Por um dia
1 Por um dia
Notas iniciais
Parece até milagre eu escrever algo hetero, mas não é. Desde que assisti o episódio 251 eu não consigo tirar da cabeça que o Kisame teria feito um lindo par com aquela garota que teve a coragem de chamar ele para sair.
Não se sabe muito sobre ela, só que é corajosa e gentil, então eu tomei a liberdade de inventar algumas coisas.
Fanfic escrita para o desafio #NaMinhaMesaFNS com a frase "Será só por hoje, mas será com amor!"
Espero que gostem! Boa leitura!
A lua branca, escondida por entre pesadas nuvens cinzentas criava a sombra perfeita para homens como Kisame andarem sem o peso de seus pecados, pelo menos, era o que os velhos diziam. Para o espadachim, no entanto, a escuridão apenas servia para ocultar os rastros de sangue deixados pela lâmina de sua katana.
Era um trabalho sujo. Não importava quantas vezes ele se lavasse, o cheiro metálico do sangue de colegas, amigos e até mesmo familiares continuaria entranhado em seus poros, lembrando-o que não importava a desculpa, uma morte era sempre uma morte.
Apesar de possuir a desculpa perfeita, ele sabia bem disso e não diminuía os seus atos.
O mundo podia evoluir o quanto fosse que os humanos continuariam os mesmos, criando demônios para manterem guardados os segredos que eles deixavam escapar. Por falar em demônios, não bastasse Kisame agir feito tal, ele tinha a aparência de um deles.
Qualquer pessoa facilmente o confundiria com um tubarão; pele azulada, dentes afiados e olhos com pequeninas pupilas castanhas formavam parte de um conjunto capaz de assustar vilas inteiras. Ninguém seria capaz de amar uma besta, nem a ele seria permitido esse luxo, pois era um assassino.
Não até conhecer ela.
A beleza dela era comum, mas para Kisame, ela tinha o encanto de uma flor silvestre. Destemida, determinada, capaz de germinar no solo mais infértil. O tipo de pessoa que você se arrepende de conhecer, porque sabe o quanto será doloroso se livrar.
Ela não era exceção. Assim como os outros, a garota possuía informações importantes que não poderiam cair nas mãos inimigas. Um passo em falso e da mesma forma que um tubarão devorava suas crias, ele a mataria.
A missão era simples. Escoltá-la em segurança até a vila. Caso encontrasse alguma situação difícil, matá-la pelo bem dos dados. Algo que ela só saberia se necessário.
Talvez fosse por desconhecer o perigo que ela fosse tão atrevida.
— Hoshigaki-san, o que acha de sairmos para comer algo? — ela perguntou, com um sorriso doce indigno do monstro ao qual era destinado.
— Eu já disse para não tentar ser amigável comigo — Kisame respondeu pela terceira vez no dia. A moça era insistente.
O único lado bom de toda a missão era que ela durava um dia e estava no fim.
— Por favor, Hoshigaki-san. É fim de ano, devemos comemorar como companheiros.
Um argumento simplório. Não soava como pena, pois havia convicção. Havia bondade, inclusive desejo ali, mas ele não podia ceder. Ela era a flor que ele destruiria em um único toque, cujo perfume seria substituído pelo odor acre do líquido que corria em suas veias.
— Peço que não me considere o seu companheiro — ele contra-argumentou, desviando o olhar. Kisame não se considerava digno de tal título.
— Só por hoje. — A moça colocou-se à frente dele, determinada a insistir até receber uma resposta positiva — Não vai se arrepender.
Kisame fitou os olhos negros dela, sem encontrar qualquer traço de medo. Faltavam poucas horas para os sinos dos templos começarem as 108 badaladas do ano novo. Desobedecer ao protocolo uma vez não faria mal, faria? Bastava lancharem juntos em alguma pousada no caminho, a missão em momento algum sairia prejudicada.
— Tem uma pousada aqui perto — Kisame comentou. — Poderemos descansar até a virada do ano.
— É uma ótima ideia, Hoshigaki-san! — ela comentou em um tom moderado, mas ao mesmo tempo tão alegre que fez Kisame pensar ter feito algo bom pela primeira vez na vida.
