Por quem ele era apaixonado
1 Capítulo único
Notas iniciais
As noções de “relacionamento feliz” de Rony baseavam-se, unicamente, no casamento de seus pais. O que não era uma coisa ruim porque Arthur e Molly eram um ótimo retrato de um relacionamento saudável. Mesmo durante Hogwarts, ele não estivera em contato com muitas formas diferentes de amor. Harry não podia lhe contar sobre os pais, e Hermione muito raramente falava sobre os dela (e, quando falava, ele não entendia muito. Como assim eles raramente estavam em casa? Quer dizer que Hermione não havia crescido com a mãe lhe puxando a orelha o tempo todo?).
Rony havia demorado a entender que nem todos os relacionamentos eram iguais.
Logo após a batalha em Hogwarts, quando Harry e Gina puderam finalmente ficar juntos sem o incomodo empecilho da morte iminente, ele soube que estava fazendo alguma coisa errado.
Porque Harry e Gina viviam em uma sintonia quase absurda. Era quase como se eles conseguissem ler os pensamentos um do outro.
Merlin, Rony mal entendia o que Hermione falava. Como ele deveria adivinhar os pensamentos dela?
Ele não entendia como, quando Gina dizia à Harry que faltaria um encontro deles para ir à um jogo importante de quadribol, ou quando ela dizia que estava ocupada demais estudando, Harry conseguia simplesmente assentir e dizer que entendia. Porque quando Hermione cancelava um compromisso com ele, Rony já estava falando besteira antes mesmo de perceber.
Estúpido Ronald Weasley e sua boca enorme.
Garotas como Hermione Granger não namoravam caras como ele. Garotas opinadas, fortes e assustadoramente influentes não namoravam caras eternamente conhecidos como “o melhor amigo de Harry Potter”. A Bruxa mais inteligente daquela geração não namoraria o garoto que mal conseguira se arrastar aos longos dos anos em Hogwarts.
“Não mesmo” Hermione havia dito, deslizando na cama para ficar ao lado dele, e uma das mãos dela subiu para passar uma mecha de cabelo ruivo para atrás das orelhas “ela se apaixona por ele”.
A boca de Rony se abriu. Ele ficou estático, olhando-a. Hermione riu, uma risada tímida, escondendo o rosto atrás dos cachos, como sempre fazia quando estava com vergonha. Mas um segundo depois ela virou o rosto novamente, e Rony viu nos olhos castanhos algo que nem sempre estivera lá. A confirmação de que, embora Hermione ainda fosse a bruxa (quase) insuportavelmente esperta e convencida, ela também havia mudado. Não era mais a garotinha tímida que tinha medo das reações dele. Hermione o olhou com toda a confiança em si mesma que ele tanto admirava.
“Eu sei que você ainda não acredita em mim” ele deslizou a outra mão até dele, que estava aberta em seu colo. O polegar dela acariciou os nós dos dedos dele. “Mas você é o garoto mais incrível que eu já conheci”.
“Não sou” ele insistiu, com a boca seca “eu sou só...”.
“Você pode não ser o garoto mais corajoso de todos, mas você é leal. Você ficou comigo e com o Harry mesmo quando tínhamos certeza que não íamos sobreviver. Você colocou as nossas amizades acima de tudo. Mesmo quando estava irritado com algum de nós...” ela riu de novo “mesmo quando estava irritado com gente, você sempre dava um jeito de nos ajudar”. Hermione o olhou de novo, dessa vez com muito mais firmeza “você tem o maior coração de todos, Rony. Eu não me apaixonaria por ninguém mais”.
Hermione nunca o deixou esquecer os seus erros. Mas ela o perdoou por tudo. E Rony aos poucos aprendeu que o amor era assim mesmo. Ele machucava às vezes. Mas ele também sabia perdoar. E da próxima vez que ela cancelou um encontro porque tinha uma reunião no Ministério da Magia, Rony – pela primeira vez em sua vida – usou o computador recém-adquirido para procurar uma receita na internet.
