Por você
6 Babá Steven - Parte 1
Notas iniciais
Faz apenas uma hora que eu peguei a Susie na casa do Lars e da Sadie. Susie me esperava inquieta na varanda ela andava de um lado para o outro, quando me viu pulou os degraus da varanda e veio correndo na minha direção com os braços para cima.
— Tio Steven!
Ela gritou abraçando minhas pernas. A porta da casa se abriu, Lars apareceu na varanda e acenou para mim. Ele estava de calça jeans e um blusa social, achei que ele estava arrumado demais para ir para o parquinho comigo e a Susie.
— Não sabia que você agora faz parte do time dos pais dedicados que levam a filha ao parque como um mauricinho.
Gargalhei, esperei Lars revidar com alguma comentário ácido, mas invés disso ele olhou para mim e deu um curto sorriso. Isso tá muito estranho, o Lars que eu conheço iria revidar de primeira. — Então... já podemos ir para o parque?
— Claro a bolsa da Susie tá ali, tem alguns brinquedos ai dentro mas só os que a Sadie aprova para o parquinho, tem uma lanche caso ela fique com fome e uma roupa reserva caso ela caia “acidentalmente” em alguma poça de lama.
Ele pegou a bolsa e me deu, coloquei nas costas, Susie não aguentava ficar parada e dava pulinhos de alegria pelo jardim.
— Tá bom. Aonde vamos levar ela?
Lars gargalhou.
— Nós? Você quer dizer você né.
— O que?
— A Sadie ficou tão feliz de você ter se oferecido para ficar com a Susie hoje e ainda ficar de babá a noite enquanto vamos jantar.
— Eu fiz o que?
Não me lembro de ter me oferecido para fazer nada, Sadie saiu de casa com uma bolsa ela também estava bem arrumada quando me viu ela me abraçou bem forte, a felicidade estava estampada no rosto dela.
— Steven muito obrigada por ficar com a Susie hoje, eu fiquei tão feliz quando o Lars contou que você se ofereceu para ficar com ela para que a gente pudesse curtir o dia a sós.
Sadie estava tão feliz, não tive coragem de desmentir o Lars. Tive a impressão que desde que Susie nasceu eles não tem um momento sozinhos.
— Ah que isso, só quero ajudar.
Sorri sem graça para Sadie, do lado dela Lars sorria em triunfo olhando para mim, isso não acabou ainda, ele pode ter ganhado o primeiro round mas o próximo sou eu que vou ganhar!
— Olha Steven, se você achar que ela está passando dos limites e que você não vai aguentar você pode ligar para o meu celular ou o do Lars que a gente vai buscar ela imediatamente.
— Não se preocupem, eu sou bom com crianças.
Mentira! Nunca tomei conta de uma criança na vida, será que posso contar a Ametista como criança? Ela age como uma as vezes, pôr as vezes quero dizer sempre. Mas se for para o bem da humanidade uma mentira quase verdade não vai fazer mal a ninguém.
— Susie se comporta, o Steven está fazendo um favor para a mamãe e o papai. Então nada de abusar.
— Ah Sadie para já conversei com ela, relaxa.
— Eu vou me comportar mamãe.
Sadie abraçou a filha e deu um beijo na bochecha dela. Segurei a mão de Susie e fomos andando, ela andava olhando para trás dando tchau para os pais.
E desde então se passou a hora mais longa de toda minha vida, o tempo que estou com a Susie me fez repensar na ideia de ter filhos um dia, acho que tudo que ela não faz quando está na frente dos pais, ela fez nos minutos que ficou comigo até agora.
— Tio Steven, eu posso ir brincar no balanço?
— Pode.
Susie desde que chegamos estava brincando no parquinho de areia, ela fez um castelo mas logo pulou em cima dele para o destruir, as crianças de hoje estão tão violentas.
— Seu irmão fez você cuidar da sua sobrinha ou você tá aqui por vontade própria?
Olhei para o lado e um homem cercado de bolsa de criança me perguntou.
— Um pouco dos dois.
— Entendi.
— Você tá aqui com os filhos do seu irmão?
— Que nada, todos são meus. Aquele ali se pendurando de cabeça para baixo, aquele ali se balançando em pé e os gêmeos ali na areia também.
Corri meus olhos pelo parquinho e vi as crianças.
— Eles parecem com você.
— Obrigado, vou te contar uma coisa, o segredo com as crianças e deixar elas livres.
— Como assim?
