Borboletas – Curiosidade 2:

As cores vivas e as formas de muitas espécies servem para atrair o sexo oposto.

Lucas

Quando olhei no relógio e vi que logo daria meia-noite, achei melhor recolher minhas coisas. Logo, o aniversário da Amy chegaria, e eu estava fazendo um cavalo de madeira para ela. Descobri recentemente que ela adora cavalos. Seria um presente apropriado para uma garota de oito anos. Eu não passava tanto tempo assim aqui, mas como um cavalo de madeira mediano não é algo que se faz da noite para o dia, eu tive que trabalhar mais e perder um pouco o sono. Mas no fim, valeria a pena. Amy adorava os brinquedos que eu construía para ela.

Eu termino de desligar as luzes do lugar e fecho tudo. Olho para a janela de onde mais cedo, duvidava que alguém me olhava. Minha intuição dizia que era Harley, a neta da senhora Grace e do senhor Tucker. Eu já a tinha visto por fotos, a reconheci quando a vi. Foi até engraçado o modo como ela se esquivou quando falei com ela. Ou como ela procurava por lugares secretos onde as chaves ficavam. Quando fiquei de frente para ela, pude sentir a defesa dela contra mim. Acho que a surpreendi demais para uma primeira impressão, mesmo sem ser minha intenção. Ela me encheu de perguntas, não tendo ideia que eu detesto qualquer situação interrogativa. Pensei em me oferecer para levá-la e trazê-la do colégio todos os dias, vejo até como obrigação, já que estudaríamos juntos. Mas achei melhor não interromper o momento deles quando vi Grace e Tucker chegarem. Achei melhor oferecer pela manhã.

Grace e Tucker confiavam em mim, eu sabia pelo que a família deles estavam passando. É um momento delicado para própria Harley, lembro das palavras da senhora Grace. Ela precisa de nós.

O neto mais velho deles, Daniel havia morrido há seis meses em um terrível acidente de carro. Um caminhão o pegara de frente em um sinal. Fora uma perda e tanto. Consigo imaginar. A história foi comovente, passou nos noticiários. O homem estava bêbado e dirigia o caminhão da empresa onde trabalhava, era uma empresa de sardinhas. Ele havia sido demitido, se afundou em bebidas e roubou o veículo da empresa. A companhia se responsabilizou por tudo. O homem havia sido preso, mas a família havia ficado sem Daniel. Uns quatro meses depois, eu estava com Grace e Tucker, quando eles receberam uma ligação. Ao desligar, Grace nos olhava pesarosa.

— O que foi, meu amor? — O senhor Tucker perguntou.

— É a Harley. — Os olhos dela brilhavam enquanto no encarava. — Ela está mal. Eles já não sabem mais o que fazer.

Eu gostaria de saber mais sobre o que acontecia com a neta deles, por cima, entendi que ela se metia em problemas. Apesar da minha curiosidade de querer saber mais, não ousei perguntar. Odeio que me façam perguntas, por que eu deveria fazer aos outros? A melhor ideia foi Harley se mudar para viver com eles. Parece que ela pedia por isso.

Quem não queria viver com Grace e Tucker? Eles são as melhores pessoas para se estar acompanhado.

Quando passei pela porta da minha casa e a fechei com delicadeza, não me assustei ao encontrar Richard, sentado no sofá e provavelmente me esperando. Eu respirei fundo. Tinha que ter muito saco para aguentar isso.

— Você não tem aula amanhã? — Ele perguntou, e Deus como eu detesto o som de sua voz.

— Você sabe que sim.

— Eu me pergunto se você sabe.

— É claro, eu estudo lá. — Respondi sem me importar com meu tom de voz. Ele repete o que fiz segundos atrás, só que alisando suas têmporas. Ele só podia estar de sacanagem comigo.

— Estou tentando, Lucas. De verdade. Eu e sua mãe estamos sendo pacientes com você. — Ele falou, mas eu já estava de costas para ele.

— Não me importo.

Eu tinha poucas horas para dormir, e precisava fazer isso rápido. Era algo rotineiro meu, toda vez que eu deitava na cama, meu sono sumia repentinamente. Mas que merda.

Eu preciso dormir.

Eu não dormi nada. Quando o despertador tocou pela manhã, a vontade de virá-lo e voltar a sonhar era grande. Eu tinha plena consciência de que não devia fazer isso, além do mais, ter Richard no meu pé sobre o fato de eu ter faltado aula é o que me motivou a levantar. Eu escovo meus dentes e tomo um banho rápido. Quando desço a escada e vou até a cozinha, avistei minha mãe de costas, fazendo algo no fogão. Joguei minha mochila no chão e fui até ela.

