Possession
7 Epílogo – Somos Um
Notas iniciais
Deixar-se levar pelas emoções é o maior erro que se pode cometer. E Dio não devia se dar ao luxo de tal conduta, afinal, sequer humano era.
Ainda assim, o fez. E pagou muito alto por isso.
JoJo sempre fora o mais forte, o mais determinado e cavalheiro, movido pela justiça.
Tal comportamento ficou mais evidente quando Dio fora aporrinhado por alguns garotos mais velhos – ainda no tempo de escola – por ter sido acusado de trapacear num jogo em que ganhara, e JoJo, mesmo sabendo que Dio até merecia a coça que os garotos pretendiam dar-lhe, o defendera.
— Não fique do lado desse trapaceiro de uma figa, JoJo! – dissera o líder dos garotos com o dedo em haste contra Dio.
— Eu sou o intrujão ou você que é um néscio misólogo? – Dio era orgulhoso, não abriria mão disso.
— Do que você me chamou?! – O garoto dera passos à frente, ainda mais furioso.
Rira descaradamente da cara que o moleque fizera por não saber o que aquelas palavras significavam.
— Parem com isso! – JoJo tentara apartar a briga. — Não vou deixar que batem no meu irmão. Três contra um é covardia!
— Darei uma surra nele, sozinho, então!
— Terá de passar por mim, primeiro. – JoJo colocara-se como escudo de Dio.
— Não seja ridículo, esse inútil é mais forte que você! – dissera, não com o intuito de evitar que JoJo se machucasse numa briga que não era dele, mas por não gostar de sentir-se defendido justamente por aquele pirralho mimado que era o seu irmão mais novo.
— Não me importo – respondera convicto. — Eles estão te acusando de algo, sem provas. E querem brigar de forma injusta. Não permitirei que isso aconteça.
É claro que não demorara para a pancadaria comer solta entre os cinco moleques. E, apesar da desvantagem, JoJo e Dio saíram com menos machucados do que esperaram.
Não foram direto para a casa, pois pararam próximo do lago, como sempre fizeram depois da escola.
— Você é um idiota! – quebrara o silêncio ao se sentarem aos pés do ulmeiro do piquenique. — Não preciso que me defenda, isso é ridículo, olhe só para você!
— Não estou tão mal assim. – JoJo olhara-se no reflexo do lago. O canto da boca tinha um vermelhidão grosseiro e o olho esquerdo ficara roxo posteriormente. — E você não devia ter trapaceado, além de chamá-lo de incapaz.
— Não é trapaça quando só se descobre depois. Eu, Dio, ganhei no jogo e ponto. E você, não se intrometa! Agora, vão pensar o quê? Que o fedelho do meu irmão sempre virá me salvar?! Grrr... isso é humilhante! Prefiro levar uma surra. – Desviara os olhos para longe, furioso com aquele desfecho. E, então, sua bochecha machucada fora pressionada pelos lábios quentes de JoJo.
— Somos um, não somos? E sei que você estará comigo quando eu precisar – ele dissera com aquele sorriso radiante na fuça.
Maldito fedelho.
— Não conte com isso.
Dio tinha uma imagem à zelar, mas sentira o rosto esquentar por gostar da sensação de ter o irmão tão perto.
JoJo gargalhara daquela maneira gostosa e contagiante, tão típica. E enchera Dio de beijinhos estralados pelo rosto numa luta inofensiva.
E, depois de sete anos, não eram mais irmãos. Não eram mais aliados, sequer amantes.
Se tornaram rivais pelo destino.
E palavras pronunciadas, como uma flecha lançada e oportunidades perdidas não voltam.
Desferiram golpes destruidores pelos corredores da mansão, quase pondo-a abaixo; Dio sentia os impactos daquele poder crestar em seu corpo demoníaco. E JoJo era arremessado contra as paredes, incapacitado com os punhos e as pernas congeladas, mas sempre voltava a ficar de pé, como se por um insistente milagre.
