Por você mil vezes - Se não fosse amor

69 Se não fosse amor - Cap. 26: O começo do fim.


Notas iniciais
Boa noite e boa leitura! Beijão!

POV Sophie Trammer

O jantar tinha sido bastante agradável, embora os dois convidados especiais tenham passado a maior parte da noite fora. Matthew queria ficar e dormir comigo, mas pedi que ele não ficasse, pelo menos naquele dia, já que as coisas estavam recentes e talvez Kenny quisesse conversar comigo de manhã, ele concordou e foi embora com os outros depois. Kenny não conversou, na verdade ele mal olhava na minha cara depois daquele dia, apenas trocávamos um “Bom dia” ou “Boa noite” como dois estranhos. Eu não sabia se ele tinha contado alguma coisa pra Ethan ou não, já que ele não me ligou mais desde o dia em que nos despedimos, trocamos algumas mensagens, porém nada demais. Depois de alguns dias, eu percebi que a relação com Kenny não iria melhorar mesmo, pelo menos não por agora e eu entendia o lado dele nessa situação, ele apenas estava defendendo o irmão, se acontecesse algo parecido com Luke, talvez eu iria agir da mesma forma. Em contra partida, enquanto minha relação com Kenny só ia de mal a pior, Matt e eu estávamos em completa sintonia e felizes.

“Nem acredito que chegou o dia dessa festa!” Falei enquanto passava os dedos entre o cabelo de Matthew, que estava com a cabeça deitada em cima da minha barriga.

“Eu ainda tenho que ir ao escritório hoje... Tem uma pilha de papéis lá pra mim, acabei deixando atrasar.”

“Que falta de eficiência Davis.” O olhei com diversão.

“Se não ocupassem a maior parte do meu dia, eu não teria deixado atrasar.” Ele riu.

“Ah, agora a culpa é minha?!” Disse chocada.

“É totalmente sua!” Ele se levantou, deitado ao meu lado. “Mas, por favor, continue atrapalhando.” Eu sorri e ele me beijou rapidamente.

“Então como vamos fazer? Você vai se vestir em casa ou aqui?”

“O smoking está em casa, tenho que ir lá de qualquer forma. Eu vou pro escritório agora e se sair cedo, pego minha roupa no apartamento e venho para cá, se não der tempo eu te vejo no clube mesmo.”

“Certo, mas me avisa quando você souber se vem pra cá ou se nos encontramos lá, não quero sair muito tarde daqui, ainda pretendo dar uma última conferida em tudo lá.”

“Aviso sim.” Ele beijou minha testa e se sentou. “Melhor eu ir logo para tentar voltar logo.”

“Não!” Disse com pesar. “Já já você vai.” Sentei também, o abraçando por trás e beijando suas costas.

“Argh... Por que você consegue me convencer tão rápido?” Ele se virou deitando por cima de mim e sorrindo.

“É esse meu poder de sedução...” Dei de ombros e começamos a nos beijar.

Quando eu finalmente consegui largar Matthew, ele se vestiu e eu fui acompanhá-lo até a porta da sala, estávamos rindo de mãos dadas e vimos Luke e Kenny na cozinha.

“Boa tarde, Kenny.” Matthew disse em um tom mais sério e Ken apenas esboçou um sorriso. “Tudo bom Luke?”

“Tudo Matt.” Luke sorriu e os dois se abraçaram como sempre faziam.

“Nos vemos mais tarde na festa?”

“Claro, estou ansioso, adoro uma boa festa.” Luke disse animado e Matt sorriu.

O levei até a porta e nos despedimos com um beijo. Quando ele se foi, fechei a porta e virei de volta, mas Kenny já tinha saído da cozinha, só restando Luke e eu bufei.

“Até quando ele vai continuar me ignorando desse jeito?” Perguntei indo até Luke e sentei no banco de frente para ele.

“É uma boa pergunta... Mas não conversamos mais sobre isso, ele não falou mais nada a respeito e eu prefiro nem questionar por que sei que se ele disser algo sobre você eu vou começar a terceira guerra mundial.” Luke falou e eu sorri.

“É melhor você não tocar no assunto mesmo... É um problema meu e dele, não convém e nem faz bem pra você se meter nisso, não quero que misture as coisas e acabe se complicando com o Kenny por minha causa.” Disse e Luke assentiu. “Mas, falando em guerra, sabe se ele contou para o Ethan?”

