Pose

1 Capítulo Único


— Eu nunca sei se tu tá falando a verdade.

Embora tenha rido na época, essas palavras o acompanhariam durante um bom tempo, o levando vez ou outra a uma reflexão. Não do tipo de reflexões que temos em uma mesa de bar ou logo após uma cagada homérica, mas sim naquelas que nos aparecem em momentos rotineiros e nada especiais.

O contexto daquela frase havia se perdido há anos. Podia ter sido subsequente a um flerte ou a uma declaração de amor. Na verdade, não fazia diferença, pois as indagações que levantava eram somente em relação a si próprio.

Em uma noite qualquer ou em uma tarde tediosa no trabalho, ele se perguntaria se tudo começara em sua adolescência, tão mentirosa e cheia de poses (geralmente desmascaradas), ou em sua mocidade, autoindulgente e ainda mentirosa (agora, na maioria das vezes, acreditada).

Talvez todo o problema venha de sua infância, ou melhor, lá começara, conforme um fogo brando e pueril se apagava, dando lugar a um fulgor ardente e narcisista.

Normalmente tais divagações o levavam a questões ainda maiores sobre como tratava as pessoas importantes para si e sobre como se portava em relação às coisas que fazia. Sobre como ele era humano dele querer ter o que não tinha e como faria diferente a partir daquele momento.

Mas, em relação ao cerne da questão levantada por aquela guria, ele sempre soube a resposta. Era pura luxúria por sua imagem. Ele era como Narciso, encarando seu reflexo nos olhos das pessoas, buscando apresentar um personagem pelo qual ele próprio se apaixonaria. Tão misterioso. Tão legal.

Então, se as pessoas não sabiam a verdade, não importava, pois toda aquela pose não era para elas, nunca tinha sido. Era um puta de um amor próprio.

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