Segunda-feira 7:27h

O armário estava emperrado de novo. Que novidade, teria sido melhor quebrar a fechadura de uma vez. Talvez a poupasse de todo o trabalho logo de manhã. Sarah girou o cadeado mais uma vez e puxou com força a porta, sem nenhuma resposta. A garota gemeu de frustração, derrubando a bolsa no chão ela se encostou na fileira de armários azuis apoiando a cabeça contra ele, enquanto assistia as pessoas passando pelo corredor ou apenas paradas na frente do armário, aberto. Que sorte a deles, terem um armário que prestasse. Lentamente ela escorregou até o chão e se sentou cruzando as pernas enquanto pegava sua bolsa atrás de seu caderno colorido. Ela tinha anotado o horário da primeira aula de artes com letras enormes e vermelhas no centro do caderno. Era a primeira vez que ela se inscrevia para as aulas de desenho. Não sabia ao certo por que nunca havia tentado. Talvez estar no clube de teatro e no comitê estudantil acabasse levando muito de seu tempo. Mas esse ano iria ser diferente, ela ia fazer essa aula, não precisava mais se preocupar com o comitê. Sarah vasculhou mais uma vez dentro da bolsa até encontrar seu caderno de desenhos, ela sorriu enquanto observava os desenhos um por um. Desde 2012 até agora ela via a diferença, e esperava... que a universidade também visse...

Levantou a cabeça quando viu um par de pernas parada em sua frente. Ela encarou a legue preta por um tempo e levantou a cabeça encarado dois olhos castanhos. Lorena sorriu para ela e apontou para o armário em que Sarah descanava as costas. A garota abriu a boca para se desculpar, mas a fechou e balançou a cabeça enquanto passava para o lado. Lorena se ajoelhou diante do armário e colocou o código com rapidez. Sarah observou enquanto a garota descansava a bolsa no chão e amarrava os longos cachos em um coque no alto da cabeça. Sorrindo para o espelho que parecia ter dentro, ela pegou o livro de biologia e matemática, os segurou firme nos braços enquanto se erguia com a bolsa no outro ombro. Ela olhou para Sarah mais uma vez e sorriu com simpatia, por um momento viu a garota olhar para seus desenhos e levantar as sobrancelhas enquanto se virava e ia embora pelo corredor. Sarah fechou o caderno e guardou mais uma vez na bolsa junto ao caderno colorido. Certo, ela desenhava em quase todos os lugares e em todo papel que segurava. Mas era estranho ter uma pessoa vendo seus desenhos íntimos, principalmente quando a pessoa estava no desenho.

Ela achava fascinante as expressões das pessoas, suas formas e suas cores. A garota tinha o costume de desenhar os colegas de classe quando sentia que podia capturar seus melhores momentos. Lembrava que desenhara Harry, o garoto mais inteligente da sala dela no 9 ano, quando ele recebeu sua primeira nota baixa. Nunca vira os olhos do garoto tão abertos quanto naquele dia. E também nunca o vira chorar tanto, se sentia trise por ele e envergonhada por capturar seu momento mais vergonhoso. Mas ela não conseguiu parar as mãos, sentia que devia capturar todas as emoções, não só a alegria. Que ser humano só sentia felicidade? Bem, ela achava que era Lorena... sempre sorrindo para todos e simpática. Ela nunca teve vontade de desenha-la, em todo o tempo a vira. Mas um dia, quando ficara até tarde na escola, ela foi até o banheiro. Parecia vazio até o momento em que ouviu um som saindo de uma das cabines. Sarah bateu na porta, perguntando se deveria chamar a enfermeira. Ela continuou batendo enquanto ouvia a pessoa tossir e depois sons de vomito. A porta da cabine abriu e lá estava Lorena em pé encarando Sarah. Ela tinha os olhos húmidos e vermelhos, e pela primeira vez... não tinha um sorriso. Ela passou por Sarah sem dizer nada e lavou o rosto, a garota observou a líder de torcida enquanto via seus ombros tremerem. Ela fechou a porta da cabine, mas não antes de ver Lorena secar uma lagrima e sair do banheiro.

Sarah desenhou essa dor. O rosto de Lorena estava na folha, com um sorriso que não chegava aos olhos enquanto um lagrima escorria pela bochecha. Era assim que ela via a garota agora, não importava quantos sorrisos Lorena tivesse, ela tinha finalmente percebido... eles eram falsos.

—Quer ajuda? – Sarah ouviu a voz de Nathalia no lado e se ergueu sorrindo. A garota de cabelos castanhos cheios apontou para o armorio sorrindo – Acho que você quebrou hein

—Bem que eu queria — ela bateu na porta do armário mais uma vez e gemeu — Nem sei mais o que fazer.