“Não faço idéia... Pelo menos nas vezes que ele falou com Ethan na minha frente, ele não comentou nada. Mas isso é um problema? Prefere que ele não saiba?”

“Não, eu só prefiro que eu mesma conte. Não tenho falado muito com ele, no máximo trocamos algumas mensagens, mas nada muito pessoal. Ele só pergunta como eu estou e como está o tratamento e eu só pergunto como está o trabalho, não entramos nesses assuntos de namoros... De certa forma, acho que não é a hora de contar para ele, não por receio que isso atrapalhe meu namoro com o Matthew, mas por respeito ao Ethan mesmo.”

“Eu entendo, talvez seja melhor dar um tempo.” Ele segurou minha mão e eu percebi o seu olhar, eu conhecia todos os olhares do Luke e eu sabia que tinha alguma coisa pra falar comigo.

“Aconteceu alguma coisa?” Perguntei.

“Não aconteceu... Vai acontecer ainda.” Ele me olhou sério.

“O que foi Luke?” Disse preocupada. “Sabe que pode me contar qualquer coisa.”

“Eu sei meu amor.” Ele esboçou um sorriso. “É que... O Kenny quer começar a procurar apartamentos para a gente se mudar.” O quê? Que droga! Ok... Essa é a parte que a gente finge que está tudo bem com isso...

“É normal né Lu? Vocês precisam de um espaço para vocês dois agora...”

“Não precisa se fazer de ser humano evoluído na minha frente.” Ele riu. “Quero saber o que você realmente acha sobre o assunto.”

“Ok...” Suspirei. “Honestamente, é desnecessário. Esse apartamento é enorme, tem espaço de sobra, o quarto de vocês é bastante espaçoso, tem uma ótima localização, vocês não têm que se preocupar em pagar um lugar, você mora comigo aqui há anos, já está acostumado com a vizinhança, com os funcionários do prédio... Enfim. Não acho que haveria necessidade de vocês se mudarem por agora e acho que ele só quer encontrar um lugar logo por que está com raiva de mim.”

“É... Eu sabia que você ia pensar dessa forma.” Ele disse rindo. “Eu fui pegue de surpresa também, ele apenas jogou essa decisão em cima de mim, mas nós vamos conversar, como você falou, não há necessidade disso agora. Eu me sinto em casa aqui.”

“Por que aqui é a sua casa.” Falei firmemente. “Olha... Tenta convencer ele a esperar pelo menos alguns meses. Vocês viajam tanto trabalhando, mal ficam aqui, não tem por que ter essa pressa de ir embora.”

“Eu vou falar, fica tranqüila, não vou a lugar nenhum.” Ele se levantou e me abraçou. “Tô começando a achar que eu devia ter casado com você...”

“A gente ia ser um casal incrível... Mais bonitos que Brangelina.”

“Nossos filhos iam ser tão bonitinhos.”

“É... Iam ser lindos e gays.” Falei debochando.

“E gordos.” Ele me olhou de cima a baixo, eu fiquei perplexa por ele ter me chamado de gorda e comecei a bater nele que por sua vez, começou a rir junto comigo.

Eu não achava justo Kenny ter essas atitudes, principalmente sabendo como Luke e eu éramos próximos e que seria difícil para nós dois ficar separados assim, morando em lugares diferentes. Por que sim, ele sempre foi de viajar muito, ele era modelo e isso era perfeitamente normal, mas eu sabia que ele ia, porém voltava. Se os motivos deles se mudarem fosse por que eles não estavam a vontade ali comigo, ou se faltava espaço... O que fosse, mas sendo algo justificável, eu até aceitaria, seria difícil do mesmo jeito, mas eu saberia que seria o melhor para eles. O problema era eu saber que toda essa decisão precipitada era por um motivo bobo, sem nexo e eu esperava que se Luke conseguisse explicar isso para Kenny e que ele concordasse em esperar mais um pouco antes de se mudar, ele iria acabar vendo que essa mágoa ou raiva de mim é passageira, ele está chateado, era um direito dele, mas ele não tinha o direito de me tratar mal o resto da vida por isso. No momento em que eles quisessem se mudar, por eles mesmos, eu iria ajudar com certeza, tinham outros condomínios em nosso nome pela cidade e alguns que nem eram tão longes, seria um prazer presentear eles com um apartamento lindo, mas no momento, isso não iria acontecer.

...

