olhar para a asiática. – Quer que eu apague?
— Não... – Respondeu sem jeito se sentando.
— Okay. – O silêncio se instaurou entre os dois. Um não queria falar e outro com medo de uma simples pergunta. – Como tá indo o festival...
— Por que está me evitando? – Sohye perguntou direta. – E prefiro que olhe pra mim quando eu falar com você.
— Não tô evitando você. – Mentiu sem olhar para ela.
— Para de mentir. – Sohye segurou o rosto do rapaz entre as mãos forçando-o a encará-la. Viu seu rosto, a barba rala por fazer, as olheiras e os olhos sem vida. – O que você tanto anda fazendo... você tá péssimo e eu só sei disso porque te vejo na biblioteca antes de você me ver e fugir.
— Não queria preocupar você. – Respondeu ameno.
— Kyle eu literalmente consigo sentir tudo que você sente. Sinto você do outro lado do campus se sobressaindo a qualquer pessoa nesse lugar. – Os olhos da garota começaram a se encher d’água. – Você tem me evitado sendo que eu garanti que podia contar comigo. Você tá se matando aos poucos enquanto todo mundo está preocupado com você.
— Eu não preciso da pena de vocês! – O moreno se levantou. – Vocês pensam que sabem como é, mas não tem ideia do que eu tô passando, suas vidas são perfeitas... – Foi interrompido por um tapa na cara.
— Vida perfeita? – Sohye perguntou com escárnio. – Acha que isso é vida perfeita? Kyle eu fui fruto de um caso, meu pai não quis saber de mim e me jogou aqui aos quatro anos de idade, eu vivi sozinha aqui a vida toda e você diz que minha vida é perfeita? O Connor foi abandonado pelos pais e você acha que a vida dele é perfeita? – Sohye não se importava mais a medida que as lágrimas caíam.
— Eu não quis...
— Vá se foder Kyle! – A asiática gritou. –Só toma cuidado pra não se afogar com tudo isso que você finge não sentir.
Kyle ficou em pé vendo a garota ir embora. Não faria nada, afinal, o que um egoísta poderia fazer?
/Quinta-feira, Power High. 14:00./
Tom esperava no portão junto de Ivon a chegada de Connor para irem em busca de um terno.
— O que realmente estamos esperando? – Ivon perguntou impaciente.
— Só mais uma pessoa. – Tom conteve o nervosismo. Enfiar Ivon e Connor no mesmo lugar poderia ser a receita secreta para o caos. – Ali. –Apontou para o loiro que pousava a frente dos dois.
— O que ele tá fazendo aqui? – Connor perguntou encarando o russo.
— Eu ia perguntar a mesma coisa. – O mais velho semicerrou os olhos.
— Hoje vamos comprar ternos. – Tom abraçou os dois pelo pescoço. – E vocês não vão destruir a loja... pode ser?
— Não concordo muito com a ideia. – Connor reclamou.
— Se ele não me provocar, – Ivon se soltou do aperto de Tom. — estarei de acordo.
— Ótimo, então vamos chamar um táxi e ir logo. – Tom sorriu ficando a frente da dupla. – Temos quatro horas.
— Tempo demais pra passar com ele. –Os rivais falaram em uníssono se encarando em seguida.
— Eu te odeio. – O britânico provocou.
— É recíproco.
/Shopping, 14:23./
A equipe guiada por Tom caminhou tranquila até a loja em que o estadunidense indicara como a melhor no ramo da alfaiataria. Tinham ternos de diversos modelos, cores, tamanhos e estampas se saíssem de lá de mãos vazias não seria por falta de opção.
— Boa tarde cavalheiros. – Um senhor muito bem vestido com uma camisa social branca perfeitamente passada, calças de alfaiataria bege e um sapato caramelo chamou a atenção do grupo. – Algum modelo em específico?
— Estamos procurando... – O russo foi interrompido.
— Conjunto slim fit. – Tom se apressou. – Quais as opções?
— Sigam-me por gentileza.
