Ainda sentados na sala em ruínas, Cynthia e Edward assistiam, calados, a penumbra do fim do dia preencher o ambiente anunciando a chegada de mais uma noite, ainda sem solução, os dois no limite da sua energia. Ela se levantou, foi até o interruptor e acendeu a luz, encarando o homem sentado no sofá com a barba despontando, cabelos despenteados e círculos escuros sob os olhos, tinha certeza que sua aparência não devia estar muito melhor do que a dele.

— Eu não aguento mais! Até quando vamos ficar nesse apartamento? — ela indagou.

— Até você desistir e pedir ao seu parceiro para devolver o dinheiro. – A voz dele ainda era pausada e calma.

— Mas não tem dinheiro nenhum! – reiterou, mais uma vez, porém já cansada, sem saber por quanto tempo teria forças para sustentar sua mentira.

Confuso, Ramon encarou Rafael, que sustentou o olhar, frio e desafiador, enquanto tentava falar com Marcus mais uma vez, e, de novo, caiu na caixa postal

— Vocês sabem que não tem saída. Não tem como fugir, Ramon – Rafael fala em tom pausado e calmo, enquanto o outro homem, receoso, desejava saber para aonde seu namorado tinha ido.

Loretta observou o filho da porta do quarto, enquanto teclava ferozmente no seu computador, ele ficou bastante aborrecido por devolver todo aquele dinheiro, que poderia mudar as suas vidas miseráveis, mas a que preço? Do constante medo de serem descobertos e serem presos, pois sabia que sus riscos eram maiores do que dos outros, além disso Jonathas tinha toda vida pela frente, poderia ter um futuro melhor, honestamente. A vida podia ser dura, mas, pelo menos, tinham sua liberdade.

— Mark, desça para jantar! – Sua mãe gritou do começo da escada.

— Já vou, mãe!

— A comida vai esfriar!

— Eu já disse que já estou indo! – respondeu, irritado.

No seu quarto, no sótão da casa dos seus pais no subúrbio de classe média, Mark andava de um lado para outro, inquieto, por estar isolado, sem saber o que estaria acontecendo com os outros lá fora.

O carro corria velozmente pela estrada, dentro dele, Julie está desesperada pela traição de Loretta, tentou falar com a amiga diversas vezes, mas ela não atendia, com certeza a evitando, sendo assim, não via outra saída, a não ser retomar ao seu plano original, mesmo não gostando da ideia, mas era sua única alternativa.

Mais um dia começava a amanhecer, tingindo o céu em tons púrpuras, sentada na poltrona, Cynthia lutava, tentando manter os olhos abertos, e tudo que mais desejava era um bom banho, roupas limpas, deitar na sua cama, dormir e esquecer daquele pesadelo, quem sabe, se quando acordasse Julie estivesse adormecida ao seu lado, seria só um sonho ruim. Olhou em direção ao sofá, onde Edward estava estirado, a barba por fazer e os círculos sobre deles os olhos estavam mais escuros, acentuando seu ar abatido, mostrando, também, estava chegando ao seu limite, no entanto, ele tinha uma arma, descansado ao seu lado, bem ao alcance da mão. Ela estava certa que a cada minuto a chance de ele perder a paciência e feri-la aumentava, contudo, já arriscara muito para chegar até ali.

— Não quero perder tudo – falou com a voz segura, de repente, atraindo o olhar sonolento do homem. – Não quero ficar sem nada, depois de tudo que passamos.

Ele parecia não acreditar que ela estava preste a confessar o crime, sentiu uma onda de alívio percorrer o seu corpo, pois estava ficando sem escolha, naquele cabo de guerra de resistência, sabia que suas forças estavam chegando aos extremos.

— Você não tem mais escolhas.

— Sabe que a decisão de entregarmos o dinheiro não depende só de mim.

— Você é a líder, convença-os.

— Não temos líder, não posso exigir que os outros abram mão de tudo e fiquem sem nada.

Edward refletiu por alguns segundos, em busca de uma solução.

— E se vocês ficassem com uma pequena percentagem, acho que não sentiriam faltam. Seria assim, como uma espécie de resgate. Que tal, uns 200 mil?

— Quinhentos! Eu quero quinhentos! – Seu tom era firme, não estava disposta a ceder tão facilmente.

— Eu não sei se eles concordarão com isso – Edward sacudiu a cabeça com desanimo.

— Você sabe de quanto dinheiro estamos falando? Quinhentos mil não é nada diante de todo o montante!

— Preciso consultar meu chefe – Pegou o telefone e apertou a discagem direta, explicando, sucintamente, tudo que aconteceu até ali e a sua negociação com Cynthia, ouve, rebate e desliga. – Ele concordou. Agora, faça a sua parte.

Ela se esticou para pegar o seu telefone na mão dele, aperta a discagem direta, espera que atendam do outro lado da linha.

Mark dormiu sentado na cadeira, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a mesa, ouviu o telefone tocar ao longe, imaginando ser um sonho, mas o som é insistente, despertando-o completamente. Ergueu a cabeça, arrumou os óculos, que se acostumou a usar, tateando procurou pelo seu telefone, quando o achou, arregalou os olhos, abismado, ao ver o nome na tela.

— Vega! – diz, afoito.

— Sim, sou eu, Sirius. Eu preciso que faça algo por mim, urgente, porque estou encrencada e posso acabar morta.

O rapaz sentiu seu coração apertar, passou a mão nos cabelos, pois ele a amava muito, um amor platônico pela mulher mais bonita que já conhecera na sua vida e que lhe deu alguma atenção. Sentia-se assim desde que Ramon os apresentou e que conviveram juntos naquela casa, durante aquele plano maluco.

— Claro! O que você quiser.

— Preciso que devolva o dinheiro ao banco.

— Como assim?! Devolver o dinheiro todo?!

— Não, poderemos ficar com quinhentos mil.

— É muito pouco, nem cinco por cento!

— Ele tem uma arma, vai me matar! – Ela rebate, em tom de desespero.

— Quem vai matar você?

— O cara do banco.

Nesse momento, a mãe de Mark bate na porta.

— Mark, meu filho, você não jantou ontem, não vai tomar café da manhã? Eu fiz o seu favorito, panquecas.

— Já vou, mãe! – gritou para ela e voltou a falar com Cynthia. — Que cara do banco é esse?

— Alguém que o banco contratou para recuperar o dinheiro, ele me achou e Julie sumiu, ele vai me matar — reafirmou, quase à beira do pranto.

— Mark! – a mãe dele insistia, batendo na porta. – Está tudo bem?

Ele tampou o bocal do telefone antes de gritar, sem disfarçar a irritação?

— Sim, mãe. Está tudo bem, eu já vou descer. Agora, me deixe em paz!

A mulher olhou espantada para a porta fechada e vai embora, inconformada.

— Eu não posso devolver o dinheiro. São muitas contas, seria quase impossível e demoraria muito tempo.

— Ele disse que não pode devolver o dinheiro para as contas – ela informou ao interlocutor a sua frente.

— Tome – Ele lhe passou um papel com uma sequência de números escrita.

— O que é isso? – Olhou desconfiada para o papel, erguendo as sobrancelhas.

— Uma conta que o banco criou para caso conseguíssemos o dinheiro de volta, quando o dinheiro estiver lá, repassaremos para os seus devidos donos.