O caminho até a pousada estava livre de perigos. O estabelecimento onde se hospedaram não tinha vista para nada em especial, mas daria para ouvir os sinos do templo ao sul de Kirigakure. O som viria abafado por causa das montanhas que rodeavam o fundo da vila. Para Kisame tanto fazia, audível ou não, nada limparia os pecados dele.
Se bem que as preocupações do espadachim viraram outras assim que, ao colocar os pés dentro do estabelecimento, sua “protegida” pediu um quarto de casal, no andar mais alto, para ter a vista das montanhas rodeadas pela névoa da vila. Eles estavam próximos do destino final, Kisame sabia que ainda não poderia se considerar vitorioso, muita coisa podia acontecer entre uma hora e outra.
Coisas como ele morrendo de vergonha por compartilhar um cômodo com uma mulher pela primeira vez na vida. As garotas não gostavam muito de caras com pele azul.
— Vamos, Hoshigaki-san. — A voz dela era doce e as mãos quando tocaram as dele quentes, macias como pétalas de flores. Ele quis apertá-las entre as suas mãos, mas logo lembrou-se que um assassino apenas contamina o que toca e ao imaginar aquela bela flor corrompida pelos caprichos dele, afastou-a de si.
— Mesmo como companheiros, você não precisa ser amigável comigo. — Repetir a mesma frase de maneiras diferentes e incontáveis não surtiu efeito uma única vez. Só serviu para a dar a ele uma falsa sensação de segurança por estar avisando do perigo.
— Não conheço um companheiro que não seja amigável com o outro.
Sempre direta. Sempre sem medo. Ela realmente não fazia ideia do perigo que corria estando ao lado dele.
— Depois não diga que eu não avisei — ele disse, mais para si do que para ela.
O quarto era até espaçoso, com uma grande janela por onde brancos feixes lunares entravam, iluminando o largo futon onde ele não dormiria em hipótese alguma.
Ela pediu chá e bolinhos de arroz. Dispensou o uso de mesa e sentou-se no chão, Kisame fez o mesmo, tendo o cuidado de deixar a katana bem ao lado dele, nunca se sabe quando iria precisar. Em um movimento ágil, ela retirou a bandana, deixando a longa franja de seu cabelo castanho cair sobre o rosto. Tentar se mostrar à vontade não era uma técnica que funcionava com Kisame.
— Hoshigaki-san, relaxe. — Sorriu, como sempre. — Pelo visto não costuma sair com ninguém.
— Não.
Kisame logo tratou de pegar o chá e beber um longo gole que desceu queimando a garganta. A dor nunca foi um problema para ele, pois era um dos meios mais confiáveis de apagar pensamentos errôneos. Se manter na linha, como alguns diriam.
Havia horas em que o silêncio mais atrapalhava do que ajudava. Aquela era uma delas. A falta de palavras deixava a mente vagar pelo mundo da linguagem corporal, dos lábios carnudos dela molhados pelo chá, das mechas castanhas a cobrir parte dos ombros esguios, recobertos pela blusa de gola preta e o casaco verde em forma de quimono. Kisame não era o tipo de ninja que se perdia em pensamentos fora da missão, era um homem fiel a seus ideais por mais podres que fossem.
Ela não fazia parte em nenhum dos ideais shinobis dele, mas ele a desejava naquele momento. Só um homem podre como ele poderia ter um desejo tão mesquinho, corromper a pessoa que mesmo ele não admitindo em palavras, já considerava uma companheira.
Seria doloroso matá-la e Kisame odiava isso. Ter uma fraqueza.
— Não vai comer? — ela perguntou, notando nele o olhar predador.
— Estou sem fome.
Comer o deixaria sonolento. Ninjas não dormiam em serviço.
— Acha que poderiam nos atacar aqui? — Ela sabia muito bem que sim, mas queria puxar assunto.
— Enquanto não estivermos na vila, poderemos ser atacados em qualquer lugar.
— Entendo — respondeu e retirou o casaco.
