Por trás de Frozen
17 Capítulo 16 - O castelo do gélido coração
Notas iniciais
POV ANNA
— Vamos lá, Sven! Congele o coração!
— Por amor!
— Congelado por temor! Continua, Olaf!
— Belo e ameaçadooooooooooooooo…
— Ok, calma, não precisa se empolgar, não estamos falando do verão…
— ... ooooooor! Quebre o gelo entããããã…
— ÃO! — Kristoff interrompe a cantoria infinita de Olaf. - Do gélido coração…
Kristoff, Sven e Olaf terminam a música em um coro baixo e sinistro.
Tudo o que eu consigo ouvir é a repetição das palavras “gélido coração”, que parecem me deixar ainda mais nervosa. Eu nem consegui cantar — e todos sabem que adoro cantar — enquanto Kristoff e Sven ensinavam a música a Olaf.
Meus lábios estão até machucados de tanto que os mordi e ainda bem que já estou acostumada com o fato das minhas mãos ficarem trêmulas o tempo todo por causa do frio.
Eu sei que espero meu reencontro com a Elsa com todas as minhas forças desde que ela fugiu, e o imaginei de mil maneiras. Mas 998 terminam com ela fechando a porta na minha cara. Uma parte de mim se pergunta sem parar: e se ela não abrir a porta?
E essa missão não é importante apenas pelo fato de eu ter o dever de descongelar Arendelle, trazer de volta a Rainha deles e salvar o negócio de gelo do Kristoff. Se trata, também, de eu recuperar minha irmã. Se trata de eu conseguir salvá-la do próprio medo. Mostrar a ela que pode ser feliz. Que não precisa se preocupar mais, que sempre estarei com ela, que a minha fé e meu amor por ela são muito maiores que o seu medo de si mesma.
Todos esses pensamentos colocam um peso enorme nas minhas costas, mas não maior que eu saber que Elsa precisa de mim, e que meu amor é grande o suficiente para me levar até ela. E o amor dela é grande o suficiente para que ouça o que eu tenho a dizer e para que não me machuque. É só ela ouvir. Eu sei que, quando ela me ouvir, ela vai entender, e as coisas vão se resolver.
Eu prometo, Elsa.
— Anna, algo errado? — Olaf me pergunta. — Você me parece tãão quietinha… E eu sei que você é muito alegre e adora cantar.
Franzo a sobrancelha, mas não posso deixar de sorrir. Não sei o motivo, mas sempre que Olaf me olha ou fala comigo eu me sinto um pouco mais... reconfortada. Me faz me sentir como quando era criança e brincava com ele e com Elsa no Grande Salão. Lembrei-me dele logo que seus grandes olhos de boneco de neve me encararam cheios de expectativa e, desde então, parece que tive ainda mais certeza de que a Elsa não pode continuar sozinha e precisa de uma demonstração de amor que ela nunca se permitiu ter.
E Olaf me é tão familiar. Ele é… É a única coisa que restou da época boa da minha vida. É o único em que posso me apegar, é o único que sobreviveu, já que… Já que meus pais morreram. Já que aquela Elsa, feliz e brincalhona, não existe mais. E nem aquela Anna.
Meus olhos começam a ficar cheios de lágrimas, e mordo a boca mais uma vez, tentando me controlar.
Calma, Anna. É justamente isso que você está indo recuperar. Aquela Elsa e aquela Anna. Olaf é uma prova de que isso é possível.
Sorrio.
— Obrigada pela preocupação, Olaf. É só que… — faço carinho nos galhos que formam o cabelo dele, como fazia quando era pequena. — Eu estou ansiosa para recuperar minha irmã e trazer o verão de volta.
— Se eu fosse você, eu daria o maior abraço quentinho de toooooodos os tempos na Elsa! — ele diz, e seus olhos brilhantes me contagiam.
