Porque vale a pena
1 Eu tenho vocês.
Notas iniciais
Shino não era um Alpha de se frustrar ou irritar facilmente. Na verdade, podia-se contar nos dedos de uma mão as vezes em que realmente se sentiu assim. E aquela era uma delas: a bendita reunião de planejamento para o início do ano letivo.
Era seu terceiro ano ministrando aulas como o professor efetivo de uma classe. Conseguir isso foi uma felicidade sem igual. Tão logo se formou e foi convidado para trabalhar na Academia de Konoha. Ficou apenas um ano atuando como professor substituto e então ganhou uma turma para ser o responsável.
O problema era o objetivo dessa turma: os piores alunos, os mais baderneiros, os “casos perdidos e sem esperança”, que eram tirados das classes regulares e enfiados nessa tal “aula de recuperação”, que nada mais era do que uma forma de livrar os outros professores de crianças-problema e jogá-las todas nas mãos de Aburame Shino, reconhecido por sua paciência, tenacidade ótimo trato com os alunos.
E só Shino sabia a luta que enfrentava todos os dias para dar conta dos rebeldinhos. Era desgastante, desanimador por vezes. E uma alternativa que pouco trazia de positivo para as crianças de fato.
Suas opções eram limitadas: aceitar ou pedir demissão. Pois o diretor da escola estava irredutível, tendo agradado todos os outros professores. Shino não pretendia jogar a toalha e abandonar uma profissão que amava, nem o cargo na escola que respeitava. A cada semestre tentava conversar e mudar isso. Aquele ano recebeu apoio de Iruka-sensei e Kakashi-sensei. Isso o animou um pouco.
Teria que enfrentar outro ano de desafios, antes de tentar novamente que aquela classe fosse dissolvida e os alunos tido problemáticos voltassem ao convívio com os demais exatamente como deveria ser.
Até lá, Shino iria usar o que pudesse para passar esse período.
Por isso saia do trabalho e dirigia depressa, desejando chegar a um dos únicos lugares em que conseguia recarregar as energias e livrar-se de todos os sentimentos ruins: o seu lar.
Tão logo estacionou o carro na garagem, foi acometido por uma familiar e nostálgica sensação de culpa. E satisfação. Já sabia que tipo de cenário encontraria e não se surpreendeu nem um pouco ao entrar na sala e encontrar o marido esticado no sofá, com um pratinho vazio sobre a grande barriga desnuda de quase trinta e seis semanas, exibindo uma expressão sonolenta que se desviou do filme para o recém-chegado.
— Okaeri — antecipou-se num tom preguiçoso.
— Tadaima.
Enquanto o Alpha tirava os sapatos no genkan, Kiba movia o pratinho e se sentava, espreguiçando-se com gosto antes de levantar-se.
— Hana-nee me chutou da clínica de novo. Meus pés incharam um bocado, mas já melhorou, olha — e apontou para as próprias pernas.
Uma das mãos ajeitou a bermuda ao redor da cintura roliça. Roupa de Shino, claro. Habito que o rapaz adquiriu tão logo foram morar juntos: as roupas do Alpha sempre lhe pareciam mais confortáveis e quentinhas.
Shino só tinha olhos para o rosto do companheiro, em especial para o cantinho dos lábios onde uma mancha de chantilly dava a pista do que estivera sobre o prato vazio. Aquela era a primeira gestação do casal, e ele nunca imaginou que o Ômega ficaria tão manhoso e cheio dos desejos. Ele já era um grande apaixonado por morangos com creme, mas essa paixão alimentícia pareceu triplicar ao longo da gestação.
Não que Shino criticasse ou achasse ruim. Pelo contrário. Sentia-se tão feliz em atender esses desejos, até mesmo sair altas horas da madrugada em busca de takoyaki de brócolis, com um gestante sonolento ao seu lado, movido por um forte desejo. E sabe como é, “o bebê não pode nascer com cara de bolinho!”...
Em momentos assim era acometido por um pertencimento tão forte, uma sensação impressionante de fazer parte de algo fabuloso: parte de uma família que amava, que desejava proteger e cuidar a cada dia de sua existência.
Sensação que encontrava escape em gestos pontuais como naquele momento: ao se aproximar do companheiro precisava tocá-lo, tocar aquela barriga redonda e enorme, que carregava mais do que uma vida. Trazia consigo o fruto do amor que nutriam um pelo outro.
— Como vocês estão?
— Bem. Essa menina é um doce.
— Ela é? — Shino indagou em um tom divertido que mexeu com os brios de Kiba.
Logo os lábios formaram um bico de mau humor que traiu o desgosto.
— É te disse: meu instinto não falha! Será uma menina, uma Alpha!
