Notas iniciais
oi, oi! Eu to me coçando pra escrever isso desde que a ideia surgiu na minha mente semanas atrás e agora FINALMENTE to colocando em palavras, aaaaAAAAAAaaAAAAAAAAA.

Os flashs das câmeras à sua volta no meio daquela multidão estava começando a cega-lo, o barulho do falatório dos repórteres ficava cada vez mais alto; todos gritavam perguntas sobre coisas diferentes ao mesmo tempo, logo, ele não entendia nenhuma das perguntas. Ignorava todos eles.

É, nunca foi fã de multidões desde os 15 anos, de qualquer maneira.

Enfim — depois de longos minutos abrindo caminho na multidão — foi guiado até uma mesa com dois microfones em frente a um grande telão com um ponto de interrogação bem, digamos, ''enfeitado''. Aquele era seu ''nome'' de herói, quanto menos a mídia soubesse sobre si, melhor para ele.
A mesa estava sendo protegida por seguranças mais à frente, impedindo que a multidão chegasse muito perto de onde ele estava.

Depois de um tempo sentado lá, uma mulher ruiva elegante se sentou ao lado dele, sorrindo bem animada. Era a entrevistadora.

—É um prazer recebe-lo hoje, senhor. — disse ela.

—O prazer é meu — Respondeu mais por educação mesmo. Não sabia o que dizer.

A entrevistadora pareceu satisfeita com a resposta, apoiando as mãos com dedos cruzados na mesa.

—Como anda sua carreira de herói?

Hitoshi teve que pensar por um momento, nunca sabia como responder esse tipo de pergunta. Deu de ombros.

—Bem, eu estou vivo. Deve estar indo bem.

Ele pôde ouvir risadinhas do público misturadas com a da entrevistadora. Antigamente isso poderia incomoda-lo, mas hoje em dia achava bom de certo modo.

—Sim, sim, isso é ótimo. — concordou ela enquanto pegava algumas folhas de papel. — Nós temos aqui anotadas algumas das perguntas mais populares sobre você. Se importa em responder?

—Fique a vontade. — Sua resposta praticamente fez aquela ruiva saltitar na cadeira.

Seu olhar foi até as câmeras, que por ora param de tirar fotos para filmar tudo que ele respondia. Outra coisa que o deixaria desconfortável antigamente, mas agora ficava confortável.
Não que ele tivesse participado de uma entrevista antes, era a primeira vez que aceitava.

Ele voltou a atenção para a entrevistadora quando ouviu o barulho dos papéis batendo na mesa antes de ela os prender em uma prancheta.

—Bem, começando pela mais popular: Qual é seu nome?

—Ah, desculpe-me. Mas não posso responder...se bem que vocês podem descobrir se procurarem bem um vídeo de 14 anos atrás de um campeonato da Yuuei que eu participei.

Ele pôde ver de relance outros repórteres misturados com a multidão anotando essa informação de ouro freneticamente em bloquinhos de notas. Ele só pôde rir baixinho com aquilo.

—Misterioso como sempre! Mas obrigada pela dica valiosa. — disse a ruiva enquanto virava uma folha da prancheta. — Há boatos de que você não era do Departamento de Heróis na Yuuei, é verdade?

Shinsou piscou um pouco em surpresa. Wow, era incrível a força da curiosidade, principalmente depois de ter apagado quase tudo sobre sua infância e adolescência antes de se tornar um herói profissional.

Aqueles olhos curiosos da entrevistadora pareciam o encorajar a falar, tanto que duvidou que fosse a individualidade dela: induzir os outros a falar. Talvez fosse mesmo.

—Sim, é verdade. Eu era do Departamento de Educação Geral.

Um coro de ''Oh'' pôde ser ouvido, acompanhado por cochichos indignados e comentários como ''Que burrice da Yuuei'', ''Como puderam deixar ele lá?'', e outras coisas do tipo.

—Wow, eu nunca pensei que fosse verdade. — Comentou a entrevistadora, parecendo maravilhada com a informação.

Shinsou apenas sorriu.

—Eu não era muito bom fisicamente naquela época. Não podia controlar a mente de robôs, entende? Isso resultou em eu indo parar na 1-C.

—Entendo, entendo. — ela por um momento deixou a prancheta de lado — Mas como conseguiu se tornar um herói assim? Foi transferido?

—Aizawa viu potencial em mim. — Respondeu simplesmente.

Por um momento todos ficaram calados, confusos, ele ainda era muito discreto, as pessoas demoravam para se lembrar dele.
Sua entrevistadora parecia chocada quando percebeu.

—AIZAWA SHOUTA viu potencial em você?! — podia jurar que ela estava dando pulinhos na cadeira, seus olhos brilhavam. Provavelmente estava se vangloriando mentalmente pelo tanto de informações valiosas que aquela entrevista estava surtindo em tão pouco tempo. — Isso não é pra qualquer um!

Ele assentiu para ela, simplesmente sorrindo envergonhado. Devia muito para aquele homem, muito mesmo. Enquanto isso, a ruiva virava outra folha da prancheta.

—Faz quanto tempo que começou sua carreira como herói profissional?

—10 anos. — respondeu, já se adiantando em explicar tudo antes que a entrevistadora abrisse a boca. — Sei que me conhecem só a 5 anos, mas eu comecei minha carreira com 20 anos nas sombras, só me mostrei depois.

Ah, ele se lembrava desses primeiros cinco anos nas sombras. Era útil que a mídia não o conhecesse, assim se infiltrava em organizações criminosas sem ser suspeito, ganhava a confiança deles pacientemente de um por um antes de tomar suas mentes e guia-los diretamente até atrás das grades. Mas mesmo assim resolveu se mostrar, para ganhar fama o suficiente até finalmente aceitar dar uma entrevista e cumprir o objetivo que o fez querer ser um herói.