— Percebeu Connor? – Ivon perguntou com um sorriso sarcástico no rosto. – Se chama educação, poderia aprender com ele.
— Vai se foder. – O piromaníaco xingou.
/14:50/
Connor saiu do provador com um terno todo em vermelho rubro e nos pés um sapato básico de couro preto, a camisa social era branca e a gravata também rubra.
— Eu tô parecendo um pinguim que caiu num balde de sangue. – Olhou no espelho sorrindo. – Gostei.
— Imaginei que iria. – Tom sorriu. – Esse ano azul básico. – O moreno vestia um conjunto azul cobalto, com uma camisa social branca, gravata preta e sapatos caramelo. Ivon manteve o tradicional preto e camisa social branca, sua gravata era verde oliva com detalhes bordados em um verde mais claro que o russo usava com um nó kravat que deixava a gravata como se fosse um lenço. – Viram como foi fácil? Já podem começar a se dar bem.
— No máximo eu suporto ele. – Ivon se pronunciou ajeitando o nó da gravata.
— Eu nem isso. – Connor se embaraçava com a gravata.
— Não sabe dar um nó? – O russo conteve um sorriso.
— Nó falso, mané. – Connor descolou a gola do colarinho da camisa. – Cara será que todo esforço vale a pena?
— Você nem teve coragem de chamar ela. Se esforça pelo menos. – Tom repreendeu o mais novo com um cascudo.
— Foi ela que te convidou? – Ivon perguntou segurando o riso.
— E como você convidou a sua namorada? – O britânico fingiu interesse. – Montado em um urso pra manter a tradição russa?
— Não preciso convidar ela, nós já vamos juntos. – Ao ouvir as palavras proferidas pelo moreno Tom e Connor se entreolharam. – Que foi?
— Realmente não convidou ela? – Tom perguntou recebendo uma concordância de cabeça. – Você precisa convidar ela.
— Vai por mim não preciso. –Ivon garantiu. – Ela não é do tipo que gosta de convites.
— Toda garota quer receber um convite, retardado. – Connor pontuou.
— Não vou ouvir o cara que não teve coragem de chamar a garota. – O russo ríspido afrouxou o nó.
— Connor tá certo Ivon. – O olho laser advertiu indo para o provador. – Precisa convidar.
Ivon se sentou no pufe quadrado pensativo. Elena não queria receber um pedido... queria? Sempre deixara expressa sua opinião sobre bailes e eventos, não parecia que ela gostaria disso.
— Vai convidar ela?
— Cala a boca. – Ordenou ao loiro que levantou o dedo médio em resposta. – Quanta classe, me surpreende que... – Ambos os rapazes se assustaram com um grito vindo do lado de fora “Pega ladrão!”
— Você quer?... – Connor perguntou vendo Ivon correr para fora da loja. – Tá bom já entendi.
Os rapazes correram para fora vendo um homem de camisa branca e boné preto correr da equipe de segurança.
— Ele vai tentar dar a volta. – Ivon explicou apontando para a outra alameda do shopping. –Vai até lá pra bloquear passagem, vou continuar com a perseguição.
— Quem disse que recebo ordens suas? – Connor provocou. – Vou porque quero, não porque você mandou.
O loiro alçou vôo e Ivon seguiu correndo atrás do homem. Desviando dos civis não demorou muito até que o moreno ultrapassasse a equipe de segurança por conta de sua velocidade superior, como havia dito o homem deu a volta dando de cara com Connor que esperava impaciente que começou a correr de frente assim que avistou o sujeito lhe atingindo com uma pancada com o ombro que o jogou para o chão.
— Cacete esse é meu terno ideal! – Connor comemorou enquanto Ivon rendia o homem.
/Power High, Dormitório feminino, 19:00./
Luna, Manu, Sohye e Elena estão no quarto da russa fazendo uns pequenos ajustes no vestido de Sohye.
— E se a gente tirar esse babado dos ombros? – Luna sugeriu segurando o vestido azul bebê.
— Como é a parte que menos gostei eu apoio. – Elena concordou pegando a tesoura. – Alguma objeção? – As três olharam para Sohye que estava cabisbaixa.