“Você fez espaguete?” Hermione perguntou, atônita, dependurando a bolsa no gancho da parede.
Rony olhou-a por cima do ombro, de onde estava terminando de colocar a panela da mesa “achei que você fosse gostar. Você mencionou que gosta de comida italiana, não foi?”.
O sorriso que ela o deu o fez pensar que o cheiro de molho de tomate impregnado na sua camiseta favorita valia a pena.
Rony virou-se para o lado na enorme cama de casal, estendendo o braço e... encontrou o colchão vazio. Abrindo um dos olhos preguiçosamente, ele se encolheu com a luz atravessando as cortinas. Não conseguia ouvir nenhum barulho vindo do banheiro.
Um pedaço de papel dobrado estava no criado-mudo.
Precisei sair mais cedo por causa de uma emergência. Eu prometo que vou tentar chegar cedo em casa para o nosso jantar. Mil desculpas.
P.S: deixei o café da manhã para você no balcão da cozinha.
P.P.S: ... é da confeitaria.
Rony riu. Claro que era. Hermione Granger conseguia aprender os feitiços mais difíceis do mundo, mas era capaz de colocar fogo em uma cozinha quando tentava fazer qualquer comida sem a supervisão do marido.
Quando garoto, Rony imaginava que ia crescer para ser um grande jogador de quadribol, famoso em toda a sociedade bruxa, e que teria uma esposa muito bonita que cozinharia pratos deliciosos quando ele voltasse dos jogos.
Muito animadamente, Rony foi até a cozinha e comeu o café da manhã que sua esposa Ministra da Magia de Londres, que absolutamente não conseguia cozinhar e que jamais receberia ordens dele, havia comprado. Ele organizou os livros que ela havia deixado na mesinha de centro de volta no escritório dela, e enviou uma carta para os filhos em Hogwarts, os lembrando que o aniversário da mãe estava chegando. Draco o visitou durante a tarde, e eles jogaram algumas partidas de xadrez bruxo.
Quando a noite caiu, ele estava tirando a lasanha do forno. Hermione aparatou na sala de estar e o cumprimentou. Rony colocou as luvas encima da mesa e foi até ela. Sua esposa estava com o cabelo meio bagunçado, e uma expressão cansada. Rony passou os braços pela cintura dela e a trouxe para perto. Hermione descansou o rosto no peito dele e suspirou.
“Espero que esteja com fome”.
“Estou faminta” ela respondeu.
Rony deixou um beijo no topo da cabeça dela.
Hermione Granger nunca havia sido as “outras garotas” que Rony imaginava. Ela nunca seria uma esposa calma e quieta. Mas esse era o ponto: as outras garotas não eram melhores ou piores do que ela. Eram outras garotas, simplesmente.
Outras garotas que não eram Hermione.
Que não eram a mulher por quem ele era apaixonado.
A mulher que conseguia ver através das bobagens dele, da preguiça e do desempenho escolar que deixava a desejar. Além do estômago infindável, dos comentários fora de hora e da ocasional falta de sensibilidade. Não, mais que isso.
A mulher que, ao longo dos anos, não o havia consertado ou ensinado. Ao invés disso, ela simplesmente o havia mostrado que ele poderia ser alguém melhor, ao mesmo tempo em que o fazia acreditar que ele não era só o garoto bobo e alívio cômico.
Rony não queria uma mulher que se adaptasse a ele. E também não queria ninguém para consertá-lo, transformá-lo em alguém que ele não era. Rony queria Hermione. Rony queria a garota que sempre o apoiara, o amara e o respeitara. E a garota que sempre puxara sua orelha e jamais tolerara quando ele passava do limite. Porque ele queria ser tudo isso para ela também.
Hermione Granger nunca seria como as outras esposas. Mas estava tudo bem para ele. Porque ela era exatamente quem ele amava.
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