O apartamento estava mais movimentado do que nunca. Convidei Megan e Mabel para se arrumarem comigo em casa com Lionel, que era meu cabeleireiro há anos, ele tinha vindo com mais duas ajudantes para acelerar as coisas e enquanto elas ajeitavam o cabelo e a maquiagem de Meg e Mabel, eu conversava com Lionel sobre o que iríamos fazer.

“Que cor e modelo é o vestido?” Ele me perguntou.

“Ele é longo, modelo sereia, sem alças e vinho.”

“E você já decidiu o que quer, tem algo em mente ou vai jogar a responsabilidade nas minhas mãos?” Lionel falou com diversão.

“A responsabilidade é sua.” Sorri. “Mas eu quero que você prenda o cabelo... Um coque talvez, mas nada muito arrumadinho demais.”

“Já sei exatamente o que vou fazer. E quanto a maquiagem?” Ele começou a passar a mão pelos meus cabelos. “Eu amo a cor dos seus olhos, vamos deixar eles bem marcados, não é?”

“Sim... É um baile de máscaras, tem que ser algo que realce os olhos mesmo, mas eu quero batom vermelho.”

“Quer cor é sua máscara?”

“É preta, tem uns detalhes rendados... Vou te mostrar.” O levei para ver o vestido e a máscara que iria usar e conversamos brevemente sobre o que ele iria fazer.

Já tinha anoitecido, as horas passaram muito rápido, todos estávamos prontos. Luke e Kenny já haviam se trocado também, Lionel só estava dando um último retoque no meu cabelo e na maquiagem e eu percebi que tinha passado toda a tarde sem celular e precisa encontrá-lo para saber se Matthew vinha para o meu apartamento ou iria direto para a festa. Depois de procurar muito, até que enfim o achei, tinham algumas mensagens e várias ligações perdidas. Quando abri as mensagens, entre elas tinha uma de Matt, que ele tinha enviado bem mais cedo só confirmando que iria do apartamento dele para a festa, senão ficaria muito corrido e ele poderia me atrasar. Depois tinham mais duas mensagens dele pedindo para que eu atendesse o telefone fui olhar as ligações e tinham nada mais, nada menos que 12 chamadas perdidas dele. Meu Deus, será que aconteceu alguma coisa? Retornei a ligação para ele e após chamar algumas vezes, ele atendeu.

“Onde você tava? Custa atender a merda do telefone?” Ele disse bravo.

“Primeiro de tudo, olha o tom comigo.” Falei irritada. “O celular estava no silencioso e eu não ouvi. O que aconteceu? Você tá bem?”

“Eu estou sim, mas preciso falar com você. Tá em casa ainda?”

“Eu estou saindo de casa e você? Onde você tá?”

“Chegando em casa, não vai dar tempo ir até ai...” Ele falou mais como um pensamento.

“Então me fala agora ué!” Disse impaciente.

“Não dá...” Ele parou de falar. “É... Complicado...”

“Você tá começando a me deixar preocupada. É sobre nós? Eu fiz alguma coisa? Ou você fez alguma coisa? Se você aprontou de novo, eu juro que te mato...” Sentei na cama sentindo o coração apertado. Tudo de novo não, por favor não...

“Amor, não é nada sobre nós dois, eu jamais, nunca, vou repetir os meus erros com você, nem ouse pensar que tem algo de errado com a gente, por que não tem.” Ele disse e eu senti a sensação de alivio me invadir.

“Graças a Deus.” Respirei tranqüila. “Mas então o que foi?”

“É sobre trabalho. Você leva quanto tempo de casa para o clube?”

“Eu não sei... Uns 30, 40min, dependendo do trânsito.”

“Tudo bem, eu vou me vestir e te encontro lá daqui a pouco.”

“Ok...” Disse derrotada, por que sabia que ele só ia querer me contar pessoalmente. “Mas dirige com cuidado, por favor... Festas podem ser trágicas e eu sei do que eu estou falando.”

“Eu vou.” Ouvi seu sorriso. “Daqui a pouco nos vemos.”

“Está bem amor, até já.” Desliguei e fiquei parada pensativa. O que será que pode ter acontecido?

O que quer que tenha sido, ia ter que esperar. Ele disse que era trabalho, então deve ter sido algum problema na empresa, nada que não pudesse ser resolvido no dia seguinte. Eu tinha uma festa que havia passado um ano organizando e nada ia dar errado hoje.