— Pode esquecer um pouco do amigo e focar aqui? – Manu pediu carinhosa, sabia que Kyle era importante para a asiática, mas não o podia deixar ditar suas emoções.
— Okay. – Sohye falou baixo. – É que nesses últimos dois meses muita coisa aconteceu.
— Concordo com ela. – Elena afirmou se ajeitando no pé da cama. – Vocês devem estar pilhados.
— O que mais tem provocado vocês nesses dois meses? –Luna perguntou inocente. – Não só o trio Noruega, mas todas nesse quarto.
— Essa é fácil. – Manu tomou a iniciativa. – Estou preocupada com os jogos entre fraternidades e em que herói escolher para ser meu tutor ano que vem.
— Preocupações de formandos. – Elena se apoderou da frase de Manu. – Mas também estou preocupada com o Ivon se formando daqui algum tempo, também com o fato de ele ter recebido uma recomendação para a Allianz.
— Por que isso preocupa você? – Sohye perguntou.
— Bom eu não quero ele vá para a Allianz. — a ruiva assumiu. – Tenho medo que a gente não resista.
— Deve ser difícil. – Luna apoiou a russa. – Estou preocupada com as provas de fim de semestre.
— Só isso? – Manu provocou arrancando risos de todas.
— Por hora sim. – Luna concordou.
— Estou preocupada com o Connor. – Sohye falou. –Ele tem estado focado demais em derrotar o Ivon que se isso não acontecer...
— Não vai acontecer. – Elena acrescentou.
— Ele se frustre. – Sohye completou. – Preocupada com o Kyle que tem lidado com o luto de um jeito terrível e principalmente comigo que sinto tudo que aqueles dois problemáticos sentem. – Todas se entreolharam percebendo que algumas preocupações pareciam torpes perto da situação de Sohye. – Pode tirar os babados do ombro.
— Okay. – Elena passou a tesoura na peça. – Mudando de assunto, porque esse está mórbido. Vocês todas vão ao baile?
— Eu vou. – Manu respondeu. – O Tom fez um convite em raio laser esse ano.
— Esforçado. – Luna riu. – Eu convidei o Connor depois de bater o joelho na cabeça.
— Você convidou ele? – Elena perguntou incrédula.
— Convidei. – Luna deu de ombros. – Falei pra Sohye que tinha um par e tenho.
— Justo. – Sohye deu um peteleco na testa da amiga. – Vocês vão? – Sohye dirigiu a pergunta a Elena.
— Não sei, Ivon ainda não me convidou. – As amigas ficaram boquiabertas. – Sim eu tô puta da vida com isso!
— Não é pra menos. – Sohye bateu a mão na testa em negação. – Achei que ele teria te chamado montado em um cavalo branco.
— Eu acho que um urso seria mais legal. – A ruiva comentou.
— Concordo. – Manuella apoiou a ideia.
— Okay. Isso não importa eu só... – A russa foi interrompida por uma batida na porta. – Que estranho. — A ruiva caminhou até a porta dando de cara com Ivon. – Tá fazendo o que aqui?
— Também tô feliz em te ver. – Sorriu sarcástico. –Boa noite meninas. – O russo acenou recebendo o gesto de volta. –A gente pode conversar?
— Eu não sei se... – Elena olhou por cima do ombro vendo as amigas apontarem para o lado de fora do quarto. – Okay, expulsa do meu próprio quarto.
— Não é tão ruim. – Ivon sorriu de canto fechando a porta. – Bom, vamos lá. Vou começar perguntando... Você tava esperando um convite para o baile de outono?
— Uau finalmente. – Elena apoiou os braços na cintura com um olhar indignado. – Inteligente, bom lutador, estrategista, mas não entende nada sobre as mulheres.
— Você tá certa. – Uma imagem de Connor rindo pairou pela cabeça do moreno. – Desculpa se eu não atendi a expectativa... esse lance de namoro é meio novo.
— Okay soldado. – Elena provocou. – Ainda estou esperando.