— Tenho que reconhecer, JoJo... sua persistência... e coragem... – Era difícil falar com o corpo quase em chamas pelo Hamon. — É admirável, como esperado... de um cavalheiro...
Vindo do saguão, a voz do sujeito intrometido da Rua dos Ogros soava com desespero; alertava pelo incêndio tomando boa parte das paredes e cortinas da casa, e chamava por Jonathan, que pareceu aliviado por saber que Speedwagon estava vivo.
— Dio, meu peito dói por eu ter de matá-lo – dizia com um profundo pesar —, mas é a única maneira de salvar sua alma e o mundo dessa terrível ambição que se apossou de você.
— Faça o... seu... melhor – provocou. — Pois... sua futura esposa... e todo o resto... não viverão se você falhar. E você vai, porque esse é... o nosso destino. E eu, Dio, serei eterno!
Os olhos de Dio brilhavam como chamas de um ódio revivido, queimando em seu ser. Sentia em sua pele destruída pelo Hamon, que não aguentaria sequer mais um golpe de seu oponente, se não o matasse antes.
Com o calor infernal das chamas, JoJo conseguiu descongelar seus músculos e deixou suas luvas se incendiarem para o seu golpe final ser ainda mais efetivo.
Dio conseguiu antecipar o movimento, JoJo era fácil de se ler. O verdadeiro cavalheiro se doaria completamente caso fosse necessário para derrotar o inimigo.
E Dio contava com a essa dedicação, mas teve de admitir que estava intimidado.
JoJo caminhava pelo extenso corredor enquanto as labaredas subiam pelas paredes ao seu redor, como um arcanjo da justiça vindo lutar contra o próprio diabo.
— Meu coração vibra, queimando com um ardor incrível! – Tomou impulso para correr e desferir seu golpe mais poderoso. — O pulsar de meu sangue num ritmo intenso! Sunlight Yelloooow Overdriveeeee! Arg–!
A centímetros de Dio, uma explosão vinda do andar debaixo tomou ambos de surpresa. Porém, Dio aproveitou o desequilíbrio de JoJo e usou todo o potencial de seu novo poder para feri-lo enquanto o punho em chamas de JoJo o acertou em cheio em seu peito.
Dos olhos rubros malignos, saíram dois feixes de luz que atravessaram o pescoço de JoJo. A expressão do mais novo conseguiu passar a surpresa pelo ato e o medo da consequência deste.
Morrer sem conseguir cumprir com o objetivo, se tornava a pior sensação sentida por JoJo e Dio sabia disso só por olhar nos olhos dele, sendo também tomado pelo desespero da morte, quando o Hamon perpassou por todo o seu corpo, causando sua destruição total.
Com um braço ainda intacto, realizou o único ato possível para sobreviver; a decapitação.
Eu não vou morrer aqui, JoJo!
Sua cabeça rolou pelo chão. JoJo, por sua vez, tentou se acalmar e controlar sua respiração dificultada para curar suas graves feridas. O que lhe tomaria um tempo precioso.
O Hamon está o curando!, constatou o vampiro, alarmado.
Foi, então, que Erina gritou do saguão.
— Jonathan! Ah!
As labaredas estavam intensas lá embaixo, chegaram ao teto em questão de minutos.
JoJo caminhou com dificuldade, escorado ao parapeito, e Dio não permitiria que ele fugisse. Faria ele testemunhar a mulher que escolheu como esposa, sendo soterrada pelos escombros incendiados da mansão.
O que ela pretendia fazer, Dio não se deu ao trabalho de pensar a respeito.
De seu pescoço, artérias tentaculares dispararam contra o corpo de JoJo, fazendo sua cabeça flutuar até ele.
Visualizou Erina segurar Speedwagon, desacordado e muito ferido, em seus ombros. Tentando retirar o sujeito do saguão enquanto o teto desabava.
JoJo não conseguiu pronunciar qualquer palavra que a alertasse do perigo, mas se aproximou de uma armadura que decorava o corredor e tomou para si uma lança de metal.
