Porto Seguro
1 Porto Seguro
Notas iniciais
Obrigada, Asunna, por sua amizade!
Depois, gostaria se agardecer à Sophie, a Srta_Syn_FF7, por me ajudar a bolar a trama:
Obrigada, Sophie, por me ajudar a fazer algo completamente novo e diferente pra mim!
Espero que gostem! Não se esqueça de comentar!
Essa pequena narração é a recontagem dos dias mais importantes da minha vida. Os que mudaram meu modo de vida até o meu modo de pensar. Que mexeram com meu mundo de tal modo que ele virou ao contrário para poder se adequar.
A começar por aquela tarde. Como poderia esquecê-la? Foi o começo de tudo. Eu e meu melhor amigo, Ryan, estávamos na extremidade de uma praça no campus, olhando para um certo grupo de garotas, em especial para uma de cabelo rosa, encaracolado, de olhos da mesma cor, alta e de voz igualmente potente, mas que pessoalmente sempre achei mal trabalhada.
-Vai lá cara, mostre o seu tigre interior pra ela. – eu disse, em tom de sarcasmo – Não que você tenha algum. – completei em voz baixa, mas que ainda era audível para ele. Porém, ele estava nervoso demais com sua missão para se irritar, ou sequer prestar atenção no que eu estava falando.
Revirei os olhos. Lembrei de quando conversei com Elesis pela primeira vez, jogando uma das minhas melhores cantadas e apostando todas as minhas melhores fichas nela, mas a sensação de nervoso que ele passava não era nem de perto parecida com a minha. Era maior, mais assustadora e mais insegura. Depois, dei uns tapinhas nas suas costas, esperando que ele se movesse, mas ele continuou uma estátua na minha frente. Então, o empurrei com bastante força, e ele aproveitou o impulso e se dirigiu a ela, tremendo um pouco.
Esqueci de contar. Naquela época eu namorava com Elesis, uma garota de curvas, cabelos vermelhos e sedosos, com olhos brilhantes da mesma cor. Nosso namoro era estável e ativo, e raros eram os dias que nós não nos encontrávamos pelo menos uma vez.
No entanto, quem estava prestes a ficar com alguém não era eu. Era meu melhor amigo, de cabelo espetado cor de cenoura e olhos verdes cor de musgo, que de repente se interessou pela garota montada que eu descrevi algumas linhas acima. E ali estávamos nós, eu na mesma extremidade da praça e ele no meio da roda de garotas, sério. Pude vê-lo conversando com ela, e voltar em seguida, na minha direção.
-E aí? Como é que foi? – perguntei. Ele não respondeu, me ignorando como se eu não tivesse dito nada. – Eu estou falando com você, Ryan. Como foi? – repeti a pergunta, mas pelo comportamento dele, já esperava pelo pior.
-Me deixa em paz, Sieghart! – ele gritou, com o rosto corado. – A culpa é toda sua! Você sempre tenta planejar as coisas, mas nunca dá certo! Nunca! Eu não quero sua ajuda nunca mais! – ele gritava, com o rosto avermelhando mais a cada palavra. Depois, me encarou, finalmente me olhando nos olhos, e correu para longe.
Suspirei. Esperei até que não pudesse ouvir o barulho de seus passos, abafados pela grama e por algumas folhas secas. Sabia que ele não tinha dito de propósito. Eu e Ryan somos amigos há tanto tempo que nem lembramos quando começamos a nos falar. Provavelmente, antes mesmo de termos aprendido a dizer algo.
Sempre estudamos nas mesmas escolas ou em escolas vizinhas, porque importunávamos tanto nossos pais para nos vermos que era insuportável nos agüentar separados. Até entramos na mesma universidade, quase na mesma matéria, para estarmos próximos. E, graças a essa convivência, cada um de nós sabe se o outro está falando sério, o que vai dizer, se está de bom humor, e na maioria das vezes, como vai agir.
Só há uma coisa que anula essa nossa ‘adivinhação’ um do outro: um sentimento chamado amor. Um nunca sabe por quem o outro está apaixonado, o que vai fazer, como vai conquistar a garota. E, por isso, quando ele me surpreende dizendo que gosta de uma garota nós tentamos planejar suas palavras e ações.
Porém, justamente por essa ser a única exceção para a nossa ‘telepatia’, é justamente a única coisa que não conseguimos ter sucesso juntos e a única coisa que faz com que nos desentendamos. Temos comportamentos completamente diferentes nisso: Ele tenta agir como um cavalheiro, como um príncipe encantado; eu prefiro cantadas inteligentes, dignas de um galã de novela das 9.
Deve parecer que eu sou super convencido, falando desse jeito com tanta certeza sobre mim mesmo e sobre outra pessoa. Mas é simplesmente assim: eu e Ryan temos consciência de nossa personalidade, e se alguém perguntar a opinião dele sobre o que eu escrevi, ele concordará sem pestanejar – a não ser pela parte do amor. Ele provavelmente vai dizer que eu é que sempre erro.
Caminhei entre as árvores, de um pequeno bosque vizinho à universidade, procurando Ryan. Com aquele cabelo laranja e espetado dele, não seria difícil. Eles se destacavam na multidão com aquela cor de fogo única dele. Mesmo quando raspamos o cabelo, para comemorar a admissão, o cabelo dele cresceu rapidamente e ficou mais chamativo do que antes. Agradeço a deus por ter nascido com uma cor normal, preta.
-Outro fora? – perguntei, quando finalmente o achei, abraçando os joelhos à sombra de um chapéu-de-sol. Sentei ao seu lado, com os joelhos meio abertos, e as mãos se segurando pelos dedos, abraçando a ponta dos joelhos.
-Não quero falar sobre isso. – ele disse, virando a cara para o lado violentamente.
-Ah, agora vai se deixar abater por causa de uma garota qualquer? – eu podia sentir o sangue sendo bombeado mais forte, através dos meus pulsos. – Qual é, elas que deveriam chorar por você, e não você por elas. Levante-se! Erga a cabeça, mostre que é superior! – levantei do chão, fazendo um pose engraçada para tentar animá-lo.
-O problema é que eu não sou que nem você, que ficou com todas as garotas da universidade só pra se divertir antes de se comprometer! – ele gritou, olhando para mim, mas depois escondeu o rosto novamente.
Paralisei por alguns instantes. Ele nunca tinha falado sobre meu comportamento ou com quem eu ficava. Era a primeira vez até que ele mostrava alguma opinião sobre o meu relacionamento com Elesis, que já tinha uns bons três anos. Afinal, ele nunca comentou nunca sobre nosso namoro. Quando eu falava dela, ele ouvia atentamente. Quando eu tinha que interromper alguma conversa ou atividade nossa por causa de um encontro com ela, ele aceitava e se despedia de mim com um sorriso sincero, ou pelo menos com o que eu acreditava ser.
Estranhei. Porque ele estava incomodado com isso?