Sou tão grata a todos por me acompanharem nessa aventura. Às vezes, me lembro das ondas de pânico que tentaram me atingir enquanto deitava em uma caverna cheia de neve para dormir, pois não havia condições de continuar a viagem naquela nevasca durante a noite, mesmo que tivesse um cavalo. Com essas pessoas queridas – bem, não exatamente pessoas já que, praticamente, somos dois humanos, uma rena e um boneco de neve falante -, o peso parece dividido.
De vez em quando sorrio para eles, agradecendo por não desistirem de mim, mas apenas Sven e Olaf sorriem de volta, já que parece que Kristoff nunca olha diretamente para mim e está sempre assoviando distraído quando envio esse sorriso — não sei o motivo, eu sempre gostei do meu sorriso. Vou trabalhar para melhorar isso. Poxa, eu fiquei tantos anos em frente ao espelho conversando comigo e treinando meu sorriso. Tinha medo de esquecer como conversar com pessoas sem ser a Joana, o Ludvig, a Gerda e a porta da Elsa. Então, treinava comigo.
Paramos para descansar de vez em quando, mas não muito, para aproveitarmos a luz do dia. Tento puxar papo com o Kristoff e melhorar o meu sorriso, mas ele responde apenas com grunhidos e chutando a neve, como se estivesse inconformado com alguma coisa. Decido então falar com o Sven, que é mais expressivo. Já devemos estar perto do meio do dia e nada de Elsa.
Entretanto, toda e qualquer tentativa de acabar com meu ânimo eu transformo em energia, procurando por sinais de que Elsa possa estar perto. O único é que a corrente de vento parece tornar-se mais gelada e mais forte quanto mais nos aproximamos do caminho que Olaf indicou.
Nossa procura acaba quando chegamos em um lugar com várias colunas gigantes de neve, todas com várias pontas afiadas apontadas em nossa direção, como uma flor cheia de espinhos. O sol fraco bate nos gelos pontiagudos e mal conseguimos ver sua ameaça, mas ela continua lá.
Algo me diz que estamos chegando ao nosso destino.
A cena cheia de gelo em formato assustador não é muito agradável de se ver, mas o pensamento de que Elsa está por perto e de que esse pesadelo está prestes a acabar faz meu coração acelerar de ansiedade e alegria e corro para mais perto, ignorando completamente o perigo. Na verdade, eu não tenho medo, porque esse gelo mostra o medo que ela está sentindo e não o que realmente sente: a necessidade de alguém que mande o medo embora. E é isso que vou fazer lá. Isso. Essa é a minha missão, e não ter medo do medo dela.
Hm, acho que deu pra entender essa frase.
A certeza me faz suspirar, ansiosa para chegar onde está Elsa que, com certeza, influenciada pelo meu discurso infalível, vai acabar com esse inverno e seremos felizes para sempre. E darei nela o maior abraço quentinho de todos os tempos!
— E aí, como exatamente você tá pensando em acabar com esse inverno? – Kristoff pergunta, como se tivesse escutando os meus pensamentos.
Ah, então o bonitão (peraí, o quê?) resolveu falar, né? Ele foi frio comigo. Pois bem, também serei fria com ele.
O que é muito conveniente nessa situação, aliás.
— Ah, eu vou falar com a minha irmã. — respondo, com o nariz empinado.
Ele me encara como se não tivesse me escutado bem.
— Esse é o seu plano? Meu negócio de gelo depende da sua conversa com sua irmã?
Me magoa um pouco entender por essa frase que ele só está aqui pelo negócio de gelo, mas tento não demonstrar isso.
— Isso. – simples assim, caro Kristoff.
— E não tá com medo dela? – ele pergunta como se tivesse um pedaço de gelo perto de perfurar o seu rosto, o que é um exagero, claro. Elsa nunca faria isso.
— Por que eu estaria? – pergunto, certa das minhas convicções. Meu discurso foi tão bonito para mim mesma que é impossível ir contra ele.
— É! – Olaf concorda comigo. – Aposto que ela é a pessoa mais legal, calorosa e gentil que existe no mundo!
Enquanto fala, corpinho de neve de Olaf é espetado por uma das pontas afiadas do gelo, contrariando completamente o seu discurso. Kristoff parece um pouco... aterrorizado. Eu só fico grata que ele seja feito de neve.