POV Matthew Davis

Cheguei ao prédio e fui direto para o escritório, Emily estava mais atarefada do que nunca. Apenas acenei para ela e entrei em minha sala, me obrigando a prestar atenção no trabalho, mas com o passar das horas, percebi que ir para o apartamento da Sophie antes da festa não ia rolar. Não queria fazer nada na correria e era muito mais tranqüilo ir para casa e de lá ir direto para o clube onde seria a festa. Mandei uma mensagem para ela dizendo que não ia dar para ir com ela a festa e voltei a me focar no trabalho. O sol já estava indo embora, levantei e alonguei as costas, parando de frente para a janela e observando a vista. Quando achei que era hora de terminar o intervalo, sentei novamente e fiquei passando folha por folha, mas sem prestar muita atenção, então decidi abrir o programa que dava acesso as câmeras do prédio, pra ter algo para olhar de vez enquando. Li, conferi, corrigi e reenviei os documentos que precisam ser reenviados, apesar de ainda faltar algumas coisas, resolvi parar por ali, por que não ia mais conseguir produzir nada. Organizei os papéis na minha mesa e voltei a atenção para o computador, li rapidamente alguns e-mails, mas nem me dei ao trabalho de responder, faria isso no dia seguinte, fechei as páginas da internet que estavam abertas e comecei a fechar as abas do programa de segurança, mas parei quando vi quem estava saindo do elevador.

“Richard?” Falei franzindo a testa.

Percebi que ele estava saindo no andar de Black e não me dei ao luxo de parar para pensar se deveria ou não fazer o que estava indo fazer, só peguei meus pertences rapidamente e desliguei o monitor do computador, saí da sala, me despedi de Emily e desci pelas escadas mesmo, até chegar ao andar da segurança, que já estava vazio. Ouvi a voz de Black e escondi-me dentro do banheiro, deixando uma pequena fresta da porta aberta.

“Não, Richard... Já basta.” Black falou impaciente. “Essa foi a última vez, já cansei de mentir, já cansei de ficar me fingindo de desentendido.”

“Você trabalha para mim, Black. Espero que você não esqueça disso.” Richard disse com o mesmo tom arrogante de sempre, o mesmo tom que dava vontade de socá-lo.

“É só esse problema? Resolvemos agora mesmo, posso redigir minha carta de demissão nesse momento.”

“Não seja patético!” Richard gritou.

“Patético é você! Ela merece a verdade e o único motivo pra você estar aqui me pedindo para me calar é por que sabe da sua culpa!” Ela? Estão falando de Sophie?

“Ela não vai conseguir lidar com a verdade, você sabe bem disso.”

“Isso é problema seu agora. Francamente, acha que vai levar mais muito tempo até que ela descubra? Sophie me pergunta todos os dias se eu descobri algo e eu tenho que mentir dizendo que não sei de nada, quando já sei de toda a verdade! Ela vai suspeitar de alguma coisa em algum momento, Richard.”

“Ela confia em você...”

“Confiança tem limites!” Black o interrompeu. “E ela não é burra, pelo contrário. Você tem sorte de ela não ter desconfiado de mim.”

“Sophie não vai entender, Black. Ela nunca vai entender o que o meu pai fez e o que eu fiz.” O quê? Isso está me deixando mais confuso do que esclarecendo alguma coisa!

“Se você tivesse sido sincero desde o começo, não estaria nessa situação agora!”

“Eu tive os meus motivos!” Richard gritou mais alto ainda.

“Sim, sua covardia!” Black retrucou.

“E o que você espera que eu faça agora? Que vá correndo contar tudo para ela?”

“Eu não espero mais nada de você Richard. Agora se eu fosse você, torcia, mas torcia muito pra que Beatriz não tente entrar em contato com ela, por que se ela foi capaz de fazer todas aquelas coisas contra Sophie estando longe, imagine o que ela não poderia fazer estando perto.”

Vi Black passando em direção as escadas, Richard ainda ficou parado por uns momentos e depois foi para o elevador, entrando assim que as portas se abriram. O que raios eu acabei de ouvir aqui? Beatriz. Então era essa mulher que tinha feito todas aquelas coisas contra a Sophie. Eu jamais iria esperar que fosse uma mulher, isso era inesperado, no mínimo. A forma que eles falaram... Black e Richard conhecem essa mulher, não é apenas um nome para eles, eu tenho certeza disso. Depois de um tempo que eles dois desceram eu saí do banheiro e desci para a garagem, tentando durante todo o caminho ligar para Sophie, que insistia em não atender ao telefone. Mandei mensagens, mas nada também. Droga, Sophie! A pessoa que dorme grudada no celular resolve justo quando eu mais preciso falar com ela, não me atender. Estava no caminho de casa, quando ouvi meu celular tocar e finalmente era ela.