-Deixa pra lá, esquece. Não foi o que eu quis dizer. – ele disse, escondendo os olhos.
-E o que você quis dizer? – perguntei, me agachando e ficando da mesma altura que ele, mas ele continuava a esconder os olhos atrás do cabelo laranja.
-Eu estava nervoso, não queria dizer nada. – ele respondeu, tentando me olhar nos olhos, sem sucesso.
-Você queria dizer algo sim. Não adianta tentar mentir pra mim, você sabe. – continuei a encará-lo. Ele suspirou, resignado, e começou a desabafar.
-Eu odeio a Amy. Odeio. Odeio! Quem é ela pra dizer que eu sou sem graça e ridículo na frente de todo mundo? – Ryan começou a gritar de novo, sem conseguir controlar sua raiva. – Ela é que é ridícula, usando aqueles decotes bregas pra exibir aqueles peitos siliconados e tortos! E tão sem-graça, que teve que pintar o cabelo de rosa pras pessoas notarem que ela existe! Ela se acha, mas nem se toca que as próprias amigas vão ver a apresentação de canto dela com tampa-ouvido industrial! – ele resistia bravamente, mas deixou que algumas lágrimas rebeldes escapassem dos seus olhos verde-escuros.
Ver o meu melhor amigo de toda a vida sofrer assim por causa de uma vadiazinha me dava raiva. Me dava vontade de esfregar a cara dela no chão, para aprender a tratar os outros com respeito. Mas isso era o que a parte pequena e racional dentro de mim queria fazer. A parte instintiva, que eu não controlava e nunca poderia controlar, fazia uma pressão atrás de minhas costas, na direção do Ryan que sofria na minha frente. Ajoelhei, cedendo um pouco à pressão, e peguei seu rosto com uma das minhas mãos para poder olhar nos olhos dele. Algo me dizia que havia algo mais, que mais alguma coisa o preocupava e incomodava.
-Tem mais alguma coisa. O que é? – pedi, tirando minha mão do rosto dele e apoiando-a no chão, perto de sua mão.
-Nada. Não há mais nada. – ele disse, sem olhar de volta pra mim, tentando rir um pouco.
-Sim, tem mais alguma coisa. Você sabe que eu não vou desistir até saber o que é. Então, que tal nos poupar o cansaço e falar logo? – pedi, pegando sua mão jogada na grama e a apertando.
-É só um pensamento besta, deixa pra lá. – ele retrucou, relutante.
-Seja esse pensamento besta ou racional, se estiver te incomodando, quero saber o que é. Não posso deixar que sofra em silêncio. – retruquei também, apertando sua mão um pouco mais, tentando mostrar que estaria presente, sempre.
Ele resistiu um pouco mais, mas por fim desistiu e, após respirar fundo, decidiu contar o que era.
-Estou com medo. – ele confessou, um pouco rouco, meio envergonhado.
-Do que? – perguntei, confuso. Suavizei a pressão que minha mão fazia na dele, mas ela continuava apertando forte sua mão. Ele respirou fundo de novo, como se inspirasse as palavras antes de jogá-las todas ao vento de uma vez.
-Eu tenho medo de ficar sozinho. – ele confessou, rouco de vergonha. – Você já está com a Elesis há 3 anos, não falta muito até que decidam realmente ter um relacionamento sério, noivarem, morarem juntos e se casarem! – ele fez uma pausa. Seus olhos finalmente pareciam normais, como sempre foram, mas havia algo mais. Algo que ele conseguiu esconder por um bom tempo, que seus olhos carregavam há muito tempo, e que eu finalmente conseguia sentir. Ele respirou fundo mais uma vez, tomando coragem, e terminou, mais rouco do que nunca. – Eu tenho medo de ficar sozinho e nunca mais te ver... – ele confessou, corado, mas muito inseguro e com sua face contorcida pelo sofrimento.
Aquela pressão nas minhas costas em direção a ele de repente se intensificou ao máximo, como se algo tivesse explodido atrás de mim. Sem que eu pudesse me conter, meu corpo foi de encontro ao dele, e meus braços avançaram para suas costas e sua nuca, trazendo o corpo dele mais próximo do meu e colocando sua cara de encontro ao meu ombro, bem próximo do pescoço. Em um primeiro momento, nós dois ficamos surpresos, eu pela ferocidade daquele misterioso impulso, e ele pelo movimento rápido e de supetão. Mas, no momento seguinte, pude sentir seu corpo relaxando, e alguns pesares em forma de lágrimas molharem minha camisa. Apertei meu corpo contra o dele, tentando passar alguma segurança.
-Nós nunca vamos nos afastar. Eu prometo. – sussurrei em seu ouvido. Por um momento, pensei ter visto a pele dele se eriçar, mas como seu cabelo era claro e comprido, ele cobriu sua nuca novamente e não pude vislumbrar aquela área de novo.
Ficamos daquele jeito tempo demais, até mesmo para nossa amizade de longa data. Eu não podia soltá-lo, e mesmo que pudesse, não o faria. Eu queria que ele permanecesse em meus braços pelo maior período de tempo possível.
De repente, o mesmo impulso que me jogou de encontro a ele começou a fazer uma nova pressão, além daquela que me acorrentava cada vez mais forte ao garoto à minha frente, como se me pedisse para apertá-lo até consumi-lo, se fosse possível. Quando Ryan finalmente levantou o rosto, para enxugar o rosto molhado com as mãos, nossos olhos se encontraram, o impulso ficou mais forte, tentando me empurrar em direção ao rosto dele, mas o objetivo não era claro. Resisti bravamente, tentando empurrar minha cabeça para trás, ao mesmo tempo que admirava o desenho dos olhos verdes de Ryan.
Ficamos nos encarando por mais algum tempo. Eu não me cansava de desvendar aqueles olhos, embora já os conhecesse há muito tempo. Estava começando a anoitecer, quando ele fechou os olhos e apoiou suas costas contra meu peito, e sua cabeça no meu ombro, se aninhando no meu colo, com minhas pernas o circundando.
-Obrigado. – ele sussurrou, tentando alcançar meu ouvido sem se esforçar, o que resultou em um arrepio na minha nuca. Porém, como ele mantinha os olhos fechados, não pôde perceber nada.
-Pelo que? – perguntei, sussurrando também para segurar os gemidos que os arrepios tentavam causar.
-Por sempre me ouvir e me agüentar e sempre me fornecer refúgio. Por sempre ser meu porto seguro. – ele respondeu, se aconchegando no meu peito. Meus braços o envolveram, apertando-o ainda mais, e minhas pernas se cruzaram em torno dele, mais distantes de seu corpo.
Novamente, perdemos a noção do tempo, e quando finalmente anoiteceu por completo, nós nos levantamos e saímos da universidade. Eu o acompanhei até a frente de seu apartamento, que era próximo ao meu, e logo cheguei em casa, pensando nos impulsos que me controlaram mais cedo.
