Porto Seguro
2 Eles só querem agradecer
Tamaki não poderia evitar de se sentir culpado pelo estado que deixou Togata e ainda estava encabulado pelo estado que estavam ao se encontrado pela amiga dele:
— Eu posso voltar mais tarde se eu estiver atrapalhando?
Negou fortemente com a cabeça:
— Não, não, não tem nada para atrapalhar. Por favor, não interprete mal — explicava Tamaki com voz tremula de embaraço.
Ela se aproximou, inclinando a cabeça, notando que Togata dormia tranquilo. Riu de forma adorável.
— Ele parece um Golden Retriever cansadinho. — Estendeu sua mão e se apresentou sussurrando — Ah, eu sou Nejire Hado.
— Tamaki Amajiki… — Sussurrou de volta.
— Amajiki-kun, eu trouxe para você — disse ela, mostrando novamente a bolsa de sangue.
— Eu agradeço, vou guardar para mais tarde.
— Sim, tem que se alimentar bem. Quer uma ajuda com…? — Apontou para o seu grande amigo ainda deitado no Tamaki.
— Ah… — não sabia o que responder, pois não imaginava como ela poderia lhe ajudar.
Togata era robusto, relativamente pesado, seria difícil movê-lo para um humano comum. Tamaki só estava esperando recuperar as energias — e a compostura. Ainda estava envergonhado — para… leva-lo? Tentar desperta-lo? Não tinha coragem de acordar Mirio Togata. O rosto dele estava relaxado todo, suas orelhas loiras abaixadas e sua calda em repouso, ele realmente parecia um Golden Retriever.
— Eu posso carrega-lo depois… — sugeriu Tamaki.
— Ou podemos ir no meu dormitório, eu estou de carro.
Com graça, ela moveu os dedos, soltando faíscas azuis pelo ar, no mesmo instante, Mirio estava a levitar. Tamaki compreendeu o que se passava:
— É uma bruxa?
— Eu sou sim.
Além de um lobisomem, estava lidando até com bruxa no mesmo dia. Bem…, ao menos elas não têm um histórico de implicância com vampiros (ou lobisomens).
Ela deixou Togata praticamente sem peso, Tamaki aceitou a ajuda de bom agrado para leva-lo, só estava tentando pensar como e de uma forma discreta. Tinha chamado atenção o suficiente por um dia.
Nejire Hado estava levando os materiais de ambos. Olhando para trás, para lhe encarar, ela soltou uma outra risadinha.
— O que foi? — Tamaki perguntou curioso.
— Está o carregando no estilo noiva.
Não tinha parado para pensar na forma que o levava em seus braços, mas tal comentário fez atingir novamente sua timidez. Ele se envermelhava com frequência.
— Estou tomando cuidado com ele — se defendeu.
Nejire Hado lhe sorriu:
— Estou vendo.
E assim foram até o carro. Os dormitórios eram bem pertinho, mas seria mais prático deitar Mirio Togata no banco de trás, até para ele ficar confortável em seu sono, não acordava por nada.
No dormitório de Hado, Tamaki o deitou na cama e o cobriu. Ficou a admirar seu cochilo pesado.
Talvez por ele lhe lembrar tanto aqueles cachorros, inconscientemente, passou carinhosamente a mão no topo de sua cabeça. Se deu conta do que tinha feito ao ver o rabo de Togata se mexer em baixo da coberta e ele fazer um barulhinho similar a um ronronar. Afastou a mão, se certificando se ele havia acordado. Ainda estava a dormir.
Era incrível, lobisomens podiam ser fofos quando queriam.
Saiu do quarto para ir tomar chá com a bruxa. O sangue daquele lobo tinha lhe satisfeito a tal ponto, que seria muita gula tomar uma gota daquela bolsa. Sua sede por sangue estava satisfeita. E era muito grato, não sabia o que poderia fazer para recompensar a boa vontade daquele estranho tão gentil.
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Ao acordar, Mirio se deu conta que havia escurecido e não estava em seu quarto, mas a construção era similar. Era o quarto de sua amiga, outro dormitório.
Se esticou tentando lembrar como diabos foi parar ali.
Sua noite tinha sido extremamente tumultuada, em um momento estava a estudar, em outro recebeu uma mensagem do pequeno Midoriya e teve que correr entre as árvores para salva-lo de outros lobisomens. Sabia que certamente, Izuku Midoriya estava tentando só ir para casa em paz, quando houve outro conflito entre os lobos betas, ômegas e alfas. Felizmente, chegou a tempo de tirar o menino lobo ômega do meio.