Kiba vinha defendendo aquele discurso fazia meses. Para Shino era indiferente, fosse menino ou menina, seria amado e bem-vindo com infinita felicidade. Mas o Omega fazia questão de estar certo e de que todos acreditassem em sua precisão “pica das galáxias”.
Contrariar essa certeza era correr riscos perigosos de enfrentar um Kiba emburrado. E justamente por isso Shino o provocava. Porque achava uma graça aquele biquinho, os olhos selvagens que se desviavam, revelando quão ofendido o rapaz se sentia. E a energia Omega então?! Shino a captava toda “eriçada”, como um animalzinho que se arrepia para o ataque. Era tão... aprazível.
Tornava o dia de Shino melhor em níveis monstruosos.
Mas não prolongava demais o momento. Seu Omega era intenso em tudo o que fazia, então se chateava de verdade quando duvidavam de suas certezas.
— É dica de que ela será quietinha? Não vai puxar o gosto pela aventura de um dos pais? — resolveu ceder e agradar o companheiro. Fato que veio junto de um abraço apertado. E desajeitado, afinal, havia uma barriga significativa entre eles.
Kiba resmungou alguma coisa, enquanto se aconchegava naqueles braços, naquele calor amado.
— Não diria isso. Se ela gostar de aprontar o tanto que eu gostava, que os céus tenham piedade da gente. Minha intuição diz que é menina. E ela tá perto de nascer, mas fica quietinha como sempre... será um indicativo?
Shino não respondeu. Ao invés disso apenas suspirou, um gesto que expeliu o restinho do estresse que vinha sentindo até então. E Kiba captou aquele alivio, pois pôde sentir o relaxamento através da parte animal.
— Perdeu a batalha, marido?
— Perdi.
— Mas esses caras são muito filhos da puta! Não é justo com as crianças, nem com você!
— Kakashi-sensei e Iruka-sensei também foram contra a segregação. Acho que ano que vem as coisas podem ser diferentes.
— Até lá: mais um ano de luta. Respeito a sua boa vontade e perseverança. Eu já tinha mandado todo mundo se foder e... hum... me arrependido amargamente procurando um arubaito por ser impulsivo e estragar meu grande sonho. Você nunca faria isso, né? Você é um cara incrível.
A reviravolta no discurso que começou inflamado e terminou num tom mais manso surpreendeu e divertiu Shino. Era por coisas assim que se sentia renovado em casa: a familiaridade do inusitado, surpreendente e íntimo, o acalentava. Kiba parecia ter nascido com um interruptor especial, que ligava as reações intensas de acordo com cada situação.
Afastou-se um pouco sem interromper o abraço observando a barriga entre eles, que voltou a acariciar com carinho. Por fim tocou o rosto de Kiba, para afagar e ao mesmo tempo limpar o chantilly do canto dos lábios:
— Sou um cara incrível porque tenho coisas incríveis em minha vida. Esse ano será de luta, mas também de novos milagres. Sem você eu nunca teria chegado tão longe, Kiba.
O Omega deu uma risadinha cheia de si enquanto acertava um tapinha camarada no ombro alheio.
— Você e esse dom fudido com as palavras. Quem diria, marido?
Soou arrogante, mas o rosto ficou coradinho sem que pudesse evitar. Um sinal que indicava o constrangimento. Tantos anos de relacionamento e ainda se avergonhava com essas demonstrações intensas de afeto!
— A fonte de inspiração ajuda — Shino gracejou em uma rara demonstração de bom-humor. Era sempre tão contrito em suas emoções...
— Volta pro personagem, Shino. Guarda essa veia piadista que esse é o meu papel! Vou subir e encher a banheira, você merece um banho de imersão com muita espuma!!
Só então Kiba se libertou de vez do abraço, ofereceu um beijo calmo que requisitou os lábios de Shino por tempo suficiente para deixá-los sem fôlego. Em seguida tomou o rumo das escadas. O Alpha aproveitou o sabor de seu companheiro, que conhecia muito bem, antes de insinuar:
— Está querendo uma massagem? — sabia que a oferta de banho de espuma não era tão gratuita assim.
Kiba não se virou, acenou com a mão com indulgencia. As pontas das orelhas tão vermelhas que pareciam prestes a soltar fumaça.
— Se você insiste, marido — ele não negaria uma boa massagem nos ombros, no pescoço... ah, nos pés!! Não mesmo!
Shino não disse nada. Não precisava. Seguiu-lhe os passos escada acima, já antecipando um ótimo momento antes do jantar.
Os desafios eram grandes. E os problemas eram muitos. Conquanto ao voltar para casa, para aquele lar, passando cada minuto ao lado da família lhe dava a certeza de que venceria tudo.
Notas finais
Espero você de volta ♥
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