P.o.v. (point Of View)
1 Parte Um.
P.O.V. (Point of View).
Turn around, every now and then I get little be lonely and you’re never coming around.
Volte atrás, às vezes eu me sinto um pouco solitária e você nunca está por perto.
#POV do Brendon.#
Montanhas de Nevada, 2009.
Inverno no estado americano de Nevada. As folhas secas das árvores já haviam todas sido jogadas ao chão e toda a vida vegetal estava longe dos olhos. Tudo o que eu conseguia ver eram os flocos brancos e gelados caírem do céu. E não que eu fique muito feliz, mas é interessante observar a neve cair quando se está triste. Não conforta, só lhe faz sentir ainda mais dor. As únicas coisas quentes que eu tinha naquele momento, era o cigarro prendido entre o indicador e o dedo médio da mão esquerda e minhas lágrimas que queriam rolar e eu não deixava. Não ia deixar acontecer. Eu não ia chorar por Ryan outra vez.
Mordi meu lábio para conter as lágrimas e traguei longamente. Era só mais uma briga das tantas que estávamos passando. Era só mais um momento difícil ao lado dele, um desses que eu ia pensar em algum modo criativo de resolver. Minha intenção era passar uma lua de mel com Ryan ali, naquele lugar romântico, mas ele preferiu jogar na minha cara o quanto eu conseguia ser inútil e incompetente. Patético. Me criticava sempre por eu ser levado tão fácil por meus próprios prazeres e me criticava até pelo modo de eu me vestir. Ele não era bom com as palavras até precisar criticar ou humilhar alguém; palavras duras em horas necessárias.
Maldito Ryan. Maldito.
A solidão doía meu coração e anelava minha alma. O cigarro não me aquecia e eu não queria entrar e encontrar o inabalável Ryan Ross do lado de dentro do chalé, então fiquei ali fora sem me agasalhar direito, olhando o cigarro queimar sozinho. Meu coração batia sozinho, dolorido, devagar contra minha caixa torácica. Eu estava sendo corroído pelo medo, mas mesmo assim, eu estava tentando criar alguma coisa para ter meu Ryro de volta. Havia uma lenda naquele lugar. Um dos assoalhos da casa era quebrados e através desse buraco no chão da casa era possível se comunicar com o futuro, então, era só colocar uma carta ali ou qualquer outra coisa que um possível morador acharia com certeza. Eu já não tinha o que perder, então, tirei uma pequena caderneta do meu bolso e uma caneta e escrevi.
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Brendon,
O inverno em 2009 está rigoroso, está completamente frio. A essa hora, exatamente, você acabou de ter uma briga com Ryan. Uma briga séria que está te enchendo de medo de perdê-lo pra sempre. Espero que se um dia você voltar nesse lugar estupidamente romântico, com essa lenda tão estúpida quanto, fique sabendo que você é um patético idiota e que o Ryan está certo. Você é inútil e idiota.
Abraços, Brendon, 2009.
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Turn around, every now and then I get a little be tired of the listening to the sound of my tears.
Volte atrás, às vezes eu fico um pouco cansado de ouvir o som das minhas lágrimas.
Turn around, every now a little be nervous that the best of all the years have gone by.
Volte atrás, às vezes eu fico um pouco nervosa quando penso que o melhor dos meus anos se passaram.
Inverno, 2010.
Eu estava decepcionado comigo mesmo. Não estava triste com meu empenho, não estava envergonhado das minhas próprias conquistas, mas a decepção ainda era grande. Ao mesmo tempo, eu estava completamente cansado do batalhão de shows e países pelos quais tenho percorrido do último semestre de dois mil e nove pra cá. Porém o que realmente me frustra é o andamento atrasado do terceiro CD do Panic!, a pressão dos fãs e minha própria a esse respeito. O problema maior com isso é que eu ainda estava absorvendo o fato de estar quase que sozinho no meio às letras e às composições. Eu não tinha o dom do Ross de brincar com as palavras de forma certa, passando o que eu sou.