— Desista! – dizia Dio, praticamente escorado no ombro de JoJo, enlaçando o pescoço dele com suas veias enquanto sugava-lhe o sangue por elas. — Você não pode me derrotar e salvá-los ao mesmo tempo!
JoJo se concentrou em seu último fôlego para canalizar todo o seu Hamon naquela lança. Uma viga de madeira despencou do teto, caindo em direção de Erina e Speedwagon.
Dio não evitou o arremesso certeiro da lança, que desviou e pulverizou a viga sobre as cabeças dos sobreviventes.
O fogo tomou a casa por completo, o teto desabou instantes depois que Erina conseguiu tirar Speedwagon de lá.
Dio, então, seguiu com o corpo de Jonathan, desabando ao chão.
Pôde ouvir Erina, do lado de fora, clamando por JoJo e por ajuda. Então, a mão de JoJo segurou o rosto de Dio e o colocou deitado ao seu lado, face-a-face.
— JoJo! – O vampiro chamou.
Muito ferido e sem forças, JoJo logrou em balbuciar:
— Fi... que... comigo... Dio...
Se ainda houvesse coração, Dio talvez o ouviria palpitar.
Era como estar de volta na época em que começam a dormir juntos, com as testas encostadas uma na outra, e muitas vezes com as mãos dadas, até pegarem no sono.
JoJo sorria; aquele sorriso sereno e satisfeito por finalmente descansar.
Seu último ato, porém, foi sorrir para Dio. Um sorriso que foi perdendo o formato a medida que Jonathan perdia a consciência e sua vida se esvaía, como areia numa ampulheta até o último grão cair.
Dio piscou os olhos inúmeras vezes ao constatar que JoJo estava morto.
Seus olhos azuis perderam o brilho, sua face marcante nada expressava. E sua mão carinhosa pendeu-se no chão. Dio não se sentia vitorioso como esperava glorificar-se. E odiou irrefreavelmente JoJo por isso.
Num golpe rápido com suas artérias tentaculares, Dio tomou posse do enorme corpo que lhe foi tão desejado.
Segurou em suas novas mãos, o que restou de seu amado irmão e saltou muito alto, direto para fora da casa em chamas, quebrando os últimos e persistentes vidros das janelas da fachada, causando um estrondo e pousando-se próximo de uma Erina aos prantos, de joelhos, ao lado de Speedwagon ainda inconsciente, sem desviar os olhos da casa, numa falsa esperança gritante de que JoJo sairia de lá com vida.
Ela lhe ergueu os olhos, muito assustada, e se protegendo dos detritos que se espalharam.
Dio se levantou, imponente. Erina gritou desesperadamente ao notar o que o vampiro protegia em mãos.
— Não! Jonathan, não! Não! – Ela chorou com as mãos na boca, com dor e sofrimento dignos de pena, para depois exclamar: — Seu monstro!
Dio não conseguiu reagir, apesar de não sentir absolutamente nada por Erina, também não estava motivado a feri-la, como desejou desde o começo.
É você, não é, JoJo? Sua essência ainda persiste. Me censura. Não quer que eu a fira. Dio colocou a mão no peito, sentindo o coração bater como se obtivesse uma resposta.
Seria difícil domar aquele corpo, mas tempo não seria mais um problema.
Inundado com as recordações e sentimentos do irmão, Dio deu alguns passos à frente e entregou à Erina o crânio de Jonathan.
Não precisava se despedir, ainda que sentiria falta daquele sorriso, sabia disso. Mas possuía o coração de JoJo consigo, seria o bastante. Afinal, finalmente, tornaram-se um só ser.
— Enterre-o próximo do lago – dizia com a voz ainda embargada, sentindo cada fibra de seu ser se fundir aos poucos com o novo corpo. — Ele merece ficar onde gostava de estar; ao lado do ulmeiro.