“Onde você tava? Custa atender a merda do telefone!” Disse com raiva e me arrependendo no mesmo segundo pela forma que falei.

“Primeiro de tudo, olha o tom comigo...” Sabia que vinha alguma resposta afiada. Pedimos por isso, não é?

...

Cheguei ao clube e coloquei a máscara preta antes de sair do carro e entregá-lo para o manobrista estacionar, quando entrei no salão principal, que já estava lotado, só conseguia pensar que precisava encontrar Sophie e falar para ela o que eu tinha ouvido. Andei por todo lado a procurando e o fato de todos estarem com os rostos cobertos não ajudou muito na busca e depois de uns 10min andando de lá para cá, avistei o bar e pedi um whisky puro. O barman me serviu e depois do primeiro gole, senti alguém me abraçando, só podia ser...

“Olha só você de smoking, que sexy!” Sophie falou sorrindo e eu fiquei sem palavras ao vê-la.

“E você... Uau.” Sorri também, ela estava de tirar o fôlego. “Como me reconheceu de costas?”

“Por que eu conheço cada centímetro desse seu corpinho gostoso.” Ela piscou para mim. “Eu vou falar com o pessoal da imprensa agora.”

“Não, espera!” Coloquei o copo de whisky em cima do balcão e me voltei para ela. “Eu preciso falar com você...”

“Eu sei que precisa, mas dá pra esperar eu tirar umas fotos né?” Ela riu e me deu um beijo no rosto. “Já volto!” Ela saiu andando e sumiu no meio da multidão.

Terminei a minha bebida em um único gole e voltei a circular, encontrei alguns conhecidos e aproveitei para passar o tempo enquanto Sophie resolvia me dar atenção. Da minha família apenas meu pai e Megan foram, ela estava linda com um vestido cinza... Sabia que tinha dedo da Sophie nisso. Depois de conversar com eles, vi Brian com Mabel e acho que foi a primeira vez que vi Brian em um smoking. Sophie resolveu dar o ar da graça uns momentos depois, mas não ficou conosco sequer um minuto, por que precisava recepcionar e falar com os convidados. Reconheci Amy de longe e Richard ao seu lado, rodeados de amigos e me deu um embrulho no estomago apenas de ter que olhar para a cara cínica dele. Como era possível ele saber quem estava prejudicando a própria filha e simplesmente esconder tudo isso dela? Decidi que não importava se Sophie ia estar ocupada com alguém, nem que fosse o presidente, ela ia ter que me ouvir. Vi vários flashes de câmeras e em eventos como esse, ela estava onde os flashes estavam, então me aproximei.

“Eu preciso falar com você agora.” Disse discretamente e ela se assustou um pouco pela minha chegada inesperada.

“Eu estou ocupada agora...” Ela murmurou.

“Uma foto da presidente com o vice-presidente vai ficar perfeito!” Um dos fotógrafos falou e ela sorriu educadamente, me puxando para mais perto para que eu saísse na foto também.

“Eu só preciso de um minuto.” Falei ainda sorrindo para as fotos.

“Eu estou tentando ser uma boa anfitriã aqui, se você não percebeu, os fotógrafos precisam de algo para publicar amanhã.” Ela disse sorrindo também.

“Se você não tirar 5 minutos que seja pra conversar comigo...” Apertei seu braço de forma discreta. “Eu vou fazer uma cena e aí sim, eles vão ter o que publicar amanhã.” Ela me fuzilou com os olhos.

“Sem mais fotos por agora, obrigada a todos.” Ela falou cordialmente e saiu me puxando pelo braço, me levando para um local mais afastado. “Pronto, o que tanto o senhor irritante que falar que não pode esperar até amanhã?” Sophie parou de frente a mim, cruzando os braços.

“Eu sei quem fez todas aquelas coisas com você. Das fotos, os vandalismos nas lojas e todo o resto.”

“O quê?” Ela disse incrédula. “É sério? Mas como?”

“Eu ouvi o Richard e o Black conversando hoje, no escritório...” Comecei a contar para ela tudo que tinha ouvido.