Ao entrar em casa, joguei a mala em um canto qualquer, entrei no banheiro e tomei uma ducha fria, tentando refrescar a cabeça, sem sucesso. Minha cabeça estava tomada de pensamentos sobre meu melhor amigo, e minhas mãos, agora frias, procuravam por alguma fonte de calor que pudesse se equiparar à pele dele. Liguei o aquecedor e coloquei uma calça de moletom, e embora minhas mãos tivessem realmente ficado mornas, eu ainda as sentia frias por dentro.
Sem fome alguma, me joguei na cama, fechando os olhos com força, como se isso pudesse acelerar a chegada do sono. Obviamente, fiquei com os olhos mais abertos do que antes, cheios de insônia. Também, como poderia dormir com pensamentos tão intensos e rápidos como aqueles? Minha cabeça estava tomada por Ryan.
Mentalmente, eu passava e repassava os momentos que passamos aquela tarde, com meus sentimentos se alternando dependendo de cada instante. Meu lado racional, que agora tinha um poder maior sobre meus atos, se assustava com meu súbito contato íntimo com meu melhor amigo. Claro, nós já havíamos nos abraçado antes, mas somente em situações amigáveis, uma rápida batida nas costas e logo nos separávamos. Mas, aquele abraço... eu realmente o desejava ali, nos meus braços, perto do meu peito, sussurrando no meu ouvido e me deliciando com mais alguns arrepios.
Chacoalhei a cabeça com força, me revirando na cama. Impossível estar sentindo desejo por meu melhor amigo. Eu provavelmente só havia tido um ataque de compaixão, afinal, não poderia deixá-lo chorando ali sem fazer nada, e a situação foi um pouco além do esperado, graças aos meus impulsos.
Meus impulsos...
Afinal, o que aqueles espasmos procuravam fazer? Porque impunham tanto controle sobre mim? Se eles conseguiam fazer com que eu distorcesse a realidade a ponto de me fazer sentir desejo pelo Ryan, o que mais eles eram capazes de fazer?
Mas, espere. Eu realmente havia sentido desejo por ele?
Repassei as cenas pela enésima vez em minha mente, até chegar na parte em que o primeiro impulso agiu sobre meu corpo. Eu não conseguia me controlar, não conseguia soltá-lo, e minha vontade era a de apertá-lo forte contra mim. Porém, deduzi que somente estava tentando passar algum apoio sólido à ele, e continuei a relembrar as cenas até o segundo impulso, que forçava meu rosto contra o rosto dele. Passei devagar por essa parte, estudando o que o impulso nublado realmente queria. Comecei a tentar associar as idéias. Meus olhos estavam vidrados nos dele, tão concentrados que poderia desenhar aquelas janelas da alma de tão sólida a memória que construí deles. Também podia lembrar muito bem do cheiro daquele pequeno bosque do campus, com cheiro de molhado. Lembrava também do barulho da grama abaixo de nós, suave, e do farfalhar das folhas. Mas o que eu realmente procurava era o cheiro da pele dele, tão cítrica e suave ao mesmo tempo. E a minha boca... queria... os lábios dele?!
Sentei na cama, chacoalhando a cabeça com as mãos. Só podia estar delirando de sono, afinal, já era madrugada e eu teria de acordar cedo para assistir às aulas da universidade. Deitei-me, recusando a aceitar qualquer outro pensamento ou dedução sobre Ryan e meus impulsos. Por fim, morto de cansaço, venci a insônia e adormeci.
Aquele foi o primeiro encontro com Elesis que me esqueci de comparecer.
No dia seguinte, Elesis me ligou, preocupada, após a aula, e me lembrei do encontro. Ela me perdoou, naturalmente, mas os encontros seguintes que não compareci não tiveram a mesma vista grossa. Eu não pensava mais nela como antes, e sem pensar nela todo o tempo como de costume, vez ou outra eu me esquecia completamente de sua existência e dos encontros. Quando nos beijávamos, eu não sentia a mesma química de antes, a certeza de que eu a amava e que a recíproca era verdadeira. A certeza de meu amor por ela se esvaia, e eu simplesmente comecei a beijá-la sem vontade, de qualquer jeito, como um dever entediante qualquer.
No começo, ela não notou nada, ou pelo menos não comentou. Mas, das vezes seguintes, pude sentir que ela ficava cada vez mais cautelosa, mais tímida e menos ousada. Mas segurou suas dúvidas e deduções.
Depois, começou a dar algumas indiretas. Em seus elogios, dizia que eu era avoado, que nunca podia adivinhar o que se passava na minha cabeça. Algumas vezes, podia ouvi-la falando sozinha, quando eu deveria estar dormindo em seu colo, num monólogo preocupado sobre meu amor por ela e se ela havia perdido a graça.
Enquanto meu namoro de conto de fadas com Elesis ruía, minha amizade Ryan aumentava, maior até mesmo do que já era antes. Se, antes, nós saíamos de vez em quando, agora saíamos pelo menos 4 vezes por semana, para jogos de futebol, de rugby, ou até mesmo só para jogar videogame em casa. Também íamos a baladas, quando havia alguma no bairro, mas nunca ficávamos com ninguém. Só dançávamos, e eu pessoalmente me divertia com as garotas que ficavam nos olhando e se esfregando, tentando arranjar algum convite para sair que nós nunca faríamos. Falo que nós nunca ficaríamos com aquelas garotas porque eu ainda era comprometido com Elesis, e Ryan ainda tinha uma queda por Amy. Nós até começamos a planejar novamente alguma coisa para ela, mas dessa vez minha atitude era diferente.
Eu não queria que ele ficasse com ela; meu desejo era fazê-la se arrepender por xingá-lo, e fazer com que Ryan a desprezasse.
E o mais estranho é que eu não sabia por que tinha um ódio tão grande dela, ou porque queria tanto fazer mal a alguém que até alguns dias atrás desconhecia. Aquela raiva passava do razoável para vingança, mesmo eu tendo visto o sofrimento de Ryan e o consolado, a vontade de ferrá-la era enorme.
Não posso negar que a vingança foi fria, mas devo enfatizar como foi doce. Como um sorvete de massa de chocolate suíço.
Que era, aliás, o sabor de sorvete que eu estava tomando naquele dia, durante uma viagem bancada pela universidade para dar uma folga aos estudantes. Nós estávamos numa praia pouco conhecida, mas muito limpa, vazia e com boas ondas. Era uma ilha protegida ambientalmente, logo, somente os nativos podiam construir casas para receber turistas, e por isso os alunos foram divididos em casas pelo lugar. Por obviedade, você deve estar pensando que eu e Ryan ficamos no mesmo chalé, mas desta vez vai errar. Pelo menos, por enquanto. A escolha do parceiro de quarto era feita através de sorteio, e sabendo disso, eu fiz uma ‘pequena’ trapaça, para que o plano funcionasse: um dia anterior à divulgação, entrei na sala dos professores para falar sobre um trabalho com um professor na hora do almoço e, enquanto esperava que ele chegasse, abri o arquivo com os quartos e fiz algumas modificações, que o diretor nem notou. Ryan ficou um pouco surpreso quando viu que estava no mesmo chalé que Amy, mas logo percebeu que era obra minha, e veio para casa para recapitular o plano comigo.
