Em meu sonho, vi meus pais.

Eles estava do jeitinho como eu me lembrava; bem vestidos e sorridentes, com a diferença de que ao invés de estarem em casa, estavam em um campo aberto e verdejantes. Caminhavam juntos, lado a lado, até que pararam e olharam diretamente para mim.

— Seja forte. — murmuraram ao mesmo tempo — Seja forte...

A cena começou a se tornar borrada e eu tentei falar com eles, mas as palavras não saíram.

— Audrey?

Abri os olhos, piscando atordoadamente. Demorei alguns segundos para lembrar que estava em Imlandris, com a cabeça deitada no ombro de Fili e seus cabelos loiros fazendo cócegas em meu nariz. Os anões já haviam parado de cantar e rir alto, e agora se ocupavam em comer e conversar baixo. Kili dormia, deitado do outro lado de Fili, tranquilamente. Levantei a cabeça e esfreguei os olhos.

— Você está bem? — ouvi Fili murmurar.

— Estou. — respondi no mesmo tom — Sonhei com meus pais. Falaram comigo, mas não consegui falar com eles. Foi estranho. — franzi o cenho — Me pediam para ser forte.

— Você já é forte. — ele sorriu um de seus sorrisos suaves — Para uma mulher que foi mandada para um mundo diferente do seu, você está sendo bem forte. Eu provavelmente entraria em pânico. — riu.

Acompanhei sua risada baixa com uma minha, evitando atrair a atenção do grupo. Havia algo nele que me acalmava por completo. Nesse meu momento de contemplação, Thorin e Gandalf retornaram de sua "reunião" com Senhor Elrond.

— Descansem, pois amanhã partiremos antes do nascer do sol. — o empurrado rei anão falou, relançando um olhar na direção de todos os que estavam acordados.

Ao meu lado, Fili desdobrou seu cobertor e me entregou outro. Ergui as sobrancelhas.

— O clima não me incomoda. — expliquei.

— Você pode usar para não se deitar diretamente no chão, então. — ele pareceu quase implorar — Por favor, aceite. Não vou conseguir dormir sabendo que você está sem cobertor.

Não consegui evitar de sorrir — coisa que eu ando fazendo com cada vez mais frequência desde que caí na Terra Média -; os homens daqui aparentavam ser cavalheiros, diferentes da maioria dos outros de meu mundo.

— Você é, sem dúvida nenhuma, um príncipe, Fili. — falei, pegando o cobertor. Ele pareceu um pouco confuso, então continuei — No meu mundo, chamar um homem de "príncipe" é um elogio, não título. Significa que ele é cavalheiro, gentil e bonito.

Foi com certa surpresa que observei as bochechas de Fili ganharem um tom rosado. Ele sorriu, embora seu sorriso fosse tímido.

— Cortesia com uma dama é dever de todo anão. — ele disse, ainda sorrindo.

— Obrigada. — agradeci, estendendo o cobertor no chão e me deitando ao seu lado — Boa noite, Fili.

— Boa noite, Audrey.

Fechei os olhos e não demorei para adormecer.

***

Novamente estava deitada na grama e acima de mim o céu estava cheio de estrelas inacreditavelmente brilhantes. Varda se sentava ao meu lado, me encarando com um leve sorriso satisfeito.

— Olá. — falei, sem me conter — O que posso fazer pela senhora agora?

— Você está se saindo bem, Audrey Marshall. — ela disse, optando por ignorar o que eu tinha dito — Não possuía dúvidas quanto ao seu potencial.

— Agradeço. — sorri secamente, me sentando ao seu lado — E agora?

— A partir de agora você deverá ser perspicaz e astuta, Audrey — seu tom se tornou sério — Não pode se permitir tombar. Porém, irá encontrar pessoas confiáveis.

Olhei para o céu estrelado e senti uma pontada no peito.

— Por que eu? — perguntei — O que eu tenho para que vocês me escolhessem, me tirassem de meu mundo e me jogassem aqui para ajudar em uma missão que não é minha?

— Perseverança, um coração bondoso e lealdade. — Varda respondeu, tocando meu ombro. Seu toque era luminoso e quente — Sei que jamais se curvará a escuridão, mesmo que seja o caminho mais fácil. Agora acorde.

Fechei os olhos.

— Audrey, você precisa levantar! — ouvi uma voz falar ao meu ouvido.

Abri os olhos e estava de volta a Valfenda, com os anões levantando e preparando suas coisas para partir. O sol ainda não havia nascido e Kili estava ao meu lado, balançando meu ombro.

— Thorin não vai ficar muito feliz em vê-la deitada. — ele me olhou, preocupado — Detesta atrasos.

— Tudo bem, eu já levantei. — me sentei, puxando minha mochila para perto de mim — Onde está Gandalf?

— Parece que está em um conselho com Elrond. — Kili respondeu — Precisamos partir antes que nos impeçam.

Ah, não. Eu me lembrava dessa parte. Queria poder ter avisado para Gandalf que Saruman era mau, mas esquecera totalmente ontem. Estava me sentindo tão triste e cansada, que não pensei em mais nada senão em mim mesma. Mas não tinha tempo para ficar remoendo isso. Precisávamos nos apressar.

Jogando minha mochila nos ombros, me despedi de Imlandris com um último olhar. Iria sentir saudades dali, mesmo quando voltasse para casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.