Quando estava me arrumando decidi que era hora de mostrar meu lado vaidoso. Afinal de tudo, ainda sou uma menina como qualquer outra. Abri meu armário, e peguei minha calça de couro que não via a séculos. Botei uma blusa branca. Me maquiei e escovei o meu cabelo. Pode parecer simples para uma menina, mas me desculpe, quase não faço ideia de como me ajeitar para ir.

Terminei de me ajeitar e a próxima etapa era só esperar Clark. Tudo de ruim passava pela minha cabeça como: “Será que ele vai vir? ” “Será que a namorada dele saiu do pé dele e finalmente deixou eu sair sozinha com meu melhor amigo? ”.

O nervosismo me tomava, sentia um frio na barriga.

E então a campainha toca, era Clark. Me olho pela última vez no espelho e desço as escadas correndo como uma louca gritando para minha mãe que já estava de saída. Abro a porta e me deparo com Clark e sua namorada dentro do carro olhando. Ele estava lindo, estava perfeito.

– Oi Clark. Você está bonito.

– Obrigado Rachel. Você está linda. — Sorri. Mas no fundo adoraria abraça-lo e sei que ele também.

Durante a ida foi tudo normal, mentira. Angel não deu uma palavra se quer, acredito que tenha sido pela minha presença.

Chegamos na festa e estava tudo normal. Andava desconfiada pelos cantos e sempre achando que poderia ter algo contra mim a qualquer momento. Mas o tempo passava e acabei me enganando. Alisson realmente amadureceu?

Decidi não me preocupar com coisas supostas que poderiam acontecer. E então, voltei minhas atenções para Clark, que estava com a Angel. O que me fez refletir um pouco sobre guardar sentimentos para si. A verdade é que o amo. A três anos ele foi o melhor amigo que alguém poderia ter. Então eu estava decidida. Iria falar para ele simplesmente tudo. Iria abrir o jogo.

– Clark?

– Oi Rachel eu estava procurando vo... — Angel o puxou para dançar e eu fiquei ali na espera dele voltar e me escutar. Mas não, ele não voltou.

Sabe, quando a gente gosta de alguém, passamos por muita coisa que nos fazem refletir muito sobre aquilo que estamos sentindo. E até mesmo chegamos a conclusão de que devemos desistir daquilo que amamos de verdade. Enxergamos coisas que não existem. Mas eu sabia que o fato do Clark não me amar tanto como o amo, existia. Eu estava acabada. E acabei chegando a essa conclusão. Decidi mudar. Sair de si. Parar de perder meu tempo por alguém que já ama outra pessoa.

Virei-me em direção as bebidas, e então comecei a beber. Era forte. Minha garganta ardia. Sim, era a primeira vez que eu estava bebendo, juro.

Eu havia perdido a noção do ridículo, bebi muito. Já não sabia mais o que estava acontecendo, eu só queria falar a alguém o quanto eu estava triste. Alisson conversava comigo, e eu não entendia muito o que ela queria. Ela apenas ria, e enchia a próxima dose. Então eu desabafei para Alisson, falei tudo.

Por um segundo vi que Alisson não estava mas lá e sim nas escadas com o microfone pedindo atenção. Ela falava e falava. Quando percebi que ela apontou para mim.

Depois dessa cena, não lembro muita coisa. Lembrei que a namorada de Clark não estava mais com ele e que ele me ajudou a entrar no carro. Lembro de suas expressões, estava bravo. E ao mesmo tempo, sensibilizado com minha situação.

Sem que eu percebesse, cai na direção de Clark. Então ele decidiu parar o carro e me fazer ir para o banco de trás

– Vem Rachel, aqui está estranho... você precisa vir logo — Falou Clark entrando em desespero, sempre soube que Clark tinha medo de coisas sobrenaturais, pois sempre que íamos assistir filmes de terror, ele mudava de assunto e acabávamos na comédia.

– Agora não Clark.

– Rachel é sério, com você nessa situação vamos acabar batendo o carro. Então decidi me entregar e fui para o banco de trás, onde tinha revistas e latinhas de refrigerantes secas, que pelo estado pareciam está ali há séculos. O efeito do álcool já estava passando, o que me fez perceber que Clark ainda não havia voltado para o carro.

– Clark! Vem logo, eu to exausta, e aqui está muito estranho. — Falei com voz sonolenta tentando parecer sóbria. Vi que minha chamada "desesperada" não resolveu, então decidi me levantar e olhar pela janela o que ele estava aprontando, o que me preocupou muito, porque ele não estava lá. Resolvi descer do carro.

– Clark? Clark? — Falei já saindo do carro, quando vi uma sombra passando em frente ao farol do carro.

– Clark? É você? Quando me dei conta, havia uma blusa em cima do parabrisa, então me aproximei e peguei a blusa quando percebi que era de clark, a mesma que ele estava usando na festa. Estava ficando muito estranho ali, quando...

– Buuh!!- fez Clark na tentativa de me assustar, o que me deixou realmente assustada.

– Que droga Clark, você me assustou, idiota!

Enquanto estava se matando de rir ele disse:

– Vamos para casa Rachel, sua mãe vai ficar preocupada.

