Termino de fechar a mala em cima da hora (sempre) e, mesmo sabendo que só tenho 40 minutos para me arrumar, jogo-me estirada no chão da sala, ao lado das minhas coisas já prontas para ir. Brasil, depois de anos... Isso me anima e entristece ao mesmo tempo. Pude me despedir de Changkyun, mas eu nem ao menos olhei na cara do Jooheon depois do acontecido, depois que eu finalmente admiti que ainda o amo e nada vai mudar isso (ou talvez mude, afinal, distância é uma coisa mágica).

Ao olhar o relógio, constato que não posso ficar enrolando, então me levanto para continuar a arrumação, embora o motivo da minha procrastinação não saia da minha cabeça. Desde que me abraçou e cuidou de mim, imagens do sorriso dele voltaram a impregnar meus pensamentos 24h por dia, e as lembranças me perseguem. Changkyun tinha conseguido aliviar isso, principalmente após o nosso primeiro e único beijo, mas Jooheon logo recuperou o seu posto.

Quando estou escolhendo minha roupa (parece um momento girly, mas na real só escolho a mais confortável, independente da aparência), ouço a campainha tocar. Eu tinha reservado um motorista para o horário do meu vôo, mas ainda é relativamente cedo e, normalmente, ele fica me esperando lá embaixo. Imagino que possa ser Changkyun para se despedir mais uma vez, mas ele não é muito de fazer surpresas, então vou abrir a porta ainda cheia de dúvidas. Quando o faço, dou de cara com Jooheon, e tenho que admitir que essa é a última pessoa que eu esperava encontrar ali (principalmente considerando que ele foi o único para quem eu não disse sobre minha ida ao Brasil).

“Ah, graças a Deus você ainda está aqui.” Ele pára para respirar e só então noto como está fazendo isso com dificuldade, como se tivesse corrido até ali. “Eu... Eu preciso... Eu preciso conversar com você. Mas... Antes... Eu preciso de água.” Minha risada é inevitável e, apesar de eu não ter muito tempo e nem me sentir exatamente a vontade na presença dele (lê-se: quero beijá-lo e abraçá-lo, mas não é o certo a fazer levando em consideração a minha dignidade), abro a porta e saio da frente, assim o convidando para entrar. Vou pegar a água e, quando retorno, ele já está na sala, apenas me esperando.

“O que você está fazendo aqui, Jooheon?” O moreno bebe a água em praticamente um gole, antes de me responder.

“Eu preciso conversar com você.”

“Eu realmente não tenho muito tempo...” Não é uma mentira nem uma tentativa de expulsá-lo. Só tenho 30 minutos para sair de casa e ainda não troquei de roupa.

“Eu vou ser rápido, então.” Seus olhos encontram os meus e, no mesmo segundo, eu me sinto presa em tamanha profundidade. O tempo deixa de existir (quem se importa em perder um vôo, né? Nem é tão caro assim). “Antes de você ir embora, eu gostaria de te dizer isso de forma mais digna: eu te amo. Desde o primeiro segundo que eu te vi, eu te achei linda, e o modo como você me instigou no elevador chamou minha atenção. Lembro de ter te achado interessante. Em seguida, nós nos conhecemos melhor, pude ver o quanto você é divertida, engraçada e mantém minhas brincadeiras. Eu realmente amo seu senso de humor. Também pude contar para ti sobre os meus medos sem me sentir menos homem, não tive vergonha deles, e no dia que você me deu aquele presente, levando em consideração o que eu disse sem tirar sarro de mim, mas sim me dando um certo apoio, eu me senti o ser mais feliz do mundo. Eu senti que você me considerava, que se preocupava, mesmo que fosse algo mínimo, e admito que me achei um pouco, por ser especial o suficiente para você ter o trabalho de fazer algo assim para mim. Quando eu te tive nos meus braços pela primeira vez, eu estranhei, nenhuma outra garota aqui faria isso, mas exatamente por isso eu também amei. Adoro tuas diferenças, teu jeito único, a tua forma de ser mulher. Você é incrível e única, Lisa. Eu te amei todas as vezes que esbarrou em mim, todas as vezes que caminhamos lado a lado, eu amei os pequenos momentos contigo, e os grandes também. Quando eu te beijei, meu mundo explodiu. Eu nunca senti algo assim. Eu não era virgem, admito, mas a noite que tive contigo pareceu ter sido a primeira da minha vida. Foi maravilhoso, Lisa, não só porque foi gostoso, o que foi, muito, mas também porque eu me senti conectado a você, como se nossas almas fossem uma só, e eu nunca senti isso com mais ninguém. Eu sei que já me declarei, mas acho que não cheguei a demonstrar a dimensão do meu sentimento, que é imenso, me consome a cada dia que passa.” Ele pára por um segundo, para respirar, e eu só consigo encará-lo, sem reação. “Eu estraguei tudo, agora sei disso, mas juro que pensei estar fazendo o certo, no geral. O Changkyun me disse que gostava de você, e eu me afastei porque fui um covarde, tive medo de perder ambos, então não ousei arriscar. Eu podia ter sido honesto com você, ter procurado um ponto de equilíbrio, mas escolhi a opção que me pareceu mais fácil na época, e eu sinto muito por isso. Fui um tolo e escroto. Pensei que, se você me odiasse, se afastaria e esqueceria o que tivemos, talvez até desse uma chance pro Chang, mas não percebi que, em vez de te causar raiva, estava causando dor. Desculpa, Lisa. Porém, não posso te obrigar a aceitar o meu arrependimento, entendo se me odiar para sempre, mas eu não podia te deixar ir sem ao menos tentar. Eu realmente sinto muito.”