Serei sincero. Na verdade, não fazíamos planos mirabolantes. Somente planejávamos nossas atitudes na frente delas, treinávamos umas expressões e umas cantadas, algo bem infantil. Mas que, comigo, já funcionou, inclusive para conquistar Elesis.
A tarefa de Ryan era tentar ser o mais sensual possível, andar sem camisa, ler uns bons livros de poesia para fazer tipo e se fazer de difícil, vivendo com ela como se fosse uma estranha qualquer. E responder à altura qualquer insulto que ela fizesse. Cozinhar alguns pratos bons, já que o chalé tinha cozinha, e fazer um pouco a mais para que ela tivesse de comer também. Desse jeito, eu esperava que ele visse que não precisava dela, que era independente, e que ela caísse de amores por ele. E eu estava bem confiante sobre ela, porque pessoas como ela são muito fáceis de se ler.
Então, lá estava eu, com uma casquinha caseira de chocolate suíço, andando pela praia em direção a algumas pedras chatas que pareciam ser fáceis de escalar, quando Ryan apareceu, radiante, gritando meu nome.
-O que foi, Ryan? – perguntei, quando ele conseguiu me alcançar. Ele se apoiou em seus joelhos, recuperando o fôlego gasto ao correr pela orla atrás de mim.
-Nós conseguimos! Ela disse! – ele disse, levantando o rosto, animado. Tive que pensar por um segundo para deduzir sobre quem ele estava falando.
-Ah! A Amy se declarou? – perguntei, ainda incrédulo.
-Sim! – ele disse, empolgado.
-O que? Não acredito! Você vai ter que me narrar a cena. — disse, terminando o sorvete, e partindo para a casquinha. – Mas antes, vamos subir naquela pedra. Aí, você me conta com calma. – Eu disse, apontando para uma pedra que se destacava entre as demais, e que parecia ter uma boa vista.
Subimos facilmente, graças à maré baixa e as pedras planas. Havia pouco limo, e como as pedras eram quase como degraus, não escorregamos e chegamos rapidamente ao nosso objetivo.
Como eu havia previsto, a vista era realmente boa de lá.
-Que olhos de águia você tem, em? – Ryan riu, também admirando a vista de lá. Era cedo, um pouco antes do almoço, e as poucas pessoas que estavam na praia – quando eu digo poucas, quero dizer duas ou três, ou seja, poucas mesmo – estavam longe de nós, aparecendo como pontinhos na areia.
-Agora, chega de enrolação. Conte-me detalhadamente como tudo aconteceu. – pedi, louco para sentir um gosto doce de vingança além do doce de chocolate.
-Nós estávamos no chalé, eu sentado na minha cama, lendo um livro e ela no banheiro, se trocando. Eu tava dando um tempo, esperando a pele absorver bem o protetor, quando senti um cheiro doce, suave. Eu virei pro banheiro pra ver daonde que estava vindo aquele cheiro e dei de cara com ela, com uma cara estranha e vestindo um biquíni fio dental.
‘Eu dei uma olhada e comecei a ler de novo, tentando segurar o riso porque cara, você não tem noção, mas ela tava muito ridícula! Tava todas as banhas dela pulando pra fora, e peito dela sem o sutiã de bojo que ela usa é muito desproporcional! Aí, ela veio até a minha cama, perguntou se ela podia sentar nela, e eu resmunguei que sim, né. Aí ela deu um tempo, esperando que eu fosse me virar de volta pra ela, mas como eu não fiz isso, ela pegou na minha perna e disse que precisava falar comigo.
‘-Pode falar, estou ouvindo. – eu disse.
‘-Sabe, acho que eu fui muito insensata ao ser grossa com você aquele dia, no campus. Eu estava nervosa... com alguns problemas, e estava falando sem pensar. Até minhas amigas não estavam gostando muito da minha atitude, e ficaram muito bravas quando eu falei aquelas coisas pra você. Acho que o que eu quero dizer é... desculpa. – ela disse. Aí ela deu uma de inocente e pegou na minha mão, achando que ia resolver algo.
‘-Então você está pedindo desculpas por causa das suas amigas? – eu perguntei, e tentei voltar a ler.
‘-Não! Não foi isso que eu quis dizer. – aí ela apertou minha mão, e eu tive que olhar pra ela, pra fazer ela largar. – Eu sou um pouco ruim com as palavras, talvez tenha me expressado errado. Eu quero dizer que... pelo tempo que estivemos juntos aqui, na praia, eu pude ver que você é uma pessoa muito legal, educada, sensual... – aí ela juntou os braços, tentando aumentar os peitos, coitada. – E eu estava pensando... Combinamos tanto que talvez devêssemos ficar juntos...’
Ryan interrompeu a narrativa por um momento, olhando pra minha cara. Parecia me avaliar, tentava ler minha expressão. Se bem que nem eu mesmo conseguia entender o que estava se passando pela minha mente. Eu estava muito confuso. Pelos comentários dele, ele havia deixado de gostar dela, e ele também tinha sede de vingança, embora não fosse tão intensa quanto a minha. Porém, eu duvidava de seu tom de voz, e algo me fazia arder por dentro só de pensar na possibilidade dele ter ficado com ela. Ele respirou fundo para continuar, mas desistiu e se concentrou em tentar adivinhar o que se passava pela minha cabeça.
Aqueles impulsos do dia no campus voltaram a querer controlar minhas ações, mas eu já estava ficando acostumado a eles e consegui contê-los. Com a volta deles, meus pensamentos foram se organizando de forma diferente, e meus sentimentos foram reorganizados da mesma maneira. Agora, a sede por vingança estava em segundo plano, mas ainda havia uma raiva estranha em relação à Amy...
De repente, eu percebi a verdade inquestionável que estava na minha frente o tempo todo, e minha expressão se abriu por alguns momentos, se tornando incrédula: eu estava com ciúmes da Amy.
Fiquei mais confuso. Como poderia ter ciúmes do meu melhor amigo? Se nós fôssemos – e éramos – verdadeiros amigos, não havia porque sentir ciúmes um do outro. Mesmo assim, eu desejava que ele fosse meu, de algum modo – e de mais ninguém. Somente imaginar Amy e Ryan no mesmo quarto, convivendo e dormindo juntos, mesmo que em camas separadas, me devorava por dentro e me dava vontade de ferrá-la, e muito. Porém, eu não podia fazer isso. Ele é quem deveria escolher entre amar a mim ou a ela.
