Por trás daquela farsa

6 Uma história bastante mirabolante


Lisa ficou pensativa, abraçou-se, pois, de repente, sentia muito frio, olhando diretamente para casa, atrás deles.

— Olhem! – Lisa exclamou, arregalando os olhos, Roger e Marion se viraram para a direção que ela olhava, assustada.

— O que foi? – Marion perguntou, assustada.

— Lá em cima, na janela, havia um vulto de uma mulher! – Lisa respondeu, quase gritando.

Mais à frente, Bruno parou sua corrida, ao ouvir a exclamação de Lisa e voltou em direção ao grupo.

— Eu não estou vendo nada – Roger disse, forçando os olhos e ajeitando os óculos.

— Havia uma mulher bem ali na janela! – Lisa falou, quase em desespero.

— Pode ser alguém da equipe de limpeza – considerou Bruno.

— Não, não era. Era mulher que eu vi do lado de fora da casa – Lisa confirmou, mas ao notar o olhar descrente dos outros, ela se desesperou. – Eu vou provar para você – falou, de modo desafiador e correu em direção a casa, quase derrubando Alicia, quando passou por ela.

— Vá atrás dela, Bruno – Marion pediu, por um segundo, ele ficou em dúvida, mas se decidiu e correu ao encalço de Lisa.

— O que houve? – Alicia indagou, perplexa, ao se aproximar do grupo.

— Lisa viu alguém na casa – Marion explicou, com os olhos voltado para o andar de cima.

— De novo! – Alicia bufou, impaciente. – Acho que essa aí é completamente maluca – proferiu, com um sorriso perverso.

Bruno era um bom corredor, porém, nunca imaginou, que Lisa fosse tão rápida, só conseguiu alcançá-la no alto da escada.

— Lisa, pare! – gritou, segurando-a pelos braços – Veja! Não há ninguém aqui! O lugar está vazio!

— Mas, eu vi! Eu tenho certeza que vi alguém bem aqui, na janela! – ela insistiu, com veemência, encarando Bruno, com um olhar desalentado.

— Lisa, foi só uma impressão, talvez, uma sombra, que parecia com uma pessoa – Bruno tentava acalmá-la, com o pensamento lógico e a voz firme.

— Talvez, talvez! Estou cheia de talvez! – Lisa falou, irritada.

— Lisa, é melhor descermos agora, não podemos quebrar as regras do contrato, porque, não receberemos nossos pagamentos e tudo isso será em vão – Bruno argumentou, Lisa deu um suspiro e assentiu com a cabeça.

Os dois desceram juntos a escada, Lisa vinha na frente cabisbaixa e Bruno a escoltou, ao encontro dos outros, na pequena saleta.

— Hoje à noite, eu ficarei de guarda da minha janela, para tentar avistar a tal mulher-fantasma – Sam garantiu, a fim de tranquilizá-la, que se encolheu com uma expressão confusa.

— Vamos, sente-se aqui, querida – Marion puxou Lisa para o sofá, ela parecia exausta.

— Desculpe. Acho que estou me descontrolando, depois de tanto estresse na minha vida, devo estar no limite da minha sanidade – Lisa confessou, debilmente, Roger lhe trouxe um copo d’água. Ela bebeu um longo gole e o apertou entre as mãos – Depois, que eu perdi o emprego, meu mundo desmoronou – ela deu uma fungada antes de continuar. – Modéstia à parte, eu era a melhor funcionária do setor de investimento, do banco em que trabalhava.

— Então, por que mandaram você embora? – Alicia a inquiriu, com um certo cinismo.

— Porque eu descobri algumas coisas bem estranhas acontecendo por lá, principalmente, em relação aqueles fundos de pessoas muito e muito ricas, notei que desaparecia sempre uma certa quantia, pequena o suficiente para nunca ser notado. Um pouco de cada um, passava despercebido, devido ao montante de cada conta, mas a soma de tudo dava muito dinheiro – Lisa contou.

— E aí? – quis saber Marion, interessada, assim como os outros.

— E aí, eu relatei para o meu chefe, falei sobre minhas desconfianças, porém, ele me disse que estava ficando louca e que não deveria contar isso para mais ninguém, pois essas quantias eram insignificantes, e se a notícia se espalhasse arruinaria o bom nome do banco.

— E o que você fez? – Alicia, também, estava curiosa.

— Disse para ele que não podia concordar com isso, que era um roubo e levaria o caso para a diretoria, mas não deu tempo. Então, meu chefe falou que ele mesmo faria isso, me pediu 24 horas, eu acreditei nele. – Lisa limpou, com as mãos, a lágrima que corria pela sua face. – Quando cheguei para trabalhar no dia seguinte, descobri que havia sido demitida.

— Então, ele tinha algo a ver com o desvio do dinheiro – Roger concluiu. – Você não fez nada, não o acusou.

— Não podia, não tinha provas, estava tudo no meu computador e eu não tinha mais acesso a ele – Lisa deu de ombros. – Mas, há pouco tempo começaram os telefonemas. O telefone toca a qualquer hora do dia e da noite, e ninguém fala nada, só ouço a respiração do outro lado da linha.

— Pobrezinha! – Bruno declarou, sensibilizado com a história, que acabou de ouvir.

— Por que você não fez uma cópia dos arquivos? – Roger quis saber, o que era o lógico para ele.

— Porque nunca imaginaria, que eu fosse punida por descobri um roubo no meu banco. Achei que estava fazendo uma boa coisa, mas estava errada – ela completou, com tristeza, mirando suas mãos sobre o seu colo.

— Fique tranquila – Marion segurou a mão de Lisa, com carinho, como prova de amizade, dando-lhe um sorriso de solidariedade. – Não deixe que esse tal de estudo acabe com você – Lisa lhe devolveu um sorriso triste.

Depois de todo o estresse daquela manhã, Lisa adormeceu em um dos sofás logo após o almoço, enquanto os outros participantes cochichavam ao redor, querendo assimilar a história que ouviram dela.

— O que você acha disso tudo, Sam? Pode ser uma mentira, como a mulher-fantasma que vaga pela casa e que só ela vê – Alicia cogitou, em voz baixa, quando estavam parados em um canto da sala.

— É uma história bastante mirabolante. Tão improvável que, talvez, seja verdade – Sam replicou, pensativo.

— Não acredito que você caiu nessa? – Alicia questionou, incrédula. – Essa aí deve ser maluca.

Em outro canto da sala, Marion encontrou o álbum de fotos, que Alicia achou no dia anterior, folheava interessada, parou na imagem do rosto da jovem mulher, que usava o brinco, que Lisa disse que encontrou e perdeu.

— Será que ela pode ser o nosso fantasma? – Marion perguntou a Bruno, sentado na poltrona em frente, já Roger, ao seu lado no sofá, não lhe daria ouvidos.

— Você quer dizer, o fantasma da Lisa? – Bruno falou, com sarcasmo.

— Que seja – Marion retrucou, soltando a foto das cantoneiras, que a prendia na folha do álbum, virando-a para ler no seu verso, em uma bela caligrafia quase apagada pelo tempo. “Lady Madeleine Greystone, 1918” – Olhem! Ela deve ter morado aqui – observou, encantada com a sua descoberta, imaginando se seria daquela bela mulher o possível fantasma, que assombrava aquela casa.