Jooheon fica em silêncio por mais de 5 segundos e só então sei que ele realmente terminou o seu discurso. O encaro, com os olhos um pouco arregalados, pois minha surpresa é imensa. Não sei exatamente como reagir, considerando que ainda não consegui digerir todas as informações jogadas em espaço de tempo tão curto. Quanto mais eu demoro, mais ele parece ficar nervoso, mas não fala nada. Ele me dá o tempo que preciso. Por fim, consigo entender palavra por palavra, e meu coração começa a bater ao ponto de eu ficar preocupada com a integridade da minha caixa torácica (sem exageros).

“Jooheon... Eu...” Como não sou boa com as palavras, digo o óbvio. “Eu te amo.” Mas o que não falo, eu faço.

O puxo para perto e finalmente o beijo. O encontro dos nossos lábios é delicado e cauteloso no começo, mas logo a saudade vence, o desejo um pelo outro predomina, e a busca por sentir o gosto do amado se torna mais urgente. Nossos corpos se grudam e eu me sinto derreter. Meu estômago revira, o ar se torna artigo de luxo, e minha pele pega fogo enquanto os arrepios espalham choques. O aperto contra mim, querendo senti-lo ainda mais, e o sentimento é recíproco. No momento que a mão dele encontra o caminho para dentro da minha blusa, percebo que, se eu não parar agora, com certeza vou perder o vôo. Nos separo com relutância e, quando por fim consigo fazê-lo, Jooheon responde com um gemido reclamão.

“Eu realmente preciso ir, Jooheon.” Sussurro contra seus lábios, enquanto ele continua a me dar selinhos. Seus braços ainda me envolve e suas mãos me seguram com força, como se não quisessem me deixar partir. “Eu vou perder o vôo...”

“Eu não quero te soltar. Não aguento a possibilidade de nunca mais te ver.” Os lábios dele descem para o meu pescoço e, se o que ele falou não precisasse de uma resposta urgente, esse seria o momento que eu me entregaria e esqueceria o maldito aeroporto (pescoço é um ponto fraco sim e não nego).

“Quem te disse que eu estou indo para o Brasil?” O empurro delicadamente, o forçando a se afastar do meu pescoço, mas não de mim. Nos encaramos e ele realmente parece triste.

“O Changkyun...” Não aguento e acabo deixando escapar uma risada. Jooheon olha para mim como se eu fosse louca, o que de fato devo parecer, já que esse deveria ser um momento triste de despedida.

“Bem, acho que ele deixou de fora a parte em que eu volto.” O moreno transparece uma grande dúvida em seu rosto e eu tenho que me segurar para não rir de novo. “Eu não estou me mudando para o Brasil, Jooheon. Vou só fazer um trabalho lá. Devo voltar no máximo em alguns meses.”

A surpresa finalmente abre espaço e ele me encara boquiaberto por alguns segundos, até que decide ter uma reação e, mais uma vez, nos beijamos com intensidade. Mas agora também há um sentimento bom, de esperança, e a ideia de futuro. Deixo que se prolongue o suficiente, mas aos poucos vou finalizando, nos separando.

“Eu realmente preciso ir, Honey.” Falo carinhosamente e, com um sorriso enorme e lindo nos lábios, acompanhado das magníficas covinhas (que eu amo, amo, amo), ele me solta.

“Tudo bem. Só não se esqueça de voltar para mim.”

Após ter um sentimento proibido, depois desnecessariamente complicado, finalmente nos entendemos, e agora estamos juntos. Sei que tenho que ir, mas a ideia de voltar para os braços dele é nova e me enche de expectativa. Antes mesmo de entrar sair para o aeroporto, já sinto saudade. O abraço mais uma vez e nosso beijo tem gosto de despedida, mas não é ruim, pois sei que não é definitiva.

Vou voltar. Vou voltar para ele. E vou amá-lo, com toda minha alma e ser.