Espera. Como ele poderia escolher me amar, sendo que sou seu melhor amigo? É claro, eu o amo e ele me ama, mas somente como amigos, não daquele jeito. Eu estava com ciúmes da Amy em que sentido? Eu amava Ryan daquele jeito? Do mesmo jeito que amava Elesis? Ou, quem sabe, ainda mais?
Balancei a cabeça, relaxando a testa. Pensar tanto assim definitivamente não estava me fazendo bem. Eu simplesmente queria muito me vingar da Amy e só. Por mais nenhum motivo.
-Ué? Por que parou? Não vá me dizer que depois disso você fugiu feito uma criancinha do primário que acabou de saber que um coleguinha gosta dela e veio pedir a minha opinião? – provoquei, para quebrar o gelo. Eu não conseguia ver o que se passava em sua mente, embora ele parecesse ver através de mim como se vê através de um vidro.
-E se eu tiver feito isso mesmo? O que você acha que eu deveria fazer? – ele retrucou, desafiante.
Silêncio novamente. Minha cabeça estava em contradição, se dividindo em duas opiniões, e eu não sabia qual tinha a resposta certa a ser dada. Meu lado irracional, que lentamente se apossava da liderança dos meus atos e pensamentos não escondia os misteriosos impulsos em direção a ele, mas lhe desejava a felicidade antes de tudo. Meu lado racional, ou pelo menos o que eu achava ser lógico, dizia que eu deveria falar para ele se recusar a ficar com a Amy, já que desde o princípio eu tinha antipatia por ela, e que se eu escolhesse a resposta do outro lado, acabaria dando bandeira.
Dando bandeira? Do que? Eu não tinha nada a esconder, ou que ele não soubesse. Provavelmente, os impulsos estavam me confundindo tanto que acabaram por mexer até com minha lógica. Escolhi o lado que me parecia mais certo, e comecei a responder à pergunta dele.
-Você me pegou. – eu disse, escolhendo as palavras cuidadosamente. Seus olhos me prendiam novamente, e meus impulsos em direção a ele se tornavam mais fortes. Respirei fundo, e falei tudo de uma vez só. – Eu posso até não concordar com isso, mas se é o que você quer, não vou te impedir. Se é ela que te faz feliz, então lhes desejo um bom namoro, e se você precisar, posso te dar umas idéias de presentes pra ela. – disse, tentando mostrar que me importava mais com a felicidade dele do que com a minha opinião.
Ele se manteve em silêncio por um tempo, refletindo sobre a minha resposta. Depois, deu uma risada.
-Pode ficar tranqüilo, eu não fiquei com aquelazinha não. Eu sou muita areia pro caminhãozinho dela, se é que me entende. – ele disse, vendo que eu ainda estava angustiado de curiosidade se ele tinha ficado com ela ou não.
-Aê cara, é assim que se fala! – eu disse, sem esconder um certo alívio e uma certa felicidade, vindas do nada.
-Ainda quer saber o resto da história? – ele perguntou, recolhendo uma das pernas e apoiando um pé na parte com musgo da pedra.
-Quero, se não for incômodo. – pedi, ainda preso aos seus olhos. Aquele impulso nublado de antes, de examinar seus olhos mais de perto que surgiu no campus voltou, mas com menos intensidade, o que permitiu que eu pudesse me controlar.
-Onde eu parei mesmo?
-Naquela parte que ela pediu pra ficar com você.
-Ah sim. Bom, eu olhei bem fundo nos olhos dela, meio enojado, antes de responder.
‘-Parecidos? De onde você tirou isso? – eu falei, e ela ficou meio surpresa.
‘-Ah, nossa personalidade é parecida, eu gosto de você, você gosta de mim... – ela disse, tentando se aproximar mais.
‘-Nossa personalidade não é nem um pouco parecida. Você fica dando uma de gostosa, fica esnobando os outros, não se importa com ninguém e ainda se aproveita dos outros. Se acha a dona do mundo. E quando quer ficar com alguém, puxa o saco, dá umas desculpas esfarrapadas, mostra o corpo como uma prostituta e resolve tudo. Só que agora você não vai conseguir nada. Uma falsa de carteirinha. Sinto muito, mas não quero ficar com você. – eu disse. Aí, eu tava quase saindo do quarto quando ela decidiu retrucar.
‘-Falsa? Quem que disse que gostava de mim no campus e agora tá esnobando? – ela perguntou, e a voz dela tava meio tremida.
‘-Eu gostava de você. Mas aí, eu ouvi uns conselhos e percebi como você realmente é. Ah, e acho melhor você mudar de tática, porque de gostosa você não tem nada. Já ouviu falar em regime? – aí eu saí do quarto, e só deu pra ouvir um ‘eu te odeio’ gritado de dentro do quarto. ’
Fiquei boquiaberto. Ele tinha se livrado dela por conta própria e ainda por cima com muita habilidade. Dava até orgulho. Minha consciência dizia que eu não deveria ficar feliz por acabar com alguém, mas lá no fundo eu sabia que ela merecia. Mas isso, novamente, era a pequena parte ainda consciente dentro da minha cabeça.
A outra parte, a maioria dos meus pensamentos, estava aliviada por ele não ter ficado com ela. E não só isso, também estava feliz por ele estar do meu lado, tão à vontade, tão tranqüilo, tão fiel e principalmente, tão perto...
-Ei, falando nisso, como vai a Elesis? Faz tempo que eu não te vejo sair com ela. – ele perguntou, um pouco preocupado, cortando meus bons pensamentos. Eu virei a cara, preferindo não pensar nela.
-Não estamos como antes, mas ainda estamos juntos. – respondi frio, em um tom um pouco rude.
-O quê? Como assim, não estão como antes? O que aconteceu? – ele perguntou, mais preocupado ainda. Ele colocou sua mão no meu ombro para tentar mostrar apoio, e essa foi a gota d’água para os impulsos multiplicarem sua intensidade.
Eu queria abraçá-lo, consumi-lo, ouvir sua voz rouca perto do meu ouvido e sentir arrepios pela minha espinha. Se um fraquejasse por um minuto, me jogaria nele e o apertaria até lhe faltar o ar. Meus pensamentos todos me pediam para deixar de resistir, para aliviar a resistência contra aquele impulso, mas eu ainda estava consciente, e tirando forças das reservas, resisti à tentação. Após ter retomado o controle, me arrisquei a falar.
-Não aconteceu na-nada. – gaguejei um pouco, com medo de fraquejar e acabar cedendo à tentação. – Nós estamos bem, só... não estamos iguais. – tentei falar em um tom desinteressado para acalmá-lo, mas o esforço contra o impulso modificou minha voz e a deixou preocupante, meio triste.
Ryan me olhou, preocupado. Pressionou um pouco os dedos que estavam em meu ombro e fez uma pequena carícia com o polegar, provocando um arrepio pela minha espinha. Aquele impulso nublado de antes voltou, se juntando ao outro, e comecei a perder para eles. Tentei me esforçar mais e consegui me manter parado, mas o desejo por ele aumentava cada vez mais, num ritmo elevado.
