Por trás das lentes
19 Capítulo 18
Notas iniciais
Oliver Queen
Sou acordado por gritos. Não apenas gritos... Gritos apavorantes, como os de alguém agonizando. Estão misturados com os soluços e engasgos de um choro descontrolado.
Felicity.
Sinto um estalo ao me dar conta, levantando num pulo e consultando o relógio: passava um pouco da meia noite. Corri rapidamente em direção ao quarto em frente, que era o dela, e abri a porta de uma vez, enquanto Barry, Sara e até mesmo Tommy convergiam para a frente do quarto.
— Oliver...- Sara puxa meu braço e sua expressão cansada indica que ela sabe o que está acontecendo.
— O que é isso? Por que ela está assim?- sussurro, com meus ouvidos sendo torturados por seus gritos e pelos trovões da chuva que ainda cai.
— É... complicado — é Barry que fala.
— O que você vai encontrar aí dentro — Sara aponta para o quarto — É a Felicity quebrada, danificada e no seu pior estado — ela fala devagar — Tem certeza de que consegue lidar com isso?- questiona.
— Deixe-me cuidar dela... — peço, baixinho — Qualquer coisa eu chamo vocês.
— O.k. — Sara assente — Cuide da nossa garota, Queen — dá um soquinho no meu braço.
Entro no quarto escuro, sendo iluminado momentaneamente pelos flashes dos relâmpagos. Não estava preparado para o que vejo.
Felicity está presa a um pesadelo. Não faço ideia do que é, mas pelos seus gritos desesperados e o choro sufocante, é terrivelmente assombrador.
Os lençóis estão revirados pela cama e, ao acender o abajur, a vejo fazer cortes em seus braços com as unhas, enquanto grita para que a soltem.
— Por favor... — ela soluça — Me solta! Por favor...Deixe-a ir, por favor! — ela esperneia, gritando e implorando — Maaaaaaaãe! — seu soluço parte meu coração.
Sem pensar duas vezes, a levanto, sentando-a na cama, ela ainda imersa no seu mundinho de terror. Sinto-a debater-se e, para evitar que ela se machuque ainda mais, simplesmente a abraço, apertando-a contra meu peito despido, já que estou apenas com as calças do pijama.
Felicity acorda aos poucos, ainda atordoada com o pesadelo, enquanto a embalo nervosamente. Ela me encara parecendo extremamente assustada. Seus olhos, agora verdes, estão arregalados, ela está doentiamente pálida e treme convulsivamente.
— Passou... — falo em seu ouvido, afagando seus cabelos, que estão uma desordem total — Acabou! O pesadelo acabou.
Ela continua confusa e, por instinto, me aperta ainda mais, cravando as unhas em meus ombros nus, me fazendo encolher com a ardência e a dor que se espalham pelo local.
— Por favor, não me deixa sozinha... se ele me encontrar... Deus! Ele a pegou... por minha causa — ela põe a mão sobre a boca, abafando um soluço profundo, enquanto balbucia coisas desconexas.
— Calma, por favor, fica calma! Eu não vou te deixar. Eu tô aqui, hein? Com você — massageio seu pescoço.
Estico minha mão até o frigobar ao lado da cama e pego uma garrafinha de água de dentro do mesmo.
— Toma aqui — ofereço à ela, mas ela não se mexe — Toma, vai. Você vai ficar mais calma — insisto.
Ela reluta mais um pouco até tomar a água. Depois, me entrega a garrafa, que recoloco no frigobar.
Puxo-a novamente para meus braços e me recosto na cabeceira da cama, apoiando sua cabeça em meu peito, deixando-a se acalmar, o que acontece aos poucos.
Depois de alguns minutos bem longos, o choro dela se acalma e ela parece desligar-se do pesadelo.
— Pronto... — massageio suas costas, lentamente — Melhorou?
— Mais ou menos... — sussurra contra meu peito — Estou só um pouco confusa.
— Se quiser posso passar a noite com você — ofereço, mesmo no fundo temendo sua rejeição.
— Eu... quero — ela solta o ar preso pela boca.
Assinto devagar e fico em silêncio, esperando que ela durma novamente.
— Vai conseguir dormir?- pergunto, após alguns minutos ao perceber seus olhos abertos enquanto ela traça pequenos círculos distraídos em meu abdômen.
— Estou tentando, é só que... — ela suspira e sua mão pára em cima de uma das minhas costelas — É difícil, sabe? As memórias, as imagens não param de repetir na minha cabeça e não dá pra pregar os olhos... simplesmente não dá! — bufa, frustrada e sinto gotas quentes, suas lágrimas, molharem meu peito.
— Felicity — chamo, depois que suas fungadas cessam.
— Sim?- ela murmura.
— Quem fez isso com você?- pergunto, baixinho, temendo sua resposta — Quem a quebrou desse jeito?
Ela respira tão fundo que temo que acabe com todo o ar do quarto. O clima pesa, instantaneamente.
Sinto-a se remexer em meus braços pedindo para sair, silenciosamente. Reluto em soltá-la, com medo de que ela se afaste de mim, mas ela apenas senta sobre os calcanhares na cama e pega seus óculos na mesa de cabeceira. observo seu rosto avermelhado e manchado pelo choro, seus cabelos levemente desgrenhados que ela prende em um coque desleixado e ao mesmo tempo adoravelmente sexy. Vejo seus lábios, inchados e cortados por seus dentes graças ao pesadelo e meu coração se aperta. Desço meu olhar e observo as marcas que suas unhas deixaram por seus braços, os riscos avermelhados e os vergões levemente arroxeados em sua pele alva e, mais do que apertar, meu coração dói com essa visão. Ela limpa a garganta e a encaro, curioso, também me sentando sobre os calcanhares de frente para ela.
— Oliver... — ela se encolhe e torce os dedos, claramente nervosa — Não sei bem o porquê mas confio em você — ela ajeita os óculos na face e me encara como se pudesse ler minha alma — Eu posso confiar em você? — questiona.
— Sim, você pode confiar em mim, Felicity — afirmo e pego uma de suas mãos nas minhas, acariciando suavemente.
— O.k. — ela fecha os olhos, brevemente — Provavelmente eu não vou conseguir te contar tudo o que há para saber agora... talvez nem tão cedo, mas eu vou tentar — ela suspira e me encara novamente, seus olhos lazúlis mais brilhantes do que nunca à fraca luz do abajur e sua voz irreconhecivelmente trêmula e melancólica, contrastando com a força da chuva e o barulho dos trovões lá fora.
— Eu te entendo, Loira — massageio o dorso de sua mão.
— Só uma coisa. Na verdade duas — ela sacode a cabeça ligeiramente ao divagar — Sem perguntas e sem interrupções, combinado?
— Sem perguntas e sem interrupções — assinto e ela dá um leve aperto entre nossas mãos, que me aquece por dentro.
— Tudo começou quando entrei na faculdade...- ela inicia, após tomar uma longa respiração...
Continua...
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