Por que você?

1 Prólogo - Manhã de Cinzas


Notas iniciais
Segue então o prólogo minha primeira fic aqui no Nyah.O música do trecho deste capítulo é Ingenua, da Dulce Maria e a tradução dele está nas notas finais. De certa forma a música toda tem a ver com o que acontece aqui.Tenham uma boa leitura! *-*

“Intentaré reconstruir mi paz

Quemar tus besos, no mirar atrás

Te di mi oxigeno y mi voz,

Hice um mundo para dos

Hiciste que creyera em ti

Y después dijste adiós”*

Sempre ouvi dizer que toda calmaria, vinha seguida de uma tempestade. E aquela manhã estava sendo um excelente exemplo disso. O céu já preparava o clima, carregando as nuvens cinza típicas de uma chuva de verão. Eu alcançara um sonho antigo na sexta daquela manhã esperava apenas encontrar meu caminho de volta. Mas ao invés de um sonho, me deparei com um pesadelo...

Para começar, eu estava numa daquelas TPM bem bravas. A ponto de cuspir fogo no primeiro que pisasse na bola comigo. E foi por isso que eu tinha deixado Luana e Tony na quadra, depois de uma séria discussão entre nós. Meu maior desejo até ali era fazê-los se arrepender de terem marcado às minhas costas um encontro entre eu e Jorge no sábado, mesmo depois de eu ter dito uma centena de vezes que não queria ajuda para arrumar um namorado, principalmente se fosse aquele lesado. E eles sabiam muito bem o porquê. Eu era apaixonada por outro. Completamente apaixonada.

Pensar naquilo me fez flutuar nas nuvens. Sabe que naquela sexta-feira, depois de alguns meses achando não ser correspondida, eu finalmente tinha ficado com Júlio. Ele finalmente havia se assumido que sentia algo por mim. Tinhas sido os momentos mais felizes da minha vida. Principalmente porque andávamos afastados nos últimos dias.

Mas Tony e Luana não sabiam disso. Eu não ainda não tinha tido a oportunidade de conta-los, e a gora não tinha a menor vontade. A única que sabia era a Karen. Mesmo assim, tinha sido cúmplice deles naquele plano ridículo, então eu estava igualmente chateada com ela.

E também teria minha rejeição total naquele dia. Principalmente ela sabendo o que tinha acontecido naquela tarde.

Eu sei que isso é típico de garota mimada, birrenta e insuportável, mas naquele momento eu não ligava. Estava decidida em conquistar um pouco de respeito. Tinha passado a semana inteira avisando que se eles insistissem em me empurrar para cima de todo e qualquer garoto daquela escola, eles iriam sofrer as consequências. Hora de pagar.

Quando cheguei ao corredor da cantina ouvi uma voz me chamar.

– Ei Isa, espera – Era Tony.

Fingi que não tinha escutado e segui meu caminho para o salão de mesas que estava lotado. Quando coloquei meus pés dentro do local, percebi tarde demais que ele já estava atrás de mim. Tony pegou meu braço e me puxou bruscamente. Como fizera tantas outras vezes durante as nossas tardes desperdiçadas na quadra, Tony me pegou subitamente, segurando meus joelhos e pondo-me em seus braços.

– Aha! Peguei você! – bradou em triunfo.

Pela minha visão periférica vi Luana ao seu lado comemorando a captura.

Essa não era a primeira vez que aqueles dois faziam isso. Não era primeira vez que eles me faziam pagar mico na frente de todo mundo com esse tipo de brincadeira. Na grande maioria das vezes eu levava na esportiva, mas aquele, definitivamente não era o caso.

– Me põe no chão! – berrei enquanto lançava socos nos seus ombros e costas – Agora!

– Ei calma! – disse Tony me pondo no chão.

Não tinham sido as palavras que surtiram efeito, pois eu costumava usa-las em vão outras vezes. Mas sim o som alterado da minha voz. Mesmo nos conhecendo a mais de um ano, eles nunca tinham me visto realmente irritada. Se aquela cena fosse desenhada numa revista em quadrinhos, provavelmente me desenhariam com fumaça saindo da cabeça. Senti-me mal por trata-los daquele jeito, mas não conseguia para a mim mesma.

– Já chega! – Gritei e notei que as pessoas nos olhavam curiosas. Não distingui rostos naquele instante. Apenas olhei firme para os dois para não desistir.

Senti minha visão ficar turva de ódio.