-Não precisa me contar se não quiser. – ele disse, sério. Continuei a evitar seus olhos, crente que se olhasse para eles, perderia o controle. – Mas eu queria que você soubesse que eu vou estar do seu lado, e aconteça o que acontecer, você pode contar comigo. – e, nisso, ele pegou minha mão, fazendo todos os meus esforços terem sido em vão. Como um reflexo, no instante que sua mão tocou a minha, meus olhos procuraram os dele, e perdi o controle total de meus atos.
Focado no verde musgo dos olhos de Ryan, fui atraído de encontro a ele, como se fôssemos dois ímãs. Aquela vozinha de antes, que me dizia que sentir aquilo era errado, agora nada dizia, e tinha se unido as outras vozes tentadoras, que desesperadamente me imploravam para examinar os olhos dele de perto, matar a curiosidade delas e provar os lábios dele, que aparentavam ser tão macios. Me imploravam para que eu me aproximasse e o apertasse, como se quisesse isolá-lo do mundo e de todos, e tê-lo somente para mim. Para explorar seu corpo com minhas mãos, memorizando cada curva, cada sinuosidade, cada subida e descida, e provocar nele os mesmos arrepios que eu sentia quando ele estava me tocando, ou somente ao meu lado. Sussurrar em seu ouvido e confessar que o amava.
Espera. Dizer que o amava? Eu realmente gostava dele tanto assim? E Elesis? Não era ninguém? Como todos os três anos que eu passei com ela de repente podiam ser reduzidos a pó em apenas poucos dias?
Me agarrei com todas as minhas forças nesse pensamento rebelde, tentando retomar o controle. Porém, por mais que eu me esforçasse, não conseguia parar de ser atraído, só conseguia reduzir o ritmo de aproximação. Algo nele me fazia querer satisfazer um desejo que não era exatamente meu. Talvez fosse sua boca entreaberta, me convidando, ou seus olhos tão brilhantes me enganando, mas... em momento algum, durante minha clara aproximação, ele se afastou ou fez menção de afastar. Muito pelo contrário, ele permaneceu quieto, olhando no fundo dos meus olhos, tentando me passar algum recado. Foi quando meus pensamentos estalaram novamente:
Eu podia sentir que ele também queria chegar mais perto.
Do mesmo jeito que eu podia sentir se ele estava com raiva ou tristeza, eu podia sentir a necessidade irradiando do corpo dele. E era estranho, senão muito bom, poder prever suas ações também numa sensação tão intensa que era a paixão.
E, se ele também queria provar da minha boca, eu não lhe negaria qualquer pedido que ele fizesse, desde que o fizesse feliz. Se me trouxesse prazer, então...!
A menos de um palmo de sua face, consegui parar a aproximação, mas não para me afastar. Eu queria admirá-lo de perto, provar o momento, como um pára-quedista hesita antes de pular ou como um nadador admira a superfície antes de mergulhar. Foi quando ele se mexeu, se apoiando melhor nas pedras, tentando chegar mais perto. Eu já podia sentir seu nariz de encontro ao meu, quando subitamente nos separamos, e um grito de pavor atravessou o ar.
Ryan, sem perceber, havia apoiado suas mãos no musgo, fazendo com que todo o seu corpo ficasse sobre o tapete verde escorregadio, e quando tentou se aproximar caiu para trás. Por estarmos em uma pedra da ponta, antes do mar, ele caiu direto na água, e eu pulei em seu socorro logo em seguida, mas ele voltou à superfície sem precisar de ajuda.
-Cara, você tá bem? Aquela foi uma queda e tanto! – perguntei, preocupado.
-Acho que sim, mas a minha mão tá ardendo. – ele respondeu, um pouco ofegante por conta do susto, e levantou a mão machucada. Havia um corte grosso, em carne viva, que atravessava sua palma.
-Melhor a gente ir falar com os professores, eles devem ter algum kit de primeiros socorros. – sugeri, enquanto o ajudava a sair da água mais rápido.
Em poucos minutos, chegamos ao chalé dos professores, e tudo deu certo. Levamos um pequeno sermão, mas eu nem conseguia prestar atenção. Estava longe dali, a alguns momentos atrás, analisando – ou estaria saboreando? – o que teria acontecido se Ryan não tivesse escorregado. Eu não tinha mais como esconder de mim mesmo os meus desejos, os meus fortes impulsos. Eu desejava seus lábios do fundo da alma, e queria tê-lo só para mim.
Porém, sempre que pensava nisso, uma imagem de uma Elesis sorridente aparecia em minha mente, pondo em xeque os meus sentimentos. Afinal, o que eu estava sentindo por Ryan? Se era amor, então, o que eu sentia por ela?
-Ei, Sieghart! Tá tudo bem? – perguntou Ryan, estalando os dedos na frente dos meus olhos, espantando meus pensamentos.
-Claro que sim. Você deveria estar é preocupado com esse rasgo na sua mão. – respondi, apontando para sua mão esquerda, cheia de ataduras. – A culpa é toda minha, eu deveria saber que você não tinha capacidade pra subir em algo tão básico quanto aquilo. – provoquei, fazendo uma falsa cara de culpa.
Ele me socou de leve com a mão boa, levemente irritado.
-Besta.
O resto da viagem foi relativamente tranqüila. Por causa da discussão entre Ryan e Amy, tiveram de reorganizar os quartos, e eu acabei no quarto dele, enquanto meu ex-colega acabou ficando com a Amy, nos dois sentidos. Para os professores, tudo terminou em paz, mas eu tive que me controlar internamente. Agora que tinha consciência dos meus desejos, vê-lo em situações comuns de antes – como por exemplo, sem camisa, ou só de toalha após o banho – tinham uma nova luz romântica envolvendo-as. E, a troca das camas de solteiro do chalé por uma de casal por causa de um conveniente ataque de cupins só aumentou a dificuldade para mim, mas mesmo assim consegui me controlar até o final da viagem.
Contudo, aquilo não havia sido um problema, comparado ao que aconteceu depois, de volta em casa.
Tudo começou com uma mensagem de texto de Elesis, que eu recebi na manhã seguinte ao regresso da viagem. Acordei ainda exausto da viagem, e demorei um pouco até fazer o celular parar de apitar. Fui até a parte de mensagens e li o novo sms de Elesis, dizendo que estava com saudades e querendo marcar um encontro ainda hoje. Esfreguei os olhos, pensei e, tentando escolher as melhores palavras, respondi que estava muito cansado e que precisava de mais um dia de descanso.
Quando estava quase pegando no sono de novo, o celular recomeçou a apitar. Peguei o celular de mau humor e já estava quase desligando, quando vi que o motivo de toda a apitação era uma nova mensagem de Elesis, que dizia “Precisamos conversar”.