— Bom dia. — Eu disse, beijando de leve seu rosto.

— Bom dia. Dormiu bem? Richard comentou comigo que você voltou tarde de novo ontem. — Ela falou virando-se para mim. Eu não lhe respondo logo. Tirei da geladeira uma jarra com suco de laranja. — Lucas?

— Eu dormi bem, mãe. Não precisa se preocupar. Amy ainda não acordou? — Perguntei querendo mudar de assunto. Minha mãe, Jane, é uma adorável mulher que se deixa influenciar demais por Richard. Para ela, tudo que digo dele soa como implicância. Mesmo com o passar do tempo eu não me tornei mais certo. Desde que meu pai nos deixou e minha se casou com o Richard, nossa família havia mudado da água para o vinho, como um homem estranho se amassa com a minha mãe e ainda tenta ser meu pai. Não sei em quantos momentos eu fui o vilão da história. Nossa relação em família só pôde melhorar quando Amy nasceu, gosto de acreditar, em que a única boa razão de Richard existir foi ter trazido Amy ao mundo. Mas não posso dizer isso em voz alta.

— Richard vai deixá-la no colégio hoje. Só lembre de pegá-la, ok? — Ela me avisou. A cozinha é preenchida pela presença de Amy e Richard.

— Oi, mamãe. Oi, Lucas. — Amy nos deu o doce som de sua voz. Eu mandei uma piscada para ela.

— Eu tenho que ir. Vou acabar me atrasando.

— Não vai comer nada? — Richard se direcionou a mim.

— Não. Estou bem. — Passei pela Amy e depositei um beijo demorado e zuadento na bochecha dela. Pelo menos, a fiz rir. Apanhei minha mochila do chão e saí dali.

Vou até os Willow, para lembrá-los que posso levar Harley ao colégio junto comigo. Bati duas vezes e a senhora Grace abriu a porta. Está sorrindo como sempre.

— Oi Lucas. Chegou na hora certa, acabei de fazer Waffles. Estão quentinhos. — Ela me convidou para entrar. Eu recuso.

— Sabe que eu nunca dispensaria seus Waffles, senhora Grace. Mas hoje estou um pouco atrasado. Pensei em levar Harley comigo ao colégio. — Disse eu ainda na porta. O senhor Tucker aparece atrás dela.

— E aí, garoto. — Nos demos as mãos. — O que achou da minha neta, hein?

— Mais linda pessoalmente. — Eu disse, me arrependendo em seguida por não ser o momento apropriado. Mas Tucker riu assim como Grace.

— E não é? Temos sorte dela não está aqui. Ela detesta ser elogiada. — Por um momento não entendi. Eles percebem minha confusão e me explicam.

— Ela já saiu, Lucas. Disse que era bom ir cedo para resolver certas pendências. Nós queríamos ir junto, mas sabe como são esses adolescentes de hoje em dia. — Grace falou como se eu não fosse um desses adolescentes de hoje em dia. Me senti até lisonjeado.

— Mas ela sabe onde fica o colégio? — A minha curiosidade falou mais alto.

— Oh, Harley? Ela sabe de cada canto dessa cidade. Quando ela era mais nova, Tucker a levava por todo lugar.

— Ok então, acho melhor eu ir. — Concluí, me afastando.

— Ah, espera um segundo, Lucas. — Tucker me chamou e se aproximou. Grace havia retornado para dentro da casa. — Você se importaria se eu pedisse para ficar de olho nela? Nada muito descarado, ela é esperta. E só se estiver tudo bem por você.

— Não tem problema nenhum, senhor Tucker. Pode confiar em mim. — Falei sincero. Ele sorriu para mim, ajeitando o chapéu na cabeça.

— Obrigado, rapaz. — Acenei com a cabeça e caminhei até minha picape, mas ainda o escutei dizer: — Só Tucker, rapaz!

— Eu tento, senhor Tucker. Eu tento.

Estacionei o veículo em uma das poucas vagas que restavam. Consegui chegar a tempo, por eu não ter deixado Amy em seu colégio hoje. Quando eu saí do carro, vi Fred vindo em minha direção. Fred era um cara magro e sorridente, e que adorava levar fora das garotas. Ele possuía uma cara de pau sem fim, mas um bom coração, foi o único em que simpatizei quando cheguei aqui. Está ao meu lado até agora.