– Estou cansada de vocês me fazendo de boba da corte... – sibilei lutando para evitar as lágrimas – cansada de ser ignorada quando peço para vocês o simples favor de me darem um minuto de paz. E de vocês se meterem na minha vida e nos meus sentimentos. Eu preciso de um tempo. Pode ser?

Naquele instante eu vi Karen aparecer atrás de Tony com seus olhos grandes e escuros arregalados. A boca semiaberta num pequeno "o" de espanto.

– Menina, não é pra tanto – falou Luana ao se aproximar – já pedimos desculpa.

– Mas eu não quero aceitar agora – minha voz – Eu quero um tempo pra mim.

Vi Karen puxar Luana, que resistia me olhando assustada de seu 1,50 m de altura. Não esperei que ela desistisse, apenas saí daquele lugar. Ninguém nunca tinha me visto perder o controle, e eu começava a me odiar pelo que tinha acabado de fazer com meus amigos. Eu costumava ser um doce e me manter sempre calma. Eu entendia que as pessoas estranhassem me ver daquele jeito. Fazendo uma cena lamentável no meio de uma cantina lotada.

– Pelo visto alguém aqui acordou de mal humor – ouvi uma voz debochar ao meu lado e soltar uma gargalhada.

Era um dos amigos do Júlio. Seu nome, se não me engano era Pedro, mas eu não respondi. Eles eram uns idiotas que viviam zoando da minha paixão platônica. Queria só ver quando eles descobrissem que agora eu era correspondida. Não tinha interesse em falar com mais ninguém.

Fui direto pra arquibancada do campo de futebol. Era de certa forma um lugar distante, e pouco associável a mim, o que significava que demorariam a me encontrar lá. Eu estava sozinha mergulhada no meu pranto, sem a menor vontade de aparecer na aula ou em qualquer lugar daquela escola. Arrependida por ter gritado daquele jeito com Tony e Luana. O que estava acontecendo comigo?

Não sei quanto tempo fiquei ali divagando entre a raiva e o arrependimento, mas em certo momento ou os passos de três pessoas subirem as escadas. Eu não precisava ver para saber que eram. Karen sentou a minha frente, Tony ao meu lado esquerdo e Luana do direito. Eu estava prestes a mandá-los embora quando Luana me envolveu num abraço forte de irmã.

– Me perdoa Isa! – sua voz tinha um profundo e sincero tom de arrependimento quase desesperado – Eu não sabia. Eu juro que não sabia. Karen só me contou agora.

Beleza. Agora ela já sabia que eu tinha ficado com Júlio sexta à tarde. Isso não mudava o que eles tinham feito, mas poderia significar que eles não fariam mais. Eu podia colocar um final naquela picuinha e deixar tudo voltar ao normal.

–Olha, eu não pude falar porque passei o final de semana inteiro sem sinal no... – comecei a explicar que tinha ido para a casa dos meus avós, mas logo fui interrompida.

– Mas você tinha que ter nos falado hoje – ela começou magoada, mas depois sua voz pereceu soar com fúria – Você não precisa passar por isso sozinha. Eu juro que eu vou fazer aquele desgraçado se arrepender do que fez.

– Do que você está falando? – perguntei me livrando do abraço para encara-la confusa.

– Karen falou do que aconteceu sexta à tarde – falou Tony com a voz carregada de fúria – e de ontem.

Olhei para Karen em dúvida. Ela sabia da minha tarde de sexta, mas o que ela sabia sobre o domingo, que nem eu sabia. Ela percebeu a minha confusão, e eu notei uma pontada de pena em seu olhar.

Olhei para Luana e notei o mesmo olhar nela e uma mistura de compaixão e raiva em Tony.

– O que aconteceu ontem?

– Você não precisa fingir que não sabe Luísa – respondeu Karen num tom de voz baixo. – Somos seus amigos, estamos aqui com você.

– Dá pra me dizer o que diabos está acontecendo aqui? Porque essas caras? – eu já estava assustada.

Eles se entreolharam e eu não soube dizer o que eles estavam pensando, mas parecia o mesmo olhar que eles tinham quando não acreditavam em mim.

– Pelo amor de Deus! – gritei apavorada – Vocês querem me falar o que aconteceu ontem?

Dessa vez Karen e Luana me olharam curiosas, e numa sincronia que só nós três tínhamos elas trocaram olhares confusos.

