Posse
1 Only one
Notas iniciais
Aqui está toda a essência da minha existência contada em um vago “até logo”. Um até depois, que seja válido pelo tempo em que eu for.
Nesses únicos olhos castanhos que irão percorrer estas linhas está, ou estava, a única razão de eu pisar sobre a terra e não sob esta.
Das primeiras vezes sequer havia chegado a vê-lo, você sabe, não por mais de três ou quatro segundos. Apenas relance, passagem, borrão de fios claros e palidez.
O conhecia em tudo muito pouco e muito pouco de um tudo.
Ainda assim era esquisito. Aquele vazio, alguns problemas, risadas e cafés. Um café acidental, não sei se você lembra.
Esquisito, complicado.
Não haveria de nascer qualquer afeição em tais alicerces.
Mas uma noite, aquelas noites que você sempre precisa pensar pra dormir e não dormir pra pensar mais um pouco, nessas noites em que você se vê do nada vagando por aí sem sair do lugar; em uma dessas noites, eu fui até você.
Não saberia dizer o que estava fazendo ali, mas o meu sorriso cego na escuridão do quarto era testemunha de que eu estava ultrapassando certos limites.
Não limites físicos reais, mas fronteiras de certos muros que eu mesmo havia erguido à minha volta. Evolução breve, pouca fala, e de repente eu te tinha em meu encalce.
Não para ir ali, sair, cair, mas para ir, ser, estar.
Juntos.
Mas no fim da noite eu não estava incomodado.
Não estava incomodado em te sentir tão profundamente mesmo que apenas apertássemos os dedos entrelaçados escondidos debaixo da mesa; não estava incomodado em ver minha muralha ser levada abaixo pelas suas bombas feitas de sorrisos.
Não enquanto você não soubesse.
Não eram só risos, não há perfeição em qualquer caso.
Haviam os dias, as horas, por vezes as horas de cada dia, em que eu te via perdido, louco, torto. Eu sabia pouco, mas eu podia sentir todo aquele pouco brilho do seu sorriso sendo ofuscado pelas lágrimas que nunca caíam.
Não, eu sei que você não chora. Eu sei que você não conseguia mais chorar.
Mas eu nunca fui tão forte, de nós dois era eu quem desabava mesmo que sempre fingisse que não. E você, com toda a sua dor e cinza, tentava me erguer.
Não sei, talvez tenha sido em um desses instantes em que eu tracei meu rascunho para monopolizar você; talvez tenha sido nesse instante que você enxergou que havia ido tão longe em minhas barreiras.
Você se preocupava com a minha dor, eu sei que sim. Você não mentiria dessa forma. Haviam tantas outras formas, mas não dessa forma, nunca dessa forma.
E quantas vezes seguidas me peguei fingindo fraquejar apenas para sentir que você se importava, que era real, que estava ali. No fundo sempre achei que soubesse, sempre achei que soubesse que eu não gostava de me mostrar e o fazia apenas para atrair você. Minha presa.
Era errado, eu sei.
Mas eu não poderia mais evitar monopolizar você.
Essas linhas vazias que tento preencher agora... Espero que um dia elas cheguem a você. Eu não me importaria que você soubesse a verdade estando mais longe do que esperava e nunca desejei. A verdade de verdade. Não os sentimentos, a vida, as lágrimas. Isso você sempre soube.
Você sempre sabe sem ao menos querer.
Quis dizer do meu verdadeiro eu. Daquele que não sente, que não vive, que não chora.
Que existe.
Sou covarde demais para esperar sua reação e lento demais para tentar prevê-la então prefiro assim; separados por uma ou duas folhas deixadas em uma escrivaninha, representando quilômetros ou apenas sete palmos.
Mas de qualquer forma quero que saiba disso. Não poderia deixar de te contar seja de qual forma for, para então mais uma vez eu estar guardando tudo para mim. Amontoando.
Você nunca gostou disso.
