Por trás da proteção
1 Capítulo um - Se esconder é a única saída
Notas iniciais
1990
No subúrbio do Rio de Janeiro, depois de três horas angustiantes, nasce, às cinco da manhã, um bebê. Ele imediatamente é retirado da mãe, que só vê o rosto da criança por alguns instantes. A mãe é carregada para longe, e o bebê é levado para os braços do seu sequestrador e avô.
2013
Ipanema, Rio de Janeiro
– Daniel, eu não falei para você tomar conta dele? Onde ele está agora? – disse o velho, enrugando a testa, um dos sinais que dava quando estava irritado.
– Eu não sei, senhor. Nossos homens estavam observando ele, mas ele acabou nos despistando. Acho que ele queria ficar sozinho.
– Ficar sozinho, eu quero ser livre vovô – falou o velho numa vozinha pejorativa, repetindo as palavras do seu neto. Você sabe muito bem que ele não pode ficar sozinho.
– Nós já estamos procurando ele, vamos acha-lo.
– Claro que vão. Se não encontrarem ele, vocês vão estar em péssimas mãos: as minhas. – falando isso, o velho saiu do seu escritório batendo os pés como se quisesse quebrar o chão, ou, a cara do seu braço direito, Daniel.
Enquanto isso, em Santos:
– Levanta aí cara, já são uma da tarde e a gente está perdendo várias ondas por causa dessa tua preguiça. – gritou Guilherme para o seu amigo, ao mesmo tempo em que jogava nele um travesseiro.
– Eu estou cansado, vai na frente que depois eu vou. – resmungou Bernardo, cobrindo o rosto com a coberta.
– Vou mesmo. Parece que tu assaltou um banco, roubou um carro, pulou de um avião, pegou várias mulheres e bebeu todas ontem! Mas vê se se recupera logo e aparece lá nas ondas, se você não tiver com medo de levar um caldo, é claro. – disse, soltando uns risinhos e quase correndo pra porta, fazendo um barulho muito maior do que o necessário.
– Vai você treinando enquanto o mestre do surf não aparece. – gritou Bernardo para o outro ouvir, e completou, sussurrando num nível que ninguém além dele ouviu – e quanto ao que eu fiz ontem, foi pior do que você pensa. Fugir do velho Roberto, um avô mais controlador do que uma namorada ciumenta, não é nada simples.
E ainda resmungando, Bernardo voltou a dormir, sonhando com a liberdade que parecia real somente nos mundos paralelos que criava enquanto dormia.
Em meio aos seus sonhos, recordou a noite anterior. Ele estava num bar de beira de praia, em Santos mesmo, quando percebeu que estava sendo seguido. Qualquer um acharia que ele seria roubado ou que a polícia o estava investigando. Mas, Bernardo sabia muito bem que tipo de investigação era aquela. E não deixava de ser um assalto, um assalto a sua privacidade. Aqueles homens o tiveram seguindo desde aquele dia, o dia que ele descobriu bastante coisa que o seu avô escondia desde sempre.
Para despistar o vigia que o Seu Roberto mandou, ele ligou para um amigo, deu a volta pelas areias da praia, entrou no carro deste amigo, o Guilherme, que estava parado a dois quarteirões do bar, e pediu pra ficar na casa dele. Seu amigo, é claro, não se importou. Ele também não sabia que o Bernardo estava se escondendo, muito menos sabia de quem.
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