— Ah, olha só! Espetinho de Olaf! – e ri.
A risada dele me faz me acalmar e rio junto. Tudo bem! Essas coisas acontecem. Quem nunca teve o corpo perfurado por gelo? Pff! Aposto que até Hans já teve e...
Meus pensamentos são interrompidos quando vejo Kristoff parado a minha frente, pensativo (novidade).
— O que foi agora? – pergunto.
Chegamos em frente a uma grande montanha íngreme, e não há outra forma de continuar sem ser escalá-la. E, logicamente, isso não é problema — já escalei tantas vezes as paredes do castelo que nem consigo contar, e tenho certeza de poderia, tranquilamente, ser acrobata profissional.
Respiro fundo, me concentrando, e me aproximo da parede montanhosa.
— Hmm... É muito íngreme. – Kristoff constata, me ignorando (de novo). – Eu só tenho uma corda e você não sabe escalar.
Coloco minhas mãos e pés em posição e começo a escalar, o ignorando (há!). Lá no fundo, estou louca para jogar na cara dele não sou aquela princesinha indefesa e que posso muito bem escalar uma montanha.
— Quem disse?! — revido, virando meu rosto na direção dele para ver seu olhar de surpresa.
Mas ele me encara como se eu fosse louca e estivesse fazendo algo estúpido. Um olhar parecidíssimo como o que Elsa me deu quando pedi sua bênção para me casar com Hans.
POR QUE TODO MUNDO ME LANÇA ESSE OLHAR?!
— O que está fazendo...?
— Eu... – a raiva que sinto dessas caretas dele me dá ainda mais força para continuar. Solto um bafo de ar que consigo ver a minha frente devido ao frio e ao esforço que estou fazendo. É, eu admito que era muito mais fácil subir na sala dos quadros, que tem um sofá para me ajudar a pular alto e alguns ganchos para me apoiar. Aqui, há muitas irregularidades e pedregulhos que me atrapalham, e minha roupa pesada não me ajuda em nada. – Tô indo... – outra respirada funda. – Ver... Ugh.– os machucados que fiz enquanto fugíamos dos lobos começam a latejar com força e meus braços já doem com o esforço. Seja forte, Anna.— A minha... Argh. – fecho a cara, me concentrando na subida e não em minhas dores. — ... Irmã!
— Você vai acabar se matando. – ele diz, como se fosse uma coisa óbvia. A raiva borbulha e sinto vontade de tacar uma das pedras que estão machucando meus dedos nele. – Eu não colocaria meu pé aí.
Influenciada pelo discurso dele (com certeza foi isso porque, como já disse, eu sou uma ótima escaladora), meu pé escorrega e quase caio, e coloco toda a força nos meus braços para não cair. Esfregar a cara enquanto cai nessas pedras não deve ser nada agradável.
— Tá me distraindo. – reclamo. Quase me arrependo de ter pensado que estava muito feliz em tê-lo conhecido e tê-lo como companheiro nessa viagem. E de quase ter perdoado ele por estar me ignorando nas últimas horas.
— E nem aí. – ele completa e escorrego novamente, meus braços não aguentando mais o esforço. Mordo a boca para compensar a dor. – Como sabe que a Elsa quer ver você? – continua, com o tom de voz irônico.
ARGH. Se ele não concorda com minha missão, por que me acompanhou até aqui? Pra chegar uma certa hora, depois de tudo o que passamos juntos, e começar a jogar um monte de perguntas na minha cara que demonstram os problemas que podem surgir quando eu for conversar com a Elsa? Eu preferiria que ele continuasse calado a ter que ouvir tudo isso.
Decido não responder essas perguntas, já que ele não merece, e também porque não me respondeu quando conversei com ele.
— Tá, eu vou... – uma mão minha escorrega. – Vou ignorar você porque... – um pé. – Porque eu tenho que me concentrar aqui.
Perco o equilíbrio novamente e coloco tanta força em uma perna para que sustente meu corpo que sinto meus músculos se retesarem.
