Por trás daquela farsa
12 Sem solução
Após alguns dias, Lee e Santini assistiam o vídeo da última noite que se teve notícia de Lisa, ou melhor, Julie Ross, os técnicos da policial haviam feito um bom trabalho recuperando as imagens pouco nítidas, que lhes foram entreguem, as deixando razoavelmente definidas. Naquele momento, os detetives viam Lisa/Julie sair da casa, com um jeito meio enlouquecido, olhando em volta e correndo para o meio da noite chuvosa, como não haviam câmeras externas não dava para ver qual foi a direção que ela tomou.
— Não tem ninguém com ela – Santini admitiu –, estava sozinha.
— A não ser que houve alguém do lado de fora – Lee cogitou.
— Olhe! Loreta está saindo. Não, ela voltou, não saiu da casa, mas com certeza viu quando Julie saiu. Por que não falou nada?
— Ela pode não ter dito nada, mas, também, não fez nada, pois nem saiu da casa – Lee concluiu.
O relatório sobre o DNA do sangue encontrado na roupa, não deixava dúvidas que era de Julie, apesar do corpo não ter aparecido.
O caso, também, não tivera muita repercussão na imprensa, sufocado diante de um crime muito mais terrível ocorrido no mesmo dia, um louco havia entrado em uma escola e assassinado duas professoras e três alunos, depois, se matado.
— Então, devemos concluir que foi mesmo uma fatalidade, um simples acidente, que a garota escorregou e cai no precipício, devido à baixa visibilidade na noite e a chuva – Santini cogitou.
— Possivelmente, mas só uma coisa me intriga, a tal história dela sobre a descoberta do desvio de dinheiro no banco, em que trabalhava, e a sua demissão devido a isso. Seria um bom motivo para um assassinato.
— Você quer investigar isso? – Santini quis saber, incrédulo.
— Podemos dar um pulinho no banco e ter uma conversa com o chefe dela, não custa nada em verificarmos essa informação – Lee sugeriu, Santini deu de ombros não levando aquilo muito a sério.
O International Bank era um banco extremamente discreto para cliente de alto nível, não se podia ser qualquer um para abrir uma conta lá. Naquele momento, os dois detetives estavam presos, entre as duas portas de segurança na entrada do prédio do banco, que se travaram, por eles portarem armas.
— Somos da polícia – Lee comunicou, enquanto ambos encostavam seus distintivos no vidro da porta interior, para que os guardas de segurança pudessem vê-los. Então, eles abriram a porta, ainda desconfiados.
— Gostaríamos de conversar com o senhor Rui Montez, nós já comunicamos a ele que viríamos – Lee informou, assim foram guiados pelo saguão com o piso de mármore decorado, com um imenso lustre de cristal sobre as suas cabeça e móveis de madeiras nobres, até um homem jovem e muito magro, pálido e de cabelos escuros, de maneiras nervosas, usando um terno de corte sóbrio e elegante.
— Senhor Montez? – Santini se adiantou.
— Não, sou o seu assistente, mas eu irei levá-los até ele. O senhor Montez é o nosso gerente de contas especiais. Sabe como é, todas as contas são especiais, mas essas contas que o senhor Montez gerencia são muitíssimas especiais, valem milhões – O rapaz explicou, quando caminhavam por corredores forrados de lambris de madeiras e com um carpete elegante e ultra macio, além de quadros com cenas clássicas pendurados na parede. – Por aqui, por favor, senhores – disse, abrindo a porta para introduzi-los em um elegante escritório com móveis em mogno e couro, forrado por tapetes orientais, onde um homem alto e elegante, de cabelos grisalhos, usando um caro terno feito sob medida, caminhou com confiança até eles e estendeu a mão, enquanto o rapaz se retirava, discretamente.
— Bom dia. Sou Rui Montez – ele se apresentou, cumprimentando os detetives.
— Sou o detetive Lee e esse o detetive Santini – o policial mais velho os apresentou.
— Se importariam se visse seus distintivos, senhores? Atualmente, devemos estar atentos a tudo – Rui Montez solicitou, educadamente.
