Por trás daquela farsa
15 O gato e as ratas
— Não tem como Julie não ser culpada, já que todas as provas apontam para ela, Cynthia – Edward afirmou, com a voz mansa.
— Podemos marcar um encontro entre nós três, assim Julie teria a chance de explicar o que aconteceu, realmente.
— Não, Cynthia, não vou tirar os olhos de você agora, não vou dar a chance que desapareçam, outra vez.
— Eu não sei o que fazer – Cynthia se sentia acuada, sem chances de fuga.
— Minha proposta é que me leve até Julie, assim ela poderá se explicar.
— Posso mandar uma mensagem? – ela pediu, sem nenhuma esperança que ele concordasse.
— Para ela desaparecer novamente? Não acho uma boa ideia. Eu pago a conta, digamos, como um bônus por sua colaboração, depois iremos.
Como disse, Edward pagou a conta, saíram do restaurante e pararam um táxi, parecendo um casal normal, a não ser pela a expressão tensa da mulher, pois não dava para perceber a força com que o homem a segurava o braço da mulher. Cynthia deu o seu endereço ao motorista, ficaram em silêncio, enquanto o carro rodava pelas ruas escuras, cada vez mais afastadas do centro.
— Quem é você? — ela questionou, quase em um sussurro.
— Como eu disse trabalho para o International Bank – ele respondeu, sem olhar para ela.
— Como conseguiu chegar até nós e entrar na nossa encenação
— Primeiro, seguimos Julie e, depois, chegamos a você, então, monitoramos toda a atividade da contratação dos atores e aluguel da casa, no fim, consegui uma das suas cartas, que convidava a participarem daquela farsa, foi assim que eu entrei – Edward explicou, orgulhoso da sua esperteza.
— Você sempre diz nós. Quem são os outros?
— Isso não vem o caso, agora.
O carro parou em frente de prédio comum, um tanto feio, em um bairro de classe média baixa, nada glamoroso para quem havia desviado milhares de dólares de contas bilionárias.
Edward pagou o motorista do táxi, parecia confiante, como um gato que encurralou os ratos. Cynthia estava cada vez mais nervosa, com medo da reação de Julie ao vê-los chegar assim de surpresa.
— Posso, ao menos, interfonar para avisá-la da nossa chegada? – ela solicitou, humilde, ele apenas sacudiu a cabeça em negativa.
Ao entrarem no prédio, Cynthia deu pulo assustada, com os nervos à flor da pele, quando a porta pantográfica fechou barulhenta. A respiração dela estava ofegante e as mão trêmulas, mal conseguindo segurar a chave, muito menos colocá-la no buraco da fechadura, então, Edward fez esse trabalho, abrindo a porta do pequeno apartamento.
As luzes estavam apagadas e o lugar silencioso, Cynthia foi até o interruptor, mas antes de chegar até lá, pisou em algo que estalou sob a sola do seu sapato.
Quando a sala se iluminou, eles tiveram a surpresa, pois estava totalmente revirada, objetos fora do lugar, a televisão caída e quebrada, copos e pratos espatifados pelo chão.
— Meus Deus! O que aconteceu aqui? – Cynthia se apavorou diante daquela cena – Julie! – gritou, sem resposta. – Julie! – Tentou, outra vez, se dirigindo para o quarto, onde encontrou o mesmo cenário de destruição.
— Não acredito que vocês tentaram esse truque de novo! – Edward declarou, com cara de deboche, assistindo a cena de desespero de Cynthia.
— Ela não está aqui! – falou, confusa, sem entender o que aconteceu.
— Olhe a primeira vez deu até para passar, mas de novo? Você está me chamando de idiota? Se acham que vou acreditar nessa história de desaparecimento, vocês estão completamente loucas! – Edward vociferou, mas Cynthia o encarou, atordoada.
— Não é encenação, não dessa vez! Julie desapareceu de verdade!
— Onde está o seu telefone? – Edward exigiu, com urgência, ela tirou da bolsa e estendeu para ele, que o pegou em um movimento abrupto, procurou na lista de contatos o nome de Julie, apertou a discagem rápida, esperou, mas a chamada entrou direto na caixa postal, tentou mais uma vez, com o mesmo resultado, desistiu.
— Vocês não vão desistir desse joguinho, não é mesmo? – Edward estava muito irritado, quando o seu telefone tocou, ele atendeu prontamente – Oi, Julie sumiu – anunciou para o seu interlocutor, esperou a responda.
— Eu sei que parece loucura, mas é pura verdade, estamos no apartamento delas, isso aqui está uma bagunça e a garota sumiu, de novo – ele continuou a explicação, sem tirar os olhos de Cynthia, que se envolvia em um abraço auto protetor, esfregando os braços, desnorteada, sem saber o que viria depois.
Edward desligou o telefone e puxou uma cadeira.
— Vamos esperar. Quem sabe, ela volte – disse, calmamente, se sentado. – Você vai ficar aí de pé? – perguntou, com cinismo, assim, Cynthia desceu, lentamente, até sentar no sofá. — Já que estamos aqui e a noite pode ser longa, explique como conseguiram acessar todas aquelas contas? Deve ter sido alguém que saca muito informática? – Ele relaxou na cadeira, cruzando uma das pernas sobre o joelho.
— Eu já disse! Não acessamos conta nenhuma, não fizemos nada de errado – Ela não disfarçou a irritação, bastante preocupada com o que se sucedeu com sua namorada.
— Foi uma ideia brilhante, tirar pequenas quantias de contas bilionárias, onde ninguém percebia o desaparecimento de 2 ou 3 mil dólares. Por quanto tempo fizeram isso? Pela quantia final, deve ter sido por um tempão? – Continuou, de forma presunçosa.
— Eu já falei e vou repetir. Não tiramos dinheiro nenhum – reiterou Cynthia, com veemência, mas dava, para ver pela cara dele que não estava acreditando.
— Vocês não têm um computador? – Edward questionou, olhando ao redor, mas não vendo nenhum.
— Claro que temos um computador! – Cynthia confirmou, olhou diretamente para o lugar que ele ficava, contudo não estava lá — Sumiu! – admitiu, espantada, depois de procurá-lo e não o encontrar.
— Muito providencial! — Edward falou com ironia.
Já haviam passado umas boas horas, sem nenhum sinal de Julie, os dois em silêncio, Edward andava pela sala, como um felino enjaulado. De repente, parou e olhou para Cynthia.
— Acho que sua namoradinha abandonou você a sua própria sorte.
— Tenho certeza que Julie nunca faria isso comigo! Deve ter acontecido algo muito grave com ela, para me deixar para trás.
— Como pode ter tanta certeza?
— Porque ela me ama – Cynthia afirmou, com segurança, pois estava muito certa dos sentimentos de Julie.
— Veremos. Acho que ela não deve voltar para aqui, tão cedo.
— Então, você vai embora? – Cynthia indagou, cheia de esperança que ele a deixaria em paz.
— Vou – ele respondeu, ela sorriu, aliviada – Mas, não fique tão contente, porque você vem comigo, Cynthia.
Fale com o autor