— Cynthia, por que não acabamos com isso, nesse instante? Como você disse parece mesmo que sua namorada a abandonou sozinha nessa – Edward propôs com paciência, mais uma vez, enquanto comiam sentados à mesa do apartamento bagunçado. Ela sabia que ele testava sua resistência, a mantendo prisioneira, querendo que ela confessasse, porém sabia se fizesse isso estaria perdida, sem o seu único trunfo.

— Não sei do que você está falando, Edward. Não tenho nada para contar, porque não sei de nada.

Ela mantinha o jogo de gato e rato. Porém sua obstinação começava a ceder, suas forças estavam sendo minadas, sem saber o que acontecia longe dali.

— Cynthia, não está vendo que não tem mais porque lutar. Você está sozinha, isolada. Pode ser que agora seus sócios estejam fugindo sem você e com todo o dinheiro, ficará sozinha para pagar pelas consequências. – Edward falava com calma, entre uma garfada e outra do espaguete à bolonhesa do restaurante da esquina. Pelo contrário, Cynthia não conseguia engolir nada, sentia uma mão de ferro apertando sua garganta, tinha que reconhecer que o joguinho dele estava funcionando, pois se sentia cada vez mais indefesa e encurralada.

Ramon entrou em casa, apressado, mas estancou na sala ao encontrar Marcos pálido e abatido, encharcado de suor.

— O que houve? – perguntou, com urgência para o namorado, porém Marcos não falou nada, apenas olhou para um canto da sala com os olhos esbugalhados e as mãos trêmulas.

Ramon acompanhou o olhar dele e avistou um corpo de um homem caído de lado não dava para ver o rosto, correu até ele e parou, assustado, antes de tocá-lo, olhando-o com atenção.

— É Rafael! – exclamou, abismado, ao olhar o rosto dele coberto de sangue. Marcos sacudiu a cabeça confirmando.

— Você o matou?

— Não sei – Marcos respondeu com um fio de voz.

— O que foi que aconteceu? – Ramon tentava manter a voz firme e a mente clara.

— Ele apareceu na universidade e me ofereceu uma carona. Então começou com uma história de me denunciar por ser gay e de morar com estelionatário, envolvido em um desvio de dinheiro do banco que ele representava, que precisava convencê-lo a devolvê-lo. Eu disse que não sabia de nada. Que era mentira. Eu o trouxe aqui para casa, para conversarmos e entender melhor o assunto, então começamos a discutir.

— E o que você fez?

— Eu o empurrei com força, ele perdeu o equilíbrio e caiu, batendo a cabeça contra a parede e desabou, achei que estivesse morto, então telefonei para você. Ramon, isso é verdade? Você tem algo a ver com o desvio desse dinheiro?

Ramon não respondeu, encarou Marcos, pensando em uma resposta, mas foi interrompido por um leve gemido vindo do homem que jazia no chão. Aproveitou a oportunidade para evitar o assunto, abaixou rapidamente para verificar seus sinais vitais.

— Ele está vivo! – Ramon falou, aliviado.

— Temos que chamar uma ambulância!

— Não! Ainda não.

— Mas ele pode morrer!

— Vamos esperar um pouco para ver o que acontece. Procure nos bolsos dele alguma identidade ou um telefone.

Começaram a remexer os bolsos do homem no chão, não havia nada só uma carteira com dinheiro e uma carteira de motorista, provavelmente falsa, com o nome de Rafael, um telefone bloqueado, objetos que não levava a lugar nenhum. O homem gemeu mais forte.

— Acho que está acordando – Marcos constatou aliviado.

— Pegue uma toalha molhada. Vamos limpar esse sangue todo.

Loretta chegou em casa, cansada de mais um dia duro de trabalho, encontrou a mãe sentada na frente da televisão como sempre.

— O jantar está no fogão – ela avisou.

— Obrigada. Onde está Jonathas?

— O garoto ficou o dia inteiro no quarto mexendo no computador, depois disse que estava cansando e precisava refrescar a cabeça e saiu.

— O que você está assistindo, mãe? Não é a novela?

— Não, é uma série policial. Nesse episódio estão falando sobre crimes na internet – explicou, sem afastar os olhos da tela. – Mostra com a polícia prende esses bandidos.

Loretta não quis ficar ali assistindo aquilo, sentiu um aperto no coração pelo medo de seu filho ser descoberto e preso cometendo esse tipo de crime. Levantou-se e foi até o quarto dele, abriu a porta e acendeu a luz para observar as máquinas sobre a mesa.

Pensou como fez aquilo para ajudar sua amiga Julie, mas envolver o seu filho era ir longe demais. O garoto já fora preso por um pequeno roubo e desordem, porém Julie contratou um bom advogado para tirá-lo do reformatório, mas ela tinha medo que ele voltasse para lá. Sentou-se na cama, encarando aqueles objetos que não fazia a mínima ideia de como funcionava. Pensando que Julie havia desaparecido assim como todo o dinheiro, e ela e o filho estavam sozinhos. Se algo acontecesse agora, quem os ajudaria? Qual seria o futuro do seu filho? Acabar preso como o pai? Fichado? Marcado por toda vida?

Pegou seu telefone e tentou falar com Julie, caiu na caixa postal. Quando a porta se abriu e Jonathas entrou, assustando-se ao encontrá-la ali, sentada na sua cama.

— Mãe!

— Jonathas, quero que devolva o dinheiro.

— O que?! Mas por que?

— Não quero que você se torne um criminoso – ela falava com a voz fria e segura.

— Mãe, mas está tudo resolvido! O dinheiro está na nossa conta, vamos sair dessa miséria! Você não vai precisar trabalhar como uma escrava! – Ele argumentava em voz alta.

— Não quero viver com medo. Não quero que acabe preso como seu pai. Devolva o dinheiro, Jonathas.

— Mas, mãe...

— Você é um garoto inteligente e muito esperto, podemos nos virar sem roubar ninguém, poderá frequentar uma boa escola e ter um futuro melhor. Não quero que vire um bandido.

O garoto ainda lhe lançou um olhar desesperado, mas Loretta estava irredutível na sua convicção. Então, ele sentou na frente do computador e começou a digitar rapidamente.

Julie dirigia o carro que alugou por aquela estrada sinuosa, pensando como Cynthia pode fazer isso com ela, que a amava tanto, a trair daquela maneira tão vil, usando a sua confiança para enganá-la. Mesmo com aquele plano ensandecido de alugar aquela casa e simular a sua morte. Muitas vezes, achou que era isso mesmo, que Cynthia e seus comparsas pretendiam matá-la e fingir que foi um acidente. Felizmente, não estava desamparada na casa, e com ajuda conseguiu escapar.