“Quando?”, digitei.
“O mais breve possível. Hoje, na minha casa”.
“A que horas?”
“À tarde. E não falte”.
“Sobre o que?”
Ela não respondeu.
Logo, após dormir o resto da manhã e tomar uns energéticos que estavam sobrando na geladeira para ficar atento, fui até a casa da Elesis, com um leve pressentimento sobre o assunto da conversa. Bati na porta e ela me atendeu, me convidando para entrar.
-Então, sobre o que é a conversa? – perguntei, me sentando num sofá na sala de estar ampla e confortável.
-Sobre nosso relacionamento. – ela respondeu, enquanto se sentava em um sofá exatamente à frente do meu.
Gelei. Eu havia sido pego de surpresa. Não sabia o que deveria pensar, se deveríamos continuar, se deveríamos terminar, se eu deveria pedir desculpas pelas minhas furadas, pelas minhas faltas aos encontros ou até mesmo se deveria contar que estava sentindo atração pelo meu melhor amigo.
A sala ficou em um silêncio incômodo. Eu estava no meio de um turbilhão de pensamentos, e Elesis provavelmente estava esperando até que eu digerisse a informação. Nenhum de nós se atrevia a romper o silêncio. Após alguns minutos, ainda confuso, decidi perguntar por quê.
-Porque – começou ela, ainda calma, mas com o olhar conturbado. – eu sinto que tem algo errado. Parece que você não se importa mais comigo, você nunca me dá atenção... Eu ando me sentindo mal por causa disso. Eu não sei se você está bravo comigo, ou se eu te magoei, se fiz algo que te desagradou ou algo assim. – ela começou a ficar inquieta, mexendo e estralando os dedos, visivelmente nervosa.
Seu olhar era carregado de culpa, e enfiou uma estaca de culpa no meu coração, me enchendo de piedade. Me levantei do sofá e caminhei em direção a ela, me ajoelhando perante a garota, e peguei sua mão, tentando passar alguma serenidade.
-Porque você diz isso? Você não fez nada, pode ter certeza. Não estou magoado nem bravo com você, pode ficar tranqüila. E, se tem algo te incomodando, quero que me conte. Estamos juntos há dois anos, por isso, você não precisa ter vergonha de reclamar. – estendi a mão e peguei em sua face, mas ela se afastou ofendida.
-Vê? É disso que estou falando! Você não liga mais para mim! Estamos juntos há três anos, não dois! E não venha dar uma de esquecido pra cima de mim, pois você nunca se esqueceu disso! E, antes, nunca se esquecia de um encontro! O que está acontecendo? Você não me procura mais, não gosta de me beijar... – Ela parou por um momento, piscando os olhos várias vezes, e pude perceber que ela estava quase chorando.
Levantei-me e voltei ao meu sofá, olhando para o lado. Não conseguia deixar de olhar para ela sem pensar no meu amor por Ryan, e achar que não podia mais ficar com ela. Não tinha mais tempo para enrolar, e precisava escolher, agora, entre Elesis e Ryan.
-Eu... perdi a graça? Fui perdendo a graça, por ser mais feia que as outras meninas? Ou negligenciei nosso amor? Se foi isso, juro que eu nunca quis fazer isso, Sieghart, – ela começou a chorar, visivelmente com dor — porque eu ainda te amo. – e a culpa era minha.
Aquelas palavras me pegaram de jeito, como se eu estivesse sendo apunhalado, ou chicoteado. Ela estava sofrendo, e eu tinha que fazer alguma coisa, mesmo que isso fosse trazer mais dor à ela por algum período. Porém, era o certo a fazer, e ela havia sido tão boa pra mim por tanto tempo que eu não conseguiria mentir.
-Muito pelo contrário, Elesis. Você é linda, inteligente, carinhosa, muito superior as outras meninas. Por isso que eu te escolhi para ser minha namorada durante esses do-, três anos. Mas, gostaria que você terminasse comigo. – eu disse, franco e direto. Ela parou de chorar e ficou estática, como se estivesse se recusando a digerir a informação. A sala permaneceu em silêncio, por alguns segundos, e ela começou a falar.
-Porque? – ela perguntou, com a voz rouca e baixa.
-Porque... eu me apaixonei por outra pessoa. – tentei poupá-la dos detalhes.
Outro intervalo de silêncio. Desta vez, durou por muito tempo, quase uma eternidade. Novamente, ela quebrou a quietude.
-É o Ryan, né? – ela deduziu, séria. Assenti com a cabeça.
-Sinto muito. – eu disse sincero. Um erro terrível.
-Não se atreva a se desculpar. – ela sibilou, raivosa, numa súbita mudança de humor. – Você não está realmente se sentindo culpado, porque se você ama ele, você não se importa se eu ainda gosto ou não de você. Você quer se livrar logo de mim, para ficar com o caminho livre. Não venha com essa falsa pena pra cima de mim! – Ela foi aumentando gradativamente o tom de voz, até começar a berrar.
Ela me encarou por alguns momentos, depois se virou e correu para o quarto, trancando a porta e me deixando sozinho. Vendo que eu não era mais bem vindo naquele lugar, me retirei silenciosamente e voltei para minha casa, pensando em Elesis, com um pouco de culpa.
Aquele foi um dos dias mais difíceis da minha vida. Porém, para equilibrar, o melhor dia da minha vida veio no dia seguinte.
Era dia de jogo, final de campeonato, logo eu e Ryan nos reunimos para torcer pelo nosso time do coração. Eu não havia contado sobre o meu rompimento com Elesis, e nem pretendia. Eu só queria aproveitar o dia ao lado dele, e tentar esquecer do surto que ela havia dado ontem. Sentir um pouco da atração que tinha por ele, que eu havia aprendido a controlar, e me concentrar em simplesmente me divertir com meu melhor amigo e, secretamente, a pessoa que eu amava.
Consigo lembrar do jogo como se fosse ontem. Foi, inclusive, um dos melhores da história do clube que eu apoio. Eles começaram perdendo de três a zero, e eu e Ryan ficamos bem estressados, xingando o juiz a toda hora e gritando falta em qualquer aproximação dos jogadores do outro time, mesmo estando a quilômetros de um estádio.
Quando acabou o primeiro tempo, minha voz ardia de tanto berrar e tive de usar aqueles sprays de menta, para aliviar a dor. Eu e Ryan comemos um pouco, mas já estávamos novamente grudados no sofá de três lugares antes do segundo tempo.
Quando a partida recomeçou, nosso time começou a virar o jogo, driblar, humilhar os adversários com suas habilidades e estratégias. Eles fizeram vários chutes ao gol, e cada tentativa ganhava um berro em conjunto meu e de Ryan. Perto do fim do segundo tempo, nosso time empatou. Eu e Ryan pulamos, ficando de pé instintivamente, exaltados com o jogo. Faltavam menos de cinco minutos para o jogo acabar, e por questões técnicas de pontos, nosso time precisava de mais um gol para vencer, ou o outro time venceria com o empate.