“Beatriz?” Ela disse confusa. “É uma mulher? Eu nunca iria pensar que foi uma mulher.”

“E pela forma que os dois falaram, eles conhecem essa Beatriz. Você não se lembra de ninguém com esse nome?”

“Não... Não me lembro de conhecer ninguém com esse nome e nem de ouvir Richard falando de alguma Beatriz. Eu não consigo entender Matthew... Por que ele não quer que eu saiba disso?”

“Eu não faço idéia. Ele disse algo sobre você não agüentar a verdade, Black o chamou de covarde...”

“Covarde? Ele é um filho da mãe isso sim.” Ela bufou. “Isso acabou com minha noite, quero ir embora daqui.”

“Essa não foi a minha intenção...” Falei um pouco sem graça e ela esboçou um sorriso.

“Você foi incrível Matt, mesmo. Se eu tinha alguma dúvida sobre se eu podia confiar em você de novo, hoje você provou que não tenho por que não confiar.” Ela segurou minha mão. “Isso significou muito pra mim, ver que em meio a toda essa sujeira e meu próprio pai escondendo tanta coisa de mim... Até o Black, que eu não esperava, é bom saber que eu tenho em quem confiar ainda, entende?” Coloquei as mãos em seu rosto e a beijei.

“Vai ficar bem mesmo depois disso tudo?” A olhei preocupado.

“Vou...” Ela assentiu. “Eu não me abalo tão fácil.” Ela sorriu, mas eu sabia que aquilo não era verdade. Sophie tinha o hábito de não demonstrar o que sentia e isso me deixava apreensivo, por que sempre parecia que em algum momento ela não ia agüentar e iria explodir.

“Senhorita, estava a procurando!” Uma moça se aproximou. “Querem fotos e uma breve declaração da senhorita com o Sr. Trammer.”

“Claro.” Sophie assentiu e olhou para mim. “Nos falamos já.” Ela sorriu e soltou minha mão indo embora.

Acompanhei-a de longe e vi quando Richard se encontrou com ela, como sempre, na frente dos outros eles trocaram um abraço, mas Sophie estava mais fria com ele do que costumava ser quando tinham câmeras e pessoas vendo tudo, eu sabia que toda essa história tinha mexido um pouco com ela, mas ao mesmo tempo não queria esconder o que sabia, por que por pior que fosse a verdade, ela preferia lidar com isso do que com a mentira e isso era algo que o tempo tinha me ensinado sobre ela. Fiquei mais perto deles dois, enquanto alguns repórteres faziam algumas perguntas, Sophie se manteve calada o tempo todo e deixando somente Richard responder.

“E qual o segredo para se manter por 75 anos no topo do mercado?” Uma repórter perguntou se voltando para Sophie. Ela ficou calada, pensativa, por um momento e Richard a encarou sem entender por que ela não falava nada, até que ela respirou fundo e sorriu.

“Acho que a confiança.” Sophie olhou para Richard com ironia. “Porque quando se trabalha em família e logo com o seu pai, você acha que ele jamais faria algo para te prejudicar e que ele, em tese, iria tentar de proteger de tudo e sempre ser honesto com você. Você espera que os dois vão ser um time, uma equipe e que vão se ajudar e respeitar o tempo todo. Pena que isso ás vezes só funciona na teoria...” Ela olhou novamente para a repórter. “Então acho que esse é o segredo do sucesso, não ter segredos.” Richard permaneceu calado e eu sabia que ele estava tão chocado quanto todos, por que agora o silêncio era palpável. “Mais alguma pergunta?”

“Ér... Não, acho que temos o suficiente.” A repórter falou educadamente e Sophie saiu.

“Você tem idéia do que acabou de fazer?” Fui andando atrás dela.

“Não fiz nada demais, apenas respondi uma simples pergunta.” A segurei pelo braço a fazendo parar.

“Plantou a semente da dúvida ali e sabe que essa gente da imprensa só quer isso.”

“Sinceramente, eu não sei se ligo mais para o que a imprensa acha ou deixa de achar.” Ela soltou o seu braço de mim.

“Olá?” Luke se aproximou de nós, seguido de Kenny. “Foi só eu que notei isso ou você estava exalando ironia ali com Richard?”

“Eu não falei nada demais...” Ela revirou os olhos.

“Você sabe que adoram inventar histórias sobre pessoas públicas...” Kenny começou a falar. “Você deu margem para criarem um Best-seller sobre vocês.”