All Might estava o treinar, mas Mirio muitas das vezes se perguntava se Midoriya não era jovem demais para ser envolvido num conflito de lobisomens como aquele. Treinar era algo muito diferente de sair para luta de fato e uma de surpresa como aquela… perigoso demais. Ele era só um estudante de ensino médio, onde Toshinori Yagi estava com a cabeça?
Sentiu o cheiro gostoso de comida. Costume de sua amiga, Nejire, fazer para tranquilizar qualquer um, só que essa tinha um aroma não tão similar ao que estava acostumado…
Se lembrava que tinha ido a faculdade depois de dormir não tão bem, após entregar em segurança Midoriya a sua mãe. A senhora Inko Midoriya parecia tão preocupada, coitada…
E piorou por estar dolorido ontem, mas nada demais. Não foi uma briga intensa que se meteu, foi mais pela adrenalina causada graças aos feromônios na mata de tantos lobos a se enfrentarem. Ele corria e se escondia com o pequeno sob sua responsabilidade.
Porém, agora que despertou, se sentia revigorado com esse cochilo que tirou!
Até estalou os ossos, quanta energia!
Bateu palmas se levantando num pulo.
Saiu do quarto. Na sala, viu sua amiga arrumar a mesinha com os pratos.
— Hmmm… que cheirou bom!
Ela riu de seu comentário e comentou:
— Hoje eu tive ajuda na cozinha.
E de lá saiu o Tamaki Amajiki.
Mirio estalou os dedos ao se lembrar dele. Sim, tinha o ajudado na faculdade!
Lembrou que deu seu sangue depois que ele desmaiou e o carregou até a área de descanso dos alunos.
Como poderia deixar um vampiro desamparado numa situação como aquelas? Nem passou tal pensamento por sua cabeça, estava feliz por ajudar, era uma alegria saber que estavam em tempos de paz onde não seria um problema maior dar apoio ao próximo. Que loucura imaginar que houve época que isso não seria aceitável, não é? Não via problema alguma servi até mesmo seu sangue, tinha bastante!
Seria grato se algo assim acontecesse com o Mirai Sasaki, —senhor Nighteye — e ele fosse amparado da mesma forma. Vampiros também precisam de auxilio as vezes, por mais que dão um ar de tamanha força trajada em sofisticação. Vivemos numa sociedade, não estamos isolados, todo mundo precisa de todo mundo e é nisso que Mirio acredita!
E se lembra de ter dado novamente seu sangue e… deve ter dormido ali.
— Oh, me desculpe, eu dormi em você?
Amajiki olhou para baixo encarando a refeição que preparou, estava envergonhado, sendo que era para Mirio ser quem tinha que estar com mais vergonha ali, certo?! De toda forma, achava o jeito do Amajiki bem adorável.
— Sim, mas tudo bem, fico feliz que esteja bem. Para agradecer por ter me ajudado, eu… — mostrou a panela que segurava.
Apontou:
— Você que cozinhou?
Recebendo uma confirmação de Amajiki.
Se aproximou, admirando os belos pedaços de carnes cozidas. Inalando o aroma maravilhoso, dava água na boca.
— Os lobisomens com quem trabalho gostam bastante.
— Eu imagino! — Alegre, Mirio contemplava. — Ah, Amajiki-kun, isso é muito mais do que mereço. — Se sentava no tatame diante a mesa. — Só fui um quebra galho.
Tamaki Amajiki se sentou, colocando a panela ali para os demais comerem.
— Que isso, foi de grande ajuda. Foi gentileza sua.
— Mas eu não quero que pense que eu fiz pensando em receber algo em troca… — disse Mirio, preocupado.
— Ah, não se preocupe. E mesmo que fosse, não deixaria de ser admirável o que fez.
— Não mais que essa carne de panela com batatas, olha pra isso! Eu vou tirar foto, bonito demais. — Puxou agilmente o próprio celular.
— N-não precisa isso tudo…
— Claro que sim! Se aproxima para sair na foto também.
Mas Amajiki se encolhia, tentando se afastar da lente da câmera do aparelho.
— Céus, não! Que vergonha, eu não sou de sair em foto.
— Mas o prato é seu e eu estou tão feliz, quero agradecer e lembrar desse momento!
— Muito gentil da sua parte, mas… não precisa.
— Eu insisto!
E durante o tempo em que eles conversavam sobre quem deveria ser mais grato pelo outro, Nejire concordava com a cabeça se servindo e logo passando a comer. Se deliciava com o arroz fresquinho, legumes refogados e a carne de panela. A comida estava com uma cara ótima.
Eles pareciam que ficariam tempo demais naquele assunto bobinho, ela estava com fome e não iria esperar ninguém. Até ria da situação.
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