— Muitas pessoas que desaparecem nas montanhas querem ficar sozinhas. – continua.
Não consigo formular pensamentos muito bem porque ou eu escalo aqui ou tenho que responder ao senhor-das-renas-sabe-tudo-mas-não-responde-nada.
— Ninguém quer ficar sozinho. – é o que respondo, brava. – Quem sabe você.
Jogo na cara dele na forma de uma pergunta: por que veio se está indiferente?! Eu contei tudo pra ele, sobre minha infância, sobre Elsa ser importante para mim. Pelo amor de Deus, ela é minha irmã! Agora fica aí cheio de dúvidas? Era isso que ele estava pensando tanto? O quanto foi estúpido se arriscando com uma menina sem noção? Então por que não vai embora?
— Eu não tô sozinho. – ele fala, orgulhoso. – Eu tenho amigos, esqueceu?
Amigos. Pff! Não devem aguentar nem o perfume de rena dele!
— Ugh… Ai. Fala dos… — acho que já escalei tanto que a dor que sinto nos meus membros é como se estivesse escalando há dias. — … especialistas em amor?
— É. Dos especialistas em amor.
Bem, tenho mais para me preocupar do que os amiguinhos especialistas em amor dele, como tentar não cair desta montanha — eu devo estar tão alto que a queda seria mortal — e tentar ignorar meu corpo suplicando por descanso.
Por sorte, consigo apoiar meu pé esquerdo em uma protuberância da montanha e deixo-o descansar por alguns segundos. Ele lateja tanto que respiro fundo, na tentativa inútil de amainar a dor.
— Por favor, me fala que eu tô quase lá. — Faço esforço para minha voz sair, e respiro com certa dificuldade. — O ar não parece meio rarefeito aqui?
Olho para baixo e percebo, não sem certa pontada de decepção, que o chão está muito próximo de mim ainda.
Hunf. Tinha certeza que minha condição física era bem melhor do que isso. Foi Kristoff que me distraiu, com certeza.
— Hum. — Kristoff parece sorrir baixo. — Aguenta aí.
Me recuso a mostrar que ele estava certo sobre eu não ser uma excelente escaladora, então continuo respirando fundo para pegar mais força para continuar subindo.
— Ô, Sven! — Olaf grita, e percebo que sua voz está um pouco longe. — Eu não sei se isso vai resolver o problema, mas eu achei uma escada que leva exatamente para onde vocês querem ir.
— HAHA, legal! — meus músculos e meus pulmões cantam de alegria, e o alívio instantâneo me faz relaxar um pouco. Se Kristoff tirou sarro de mim por estar cansada, ele que aguente todo o peso do meu corpo agora. — Me pega! — grito, e me lanço com força nele para me vingar.
Ele me pega como se eu fosse um saco de penas, mas meu corpo se sente tão aliviado de estar fora daquela escalada que apenas me sinto grata por ele me pegar com tanto cuidado.
Então, sorrio para ele, perdoando-o um pouco por sua indiferença. Afinal, esse cuidado mostra que não é tão indiferente assim.
O pensamento faz com que uma estranha sensação de alívio e alegria percorram meu corpo, e meus músculos já não parecem tão pesados.
Não tenho certeza se isso é normal.
Deve ser. Assim... Lógico que sim.
— Valeu! — digo, tanto tapinhas no ombro dele, tentando distrair a mim mesma. — Foi tipo aqueles exercícios malucos de confiança.
É. E foi mesmo.
Deixo ele e Sven para trás e corro atrás de Olaf, a adrenalina de estar tão perto de Elsa — é lógico que é disso, não é porque fiquei um pouco alterada por ter me jogado em Kristoff. Hm. Acho que essa frase não ficou muito boa. ENFIM — me fazendo seguir em frente com toda a força que resta do meu corpo.
Elsa usava essa técnica quando brincávamos de esconde-esconde. Ela montava algum obstáculo enorme para dificultar as coisas, mas ele era apenas uma distração; o caminho real era pequenininho e estreito como essa entrada que está nos levando até um dos cenários mais lindos que já vi – correção, que já li, já que posso contar nos dedos as vezes que saí de casa.