– Mas é claro que não, olhe meu estado, ela não pode me ver assim.- disse entrando no banco da frente do carro.

– Ah, que nada! Você conseguiu até raciocinar como sair do carro — Disse ele em um tom de deboche.

– Vamos para sua casa e pronto.- Eu disse brava.

Quando me toquei que Angel não estava com ele desde que fomos embora da festa.

– Clark? Onde está Angel?

– Rachel, a gente precisa conversar outra hora — ele disse.

– Não Clark, eu preciso saber de tudo agora. Eu fiz algo?

– Não. Mas Alisson contou na frente de todos que você havia contado a ela que estava gostando de mim. Angel ficou irritada com aquilo. Não soube como agir, vi sua expressão, senti-me um pouco inútil e a Angel não se calava um instante. Acabei me estressando, e fiz o que devia ser feito a muito tempo.

Era o que eu estava pensando? Eles terminaram? Eu sabia o quanto Clark gostava dela, mas sabia o quanto ela prendia ele. E ele não gostava, eles brigavam muito. Clark nunca me falava os motivos. Na verdade, Clark era meu melhor amigo, e eu não sabia muito sobre sua vida. Eu me preocupei com o que ele estava sentindo no momento. Mas fiquei aliviada por ela ter saído do nosso caminho.

– Chegamos. — Disse Clark.

Estávamos saindo do elevador quando me deu uma tontura e quase cai. Clark me pegou no colo:

– Vem deixa eu te ajudar

– Nossa, não estava vendo a hora de me deitar em uma cama.

– Cama? Não senhorita, você dorme no sofá, eu fico com a cama.- disse ele sorrindo.

– Abre logo a porta.

Ele me colocou no chão e assim que entramos, percebi que a casa de Clark era cheia de lembranças, então fiz uma série de perguntas a ele.

– Então Clark, você mora com seus pais?

– Não, eles me abandonaram em uma casa, duas cidades depois da casa deles quando eu era criança. — Disse ele pegando todas suas roupas espalhadas pelo quarto e uns papeis que estavam em cima de sua cama.

– Nossa, e que idade você tinha quando isso aconteceu? — Eu disse preocupada.

– 8 Anos... — vi que ele ficou impaciente, então decidi mudar de assunto.

– Então, é aqui onde vou dormir? — Perguntei olhando para a cama que estava um pouco desarrumada ainda.

– Claro, deixa só eu arrumar mais um pouco.- disse Clark indo em direção a cama.- eu não estava me sentindo muito bem por estar ali, algo me fazia sentir um pouco mal, não sei bem o que era.

Clark foi todo cuidadoso, o que não era de se esperar, já que na escola sempre deixou sua mochila no chão ou seus livros todos espalhados. Enquanto ele deixava o quarto um pouco mais à vontade, decidi tomar um banho pois estava cheirando a álcool e meu cabelo estava horrível. Perguntei a ele onde ficava o banheiro. Peguei minha bolsa, que sempre levo uma roupa reserva dentro, e fui para o banheiro. Vi que na pia haviam várias bulas de remédios, me preocupei com Clark, pois ele nunca me falava nada, e eu nunca havia perguntado se ele tinha algum problema ou que precisasse de tantos remédios. Decidi perguntar outra hora e fui para o banho.

– Rachel, já está tudo pronto, deixei os cobertores e ajeitei a cama. Vou para o sofá, se precisar de algo me avise. — Disse Clark indo para a sala com uma calça solta azul. Suas costas estavam bem fortes. Não sabia que seu corpo estava tão em forma. Então lembrei que estava de toalha olhando-o andar em direção ao sofá.

Quando sai do banho me dirigi a cama e fui logo dormir, mas não conseguia, fiquei tentando de todas as formas relaxar, mas não conseguia.

Clark passou pelo quarto e viu que eu estava um pouco desconfortável.

– Você está bem? Quer um remédio? Quer que eu fique aqui? — Sim. Não. Sim! Coitado, pelas bobagens que fiz ele ainda estava no meu pé se preocupando comigo. Resolvi deixa-lo dormir.

– Obrigado pela atenção Clark, mas não precisa...

Então ele beijou minha testa e saiu para a sala.

Passou o tempo e finalmente havia conseguido dormir, por volta de 4 horas da manhã, mas ouvi um barulho vindo do banheiro de Clark e fiquei olhando para ver se não era algum animal ou coisa desse tipo. Então, ouvi o barulho mais uma vez, era um barulho oco, de vidro caindo no chão, mas sem quebrar. Continuei a olhar, quando decidi me levantar para ver o que era, quando cheguei na porta me deparei com Clark parado em frente ao espelho.

– Clark? O que faz acordado a uma hora dessa? — Falei com preocupação. Mas ele não respondeu, apenas ficava parado em frente ao espelho.

– Clark? — Perguntei mais uma vez para saber se ele estava mesmo tendo um ataque de sonambulismo ou se estava acordado. Então decidi o levar para o sofá já que ele não respondia.

– Venha Clark, vamos para o sofá — Quando peguei em seu braço, ele segurou minha mão com muita força, e me encarou durante alguns segundos e voltou para o sofá, ainda calado. Fiquei um pouco amedrontada com aquela cena, mas logo voltei a dormir.