— Esperando o que? – A ruiva arregalou os olhos como quem diz “sério que está me perguntando isso?” – A é... Elena Starkov, você quer ir ao baile comigo? – O russo perguntou sem expressar vergonha.
— Adoraria. – A garota desfez a carranca sorrindo para o moreno que respirou aliviado. – Não se atrase. – Ivon tomou-a por uma das mãos colando seus corpos e levantando seu queixo com o indicador para olhar em seus olhos.
— Eu jamais faria isso.
/Sábado, Salão de eventos, 19:00./
Vestidos com seus ternos estavam Connor e Tom esperando seus pares na entrada do salão, o moreno estava calmo não era seu primeiro baile, mas o loiro que muitas vezes dizia não temer nada parecia que tinha visto um dos piores fantasmas.
— Você pode se acalmar? – Tom observou o rosto pálido do amigo.
— Eu tô calmo, não tem ninguém nervoso, você tá nervoso? –O loiro se enrolou com as frases. – Okay, isso é meio novo pra mim.
— Nunca foi a um baile? – Connor negou com a cabeça. – Nossa.
— Eu sei, é patético. –O piromante revirou os olhos.
— Dica do Tom: seja você mesmo, aproveite a noite e diga para seu par que ela está linda. – Tom numerou com os dedos. – Siga esses passos e vai ter um baile de sucesso.
— Okay coaching de bailes. Se liga. – Connor apontou para frente sinalizando o trio de garotas que se aproximava.
Manuella estava com um vestido de festa longo, amarelo claro com detalhes prateados nas alças transparente na região da cintura e uma gargantilha também prateada, os cabelos estavam arrumados em um coque despojado que deixava algumas mechas caírem sobre o rosto. Sohye com seu vestido personalizado azul bebê com alças finas, se moldava ao seu quadril perfeitamente e se alargava até o comprimento dos pés, o cabelos estavam soltos e ondulados nas pontas.Luna usava um vestido semelhante ao de Sohye, mas na cor verde,ombro a ombro sem alças, o cabelo curto estava como de costume, liso e perfeito.
— Boa noite. – Manu estendeu a mão para Tom que a tomou dando um delicado beijo.
— A gente não vai fazer isso né? – Connor perguntou olhando para Luna.
— Jamais. – Concordou só entrelaçando seu braço ao do rapaz que engoliu em seco. – Vamos.
— Vamos. – Sohye falou. – Hoje sou a vela oficial do grupo.
— Cadê o casal perfeito? – Manu perguntou.
— Falando nos diabos. – Connor maneou a cabeça sinalizando os russos.
Elena usava um vestido vermelho no estilo tomara que caia, a parte superior era moldada a seu busto e cintura, a parte debaixo era um pouco mais folgada e tinha um corte lateral na perna esquerda, suas madeixas ruivas estavam presas em uma trança embutida.
— Que consideração terem esperado. – Elena sorriu. – Vamos sentar todos juntos?
— Olha, comprar terno com ele essa semana já foi emoção demais. – Ivon falou.
— Pela segunda vez na vida eu vou escutar ele. – Connor concordou com o russo. – E acho meio estranho querer compartilhar a mesma mesa depois de quase ter me matado. – O loiro encarou a ruiva.
— Diferente de você eu não guardo rancor. – Elena sorriu vitoriosa.
— Vamos pessoal. – Tom reforçou. – É baile de outono, amanhã vocês voltam a se odiar.
— Afinal. – Elena tomou Ivon pela mão. – Vocês vão ter que nos seguir mesmo, certo Luna?
— Exato. – A italiana foi para trás de Connor o empurrando para dentro. – Deixa dessa pose de machão e vamos.
— Eu vou te matar. – Connor sussurrou passando o polegar pelo pescoço olhando para Elena que riu com a ameaça.
Dentro do baile a decoração era simples, alguns tecidos nas cores do outono eram pendurados no teto, um globo espelhado, mesa do buffet e algumas mesas espalhadas. A pista de dança estava cheia de alunos que dançavam ao som da batida improvisada do Dj. O grupo se sentou e para a surpresa de todos conseguiram se entrosar algumas vezes até Connor ou Ivon soltarem um comentário ácido sobre o outro. Conversaram banalidades por horas até chegar o momento do pronunciamento da presidente.