É... tão linda, tão cheia de poder, tão grandiosa!
Uma escada enorme e delicada feita de gelo está à nossa frente, ligando o penhasco ao da frente. Na montanha que está do outro lado, o mais incrível e imponente castelo de gelo se destaca no pico. A porta dele é imensa, com um desenho de um coração, e colunas estrondosas seguram a torre central do castelo, que se abre em um deque cheio de desenhos magníficos.
— Puxa. — é o que consigo dizer, ante tanta beleza e poder.
O castelo digno de uma Rainha do gelo.
Não restam dúvidas de que Elsa está aí dentro. Quem diria? Tantos anos escondida em um quartinho e foi escolher morar em um super castelo.
Bem, quem não ia querer morar aí?
Logo penso em Kristoff, que completa meu pensamento e diz, com a voz embargada de emoção:
— Nunca vi… gelo assim. Vou chorar.
— Pode chorar. Não conto pra ninguém.
Me aproximo, andando vagarosamente enquanto absorvo todos os detalhes dessa obra de arte. Ao olhar o castelo, sinto orgulho da minha irmã por construir algo tão lindo. Ele não possui nenhuma estalactite ou superfícies pontiagudas como o jardim — se é que podemos chamar aquilo de jardim. É liso, lindo, puro. Assim como Elsa por baixo de todo aquele medo. A grandeza e poder dele representam a irmã que vim resgatar.
Começo a subir as escadas devagar, passando as mãos pelos corrimãos delicados que me levarão até a ela. Percebo, enquanto subo, que o vento e o frio não estão tão fortes aqui quanto perto da montanha. Minha esperança está quase atingindo 100% da sua capacidade, e não consigo parar de sorrir.
Então olho cima e a vejo lá, esperando por mim, fechada como sempre.
A porta.
O gelo do lugar parece finalmente me envolver e sinto meu estômago gelar de medo. Qualquer borboleta que já estivera flutuando nele congelou.
Fico em frente à porta, minhas mãos tremendo mais do que nunca, como quando fui bater no quarto de Elsa quando nossos pais morreram.
Minha respiração fica rápida.
A porta não vai abrir. Por que ela iria abrir?
Não! Eu não vou deixar uma porta ficar entre Elsa e eu de novo.
Me aproximo ainda mais e levanto a mão para bater.
— Bate. — Olaf me encoraja.
Eu não consigo.
Quanto mais encaro a porta, mais minha coragem se esvai. Ela é tão mais imponente que a do quarto. Tão mais frívola.
Minha mão fica estendida no ar, trêmula, e meu coração bate tão rápido que não sei como não saiu do meu corpo ainda.
— É só bater. — Olaf continua.
Se ela não abriu a porta para mim antes, por que abriria agora?
Será que eu aguento ela me ignorar de novo?
A porta possui maçanetas. Por que ela colocaria maçanetas se a intenção não fosse abri-la?
“Gélido coração”... A palavra parece me englobar no desespero e solidão que eu sentia quando Elsa me ignorava.
Me sinto uma criança novamente, implorando por um pouco de atenção. Por um pouco de amor.
— Por que que ela não bate?
Preciso me acalmar.
Essa vez é diferente. Essa vez eu sei o motivo de ela não abrir a porta.
É por medo. E eu vim para acabar com esse medo.
Qual aquela frase da música mesmo?
— Será que ela sabe bater…?
“Quebre o gelo então… Do gélido coração!”
Respiro fundo e reúno toda a minha coragem e amor para quebrar o gelo. Para quebrar o gelo do medo – o meu e o de Elsa.
Minha mão, finalmente, vai para frente e bato três vezes na porta.
Meu coração parece explodir na espera do que vai acontecer em seguida, até que minha teoria se prova correta.
POV ELSA
Eu sou Elsa. Ex-Rainha de Arendelle. Atual Rainha do gelo.