Eu não teria ajuda como na grande maioria das vezes, quando ele me sugeria uma palavra melhor pra ajeitar a frase toda, quando ele dizia: “Você não pretende gravar essa porcaria no Panic!, certo?” ou quando ele ia ainda mais longe e dizia: “Nossa banda merece muito mais que essa porcaria.” Eu sabia nessas frases que eu estava indo bem e que minha música era boa. Na grande maioria das vezes, ele só sentia necessidade de humilhar alguém e eu era o tolo que amava até seus defeitos. Ele ria de mim.
Para esclarecer minhas idéias, ou simplesmente pelo fato de eu saber que Ryan estava em um sítio em Topanga, isolado do mundo para compor novas músicas para sua nova banda junto com Jonathan, eu decidi voltar ao chalé onde passei o pior inverno da minha vida. Eu precisava ter algumas lembranças de Ryan – as boas principalmente – e nada melhor que aquele lugar onde, na primeira vez que o levei lá, em 2007, foi à melhor coisa que nos pôde acontecer.
Ao entrar, empurrando minha mala, fui impactado pelo cheiro de imóvel fechado a muito tempo e também pela poeira que me fez espirrar. Ao lado da lareira, um empilhado de lenha para que eu me aquecesse. Acendi as luzes, observei aquele local adorável, com o ar puro que não havia nas cidades do mundo. Ali tinha um sistema de aquecimento naquele lugar, mas eu gostava das coisas mais rústicas de vez em quando. Arregacei as mangas e liguei a lareira com um pouco de dificuldade. O vento gelado da casa se transformou em algo agradável assim que se passaram alguns minutos. Eu fiquei parcialmente aquecido, porque no final das contas eu estava sozinho num lugar romântico que estava cheio de lembranças de Ryan Ross. Lembranças das brigas, lembranças dos momentos mais felizes da minha vida.
Me desfiz de alguns casacos e fui à cozinha ver o que tinha pra beber. Red Bulls – como eu havia pagado ao dono da casa para deixar algumas bebidas, chocolate, marshmallow – e tinha também bastante comida. Decidi fazer chocolate quente com marshmallow derretido e enquanto eu esperava minha bebida ficar pronta, eu fiquei sentado na porta fumando um cigarro. De repente, uma lembrança inconveniente veio à minha mente. Suspirei, enquanto olhava a fumaça do cigarro se desfazer no ar. Eu tinha deixado um bilhete no assoalho do quarto e ele poderia estar ali, apenas esperando para que fosse lido. Peguei uma xícara da bebida e subi as escadas para ver o bilhete e aproveitar para contar a mim mesmo no passado que a minha vida ficou muito mais bagunçada que já estava. Depois de ler o bilhete, respondi:
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Brendon de 2009,
O inverno está rigoroso no ano de 2010 também e eu estou com bastante frio. Por sorte, a lareira funciona bem para me aquecer quando eu estou sozinho. A Sarah ainda não chegou para me fazer companhia e talvez – só por força do acaso – ela não chegue hoje. Aliás, o que era medo pra você, hoje se concretizou, o Ryan não está com você e isso está te deixando um pouco sem chão. Quer dizer, não que sua vida profissional e seus fãs não lhe dê forças suficiente para viver um dia após o outro, mas em seu interior está entristecido. Talvez se essa lenda estúpida fosse verdadeira, com minhas lembranças e nosso sentimento gigante pelo Ryan pudesse trazê-lo para o seu futuro.
Eu posso contar com sua ajuda para desfazer esse futuro cinza e transformar num bem melhor?
Abraços, Brendon de 2010.
ps: você não é um estúpido idiota em 2010. Você é bem pior agora, te garanto.
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#Fim do POV do Brendon#
#POV do Ryan#
Após mais uma briga – que não era bem uma briga, estava mais pra uma discussão – com Brendon, sobre o mais fútil dos motivos, eu decidi que era hora de ficar um pouco sozinho e colocar a cabeça no lugar. Minha cabeça explodia e insistia – mesmo assim – em mostrar para mim o quanto eu tinha exagerado nas palavras, no tom de voz. Meu Brendon estava angustiado e triste mais uma vez, por minha culpa.
