Possession

3 Capítulo II – A Máscara


Notas iniciais
Leiam depois as notas finais! ♥ Boa leitura!

Dio tinha certeza que alguém os flagrou na biblioteca, noite passada. E precisava descobri-lo o mais rápido possível. Como precaução, colocou o canivete no bolso da calça. A possibilidade de ser chantageado ou mesmo denunciado às autoridades por promiscuidade, fazia a boca de seu estômago doer terrivelmente.

Era dar razão às preocupações de Jonathan, e isso o irritava, mais que os descuidos que cometeram nos últimos dias.

Logo de manhã, tratou de ir à cozinha – como há muito tempo não fazia – o que deixou todos os empregados incrivelmente tensos; um deles deixara cair um prato no chão, dias atrás, e certamente achou esse o motivo de Dio esquadrinhar a todos como se estivesse atrás de um criminoso.

E lá estava um novato que Dio não conhecia. O mordomo se aproximou em auxílio ao jovem patrão.

— Bom dia, Sr. Brando, o que posso fazer pelo senhor?

— Quem é esse? – Dio observava o rapaz, minuciosamente.

— Oh, esse é meu filho, Mário, começou a trabalhar hoje de manhã. Ele irá ajudar na cozinha enquanto eu dou minha total assistência ao Sr. Joestar.

Mário se aproximou quando foi citado, fez uma mesura mais contida, e sustentou o olhar de Dio.

O que mais chamou a atenção foi a malícia muito familiar naquele olhar; o garoto desejava crescer na vida, era um sanguessuga ambicioso, fingiria-se solícito para ganhar vantagens, talvez, para se sentir mais valorizado que os outros serviçais. Dio reconhecia esse tipo de gente e já o detestava.

Usou as costas da mão esquerda para desferir uma bofetada no novato.

— Não se atreva a me olhar dessa forma, nunca mais – disse em tom baixo. Tanto o mordomo quanto o filho dele – e os outros dois empregados presentes – ficaram aterrorizados, pois ninguém esperava aquela atitude desmedida. Dio voltou-se para o mordomo, com imponência. — Não é você que decide quem trabalha nesta casa, Zeppeli. Meu pai não está em condições de resolver essa questão, portanto, deve-se reportar a mim!

— Com todo respeito, Sr. Brando, eu não faria isso sem uma autorização – William A. Zeppeli dizia com indignação enquanto apoiava o filho, Mário. — Sr. Jonathan e Srta. Pendleton que aceitaram meu filho.

Ouvir aquele nome fez suas entranhas se retorcerem, Dio massageou a própria têmpora.

— Como é? “Srta. Pendleton”? Desde quando você recebe ordens daquela mulher? – indagou, achando aquilo tudo um absurdo.

Como não percebi as garras dessa roceira se infiltrando dentro da minha própria casa?

— Não foram ordens, senhor. Srta. Pendleton só me aconselhou. E Sr. Jonathan acatou a ideia, permitindo a ajuda de meu filho nesta casa. – Mantinha a dignidade.

Deveria ser difícil ver o filho ser esbofeteado pelo patrão na sua frente e não poder fazer nada. Mas Dio conseguiu ver a raiva crescente nas íris azuladas do mordomo e sentiu-se instigado, ainda que não teve tempo de desafiar Zeppeli, pois uma voz doce e serena amenizou todos daquela atmosfera tensa.

— O que está acontecendo aqui? – Erina Pendleton estava no batente da porta da cozinha, um tanto aflita quando notou a pele do rosto de Mário avermelhada, local onde levara o tapa.

Dio mediu Erina de cima a baixo. Ela usava um vestido simples com bordados, azul celeste, e amarrou com um adorno brilhante de cor esmeralda duas mechas do cabelo loiro, que caía em cascata nas costas. Não era difícil entender que Jonathan a escolhera como esposa. Teriam filhos lindos, certamente.

— Não é da sua conta, você já trouxe problemas demais vindo para cá – respondeu com escárnio, revirando os olhos por ter que interagir com aquela que trouxe a discórdia, acreditava.

— Problemas? – Erina ergueu o queixo, desafiante e prepotente aos olhos de Dio. — O que mais quero é ajudar...

— Meu pai doente e até mesmo o cachorro morto de JoJo, além de comer a mente fraca do tolo do meu irmão – dizia com ódio latente na voz, ao se aproximar de Erina para se impor —, você amaldiçoa essa casa com a sua presença! Você é umazinha que não ajuda em nada estando aqui. Deveria voltar para o buraco de onde saiu antes que sua máscara caía de vez, sua—!