Era um pouco mais do que eu esperava, um pouco menos do que eu desejava, na medida certa para o tempo. Mesmo que isso tudo houvesse sido tão rápido.
Talvez toda essa rapidez tenha sido o problema. Algum tempo a mais me daria o direito de reivindicar o trago de sua atenção com claridades aos sentimentos, me daria a chance de dar vazão àquele cálice frígido que preenchia meus sentidos quando eu via o quão íntimo você poderia ser de outro.
O quanto de tempo que levou para que esse alguém fizesse parte da sua vida era aquele que eu gastaria remoendo formas de convencer-te de que aquilo era o errado. Apenas eu poderia ir tão longe.
Ciúmes.
Só eu poderia me aproximar, só eu teria, apenas eu nunca te machucaria, nunca te deixaria.
Somente eu poderia arrancar toda a sua dor.
Apenas eu poderia devolvê-la, só eu teria o poder de te atingir e te fazer sangrar.
Agora deve ser uma daquelas noites. Aquelas noites a que me referia. Mas agora eu não preciso vagar para achar você, ao menos que você tenha resolvido ver um filme na televisão até tarde e acidentalmente dormido no sofá. Mas eu iria até você para te trazer para a cama, você sabe que sim.
Na verdade acho que espera por isso.
E andando por essas noites, te vendo tão próximo, descobri que há tempos eu não dormia. Continuava vagando em sua busca, sem qualquer valia. Descobri que não comia, não havia gosto, não havia quente, frio, fato, realidade.
Você havia roubado minhas cores, meus pincéis, meu tato, meu sono. Meu ar.
Carregava em cada parte do seu existir a conseqüência da minha vida. E eu apenas esperava, ansiava, poder continuar vivendo. Vivendo em você.
Eu não iria deixar de monopolizar você.
Nunca.
Os traços do inverno me desenham a nostalgia, o frio, o desejo de estar. Me trouxe a lembrança de tudo e então eu concretizava meu plano de encerrar você.
Me mataria aos poucos ao te fazer sangrar; e em um futuro próximo pereceria. Te faria sofrer apenas porque tenho esse poder; e de costas eu estaria chorando a sua dor, em soma à minha.
E então apenas eu poderia te reerguer.
Apenas eu poderia fazer você respirar sem dor. Assim você seria meu.
Sempre farei de tudo para provar que você é meu.
Nunca poderia deixar de monopolizar você, porque você carregava minha vida em seu terno e tato.
O plano era de todo perfeito. A minha criação mais divina em tempos remotos e assim eu iria monopolizar você. Eu iria monopolizar você e assim ter de volta ao menos um pouco do controle dos meus próprios sentidos, da minha existência.
Mas... Como qualquer esboço rabiscado mergulhado no inconsciente, a projeção perfeita do desenho em segundo plano limpo me fez enxergar as falhas. E tantas falhas.
Não havia enxergado qualquer destas por vontade própria. Afirmo que era a minha brilhante conspiração indireta para me ter de volta.
Só as vi quando você sorriu.
Você sorriu.
Não sorria para mim, por mim. Eu não te dei aquela lucidez, não te dei a razão, não te dei aquela realidade.
Mas você continuava sorrindo.
Sem que eu me desse conta, sem que eu estivesse, sem que eu quisesse.
Você sorria.
E eu estava sufocando.
Era meu ar escapando, era meu sono se esvaindo, era meu tato, meu ser, meu existir, evacuando entre meus dedos como um suco ralo de uma essência falida.
Espero que não me julgue. O espero bem como esperava continuar a viver.
E antes que sequer esta questão se passe por seu pensamento, não, esta não é uma carta de despedida.
Eu não estou morto, meu anjo.
Porque a minha vida está em você, impregnada em cada fibra da sua carne, movimentada por cada passagem translúcida de biografia. Você me tem, você me tem.
Você me tem. Dessa forma caótica, sufocante, intensa demais para um simples parágrafo.
Você me tem.
E eu sempre quis ter você.
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