“Eu estou começando a me arrepender de ter conversando com você agora, deveria ter te dito isso só amanhã.” Falei realmente me sentindo culpado, era a Sophie, uma bomba relógio... Eu tinha que ter deixado essa maldita festa acabar antes de dizer algo.

“Você não fez nada de errado.” Ela pôs a mão em meu ombro. “Eu só estou ficando cansada disso tudo, de todo esse circo, de todo esse fingimento...” Luke segurou sua mão e a beijou.

“O que vocês conversaram antes?” Ele perguntou para mim.

“Longa história...” Disse.

“Vamos para casa, já fiz todas as fotos que tinha de fazer, já conversei com meio mundo... Eles podem se virar sem mim agora.” Sophie falou.

“Eu acho que não vai pegar bem você ir agora.” Luke disse e olhou para mim.

“É, só vai dar mais motivo para falarem...” Disse. “Eu fico aqui com você, vamos ficar por mais uns minutos, pelo menos.”

“Eu fico com vocês também!” Luke se prontificou.

“Eu vi Brian e Megan do lado de fora, vou chamá-los.” Kenny disse e eu concordei em silêncio. Que bom que ao menos ele conseguia esquecer um pouco essa briga ridícula com Sophie em um momento que ela precisa de todos nós, mesmo que ela não admita que precisa.

Ficamos todos juntos tentando amenizar o mal estar que tinha se causado ali, Sophie estava tentando, eu sabia que ela estava, mas eu percebia que ela não estava bem. Mesmo rindo e conversando com todos, quem a conhecia, conseguia notar que ali era apenas uma Sophie de aparências. O personagem Sophie Trammer que não era feito de carne, osso e sentimentos, era feito de plástico, puro material inanimado, que fingia sentir nada.

POV Sophie Trammer

Em casa! Até que enfim! A noite tinha sido longa, muito longa... Longa até demais! A festa tinha sido ótima, impecável, aliás. Muitas pessoas vieram me parabenizar pela organização, a comida, a decoração... No geral, tudo tinha saído conforme o planejado, exceto pelo fato de descobrir, quero dizer, ter certeza, de que meu pai é o ser humano mais podre desse universo. Saber de toda a verdade, ou parte da verdade, tinha mexido comigo, embora eu tentasse não demonstrar isso, mas era frustrante saber que Richard tinha conhecimento sobre quem tinha feito todas aquelas coisas contra mim e parecia que não tinha a menor importância para ele. Eu disse parecia? Por que, na verdade, não tinha mesmo a menor importância. Estava de frente a cômoda do closet, penteado os cabelos molhados, Matthew e eu tínhamos acabado de sair do banho e desde que eu tinha entrado em casa, me mantive praticamente o tempo todo calada. Matt sentou no chão, ao meu lado e eu coloquei a escova de cabelo em cima da cômoda.

“Deixa eu adivinhar...” Disse o olhando. “Um dólar pelos meus pensamentos?” Ele assentiu sorrindo e eu voltei a me olhar no espelho. “Nada demais...” Levantei pegando a muleta e fui andando para a cama com ele me seguindo.

“Se fosse nada demais, você não ia estar com essa carinha desanimada.” Ele falou. Sentei na cama e ele sentou atrás de mim, me colocando entre suas pernas e envolvendo seus braços em meu corpo.

“Só cansada mesmo.”

“Você não me engana, Sophie.” Ele apoiou o queixo em meu ombro. “Só estamos nós dois aqui, não precisa ser a mulher de ferro.” Suspirei derrotada.

“Eu só não consigo entender...”

“O quê?” Ele perguntou e eu virei ficando sentada de frente para ele.

“Ele sabe o que eu passei, sabe tudo o que fizeram comigo, todas as mentiras, todos os atentados... Richard sabe quem fez todas aquelas coisas e esconde de mim. Pior Matthew, ele não faz nada. Até o Black, que sempre foi por mim deu as costas pra mim dessa vez!”

“Acho que para Black não foi fácil... Ele parecia realmente com raiva de Richard por não ter contado nada pra você. E eu não estou o defendendo, antes que você pense isso, mas eu prefiro acreditar que foi difícil pra ele também, pelo tempo que eu o conheço e por ver o quanto ele se importa com você.”

“Ele se importa e escondeu de mim tudo isso. Quem é Beatriz afinal? O que eu fiz pra essa mulher me querer tanto mal assim?”