Cruzando os braços Nathalia encostou o ombro na fileira dos armários e analisou a fechadura.

—Podemos quebrar – ela deu de ombros – Seus livros estão aí dentro. Se alguém reclamar, você fala que era um caso de vida ou morte.

—Como seria um caso de vida ou morte?

—Sei la... você tem algum remédio ai dentro? – Sarah pensa por um momento e assente com a cabeça – Certo, temos um plano então.... Agora pode me ajudar? Preciso de um apoio – a concordou e segurou o braço da amiga enquanto ela levantava a perna e com força chutou a fechadura que resistiu, mas encontrou seu fim no segundo chute caindo no chão — Prontinho.

Sarah riu vendo o cadeado no chão e o chutou para longe. Quem precisa de você agora?

— Vão nos matar por isso -Sarah riu enquanto pegava o livro de biologia e olhava ao redor enquanto os alunos olhavam espantados para as duas – Mas quer saber? Dane-se ,eu odiava aquele cadeado.

Nathalia concordou com a cabeça e apontou para dentro do armário.

—Não esquece do seu remédio...

Sarah correu de volta e pegou o comprimido para dor de cabeça.

—Minha vida depende dele.

—Não quero nem imaginar como seria a cena de você tendo um ataque no meio da sala – Nathalia riu e pegou o remédio o jogando para o alto e pegando.

—Seria o melhor desmaio que você veria – por um momento ela realmente quis fazer isso, só para testar seu nível de atuação – Mas, soube que hoje vai ser um professor novo. Não é legal dar trabalho logo no primeiro dia dele.

—Não sabia... a Sra. Mary não vai voltar?

—Não, ela vai levar um tempo para se recuperar da cirurgia de redução de estomago.

—Oh, nossa... eu perdi essa. Isso vai dar uma ótima matéria – Nathalia sorriu.

—Vai escrever sobra a redução de estomago? – Sarah fez uma careta – Acho isso uma violação de privacidade da professora....

—O que? Não! Vou escrever sobre o novo professor!

—Ah... por que?

—Eu só querer escrever sobre qualquer coisa que não seja esportes...

—Você não escreve sobre o teatro! -Sarah cruzou os braços.

—Eu escrevi sim! – Nathalia exclama e para na frente da sala de biologia — Mas se quer tanto uma matéria nova, me de algo impactante para colocar.

Sarah concordou com a cabeça.

—Ok, eu vou fazer alguns testes essa semana. Pode assistir e vê se gosta de algo – Nathalia concordou – Vai na frente, tenho que passar o banheiro.

Sarah deu os livros para Nathalia que a olhava com sobrancelhas levantadas e correu para o banheiro. Não devia ter bebido tanta água naquela manhã. Quando finalmente saio do banheiro acabou batendo em um corpo na entrada. Quase caindo para trás Sarah olhou para a garota na sua frente com uma careta. Ela tinha cabelos negros longos lisos que chegava a cintura, usava uma calça colada e uma blusa preta colada com uma a frase “Al diablo con los guapos” , seu rosto estava surpreso e ao mesmo tempo aborrecido.

—Ai – a garota disse arrumando a blusa.

—Desculpa – Sarah mordeu a bochecha – Eu não te vi.

—Percebi – ela voltou para dentro do banheiro e começou a arrumar os cabelos no espelho.

Sarah deu de ombros e saiu andando ate a sala de biologia. Hoje parecia ser o dia ter encontros estranhos. Que maravilha. Balançando a cabeça a menina entrou na sala e parou ao ver Kendall falando com a Nathalia. Por um momento pensou em intervir, mas hesitou ao ver Lorena se levantar, andar ate o lado da amiga e a puxar pelo braço. Kendall era a típica menina malvada de colégio, irritante. Sarah já tinha desenhado ela uma vez, e colocou chifres e uma rabo no desenho. Ela não entendia como Lorena era amiga dela, sabia que Kedall não era a pessoa mais segura pra ter amizade, mas Lorena parecia não ver isso. Bem, as pessoas podiam ser cegas as vezes.