— Sem problemas – Lee falou, enquanto mostravam os seus distintivos a ele.
— Por favor, sentem-se, senhores – Montez pareceu convencido, apontou as cadeiras na frente de sua mesa, se sentando na sua e apoiando os cotovelos sobre ela – O que posso a ajudá-los? – Questionou, solicito
— Queremos informações sobre uma ex-funcionária sua, Julie Ross – Santini começou, cansado de tanta formalidade, sentido que estavam perdendo o seu tempo.
— Julie? Aconteceu algo com ela? – Montez ficou, visivelmente, surpreso.
— Ela despareceu — Santini informou, diretamente, sem emoção na voz – Achamos que esteja morta.
— Morta? – Montez tentou, mas não conseguiu disfarçar o seu espanto, ou, talvez, fosse um bom ator. – Como morta? Foi algum acidente?
— É isso que estamos investigando. Por favor, gostaríamos de ter mais informações sobre ela – Lee disse, sem tirar os olhos de Montez – Por que a demitiu?
— Julie era uma boa funcionária, eficiente, pontual, mas depois de algum tempo, começou a ter atitudes estranhas, então tivemos que a demitir.
— Que tipo de atitude estranha? – Lee indagou.
— Ela ficou um tanto paranoica, acho que foi devido à pressão por lidar com tanto dinheiro e pessoas importantes, alguns funcionários não aguentam isso e sucumbem – Montez explicou, parecendo mais calmo.
— Sabe algo sobre o desvio de dinheiro que Julie mencionou existir nesse banco? – Santini perguntou, sem rodeios, os olhos de Montez se arregalaram.
— Desvio? Não sei do que está falando, nunca houve desvio de dinheiro nesse banco, somos absolutamente seguros – Montez afirmou, com calma e categórico.
— Não era que Julie achava – Santini provoca, Montez pigarreou, incomodado.
— Essa foi o problema de Julie, começou a falar desse tal desvio de dinheiro nas grandes contas, mas checamos tudo com muito cuidado, não encontramos nada de errado, porém, ela não se convenceu, continuou inquieta, por isso tive que demiti-la para que os rumores não se espalhassem e causassem danos irreparáveis na nossa imagem. Temos um nome a zelar, não podíamos deixar uma das nossas funcionárias sair por aí difamando nosso banco. Isso seria terrível, poderíamos perder muitos clientes – Montez concluiu, com segurança, quando a porta se entreabriu e o jovem funcionário nervoso, que os recebera, colocou sua cabeça através dela.
— Senhor Montez a senhora Hilton acabou de chegar? – informou.
— Obrigado, Félix. Senhores tenho uma cliente importante para receber agora. Caso eu possa ser útil em mais alguma coisa para os senhores, entrem em contato, será um prazer em ajudá-los. Tenham um bom-dia – ele deu por encerrada a entrevista.
— Bom dia e obrigado por seu tempo – Lee disse, já se levantando – Entraremos em contato se precisarmos, caso preciso – reiterou, enquanto saiam pela porta, cruzando com uma mulher loura e jovem usando roupas de marcas caras, com um jeito petulante de que não estava acostumada a esperar nem um minuto sequer, em toda sua vida.
— Senhora Hilton, por favor, queira entrar – Félix abriu, completamente, a porta para ela entrar, ainda puderam ver Montez se levantar e ir em direção a ela.
— Senhora Hilton, é um prazer recebê-la no meu escritório, a senhora está belíssima! – Ainda ouviram Montez falar, antes da porta se fechar.
— O que você acha? – Santini perguntou a Lee, quando fazia seu caminho de volta.
— Se nem o banco admite o desvio de dinheiro, não temos como provar nada, assim não temos nenhum motivo, nem um corpo, só algumas roupas sujas de sangue, acho que esse caso não terá solução – Lee teve que considerar que não haveria uma saída.
O caso de Lisa/Julie Ross nunca foi concluído, o corpo jamais foi encontrado e, quando menos se esperavam, os participantes da experiência do falso instituto Inter mentes receberam quinze mil depositados nas suas contas bancárias.
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