Eram sempre os olhos dele que conseguiam me deixar mal. Urie não precisava ser bom com as palavras, seus sentimentos eram mostrados em seus olhos, em suas expressões, em seus gestos. Havia muito tempo – desde o nosso início até o começo das brigas e desentendimentos – que nós simplesmente não confessávamos nada um pro outro. Talvez o sexo tivesse acabado com a cumplicidade que tínhamos antes.
Então, vi o assoalho do quarto se mexer. Como se alguém escondesse algo ali. De início, achei bastante estranho, já que pisos não costumam sair do lugar e esconder coisas, mas tinha certeza que era obra do Brendon, querendo usar a lenda da casa para se aproximar novamente de mim. Seria patético se não fosse tão criativo. Me abaixei e peguei o pedaço de papel dobrado, não li. Saí do quarto e fui direto a Urie que estava na sala, com os olhos entristecidos parados diretamente na lareira acesa.
“Isso não vai funcionar, sabia?” Eu disse, encolhendo os ombros ao jogar o papel contra a mesa de centro. Brendon abaixou os olhos para o papel, franzindo o cenho. “Não se faça de desentendido.”
“Do que você tá falando?” A pose curiosa permaneceu. “O que foi que eu fiz dessa vez pra você vir me criticar e dizer que eu estou fazendo tudo errado, hm?”
“A lenda!” Falei meio alterado. “Você tá usando a lenda pra me pedir perdão. Se quer falar todas aquelas coisas românticas que você diz depois de uma briga, Brendon, fala olhando pra mim, não numa carta debaixo de um assoalho solto. E, muito engenhoso o controle remoto.”
“Eu não fiz nada!” Respondeu encolhendo os ombros defensivamente, com falsa calma. “E eu ainda não tive tempo pra criar qualquer coisa pra me aproximar de você. Nós acabamos de discutir não tem nem cinco minutos, seu idiota!”
“Oh, sim, claro.” Peguei a carta em cima da mesa de centro e me sentei no sofá, ao lado dele, mas suficiente distante. “Tem papel e caneta aí?”
“Hunf.” Após o resmungo, Urie passou uma caderneta e uma caneta e eu agradeci com um sorriso fraco. Então eu escrevi para pôr no assoalho.
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Brendon de “2010”
Sim, foi eu quem pegou sua carta e essa brincadeira está me dando nos nervos. Eu sei muito bem que é você, Urie, o que está do meu lado e que acabamos de discutir por essa carta mesquinha. Você é um idiota sim e se ficou ainda mais em 2010, como disse na carta, eu fiz muito bem em me afastar. Por favor, pare com esse jogo e fale na minha cara o que você quer.
Ryan.
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Não precisaram se passar nem cinco minutos desde que eu coloquei o bilhete no assoalho para este simplesmente desaparecer. Bem diante dos meus olhos, como em um truque de mágica muito bem feito. Acho que agora eu entendo muito bem porque Urie me contou essa lenda estúpida, justamente para poder usá-la num modo criativo de se reaproximar, mas talvez dessa vez eu estivesse disposto a ver até quando ele mantinha a farsa. Em vinte minutos a resposta veio.
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Ryan? Ryan Ross!
Eu deveria mesmo imaginar que, se essa lenda estúpida fosse verdade, você acharia e responderia esse bilhete da forma mais idiota possível, só que em 2010 você está tão longe de mim, mas tão longe de mim que eu me contento com a sua letra e palavras tão amargas.
Sinto muito ter provocado uma nova briga com minha carta, que por sinal era pra mim mesmo, mas você sabe como eu sou. Eu vou chegar com um copo de chocolate quente aí e vou dizer que eu te amo, que eu preciso controlar a minha língua quando na verdade são palavras que você deveria me dizer. Mas eu até entendo você, muitas das vezes eu fui criativo pra te recuperar, mas dessa vez é verdade. É a lenda. Eu posso revelar coisas do futuro para que acredite.