— E aí está ele, minha gente! Lucas Morgan, meu ídolo! — Ele gritou e fez uma saudação estranha para mim.

— O que foi dessa vez? — Eu lhe dei minha melhor cara de entediado.

— Tudo bem. Vou lhe dar as dicas, você vai ter pegar, ok?

— Não.

— Tudo bem, continuando. O que tem duas pernas malhadas, anda botas grossas, morena e esbelta e está doida para lhe dar sua...

— Ainda não são nem oito da manhã, Fred!

— Isso mesmo, Angela Tate, um ano mais nova, e de-ses-pe-ra-da por você, amigão! Você tem que me dizer seu segredo, cara. — Ele gesticulou com grande empolgação. Saímos do estacionamento e adentramos a escola.

— Não me importar, cara. — Tentei, mas ele não acreditou. — Sério, não me importo. Ficar com garotas do mesmo colégio é problema, Fred. Desencana.

— Você só diz isso por causa da Laura. — Ele me lembrou, e desejei bater nele com a minha mochila.

— Isso mesmo. Laurie foi um erro que quero esquecer. — Acho que eu disse isso um tanto alto, pois quando cheguei ao meu armário, Laurie estava perto e não me olhava muito feliz. Ela veio até mim.

Merda.

— Isso mesmo, Lucas. Continue andando por aí e dizendo que nossa relação foi um erro. Engraçado, não lembro de você pensar assim quando nós dois nos agarrávamos no seu carro.

— Laurie, não... — Até quis me desculpar, mas ela estava longe. Ela vestia a mesma saia curta dos outros dias, só que de cor diferente. Aquele tipo de saia que faz qualquer garoto babar por suas pernas. O cabelo estava maior e seu lábio mais vermelho do que o normal. Ela foi um lindo erro, mas um grande erro. Eu realmente gostava dela, mas a relação foi ficando difícil. Ela foi mudando e ficando possessiva, e não de um modo fofo. Arrumava desculpas imaginárias para brigar e sempre ganhava de mim ao me beijar. Eu era um fraco que não conseguia terminar com ela, pois toda vez ela chorava e eu voltava atrás. Quando finalmente tomei coragem e terminei tudo de vez, eu ainda tinha que ver ela todos os dias pela escola. Foi quando tomei a decisão de nunca mais ficar com alguém daqui.

— Lucas, cara. Você se pegava com ela no seu carro, Amy e eu entramos lá! Que tipo de homem você é? — O virjão do Fred conseguiu me irritar ainda mais.

— Fred, é algo que eu simplesmente não posso falar com você, já que você não entenderia. — O acusei lhe dando dois tapinhas nas costas e indo para a sala de aula.

— Como assim, cara? O que você quis dizer com isso? Porque eu acho que foi uma ofensa e doeu. — Ele resmungava atrás de mim, enquanto eu o ignorava.

Quando entrei na sala, a avistei. Ela estava em um suéter vermelho, o cabelo estava preso no lado e sua atenção voltada para um Mp3 em suas mãos. Primeiro pensei em ir cumprimentá-la, embora seria forçar a barra. Ela não percebeu minha presença quando sentei duas cadeiras atrás dela, e Fred sentou na da minha frente.

O resto do dia se passou rápido, eu não vi Harley durante o intervalo, e ela também não falou comigo nas outras aulas, e nem com mais ninguém. Ela era bem reservada, e tinha algo em seu rosto como: FIQUE LONGE DE MIM OU VOU MORDER VOCÊ. Era algo mais ou menos assim. Ou talvez, fosse eu criando desculpas por ela não ter falado comigo nenhuma vez. Quando eu era novato, ter alguém para me guiar era tudo o que eu queria. Apenas para eu não ter que pedir ajuda para as pessoas erradas ou me tornar amigos das pessoas erradas, sorte minha eu ter cruzado com Fred.

— Vou precisar de uma carona hoje. — Fred contou quando íamos até a minha picape.

— O que aconteceu com aquilo que você chama de carro? — Perguntei tirando minha chave da mochila.

— Qual é cara, não fode. Tive que deixar a Rosita na revisão, ela estava fazendo uns barulhos estranhos.

— Você tem ideia de como é bizarro quando você chama seu carro de Rosita, não é?

— É um bom nome!

