O sol se aproximava do horizonte na imensidão azul do Mar Jônico, lançando seus últimos raios à face da guerreira que conduzia a embarcação de volta a grande Grécia, após deixar a ilha de Ítaca. As águas batiam levemente no casco, tudo corria bem, seria uma noite agradável e tranquila. Ela observava o andamento das atividades exercidas pelos poucos homens enviados por Ulysses para acompanhá-la em seu retorno.

“Ulysses...” – dizia ela em seu pensamento, com um leve sorriso no rosto, recordando o que houve entre eles e como tudo se resolveu.

Suas lembranças são interrompidas quando, ao longe, ela avista debruçada na lateral esquerda da proa uma Gabrielle cabisbaixa e enjoada. Já fazia algum tempo que a moça saíra de seu lado no leme e se limitou a ficar olhando para o mar, sem dizer mais nenhuma palavra. Sua última conversa fora sobre como o mundo veria o feito de Ulysses em conseguir esticar o arco e voltar a governar o reino de Ítaca. Depois disso, Gabrielle se distanciou e se manteve na proa.

Sentindo o sol bater em suas costas, Gabrielle se vira, apóia seus cotovelos, ergue a cabeça e fecha os olhos, para sentir o calor em seu rosto. Após um profundo suspiro, ela abre os olhos e olha em direção ao leme, encontrando o olhar de Xena direcionado a ela. Seus olhos se fitam profundamente, trazendo à Gabrielle recordações desagradáveis, intensificando seu enjôo, fazendo-a desviar seu olhar e se virar novamente em direção às águas, para lançar ao mar o pouco de água que ela havia bebido minutos atrás. Passando a mão por sua boca, Gabrielle toma o cantil do qual ela não se desgrudava e enche a boca de água, fazendo um breve gargarejo e cuspindo ao mar.

Xena percebe que a garota não está bem e resolve ir ao seu encontro.

– Ei, você! – ela chama um dos homens, que sobe as escadas que levam ao leme. Xena entrega o posto ao homem e desce as escadas em direção a Gabrielle.

A garota segura o cantil com uma das mãos e molha a outra, lavando seu rosto, numa tentativa de apagar aquelas lembranças, não ouvindo que a guerreira se aproximava, quando sente uma mão quente lhe afagar o ombro.

– Gabrielle, você está bem? – perguntou Xena.

Sem se virar, a garota responde:

– Estou, eu só... Só quero chegar à terra firme.

Gabrielle vira-se para a direção oposta de onde Xena está e diz, sem olhar para ela:

– Vou pra dentro me deitar um pouco.

– Acho que você deveria se alimentar. Ficar só bebendo água não é nada bom. – diz Xena, preocupada.

– Eu vou ficar bem. – diz Gabrielle, enquanto se dirige para a porta da cabine.

Chegando ao interior da cabine, Gabrielle recorda o momento em que ouviu a conversa entre Xena e Ulysses, seguida de um beijo entre os dois.

– Num dia ela faz de tudo pra me salvar, no outro ela quer me abandonar! – exclama a barda, enraivecida e andando de um lado a outro. – E no fundo, a culpa é minha! Por que sou sempre conivente com tudo?

Gabrielle se senta num canto e continua discutindo consigo mesma:

– Eu poderia dizer a ela que não aceitava e pronto, mas não, a idiota Gabrielle aceita tudo o que a princesa guerreira impõe. E ainda por cima com um sorriso no rosto. – levando as mãos à cabeça, ela continua após respirar fundo – E quase que a idiota aqui termina sozinha.

A garota levanta e se dirige para a mesma rede na qual havia dormido na noite anterior e chorado baixinho por horas e deita, levando o antebraço ao rosto, para cobrir os olhos. Em seu pensamento ela ouve a voz de Ulysses dizendo-se apaixonado por Xena e o silêncio que se fez entre eles ocasionando aquele beijo, que durou poucos segundos, mas que para ela pareceu uma eternidade.

“Como ela pôde fazer isso? Só não aceitou que ele viesse conosco por causa de Penélope.” – ela reflete por alguns momentos – “Como eu pude acreditar em tudo o que ela me disse? ... Estava me usando como um brinquedinho, um passatempo que deixou de ser divertido... Bastou aparecer um único homem interessante pra ela querer jogar tudo pro alto.”

Gabrielle não se contém em seus pensamentos e esbofeteia o próprio rosto algumas vezes, dizendo:

– Burra! Idiota! Imbecil! Patética! – ela para de se autotorturar e conclui – Claro! Nunca que uma guerreira como a Xena iria querer algo sério comigo. – ela bufa — Tudo mentira, tudo!

Ela leva as mãos aos olhos, que teimam em encher-se de lágrimas, agora com a lembrança da conversa que ela teve com Xena na manhã anterior.

– Como eu pude citar Pérdicas e toda aquela história de ‘te ver feliz me fará feliz’ quando na verdade o que eu queria era que ela me dissesse que eu estava enganada e que só queria a mim? – ela suspira e diz – Às vezes esse meu senso de bondade e justiça me irrita!

Muito cansada de chorar e devido aos enjôos, Gabrielle resolve parar de se martirizar e fecha os olhos, na tentativa de ao menos conseguir cochilar um pouco.

A lua chega acompanhada de estrelas, preenchendo todo o céu com seu brilho. Os homens bebem vinho e cantarolam em meio aos últimos afazeres. Xena faz as últimas averiguações na embarcação para se certificar que a noite seguirá sem problemas. Descendo para a cabine, ela retira suas armas e a couraça, depositando-as em cima da mesa. Ela vê Gabrielle deitada na rede, se aproxima e leva sua mão ao rosto da barda e passa os dedos por sua franja, fazendo Gabrielle despertar de seu sono leve, mas sem abrir os olhos. A garota resmunga algo indecifrável, fingindo estar sonhando e vira-se para o lado. Xena se afasta, pega uma manta e estende no chão, ao lado da garota, deitando-se com as mãos atrás da cabeça. Ela fecha os olhos e tenta dormir.

“Gabrielle está magoada comigo. Ela não disse nada, mas posso sentir isso.” – reflete a guerreira, virando a cabeça na direção da barda, olhando suas costas – “Eu não queria magoá-la...”

Gabrielle percebe pelo som da respiração de Xena que ela adormecera e então permite que as lágrimas presas em seus olhos invadam seu rosto. Horas se passam até que finalmente a barda consegue pegar no sono.

Notas finais
Bem, é isso. Comente! Eu ficaria grato. ^.^ E se gostou dê joinha ;-)