A entrevistadora, como ele pensava, não conseguiu conter a curiosidade, cruzando os dedos das mãos e as colocando perto da boca.

—Por que resolveu se mostrar? Não podia continuar trabalhando sendo discreto?

Bingo. Era essa a pergunta que estava esperando esse tempo todo.

—Ótima pergunta. — respondeu sorrindo de canto e se levantando com o microfone na mão. — Podia. Mas não quis. Porque eu precisava me mostrar para cumprir meu objetivo.

Ele caminhou até a frente da mesa, agora sim o público estava confuso, em silêncio e completamente concentrados nele.

Ele engoliu em seco antes de começar a falar, olhando diretamente para as câmeras.

—Antigamente, quando eu era uma criança, eu aprendi a não falar. Sempre me disseram que eu nunca seria um herói. Que ninguém confiaria em alguém com uma individualidade cruel como a minha. Que era um sonho impossível. Até me machucavam por isso às vezes. — sua voz era monótona, talvez com um toque de tristeza por se lembrar desse episódio de sua vida. — Bem, eu provei que não é impossível.

Todos, ali e em suas casas o vendo pela televisão ao vivo, estavam quietos, como se não entendessem o ponto em que ele queria chegar. E isso era ótimo, ainda iria falar bastante.

—Meu objetivo quando eu tinha 16 anos era acabar com os esteriótipos, acho que ninguém deveria ser chamado de vilão por causa de sua individualidade, mas...era um objetivo um pouco exagerado, refiz ele a uns anos atrás.

Ele passou a caminhar, talvez aquilo o distraísse do seu nervosismo interno.

—Eu não acho que a função de um herói é só combater vilões. Nunca achei. Por mais que eu admita que é muito, muito legal vê-los lutando na tv, não é? — Ele riu um pouco para si mesmo, se lembrando de como ficava impressionado quando via Aizawa nas poucas vezes que o mostravam na tv lutando. — Acho que penso assim porque já estive entre o bem e o mal muitas vezes, em vários sentidos.

Ele voltou a olhar para as câmeras, um pouco mais sério dessa vez. Tinha muitas crianças parecidas com ele vendo aquilo, sabia que tinha, pessoas como ele — ou como ele já foi — eram atraídas por um herói com habilidades semelhantes as suas, tudo para se confortar consigo mesmas, para ter um pouco de esperança. Era bom e ao mesmo tempo aterrorizante saber que pessoas se apoiam em sua imagem do mesmo modo que se apoiava na de Aizawa antigamente.
Mas aquele era seu objetivo: ser um pilar para estas pessoas se agarrarem, queria impedir que mais vilões se formassem por causa da crueldade involuntária e inconsciente das pessoas comuns. Ele próprio quase sucumbiu a vilania diversas vezes. Tudo porque só se achava útil para aquilo graças aos comentários dos outros pelas suas costas.

—Para as crianças e adolescente com individualidades psíquicas ou mal vistas em geral que estão assistindo isso agora e talvez me achem incrível: Sim. Vocês podem ser heróis. Não deixe ninguém dizer o contrário para vocês. Mandem eles se f...errarem. — Se corrigiu antes de xingar ao vivo. — Eu conheço alguém que passava por coisa parecida...Midoriya Izuku. Acreditariam se eu dissesse que ele também era desacreditado ou impotente?

Ele sorriu um pouco, colocando a mão livre na nuca, uma mania que tinha perdido a muito tempo atrás, mas voltava quando estava em situações como essas, cada vez estava mais nervoso.

Outro coro de ''oh'' pôde ser ouvido, mais alto desta vez, ninguém nunca pensaria que o atual herói número 1 do mundo tivesse sido desacreditado antigamente ou que sequer tivesse passado por algo assim antes.

—Eu gostaria que toda vez que vocês duvidarem de si mesmos, pensarem que talvez realmente só sirvam para a vilania, que suas individualidades são uma maldição, que os outros tem sorte por poder seguir seus sonhos...do mesmo modo que eu também já pensei; se lembrassem de mim. Não quero que tenham medo de usar suas individualidades ou se limitem como eu já fiz uma vez, nem que vocês se odeiem por serem vocês, nem que pensem que nasceram para serem vilões por isso.

Shinsou tremia um pouco, perdendo as palavras que ainda queria dizer. Nunca foi tão emocional com palavras em toda sua vida, estava prestes a quebrar. Preferia ser desconhecido do que ter o peso de todos aqueles olhos voltados para si. Até tentava ignorar o silêncio respeitoso que se seguiu, mas que logo se transformou em aplausos.

Isso fez com que levantasse o olhar, um pouco surpreso. Esperava tudo menos aplausos, até mesmo ruborizou com aquilo, escondendo o rosto vermelho olhando para os próprios pés.

Ah, se ele soubesse quantas lágrimas de alegria acabou arrancando de tantas crianças, adolescentes e até adultos com aquele discurso, quantas pessoas precisavam só dessas palavras para recobrarem a esperança.

Se soubesse que Aizawa observava seu aluno pela tela da televisão com um dos seus raros sorrisos de satisfação. Orgulhoso por ele ter feito aquilo que ele perdeu a oportunidade de fazer a muito, muito tempo. Mesmo entendendo bem cada uma das palavras de Shinsou, se lembrando de quando ele próprio era criança: que, assim como Hitoshi não falava com as pessoas, Aizawa não olhava para ninguém.

É. Se ele soubesse disso tudo, também choraria ali mesmo, na frente de todos. De felicidade e de alívio por finalmente falar o que sempre julgou que precisava dizer para o mundo.

Notas finais
Espero que tenham gostado ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!