— É deprimente, cara. — Nós estramos no carro e me surpreendi ao conseguir ver de onde estou a neta dos Willow. Ela estava retirando uma bicicleta do paraciclo. Acho que Tob Davidson, um babaca da outra turma passou por ela dizendo algp, mas ela o ignorou como fez com todos o dia inteiro.

Eu dei partida para ir atrás dela. Dou uma leve buzinada, pois ela está com aquelas coisas no ouvido de novo. Ela me olha com curiosidade, — já que estava pronta para ir embora — acho que Fred está do mesmo jeito agora.

— Estou indo para casa, não quer vir? — Pergunto e acho que estou sorrindo. Não consigo decifrar seu rosto, talvez ela esteja pensando em como ser educada. É, ela vai recusar.

— Ah, estou bem. Quer dizer, você sabe, eu meio que estou precisando me exercitar e andar nisso. — Ela se refere a bicicleta vermelha chamativa, lembro de ver Tucker pintando-a.

— Tem certeza? Podemos colocá-la aqui atrás. — Insisto, pois isso é ilógico. Estávamos indo para a mesma porra de lugar. Ela pareceu analisar de novo, por um momento achei que fosse aceitar, mas aí vê Fred ao meu lado.

— Fred! — Ele se apresenta sorridente e com uma sobrancelha levantada. Cara de pau.

— Harley... — Ela o cumprimenta de volta. — Mas obrigada. Gosto de... — ela deu uma pausa e tocou o sino da bicicleta. — Pedalar.

— Tudo bem, então.

Liguei o carro indo embora um pouco ofendido. Não ficamos calados por muito tempo, nem minha playlist no som do carro me distraiu. Fred não parou de me encarar com aqueles olhos estranhos. Eu sabia o motivo.

— Qual é cara, está me estranhando?

— Na verdade, estou esperando. Há um tempo. — Ele me respondeu com aquele rosto de capitão óbvio.

— Esperando o que exatamente?

— Você me dizer de onde conhece a novata. Não soou nem um pouco óbvio?

Sim, Fred, soou, mas eu não queria falar sobre isso. Nem deixar você saber que me sinto como se tivesse acabado de levar um fora.

— Você ainda está nessa?

— Sim, Lucas. Estou nessa há... — Ele olhou a tela do celular. — Três minutos, exatamente. Desembucha.

— É só a neta dos Willow. Ela se mudou para morar com eles. Eu só pensei em demonstrar um pouco de apoio.

— Ela não parece querer apoio de ninguém. Mas eu conheço esse tipo de garota. — Ele usou um tom quase sério. Levantei uma sobrancelha.

— Esse tipo de garota?

— Sim. Aquela beleza misteriosa, olhar amargo que suplica por atenção. Só esperando um cara como eu para decifrá-la e quebrar o código do seu coração, assim a tirando do medo de que ninguém vai amá-la. — Ele teve outro de seus momentos poéticos, e que me faziam rir da maioria das vezes, mas não dessa vez.

— Fred? — O chamei, tirando-o dos seus sonhos de decifrar Harley.

— Sim?

— A garota se mudou para cá porque o irmão mais velho dela morreu em um acidente de carro.

Seu rosto foi mudando gradativamente, ficando vermelho.

— Oh. Isso é ruim.

— Tudo bem, cara. Não tinha como você saber.

Nós estacionamos em frente ao colégio de Amy. A loirinha veio correndo ao ver meu carro. Ela abriu um sorriso de orelha a orelha quando percebeu Fred no carro. Eles se davam mais bem do que eu esperava. Meninas como a Amy, deviam achar Fred nojento. Eu acharia.

— Fred! Está indo lá para casa? — Ela perguntou alto quando entrou no banco de trás.

— Receio que não, doce Amy. — Ele começou com a voz de um ator dramático. Era como assistir a sátira de Orgulho e preconceito. — Seu bruto irmão me impede de entrar lá.

— O que? Por que? — Amy olhou para mim.

— Eu deixei bem claro, senhor Fred, que sua entrada seria permitida quando você parasse de peidar no meu quarto.

Amy disparou na gargalhada. Era a pessoa mais fácil para se fazer rir.

— Cara, não acaba com a minha imagem. — Falou ele com a mão no peito fingindo uma indignação afetada.

— Cara, não peida no meu quarto. — Eu retruquei para que Amy risse mais.

— Parem de falar isso na minha frente! — Amy fez uma careta. — Fred, você vai na minha festa, não é?

— Claro. O que eu compro para você?

— Algo caro.

— Essa é minha garota! — Amy e eu batemos as mãos em um high-five.