No instante seguinte, Dio sentiu a ardência crescer no lado do rosto e o golpe ecoar ensurdecedor. Voltou-se para olhar aquela mulher que ousou calar-te com um tapa. Não havia outro sentimento além de ódio que crescera dentro de si, diante da futura esposa de JoJo.

Os olhos ciano dela sustentaram o seu âmbar flamejante.

— O único que usa máscara aqui, é você, Dio Brando! – Erina cuspiu seu nome com repugnância.

Dio não pensou duas vezes antes de levantar o braço para revidar, achando que assim, colocaria Erina no lugar dela. Afinal, ninguém o desrespeitava dessa forma.

Um tapa? Como ela ousava desferir-lhe um tapa e ficar impune?

Porém, o seu braço foi segurado com força por Zeppeli, o que o surpreendeu. Dada a postura sempre serena do mordomo, Dio não dera créditos que ele pudesse usar a força, como naquele momento.

— Não faça algo que possa se arrepender depois, Sr. Brando – Zeppeli disse, tirando Dio do sério. Soltou seu braço daquele aperto.

Passou por Erina como se ela fosse incorpórea. Seguiu para a sala de estar e procurou se servir de um copo de whisky disposto na adega.

Dio sabia que não podia perder a cabeça logo agora. Precisava dar continuidade em seu plano para acabar com todos que opuserem-se em seu caminho. Mas aquele tapa foi como abrir uma ferida em seu orgulho, mais uma humilhação que não devia deixar barato.

Essa mera roceira vai pagar por ser petulante e não vai humilhar a mim, Dio, uma segunda vez! Sorveu do whisky e ouviu a porta da sala ser escancarada, se virando para ver quem era.

— Como pôde? – Jonathan não era o mesmo da noite anterior; estava furioso e decepcionado. Os lábios do irmão mais novo tremiam, tomado pelo desespero da descoberta. Dio sabia o motivo daquela reação; a carta amassada pela mão fechada de JoJo. — Você é uma pessoa horrível! Eu fui idiota, não quis ver a maldade que rege seu coração. Fui ingênuo, achando que você tinha algo de bom. Mas você sempre foi um monstro! – proferia com o indicador acusatório apontado para Dio. Estranhamente, algumas pétalas caíam da mão que amassava a carta.

— JoJo, eu... – Não tinha o que dizer para Jonathan, sequer havia planejado para isso. Ao ouvir JoJo vociferar o quão odiosa a sua pessoa era, foi muito mais aterrador do que Dio imaginava.

Sabia dos riscos quando planejou contar, por meio da carta, o que acontecera com o pai biológico – o que assemelhava os sintomas sentidos por Sr. Joestar – e quem fora o verdadeiro causador da suposta doença.

Porém, tinha plena convicção de que conseguiria convencer JoJo de que nada de mau aconteceria com o pai, caso ele não escolhesse romper aquele laço proibido.

Em dado momento, Dio acreditava que fazia tudo para o bem; poder continuar amando JoJo sem qualquer empecilho, sem medo e sem barreiras.

Mas essa era uma visão das mais distorcidas que alguém podia ter sobre amar e ser amado.

Pensar nessas atrocidades após as palavras de JoJo, fez Dio se sentir ainda mais pequeno, mesquinho e egoísta, mas com maldade tão inerente que dificilmente agiria de outra forma.

— Eu te acho um ser desprezível! Está matando o nosso pai para me chantagear?! O que o faz pensar que vou aceitar uma situação dessa?! – Fez uma breve pausa. JoJo caminhava de um lado para o outro na sala. — Você perdeu completamente o juízo! – Dio tentou se aproximar e tocar no braço de JoJo, fazê-lo parar por um instante, sendo rejeitado sem pestanejar. — Não encoste em mim, Dio! Eu vou chamar a polícia!

— Se chamar a polícia, seu pai vai morrer – murmurou. Encarou a expressão de terror na face de JoJo. — Sou o único que sabe onde encontrar um antídoto. Além do mais, você seria preso e condenado por ter se deitado comigo, seu irmão mais velho adotivo, desde a adolescência. Pense bem no que vai fazer.

Dio não se agarrava a mais nada. Viu o fio que os ligava, se romper quando não havia mais qualquer resquício de amor nos olhos de JoJo.