— Minha mulher queria que eu levasse nossos filhos todo domingo ao parque, para não ficar surtado como ela aprendi que tenho que deixar elas livres, fazendo tudo o que quiser.
Assenti para o estranho que parecia se achar o dono de toda verdade, fiquei observando como os filhos dele estavam livres, os gêmeos estavam comendo areia e ele parecia nem estar se importando, estava até achando divertido. Voltei a olhar para Susie, agora fico feliz dela ter saído da areia, olhei para o balanço e nenhum sinal dela no balanço. Levantei apressado indo para mais perto do balanço, eu não fiquei nem cinco segundos olhando para outro lado, e agora Susie sumiu. Eu vou morrer.
Não havia nenhum sinal de Susie perto do balanço, ela só pode ser ninja nas horas vagas, como é que uma criança desaparece assim?!
Subi no banco mais próximo para ter uma visão melhor do parquinho e nenhum sinal dela. Peguei meu celular no bolso, precisava de ajuda, como fui tão burro em perder ela de vista?
— Alô?
Atendeu, até que enfim.
— Alex? É o Steven, lembra de mim?
— Como eu ia esquecer do meu mais novo amigo que pichou a casa do meu ex?
— Que bom, preciso saber quantos anos eu posso ficar preso por perder uma criança.
Alex pareceu se assustar do outro lado da linha.
— Como é que é?
— Eu perdi a filha do meu amigo.
Alex ficou um tempo em silencio.
— Steven respira, onde você está?
— Tô no parque no centro.
— Ai tem um posto de identificação, é um projeto da prefeitura para diminuir o número de pessoas perdidas, corre para lá agora.
— Obrigado, te mantenho informado.
Desliguei o telefone e o guardei no bolso, olhei para os lados procurando uma placa.
— Susie!
Gritei na esperança de que ela me ouvisse, eu não posso ter perdido ela assim, a Sadie e o Lars vão me matar!
Sai para procurar o posto do parquinho, mas quem eu achei foi Connie e Pedee, corri para me esconder atrás da cerca viva do parquinho, eles não podem me ver.
Olhei por meio dos galhos e folhas os dois juntos, Connie estava tão linda com aquele vestido, o cabelo dela está solto ele parece fazer uma dança em sincronia com o vento, me lembro da vez que ela cortou o cabelo quando criança os primeiros dias dela com o novo corte de cabelo eram magníficos. A primeira que vi ela estava se divertindo balançando o cabelo, ele fazia movimentos tão graciosos e aquele sorriso dela, ah que sorriso, parecia que o mundo havia parado para admirar aquela cena.
Meu coração como era de se esperar ficou descompensado só de observar a Connie. Pedee estava do mesmo jeito que sempre foi, um cara idiota com cabelo de batata frita.
Me abaixei um pouco mais, eu não posso sair daqui porque senão vou ter que enfrentar o casal perfeito, mas eu tenho que achar a Susie. Voltei a olhar para o casal perfeito e quem resolveu aparecer na frente deles? A Susie! Essa menina está querendo testar meu coração, só pode.
E agora o que eu faço? Não posso chegar lá e simplesmente puxar ela para ir embora, é obvio que os dois irão olhar para mim e o idiota do Pedee vai falar comigo só pra se mostrar superior. Olhei para Connie e ela estava sorrindo, Pedee estava abaixado amarrando os sapatos, Susie estava encarando os dois parados e dava pequenas olhadas para onde eu estava, será que ela já havia me visto? Pedee se levantou e olhou para ela, ele seguiu o olhar dela e caminhou na minha direção. Droga, ele vai me ver. Deitei no chão e me arrastei pelo chão, me senti como um soldado na guerra que se arrasta para atirar no inimigo.
— Vamos Pedee, ainda temos que comprar as coisas para levar para casa dos meus pais.
Connie chamou Pedee e vi os pés dele se afastando, suspirei aliviado e voltei a sentar, olhei para os lados para ver os dois se afastando, procurei Susie e ela não estava mais ali, voltei a ficar desesperado, perdi ela de novo!
— Tio Steven, porque você tá escondido?
Pulei me afastando para o lado de susto, meu coração estava acelerado. Susie olhava para mim com uma expressão confusa.
— Susie, você apareceu! Nunca mais faça isso de novo, eu quase morri aqui, sabia?
Abracei Susie.
— Eu vi a minha amiga Carol ai fui mostrar a ela minha boneca nova.