Nós deixamos Fred em sua casa e fomos para nossa. Amy não parava de tagarelar sobre sua festa. Seria em duas semanas e ela faria 9 anos de idade. E provavelmente, seriam as duas semanas mais longas da minha vida, se Amy continuasse falando do jeito estava. Chegamos em casa e eu a mando tomar banho, indo para cozinha esquentar alguma comida para nós. Meu fim de tarde se resumia a assistir televisão e ajudá-la com tarefa de casa. Quando minha mãe e Richard chegam, vejo que é hora de me retirar. Consigo ser educado com eles e vou até o outro lado da rua, fazer coisas que realmente segurem minha atenção.

Eu tinha uma coleção de animais em miniaturas, feitos de boa madeira. Eu os comecei fazendo para Amy, apenas por brincadeira. Mas na medida em que eles iam ficando bom, comecei a fazer mais. Desde predadores a pequenos insetos. O meu favorito é o urso, o fiz pela forte lembrança que eu tinha de quando era criança. Vi com meus próprios olhos um urso circulando o quintal da minha antiga casa. Eu não gritei ou me apavorei. Era a criatura mais linda que eu havia visto. Ele me viu também, ficou me observando com aqueles pequenos olhos castanhos. Então, se virou e foi embora. Eu reportei o que havia visto, o serviço de proteção aos animais o procuraram por semanas. Mas nada encontraram. Ele parecia ter sumido com o vento. Acabei me passando por louco, mas eu sabia o que havia visto. Ele estava lá, cutucando umas frutinhas de um arbusto. Me viu, se virou e foi embora. Aquilo foi bem real.

Quando eu estava terminando de consertar uma caixinha de música, bateram suavemente na porta da casinha de madeira. Eu disse para quem que estivesse do lado de fora entrar e me deparei com Harley me olhando da porta. Ela estava de short e tento não me demorar em suas suas pernas, usava uma regata branca, o cabelo solto sob os ombros. Reparei rapidamente nos pés descalços e em como ela era imune ao frio que estava ali. Ela segurava na mão um prato florido com uma torta nele.

— A vovó, ela disse que você iria querer. — Ela entrou de vez e se aproximou. — É de limão.

Me entregou a torta e eu a coloquei em minha mesa. Suas bochechas estavam vermelhas assim como seus lábios. Em nenhum momento ela me olhava nos olhos.

— Obrigado. Não tem como rejeitar nada vindo da senhora Grace. — Digo eu.

Sua atenção agora estava no meu espaço de trabalho. Ela passava o olhar por todo o canto das prateleiras. Por todas minhas ferramentas, quadros nas paredes e até observava as luminárias. Não a conheço muito, mas parecia admirada. Seu olhar caiu sobre minhas coleções de animais de madeiras.

— Você fez todos eles? — Ela perguntou de repente.

— Sim. — Falo simplesmente. — Escolha um.

— Como?

— Para você. Escolha um. — Ela tinha aquele olhar desconfiado. Como se eu fosse um estranho lhe oferecendo doce. Eu tinha cara de tarado?

Ela voltou a analisar os objetos. Então, pegou um com asas. Escolheu a borboleta. Vou até uma gaveta e tiro de lá uma argola.

— Aqui. — A chamo e ela me olha. — Pode fazer um chaveiro, se quiser. Você gosta de borboletas?

Percebi que ela negou lenta com a cabeça ainda segurando o inseto de madeira. A entreguei a argola e ela parecia não ter o que dizer.

Confusão. Assim como quando nos conhecemos, tinha confusão em seu olhar.

— Obrigada. — Disse suavemente. — E pela... carona mais cedo. Obrigada.

— Mas não lhe dei a carona.

— Eu sei. Eu sei... Mas pela intenção de me dar.

— Está agradecendo a minha intenção? — A provoquei um pouco. Chegava a ser engraçado.

— É, talvez. Eu acho. — Ela continuava a procurar palavras. — É uma boa coisa, não?

— É estranho. Mas de qualquer modo, de nada.

— Certo. Tudo bem. Eu já vou. Boa noite.

Ela saiu rápido demais, seu cabelo deixando comigo um um aroma refrescante.

É melhor eu comer a torta.

Notas finais
O que achou da primeira aparição do Lucas? Deixe-me saber. Ah, e se tiver notado algum erro de digitação, peço que me ajude e comente aqui também, serei eternamente grata e você ganhará na loteria! Duas vezes... Próximo capítulo: Harley.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.