B. <3
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B.
Não seja ridículo. Você não está um ano a minha frente e eu estou dentro do quarto. Basta você usar suas duas pernas e vir até mim, dizer que me ama que eu vou abraçar você e falar que eu te desculpo. Eu sei que uma de suas artimanhas para se aproximar de mim, então acho que é melhor acabar com isso de uma vez, sério.
Ryan.
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Ryan,
Sinceramente você está tão cego pela sua racionalidade que não consegue acreditar em mim. De verdade, Ryan, isso não é só uma brincadeirinha minha para que você se arrependa de qualquer baboseira que disse e veja que eu sou o homem certo pra você. É a lenda e eu vou te provar isso. Eu prometo que assim que eu copiar uma coisa, eu te amando.
B.
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#Fim do POV do Ryan#
#POV do Brendon#
Every now and then I get a little be terrified and then I see the look in your eyes.
Às vezes eu me sinto um pouco aterrorizada e então eu vejo o seu olhar.
Por essa eu realmente não esperava. Embora falar comigo mesmo não fosse a coisa mais sensata do mundo, era menos estranho que discutir sentimentos com o Ryan do passado. Era como trair a si mesmo sem estar presente, um namoro à distância nada saudável. Embora hoje eu tivesse uma namorada encantadoramente confortável, adorável que sempre dava um jeitinho de me prender a atenção, não só na vida conjugal, mas em todas as outras partes. Talvez eu estava querendo do Ryan o que eu já tinha com a Sarah.
Após minha última carta, Ryan disse que não me responderia mais, e eu sou um autêntico teimoso e decidi mandar uma última. Se não houvesse resposta, eu ia embora de vez daquele lugar e tocaria minha vida para frente, um dia após o outro, como um alcoólatra em reabilitação. Cada dia como uma vitória. Um dia a mais sem Ryan, numa banda onde faltava duas partes. Duas peças importantes para a engrenagem funcionar.
Fiquei um pouco passeando por esses sites de letras de música até encontrar o The Young Veins. Copiei a cifra, a letra e enviei anexados á uma última carta. Ele precisava saber que a música dele era incrível, mas não era o que eu queria fazer, por isso separamos, mas, principalmente, ele precisava entender o meu gesto. Meu desespero para aproximá-lo novamente daquilo que a gente gostava de viver juntos. Do amor que tínhamos e que eu sei que não morreu. Ele precisava ver que a lenda funcionava. Então, aproveitei junto com a carta e as cifras, mandei impressa uma entrevista que eu dei logo após a saída dele da banda, após o Jenniffer’s body ter sido lançado com sucesso. Ryan odiaria a música uma segunda vez se eu mandasse.
Depois disso decidi ir tocar um pouco, ficar um pouco sozinho pra refletir se mudar o futuro seria o melhor para todos nós, realmente. As fotos minhas com Sarah que eu tinha trazido e colocado em cima da lareira como ela me pediu que fizesse me deixava aflito. Agora eram os olhos azuis de Sarah que me mostrariam o caminho de saída.
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Caro Ryan,
Eu sei que você não quer me responder mais, porém eu já cheguei em um ponto de estar atirando para cima na tentativa de ter algum lucro. Não acho que vou conseguir qualquer coisa. Pra provar que eu estou falando a verdade, estou lhe mandando algumas coisas. A cifra da música “Change” seu primeiro – e até então – único single com sua banda nova. Espero que você realmente aprecie sua genialidade.
O outro anexo é uma entrevista. Tudo o que eu disse a respeito do desmembramento da nossa banda. Se você ler, me responda a carta, se não ler eu vou compreender, mas sinceramente, eu não queria perder a única chance de ser feliz com você que eu tenho. A única e a última.
B.
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#Fim do POV do Brendon#
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