Caminhado ate a cadeira ao lado da Nathalia, Sarah sorriu e pegou o livro procurando desenho que ainda não tinha terminado. Ela estava nesse momento desenhando o Lucas, o garoto com sardas e cabelos cor de mel que sentava quatro cadeiras a sua frente. Ele era quieto e sempre trazia suco de maçã, e oferecia aos outros. Parecia sempre disposto a conversar e era um dos melhores alunos em física. Ah sim , e era de peixes. Sarah fez o símbolo do signo na lateral do desenho e virou a cabeça para olhar a amiga, era ela que passava as informações de todos. Foi assim que começaram a conversar, Sarah estava tento um bloqueio de ideias para desenhar e quando tentou pesquisar sobre um dos estudantes no computador de um dos clubes escondida foi descoberta. Ela lembrava de como fiara paralisada quando enquanto a menina encarava ela com os olhos arregalados e segurando uma coxinha na boca. Nathalia disse que não iria contar nada, porque simplesmente não ligava desde que a menina não estivesse tentando roubar informações do jornal. Mas, se Nathalia sabia de todos na escola... ela saberia de Lorena?

Nathalia lia o morro dos ventos uivantes distraída, as vezes ela tinha o costume de parar e mostrar uma frase do livro. Ela também lia livros eróticos e fingia serem de mistério, mas era sempre obvio pelas expressões que fazia enquanto lia. Mas hoje ela parecia especialmente quieta enquanto lia.

—Nat... o que você sabe da Lorena? – Sarah perguntou decidindo não fazer rodeios.

Nathalia para de ler o livro e olha para Lorena que ria de alguma piada da Kendall e voltou a olhar para Sarah.

— Entrou no 9 ano, líder de torcida, tem um namorado que é um dos melhores atletas, ganhou em um concurso de simpatia , o que eu acho bem idiota, é legal mesmo tento aquela cascavel como amiga... é de câncer, quer entrar na universidade de medicina... – a menina parou e olhou para cima por um tempo – Ah... acho que resumindo é isso.

Ela volta a ler o livro apoiando a cabeça em uma das mãos.

—Só isso?

—O que mais eu deveria saber? – Nat murmura.

—Não, nada... é que pelo que você falou... eu sei la, ela parece...

—Perfeitinha de mais?

—Sim – Sarah deita a cabeça na mesa – Deixa pra la... só estava curiosa..

—Queria desenhar ela? – Sarah balançou a cabeça confirmando “Na verdade já desenhei” – Eu não entendo por que você precisa conhecer a pessoa para poder desenha-la.

—Eu não quero só desenhar o exterior. Eu quero poder ver no desenho a verdade das pessoas... é como um quebra-cabeças na minha cabeça, e para o desenho surgi, a peças de cada pessoa tem que se juntar.. entende?

—Não — Nat deu de ombros e sorriu – Eu não sou boa em interpretar, mas... admiro seu esforço, para fazer o que gosta.

—Obrigada.

—De nada. Então quando vai me mostrar meu desenho?

Sarah sorriu e levantou a cabeça.

—Nunca, te chantagear com ele para conseguir informações das pessoas foi a melhor ideia que tive.

—Eu não vou te passar nada! Mulher má.

—Ah vai sim, sabe por que?

A menina apenas olhou para Sarah com uma carranca.

—Porque eu fiz mais de um – Sarah pega o caderno de desenhos e da uns tapinhas – Tem vários aqui... eu podia só guardar e nunca deixar ninguém ver...

—TA! Eu não vou parar de te dar informações... mas não custa você me dar um...

Nat para ao ouvir a porta sendo aberta com um rangido. As duas param e encaram o homem que entra na sala. Ele veste um suéter preto, junto com calças social. Seu cabelos que chegava ao meio do pescoço era de um castanho escuro, seus olhos por trás dos óculos de grau eram azuis claros, pareciam tão claros quanto qualquer outro que Sarah tivesse visto, ele também era alto, pareia ter por volta de 1,80m , magro e ela percebeu que ele estava com a barba por fazer. Ele olhou para a turma e sorriu calorosamente, andando calmamente ele pegou um giz e começou a escrever seu nome na lousa. Sarah olhou para Nathalia que parecia não notar a boca aberta e depois observou o resto das meninas e algumasmeninas da sala que tinha mesma expressão.

Ao termina de escrever ele se virou ajeitando o suéter e a postura.

—Bom dia pessoal. É um prazer conhece-los eu sou seu novo professor de biologia, Professor Chaol...

Com um baque a porta foi aberta e uma cascata de cabelos negros entrou na sala correndo.

—Desculpe! – ela gritou sem folego.

A garota parou e olhou ao redor da sala enquanto todos a encaravam e depois desviou para o professor que a olhava boca aberta. Ela parecia paralisada na porta. Sarah parou por um momento reconhecendo a menina do banheiro. Então ela era aluna nova...?

—Caralho – Nathalia soltou rindo.

—Acho que esse ano não vai ser tão chato quanto eu imaginava – Sarah comentou rindo enquanto encostava o rosto na mão esquerda e observava a cena que se formava no meio da sala.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.