Foi então que, a segundos do apito do juiz, nosso melhor artilheiro chutou um escanteio e fez um gol olímpico.
Eu e Ryan começamos a pular de felicidade. Era o primeiro título que o nosso time conquistava, e nós irradiávamos alegria. Começamos a gritar, pular juntos, nos abraçar, e antes que eu pudesse perceber, estava a meio caminho dos lábios dele, e não tinha vontade alguma de reprimir esse desejo. Há muito tempo, eu desejava provar dos seus lábios, explorar sua boca, lhe provocar arrepios e lhe dar o mesmo prazer que ele me dava. Por isso, quando ele fechou os olhos e entreabriu a boca, num claro convite a mim, não hesitei, e o beijei com todo o meu amor.
Seus lábios eram doces, e sua boca, mais ainda. Eu podia sentir o meu corpo ferver, arder de amor, e minhas mãos tremerem só com os arrepios. Nossas línguas dançavam, explorando um a boca do outro, enquanto minhas mãos faziam leves carícias na nuca dele e ele se agarrava ao meu pescoço, tentando extrair o máximo de prazer que podia dos meus lábios.
Foi quando, subitamente, senti que aquilo era errado. Eu não queria simplesmente ficar com ele, e depois fazer com que ele se sentisse uma boneca usada. Eu queria que ele soubesse que eu o amava, do fundo do coração. Parei o beijo, aproveitando para respirar, e esperei que fizesse o mesmo. Quando ele percebeu que eu não estava mais respondendo aos seus toques, ele me olhou, desesperado.
-Eu fiz algo errado? Te machuquei? – ele perguntou, envergonhado, e completamente sem fôlego. Embora tivesse a pele bronzeada, ele estava corado, e sua face rosada era muito linda.
-Não. Eu simplesmente não quero que isso se transforme somente em uma ficada. Talvez isso acabe com nossa amizade, mas... – Eu peguei em seus ombros e o encurralei contra uma parede, para que ele não pudesse fugir. Depois, passando meus braços do lado de sua cabeça, me apoiando na parede, me aproximei de seu ouvido e sussurrei, encostando levemente meu lábios contra sua pele, fazendo uma carícia com a boca – eu te amo. Do fundo do meu coração, eu te amo. Mais do que já amei qualquer garota, inclusive Elesis.
-V-você jura? – ele perguntou, estupefato. Eu podia sentir a alegria irradiando do corpo dele, junto com a surpresa, o desejo e o prazer.
-Sim. – e como prova, o beijei brevemente.
-Sieg, eu... eu te amo também! – ele confessou, corando ainda mais. Sua cara vermelha era tão graciosa, que não pude evitar de cobri-la de beijos, tentando provar de sua pele.
-Não precisa ter vergonha. Se eu te amo, e você me ama, quem irá nos impedir? – argumentei, beijando-o novamente e passando a ponta da minha língua nos lábios dele, provocando fortes arrepios visíveis. – Agora, não há nada no mundo que possa nos parar. – e, sussurrando isso, comecei a fazer um caminho de beijos até o pescoço.
Nós começamos a andar, batendo em alguns móveis no caminho, procurando o sofá. Quando comecei a sugar seu pescoço suavemente, achamos o sofá e caímos, e eu me deitei por cima dele. Cada beijo que eu dava em seu pescoço resultava em um gemido cheio de prazer vindo da boca dele, ofegante. Comecei a explorar seu tórax, passando as mãos levemente por cada curva, cada sinuosidade, tentando memorizar o tato daquele corpo que tanto me provocava.
Quando passei as mãos por seu peito largo e forte, pude sentir o corpo dele saltar em espasmos de desejo, seguidos de fortes gemidos. Tratei de colocar as mãos por baixo de sua camisa, começando a retirá-la, enquanto passava os dedos caminhando pela sua coluna, até chegar a sua nuca, e passar as unhas em seu pescoço, provocando sua pele e arrancando um gemido longo e alto. Arranquei sua camisa e voltei a beijá-lo, desta vez com mais desejo. O abracei o mais forte que pude, tentando, de algum modo, consumi-lo e tê-lo somente para mim. Enquanto isso, ele passava as mãos furtivamente por baixo da minha camiseta, e a arrancou de mim sem que eu pudesse perceber.
Comecei a passear com a língua pelo seu corpo, até chegar ao seu peito. Fazendo movimentos espirais, fui seguindo um caminho com a ponta da língua, até chegar aos seus mamilos. Ao sugá-los, Ryan quase berrava de prazer, e quando não estava gemendo, ele chupava meu pescoço com vigor e vontade, me fazendo derreter. Eu mal podia definir aonde acabava o meu corpo e aonde começava o dele, e estava implodindo de satisfação.
-Ei... Quer dormir aqui esta noite? – eu disse, entre chupões.
Ele me beijou e começou a dar pequenas mordidas no meu lábios inferior, o que eu interpretei como um ‘sim’.
Ninguém nos via nem ouvia. Os únicos espectadores eram os jogadores de futebol, levantando a taça do campeonato e dando entrevistas, mas eles não me pareceram nem um pouco surpresos.
Enfim. Foi uma longa noite de descobertas, beijos, declarações e satisfações...
-O que você está fazendo? – perguntou Ryan, abraçando Sieghart por trás, que digitava ao computador.
-Um surpresa. Você quer ler? – disse Sieghart, beijando Ryan suavemente. O ruivo assentiu, e tomou o lugar de Sieghart na cadeira.
-Mas... Essa é a história de como nos conhecemos! – exclamou Ryan, após alguns minutos de leitura, surpreso e de um certo modo, confuso.
-Pela minha visão. Esse é o meu presente de formatura para você. É simples, mas eu queria que você soubesse como é importante na minha vida. Eu te amo, do fundo da alma. – Sieghart disse, e, abraçando o ruivo, o beijou com fervor.
-Puxa, você me fez um presente tão legal e eu não te fiz nada... – Ryan disse, entre os beijos do maior.
-Hmm... Podemos compensar isso, se me acompanhar até o quarto... – sugeriu Sieghart, com uma voz sedutora e maliciosa.
Ryan o beijou com paixão, e os dois foram andando para o quarto. Porém, ao chegarem na porta do aposento, Ryan cessou o beijo.
-Isso terá de bastar, por enquanto. Agora, temos de ir, ou chegaremos atrasados à cerimônia de entrega dos diplomas. – disse Ryan, vestindo um casaco e pegando a chave da casa em que os dois viviam juntos.
-Ok, estou indo. Deixe-me só finalizar. – disse o garoto de cabelo castanho, digitando uma frase rapidamente.
Eu posso até ser seu “Porto Seguro”. Mas você sempre será o meu “Porto Alegre”.
Ryan, eu te amo.
Sieg.
Notas finais
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