— Eu odeio você, Dio... – disse num suspiro cansado e desistente, porém, cheio de tanta verdade que Dio sentiu ser atingindo no fundo de sua alma. Os olhos de ambos estavam marejados a essa altura. — Eu te perdoei pelo o que fez com Danny, mesmo não merecendo, porque, mesmo agora, você não parece arrependido. Eu não quis acreditar que você chegaria a este ponto. Eu achei que seria uma ameaça vazia, te pedi para não cometer nenhuma loucura... Mas, agora, não dá mais.

— Você foi mesmo um tolo – discorreu o que pensava. — Em querer ver algo de bom em mim, quando nem eu mesmo vejo. Sempre me questionei o que poderia te oferecer de bom, e nunca fiz nada, realmente... Mas, você? Esteve comigo, porque jurou ser o melhor irmão que eu podia ter. E fui eu, Dio, que o desvirtuei. Naquele piquenique. E continuei o fazendo, manipulando-te, chantageando-te como acabei de fazer. Não sei agir de outra maneira, e ainda tenho raiva, apesar de tudo, de você ter nascido num berço de ouro enquanto eu, Dio, vivia um inferno! O homem que me criou causou a morte da única pessoa com quem eu podia aprender o que era ser bom. No final, foi assim que me ensinaram a viver, JoJo. Foi por isso que matei meu progenitor. Eu não sinto remorso... de nada do que eu já fiz. E, para falar a verdade, nem mesmo agora. Você foi o único que me fez sentir alguma coisa diferente, além de ódio e inveja. Contudo, findei de vez tudo o sentíamos de bom um pelo outro. Isso te torna um tolo por acreditar em mim... agora, é impossível ser como antes, não é?

— Dio... diga onde eu consigo o antídoto. – A voz de JoJo saiu austera e seu semblante, inflexível. Dava mais importância a vida de seu pai do que para o passado triste do diabólico irmão postiço.

— Na capital. Há uma farmácia clandestina nos becos. Terá que procurar por lá. Essa é a minha garantia de que não irei te expor. Então, não chame a polícia. – Dio não conseguia mexer um músculo sequer.

Viu JoJo tomar o caminho para fora da sala, e foi quando pensou que desabaria se não se segurasse na parede.

A vontade de chorar veio como avalanche, queimava sua garganta e fazia sangrar o seu peito.

Voltou à adega e tomou o whisky direto da garrafa. Não sentia nada além da própria dor. Os olhos tristes e desesperados de JoJo se faziam presentes em sua mente, repetidas vezes, o que dilacerava seu peito como não imaginou que aconteceria.

Esse era o fim. Seria preso se não pensasse em alguma coisa para acabar com o próprio tormento. Entretanto, não pensava em colocar um fim na própria vida. Mas conseguiria viver essa vida sem JoJo, Dio começou a se perguntar.

Zeppeli entrou na sala, silenciosamente.

Dio segurava a garrafa de whisky, quase esparramado na poltrona. O mordomo pigarreou para chamar a sua atenção e Dio moveu os olhos em sua direção.

— Ficaremos aqui até Sr. Jonathan voltar – dizia numa voz maquinal.

— Você me odeia também, por eu ter batido no seu filho, não é? – murmurou sem se importar se seria ouvido ou não. Mas Zeppeli não respondeu, talvez, não houvesse a necessidade de verbalizar o óbvio. Dio conseguiu rir soprado, a situação toda era muito patética ao seus olhos. Um mordomo o manteria preso ali? — Aquela roceira também deve ter feito a sua cabeça velha... Ela estava aqui ontem, não estava? Perambulando pela mansão à noite. Bem, isso explica a presença dela aqui tão cedo... ela vai começar a dizer absurdos sobre mim. Quem sabe não seja ela envenenando meu pai?

Acreditava tanto nisso que soava como verdade ao sair de seus lábios, mostrando o quão desesperado estava. Sentia-se ainda mais patético.

Zeppeli respirou profundamente como quem tomava coragem de falar.

— Você tinha motivos para ir à cozinha, hoje. Foi para intimidar alguém que acreditava saber um segredo seu. Eu estou aqui. Fui eu que os flagrei na biblioteca na noite passada, Sr. Brando. – Dio ergueu-se da poltrona e se levantou, lentamente. Sequer ouvia a própria respiração, ficando em silêncio enquanto perdia a cor de sua face. — Eu sabia há anos, mas não quis interferir, a princípio, crendo que seria algo... passageiro e inocente. Mas, de uns tempos para cá, aconselhei o jovem Jonathan a se precaver, para que nenhum de vocês saísse ferido ou com a honra manchada. Pois Jonathan ficou muito abalado com o que aconteceu no instituto.