— Me avisa da próxima vez, tá bom?
Ela concordou com a cabeça.
— Mas tio Steven, porque você tá aqui escondido e porque sua camisa tá suja de terra?
Olhei para Susie e ela estava com uma expressão mais confusa ainda.
— Porque...porque eu estava brincando de pique esconde.
— Com quem?
— Sozinho, você não estava aqui para brincar comigo então tive que brincar sozinho.
Ela pareceu ficar pensativa um pouco.
— Sei... então vamos brincar agora.
— Não, você já se escondeu muito por hoje, vamos tomar um sorvete?
Ela pulou de alegria e me deu a mão para tentar me ajudar a levantar, quanto mais ela me puxava mais ela deslizava com os pés e eu ria.
— Tio Steven, seu cabelo tá cheio de folha.
Passei a mão no cabelo sacudindo para me livrar das folhas, segurei a mão de Susie e fomos para a sorveteria que ficava próxima ao parque. Susie me pediu para montar o sorvete dela, ela só queria chocolate com bastante bolinhas coloridas. Eu peguei também só chocolate.
— Eu adoro essas bolinhas coloridas, são tão lindas!
Susie falou admirando a pilha de sorvete que tinha tanta bolinhas coloridas que mal dava para ver o chocolate. Olhei para meu relógio e estava chegando a hora do almoço.
— Uma verdadeira montanha isso ai. — Falei apontando para o sorvete dela, ela deu uma olhada para a montanha e sorriu satisfeita. — Você sabe cozinhar?
— Não, minha mamãe que cozinha para mim.
Ela falou enquanto colocava mais uma generosa colher de sorvete na boca.
— Entendi, eu também não sei, acho que a Pérola não está no templo para fazer o almoço, o que você quer comer?
Susie bateu a colher um pouco na boca, parecia estar pensativa.
— Sorvete!
— Isso não pode ser o almoço.
— Pizza e sorvete.
Até que pizza não iria ser tão ruim.
— Pizza como almoço e sorvete como sobremesa?
Ela jogou os braços para cima feliz, estava claro que em casa ela não tinha esse tipo de liberdade, imagino como Sadie deve ser tão certinha com ela.
Depois que o sorvete chegou ao fim, fomos para o pizza peixe cozido, desde que voltei essa é a primeira vez que venho aqui. A pizzaria não estava tão cheia, vi Ronaldo sentado em uma mesa, ele continuava do mesmo jeito só que agora tinha uma barba tão estranha quanto ele.
— Steven? Não acredito que é você mesmo.
Ele me viu e veio na minha direção, deu pequenos tapas nas minhas costas.
— Oi Ronaldo.
— Pensei que nunca mais fosse te ver, fiquei sabendo que você voltou mas não tive tempo de ir te visitar.
— Ando um pouco ocupado também.
— Alguma coisa misteriosa do espaço?
— Quase isso...
— Tenho que postar isso no meu blog.
Ele voltou para a mesa e começou a escrever no notebook dele, olhei para Susie que estava segurando minha perna, ela olhou para mim e fez sinal falando que o Ronaldo era louco, não aguentei e tive que rir.
— Ele continua o mesmo Steven.
Olhei para trás e vi Kiki apoiada no balcão.
— Oi Kiki, como você está?
Abracei Kiki e ela foi em direção da mesa do Ronaldo.
— Quer mais alguma coisa, querido?
Querido? Como assim querido? Até onde eu lembro ela não chamava ele assim.
— Não, baby.
Agora ficou mais estranho ainda. Perdi muita coisa nesses anos que fiquei fora. Os dois olharam para mim e riram.
— Steven você deve estar meio confuso, nós somos noivos.
Agora tudo faz sentido, ou pelo menos quase tudo, não entendi ainda como os dois ficaram juntos.
— Nossa isso é tão legal, Parabéns!
— Você está convidado para o nosso casamento.
Kiki falou com um enorme sorriso.
— Acho que não é uma boa ideia, eu e o Pedee não estamos nos dando bem.
Falei um pouco sem graça, Ronaldo balançou a cabeça negativamente.
— Esquece o Pedee, ele tá dando tanto trabalho para o meu pai que nem parece mais meu irmão.
Ronaldo estava com uma voz triste, Susie puxou minha blusa e olhei para ela.
— Tio Steven, a pizza.
— Ah claro, Kiki nós queremos uma pizza grande para viagem.
Falei olhando para Kiki que estava sorrindo para Susie.
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