Eu controlo melhor os meus poderes. Eu sei quando eles se manifestam. Meu corpo, meus sentimentos e meus poderes ainda se encontram em um aglomerado de nós, mas que estão se desfazendo aos poucos.
Meu vestido azul-claro e minha trança despojada simbolizam a liberdade, já que meus coques e vestidos justos me faziam me sentir presa.
Eu fugi de Anna para me proteger e para protegê-la. Somos irmãs, mas não nascemos para ficarmos juntas. Anna me machuca, fazendo-me me sentir culpada por fugir e por exigir de mim um amor que não posso dar; e eu a machuco, quase matando-a toda vez que a vejo – tanto psicológica quanto fisicamente.
Percebi que as lembranças boas com ela são apenas lembranças e não podem se tornar uma realidade. A realidade é que fazemos mal uma a outra, e a distância é a única solução para este problema.
Entretanto, não consigo me livrar da sensação de incompletude, de que algo está faltando em mim. Mas não tenho certeza do que seria capaz de fazer para que ela fique longe de mim.
Estou treinando meus poderes para que possa seguir uma nova vida como Rainha do gelo, que sempre foi e será minha verdadeira função.
Termino de repassar, mais uma vez, os acontecimentos desses dias. Com tantos anos calculando cada movimento, tenho que continuar fazendo isso para entender minha situação atual.
Neste caso, é: treinar os meus poderes o máximo possível; fugir de todos — e, principalmente de Anna — o máximo possível.
E, de repente, meu coração parece arder por um segundo. Foco todos os meus pensamentos nisso, pois sei o que significa.
Alguém interferiu em meus poderes. E interferiu fortemente.
Estou sentindo… Ah!
Coloco a mão no coração, pois ele está batendo tão forte que parece sair pela boca.
Isso não estava nos meus planos.
Olho-me no espelho do meu quarto, e fecho os olhos para não encarar meu rosto desesperado.
Mas, na verdade, tudo o que me aparece em mente são lembranças boas com Anna — nós brincando na neve, comendo chocolate -, juntamente com meu carinho por ela, meu desejo de protegê-la de mim mesma… Uma saudade tão forte da minha irmã!
Isso é tudo que me vem em mente e no meu coração. Saudades.
Saudades da Elsa que eu era. Saudades da Anna que eu conhecia, que não precisava implorar por meu amor. Saudades dos meus pais.
Se eu pudesse vê-la, pelo menos mais uma vez, para que ficasse orgulhosa de mim. Para que pudesse dizer a ela tudo o que quero...
Chega, Elsa! Você não pode pensar dessa maneira! De onde vieram esses pensamentos, pelo amor de Deus?! E como veio tão forte?!
EU BANI ESSA PARTE DE MIM! Eu bani meus pensamentos de Anna.
Eu preciso mantê-la longe!
Algo interferiu seriamente em meus poderes. Sinto as estalactites dos gelos em meu jardim se retraírem, sinto a tempestade ao redor do castelo parando aos poucos.
Sinto a porta...
Algo interferiu seriamente em mim.
Me dirijo até o saguão principal para entender o que está acontecendo.
POV OLAF
Oi, eu sou o Olaf, e gosto de abraços quentinhos!
Tudo bem, todo mundo já sabe disso.
Sinto um reboliço em minha cabeça e ela dói. Meus olhos desfocam de Anna e da porta e presto atenção em nas imagens que vem a minha mente: Elsa me criando e me dizendo que queria que trouxesse Anna.
Sorrio, feliz em ter conseguido cumprir seu desejo.
Na verdade, ainda falta a porta abrir.
Também sinto um reboliço no meu coração de neve, e todo o carinho e amor que sinto por Anna parecem ser compartilhados com a verdadeira dona deles: Elsa.
Essa é a recompensa por eu ter cumprido minha missão: a parte boa de Elsa — eu, hehehe — retornou à ela, e minha memória retornou a mim.
Como eu sei disso? Posso ser um boneco de neve com cérebro de neve, mas meus neurônios de neve funcionam muito bem, obrigado.
Mas ainda falta a porta abrir.
... Será que ela não sabe abrir?
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