— Você... o quê? – Dio estava desacreditado.

Zeppeli sabia de tudo... Jonathan tinha ciência disso?! O sangue começou a ferver. Rugas cresciam em seu cenho.

— Se o senhor quer direcionar a sua raiva à alguém, que seja para mim. Srta. Pendleton não é responsável pelo o que o senhor acredita que ela seja. Mas eu sou.

Dio se moveu em direção a Zeppeli. Ele arrastava os pés ao invés de andar. Estava catatônico. Largou a garrafa no chão, soando um barulho abafado pelo tapete. E deixou lágrimas escaparem de seus olhos ao parar alguns centímetros do mordomo.

— Por quê? – Dio não deu forças a sua voz. Analisava com cuidado a expressão de surpresa de Zeppeli. E quando achou propício, cedeu o apoio das pernas, caindo de joelhos na frente dele, aos prantos.

O mordomo fez menção de ajudar, evitar a queda, foi o suficiente para Dio sacar o canivete do bolso e golpeá-lo na lateral, entre as costelas. Foram duas, três, quarto e cinco vezes seguidas.

— Seu maldito... devia ter ficado calado. E estaria vivo, agora.

Dio sentiu uma energia estranha fluir por seu corpo, repelindo-no dali. Era como uma força absurda originada pelo outro, que o empurrou sem necessitar dos braços. Ficou atordoado, mas estava convicto que precisava acabar com a vida de Zeppeli. Voltou com o canivete em punho e esfaqueou o mordomo mais algumas vezes direto no peito. Sua fúria era tamanha, que ignorou os socos que Zeppeli desferiu em seu rosto.

Quando já estava difícil de respirar, Zeppeli cedeu, caindo no chão, agonizando.

Dio se levantou do chão, ofegante. Gotas de sangue salpicavam seu rosto pálido, o cabelo grudava na testa e suas mãos e as mangas de sua roupa estavam completamente ensanguentadas.

Não deu-se tempo para pensar o que de fato havia acontecido ali, que energia era aquela que o repeliu, pois estava disposto a colocar um fim em tudo.

Saiu da sala e foi para a biblioteca onde a pesquisa de JoJo aguardava seu pesquisador.

A máscara de pedra estava dentro de um pequeno baú, em uma das prateleiras. Lembrou-se de quando o objeto reagiu com sangue, expondo espetos pontiagudos em suas bordas.

Testaria a eficácia da relíquia antes de ir atrás de Erina Pendleton, pois JoJo deveria sentir o mesmo que ele sentia naquele momento; que o destino estava traçado. Tudo estava fadado à morte.

Notas finais
Peço desculpas desde já pelo o ocorrido. Eu também estou lamentando muito! ;n; Se alguém estiver lendo, poderia me dizer o que acha desse Dio? Seja sincere, agradeceria muito! ♥ O próximo capítulo pode demorar um pouco por eu estar enrolada com algumas paradinhas aqui em casa, mas nada tão absurdo, tudo bem? Curiosidades do capítulo: ✩ O mordomo era nada mais nada menos que William A. Zeppeli, sim! Não rebaixei sua posição, mas achei conveniente ele ser o mordomo dos Joestar ao invés de um cara “aleatório” que vem a ser mentor de Jonathan. Ele tinha por volta de 50 anos (como no mangá/anime), e estava nessa família desde que Mary, mãe de JoJo, encontrou a máscara de pedra, por motivos óbvios; ✩ Mário Zeppeli é o pai de Caesar A. Zeppeli. Porém, na história ele tem só 13 anos. Denunciem o trabalho infantil, gente; ✩ JoJo recria flores quando está extremamente emocionado, por razões boas ou ruins. Nunca foi citado antes, porque Dio nunca reparou nessas coisas antes, somente agora. Sabem o que isso significa, certo? SPOILER: Tenho para mim que Mary era uma guardiã da máscara. E William era seu mentor na arte do Hamon, e vem ensinando Jonathan desde a adolescência, para que ele se torne o próximo guardião, já que o poder do Hamon é hereditário. Portanto, sim, Jonathan já manja fazer florzinhas (haha) e descer o sunlight yellow overdrive para cima de qualquer criatura demoníaca. E por hoje é só. Muito obrigada por ler! Até o próximo capítulo!