— Por favor, não aja como se estivesse em segurança — ele alertou. Os olhos atentos no movimento dela de ajeitar o cabelo atrás dos ombros. O olfato inebriado com o aroma doce que ela exalava. Um único gesto e ele agora sabia que ela lavava o cabelo com alecrim.
— Sinto muito, será só até eu terminar o chá. A bebida aquece o corpo.
Ela estava a testar os limites dele. Mulher depravada!
Desejos não passavam de caprichos fúteis para um shinobi, contudo faziam parte do ser humano. Menos dele, um tubarão, demônio, cujas presas arrancariam da bela mulher o seu bem mais precioso: a vida.
Bastava um passo em falso...
Um passo em falso para ele ter desejado ser humano ao menos uma vez para estar nos braços dela. Desfrutar do sabor adocicado daqueles lábios e possuí-la ali mesmo, sem medo de um dia levantar sua espada contra ela. De ter lembranças culposas de momentos que era melhor terem sido evitados.
Outro olhar, abaixo do rosto delicado e ele foi capaz de imaginar com riqueza de detalhes o contorno dos pequenos seios firmes por debaixo da grossa blusa. Era demais para ele.
— Irei ficar de vigia. Agradeço por lanchar comigo. — Ele já ia se levantar, quando ela o segurou.
— Mas o dia não acabou. Temos um acordo, Hoshigaki-san.
Mais uma vez a mão macia e fina encostou na dele. Havia desejo e ele era mútuo. Os dedos se entrelaçaram de leve.
— Hoshigaki-san eu... — As palavras vinham em um sussurro capaz de se perder ao vento. Havia tanta vergonha, amor e verdade contidos em seu peito arfante. Ela não precisava dizer nada. Kisame via tudo isso perfeitamente, como se eles tivessem algum tipo de conexão de via única, porque a recíproca não era verdadeira. Ele não era um espelho para ela e nunca seria — Eu sempre o admirei em segredo. Nunca compreendi o porquê de sua solidão.
Ele queria falar, mas não podia.
— Eu sinto muito, mas não sou digno de sua admiração — respondeu, os dedos começaram a se distanciar e ela o segurou ainda, com o mínimo de força. — Eu a mataria sem pensar duas vezes, membro da Inteligência.
Os olhos dela se arregalaram, mas não por medo, e sim, por tristeza.
— Que vida terrível... — o comentário fraco, acompanhado por um fraco sorriso foi sentido como um soco que ele ignorou. — Mas deixe que... Ao menos hoje, eu deixe a sua vida um pouco menos triste. Escute os sinos comigo, por favor.
— Tudo bem.
Era o mínimo que ele podia fazer por ela e por si mesmo. Kisame se aproximou da janela e observou-a vestir novamente o casaco, prendendo-o com uma faixa negra, onde ela guardava todos os utensílios ninjas. Um sinal de respeito, o qual ele apreciou.
Ela se aproximou em silêncio e sentou-se de costas para ele. O pequeno corpo recostado no dele, fez Kisame sentir seu coração aquecer. Ele detestava aquela sensação, o tornava humano demais para aguentar as mentiras de um mundo que o odiava.
Mas ao menos por um dia ele se deixaria levar por aquela fraqueza. Por ela, Kisame ignoraria ser um assassino.
A primeira badalada soou fraca e baixa como o esperado. Ela fechou os olhos e Kisame virou o rosto na direção dela, sem, no entanto, conseguir vislumbrar o rosto sereno.
— Qual o seu nome? — ele perguntou na quinta badalada.
— Chika — ela respondeu, ainda de olhos fechados.
— Eu me lembrarei do seu nome.
— Obrigada — ele não viu, mas duas pequenas lágrimas desceram pelas bochechas dela.
Ela não chorava por um amor não correspondido, chorava por ele que nunca se considerou digno de coisa alguma.
Geralmente, Kisame usava a memória para guardar nome de adversários excepcionais. Estava no sangue dele a sede por lutas, o prazer que aquilo lhe proporcionava era indescritível.
Só que mesmo no coração dos monstros havia espaço para guardar o nome de uma única flor.
Notas finais
Desculpa pelo angst excessivo, segui o fluxo da escrita. Kkk
Beijos!
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