– Você está irritada por causa da notícia de ontem, não é? – perguntou Karen incerta.

E mais uma vez senti a raiva voltar.

– Não, – disse emburrada – foi pelo que vocês armaram sexta.

– Não é motivo suficiente pra aquela cena que você fez na cantina. – Tony me olhou com descrença. – Aliás, aquilo foi humilhação demais. Só de pensar naqueles vermes rindo às suas custas me dá vontade de quebrar a cara daquele...

– Espera. – Luana interrompeu eu já tinha notado aquele semblante observador nela enquanto depois que trocara olhares com Karen. Ela me virou para que eu olhasse dentro dos seus olhos castanho-amadeirados – Você disse que ficou sem celular, certo. E sem net também, não é?

– Sim, mas o que isso tem a ver? – achei aquela pergunta estranha. Talvez tivesse acontecido algo que eu não vi. Quando ela balançou a cabeça e olhou para Tony, pela primeira vez fiquei em dúvida se eu realmente queria saber o que estava acontecendo.

– Ela não sabe – Luana falou olhando de Tony para Karen.

– O que eu não sei? — perguntei hesitante.

***

Eu estava envolta no abraço fraternal e aconchegante de Tony. Luana segurava minha mão e alisava meu cabelo enquanto eu chorava como uma criança perdida. Karen estava sentada a nossa frente, desconfortável, sem saber o que fazer para me consolar. Enquanto a outra dizia coisas que deveriam me fazer me sentir melhor. Como as mil maneiras que ela se vingaria do maldito desgraçado.

Ele não podia ter feito isso comigo? Eu jamais o perdoaria. Eu jamais teria coragem de olhar nos olhos daqueles amigos cretinos dele.

Meu pensamento voou para aquela tarde.

– Lu – ele afastou do meu rosto uma mecha de cabelo – eu queria te dizer uma coisa...

Lembrei que minha respiração falhou com a proximidade.

– Diga.

– Mas eu não consigo – e antes que eu processasse o que acontecia, ele me beijou. Um beijo calmo e explorador. Como se ele ainda tivesse dúvidas sobre mim. Sobre se eu ainda o queria.

Quando o beijo parou ele me olhou no fundo dos olhos com aquela imensidão negra dos seus e num suspiro lamentou: – Eu gosto tanto de você, e eu nem sei se mereço o que você sente por mim.

– Não diga isso. Eu te amo e é isso que importa.

Sem mais, ele voltou a me beijar dessa vez mais urgente.

– Eu não sei. Ela está tão silenciosa que... – a voz baixa de Luna me fez voltar ao presente – olha, ela tá acordada.

Me deixei cair novamente nas lembranças, mas dessa vez sobre aquela manhã. Desde o primeiro momento, todos que me conheciam naquela cantina, pensaram a mesma coisa. Que a minha fúria, aquela cena degradante e as minhas lágrimas desmedidas tinham sido inteiramente por causa dele. E não importava mais a minha verdade, pois eu ficaria marcada para sempre por aquela cena lamentável, de uma garota que não sabia lidar com os seus sentimentos. Eu seria a piada deles para sempre, a tola que foi facilmente enganada e depois desprezada.

E por mais que eu tivesse aceitado todos os pedidos de perdão dos meus amigos, eu não conseguia dissocia-los daquele todo. Afinal, eles também tinham acreditado na aparência, e vez ou outra eu podia sentir a dúvida e a pena pairando subliminarmente em seus olhos e suas palavras. Aquilo doía.

Todos tinham visto destroçada. Uns sentiam pena, outros divertimento E eu não conseguia distinguir qual era mais humilhante.

– Você vai ficar bem – disse Tony.

Eu não tinha certeza de quanto tempo demoraria para eu me livrar dessa dor, mas eu a superaria. E eu nunca mais daria aos meus inimigos a chance de usufruir dos meus sentimentos para sua diversão. Nem aos meus amigos a oportunidade de me olharem com pena. Ninguém me veria derramar uma lágrima novamente.

Esse assunto seria enterrado dentro de mim com todas as minhas forças. Até que eu o esquecimento caísse sobre mim.

Notas finais
Tradução do trecho:"Tentarei reconstruir minha pazQueimar teus beijos e não olhar pra trásTe dei meu oxigênio e minha vozFiz um mundo para doisFizeste acreditar em tiE depois disse adeus"Comentem! Já já posto os capítulos 1 e 2.