“Pode não ser contra você.” Ele falou pensativo. “Ela poderia estar tentando atingir o Richard. Você disse que tudo o que aconteceu com você, afetava ele indiretamente... Vai ver foi isso Sophie, você foi só uma vitima da situação.”

“É...” Concordei. “Mas o Richard veio aqui falar que meu acidente podia não ter sido um acidente. Se ele queria me esconder isso sobre essa tal de Beatriz, por que se deu ao trabalho de vir aqui?”

“Isso tudo está muito confuso...” Ele falou e eu deitei na cama, derrotada.

“Eu que o diga.”

“Talvez você devesse chamar o Richard e ter uma conversa franca.” Ele se deitou ao meu lado. “Você precisa disso, por um fim nessa história logo.” Deitei minha cabeça em seu peito e ele começou a alisar meus cabelos.

“Eu sei que isso é o certo... Só estou com medo do rumo dessa conversa.”

...

O dia não demorou muito tempo para amanhecer, eu tinha pretendido ficar em casa, mas estava inquieta demais para isso, convenci Matthew a ir trabalhar comigo. Tomamos um rápido café da manhã, Luke e Kenny ainda estavam dormindo, nos despedimos de Baby e saímos em direção ao prédio. Entrei em minha sala e Matthew foi para a dele, abri o meu e-mail e comecei a ler e responder alguns, um deles, vindo pelo departamento de marketing que cuidava da minha imagem, tinha um link para um site, onde a primeira matéria era:

Declarações polêmicas de Sophie Trammer na festa de 75 anos da própria empresa.

Esse povo não tem mais o que fazer? Li a matéria toda e disseram que o que eu havia falado, tinha dado a entender um possível desentendimento com Richard, mas embaixo já tinha uma declaração oficial da empresa, dizendo que meu pai e eu não tínhamos nenhum problema, no máximo algum pequeno desentendimento normal de pai e filha, mas nada que abalasse o laço que nós dois tínhamos e o nosso amor um pelo outro. Resumindo, o pessoal do marketing sabia mentir muito bem. Ótimo, fiz a merda e já resolveram a merda.

Depois de algumas horas, Matthew entrou em minha sala pra avisar que ia visitar uma obra nossa e perguntou se eu queria que ele trouxesse meu almoço. Disse que queria e agradeci, ele saiu e eu continuei a resolver o que tinha para ser resolvido. Ouvi a porta abrindo de novo e nem me dei ao trabalho de levantar o rosto para ver quem era.

“Já voltou Matthew? Esqueceu alguma coisa?”

“Acredito que ele não esqueceu.” Pulei da cadeira de susto.

“Pai?” Falei surpresa. “O que veio fazer aqui?” Ele fechou a porta e se aproximou de mim, ficando do outro lado da mesa.

“Linda festa ontem, não?” Ele disse sorrindo e eu apenas assenti. “Estava ótima, aliás, até você resolver abrir a boca e falar o que não deveria.”

“Falei sem pensar.” Dei de ombros. “E, não sei se você viu, mas nossos funcionários muito bem pagos, já resolveram tudo.”

“Eu quero saber o que deu em você pra agir daquela forma.” Ele falou com raiva e eu percebi que não tinha hora melhor que essa, iria esclarecer essa história toda agora mesmo.

“Nós dois precisamos conversar.”

“Eu concordo.” Meu pai falou tirando um papel do bolso e o colocou em cima da mesa.

“O que é isso?” Franzi a testa.

“Isso...” Ele apontou para o papel. “É a sua carta de demissão.”

“Ãn?” Disse chocada e sem entender absolutamente nada.

“Como eu posso te explicar...” Ele falou com sarcasmo. “O seu setor teve um corte. Estamos tendo uma retenção de gastos. Você não é mais operacional.” Ele me olhou sorrindo cinicamente. “Em outras palavras, está despedida.”

Isso... Não... Não é possível... Não está acontecendo. Peguei o papel de cima da mesa e o abri.

Informo por meio deste, que a partir da data de hoje, Sophie Marie Evans Trammer, não estará mais presente no quadro de funcionários desta organização.

Só precisei ler o começo do documento e o rasguei jogando os pedaços de papel na cara de Richard. Se você quer guerra, é guerra que você vai ter.

Notas finais
Forninhos estão caindo... Sophie na fila do desemprego? :O hahahaha