Erina recolheu o crânio de seu amado, sem dizeres, com as mãos trêmulas e chorosa, levando-no ao peito ao ignorar a existência de Dio.
Se recusava a transformar Jonathan num reles zumbi. As perversidades que lhe seriam protagonizadas com o novo corpo, seriam suficientes para deixarem o espírito de JoJo queimar no puro inferno.
Com isso em mente, o vampiro seguiu em silêncio para longe da mansão. Desaparecendo nas sombras.
✩
7 de Março de 1889
Faz um mês de sua morte.
E ninguém mais fala sobre a tragédia.
Sua história e seus feitos, foram esquecidos à grande maioria.
Mas há quem ainda se lembra.
Seu pai continua vivo, embora coberto de profunda tristeza e, creio eu, não durará por muito mais tempo. Sr. Joestar perdera dois filhos quando a mansão foi incendiada. Deve ser uma dor terrível, incurável para um homem de sua idade.
“Os pais não devem enterrar seus filhos”, disse velando os túmulos.
Sinto o seu coração bater forte agora, não fique emocionado, por gentileza...
Contudo, ele não está sozinho. É claro que você se lembra de Erina – como eu a chamava? Ah, sim, de “roceira”... –, pois bem, ela ainda é enfermeira e está cuidando de George. Sei que ela não fala sobre mim ou sobre o que aconteceu com detalhes. Apenas menciona que houve um acidente e que você salvou a vida dela e de um amigo, mas que perdera a própria ao tentar ajudar o irmão adotivo.
Eu a vi de luto por sua morte, ela carrega em seu semblante um olhar frio, cortante. Porém, ela é uma mulher com bravura, devo admitir. Lembro-me com riqueza de detalhes a feição quase deformada de puro ódio e a repugnância em sua voz que ela depositara em mim, e de obliterar a minha presença quando lhe entreguei seu crânio. Corajosa.
Vocês teriam filhos fortes e muito bonitos. Posso ajudar com isso, se quiser... minha genética está melhorada, afinal... Não? Emocionado de novo? Tudo bem. Você me conhece, gosto de provocá-lo. De saber se ainda está aqui.
Bem... Imagino que tenha sido bem complicado resolver a situação com a polícia, mas o dinheiro dos Joestar fala mais alto. Pode agradecer a mim pelo seguro da casa. Ou ao seu amigo plebe da Rua dos Ogros, que conseguiu forjar como incêndio acidental na cozinha.
Como ele sobreviveu a Zeppeli, eu nunca saberei.
Esse tal do Speedwagon foi à América, mas nem Erina tem notícias dele.
Entretanto, tenho minhas suspeitas que esse sujeito intrometido esteja com a máscara de pedra. Irei recuperá-la, tenha certeza disso, e vou descobrir mais sobre quando formos para lá (isso pode ajudar na sua antiga pesquisa. Ela era promissora, pelo o que me lembro)!
É por isso que mantenho o registro. Eu não me importo com nenhum deles, você sabe. Mas, mencioná-los faz com que você reaja, e senti-lo independente de mim, traz-me um pouco de conforto que não esperava encontrar.
Mas, acho que, por culpa sua, estou me revelando sentimental demais, um verdadeiro desastre!
Vou devorar uma jovem donzela, hoje à noite, tomar a vida dela para que eu possa te controlar. Talvez, um rapaz de nosso porte te agrade mais? Bem, qualquer ser humano me serve, não me limito nesses pormenores.
Só preciso manter o controle sobre você... mantê-lo comigo, em minha posse, mas sem interferências suas em meus pensamentos.
Em retrospectiva, reconheço que fui um tolo. Por não saber lidar com tais emoções que me tomaram, me vi suscetível às armadilhas que, agora, como um ser puramente racional, não cairia.
Tempo é o que não me falta para aprender.
A essa hora, o sol já se pôs, e estou quase tremendo de sede. Queria eu me alimentar só de você...
Isso é culpa sua, JoJo.
Agora, vou à caça.
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