Sohye subiu no pequeno palanque elevado aonde se encontrava o Dj tomando em suas mãos um microfone.
— Boa noite a todos e muito obrigado por estarem aqui. – A asiática olhou em volta vendo as atenções voltadas para si. – Queria agradecer a toda a equipe que trabalhou muito bem para a conclusão desse evento, sem vocês ele não teria acontecido. – Recebeu uma salva de palmas. – Acho importante termos um tempo como amigos nesse evento antes das competitividades do mês que vem. –Aplaudiram novamente. – Espero que estejam aproveitando esse baile com pessoas especiais e... – A jovem se pegou pensando em Kyle. –Também espero que tenham guardado uma dança lenta para o seu par. Isso é tudo.
Ao receber os aplausos e descer do palanque uma música lenta começou a tocar. (Recomendo ouvirem a música que deixei nas notas iniciais...)
/Elena e Ivon/
— Era como você estava esperando? – Perguntou enquanto dançava com a testa colado na da ruiva.
— Melhor. – Elena sorriu. – Ouvir essa música me faz pensar uma coisa.
— O que? – Perguntou se afastando para olhar a namorada nos olhos.
— Não importa aonde estivermos... – A ruiva mordeu o lábio nervosa. – Vamos continuar juntos não é?
— Claro. – Ivon sorriu. – Não consegue viver sem mim? – Seu sorriso se tornou convencido.
— Consigo muito bem. – Elena respondeu cortando o sorriso do moreno. – Eu só não quero.
— Eu também não.
O casal trocou um rápido beijo e seguiu sua dança.
/Tom e Manu/
— Sabia que os melhores bailes da minha vida foram aqui? – Manuella comentou em meio a um giro delicado.
— Sério?
— Sim, no Brasil não temos esses bailes. – A morena riu. – Mas também tem outro motivo.
— Esse motivo seria a minha pessoa? – Tom perguntou retoricamente enquanto levantava a menor do chão.
— Sim, seria. – Manu sorriu.
— A gente nunca fez um pedido oficial não é? – O estadunidense pontuou recebendo um maneio de cabeça afirmativo. – Então... você tipo, quer namorar comigo?
— Você demorou pra pedir. – Manuella deu um selinho no moreno.
— Só uns oito meses.
O casal seguiu dançando calmo com seu entusiasmo de pedido atrasado.
/Connor e Luna./
— Não acredito que concordei com isso. – Connor reclamou desengonçado com os pés enquanto segurava a cintura da italiana.
— Não reclama, não é tão... – Luna segurou a dor de ter o pé pisado.- ruim assim.
— Desculpa. – O loiro pediu. – Por que fez isso?
— Isso o que? – Luna perguntou confusa.
— Me convidar.
— Bom, você é meu amigo e tem me ajudado muito. – A morena sorriu. – E desde a Noruega você quase não faz nada, pensei que poderia ser divertido.
— Entendi... e você está linda. – Connor olhou para o nada para esconder o rubor.
— Sabe que não adianta esconder quando está com vergonha né? – Luna riu. – Você tá fervendo e está encostado em mim.
— Touché. – O loiro sorriu sem jeito.
— Está se divertindo? – A italiana interrogou.
— Muito.
Os dois dançaram seguidos de alguns pés pisados, mas valeu a pena.
/Dormitório masculino, 21:00/
O norueguês se pegava olhando pela janela as iluminações do salão, queria estar lá, mas de que jeito?
— Aproveitem por mim. – Falou sozinho caminhando até a cama e se deitando.
Seu chão havia se perdido, não sentia mais quando pisava, não sentia mais quando fazia qualquer coisa... apenas quando estava com Sohye seu corpo voltava para a realidade dos vivos, mas ele não tinha tempo para admitir tal coisa, apenas observaria o sucesso eminente enquanto pensava estar fracassando.
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