O hospital nunca pareceu tão grande.

Bella caminhava pelo corredor branco como se estivesse atravessando um campo minado. Cada passo exigia concentração. Cada respiração parecia incompleta. O cheiro de antisséptico misturado ao silêncio tenso fazia seu estômago revirar, e, ainda assim, ela seguia, porque parar significaria desabar. Mia estava na sala de cirurgia e o tempo parecia se arrastar.

A palavra ecoava na cabeça de Bella como um martelo: cirurgia.

Não era uma palavra grande o suficiente para comportar tudo o que estava acontecendo. Tumor maligno.Raro.Útero.Aborto espontâneo. Risco de morte. Era informação demais para uma mãe processar sem se perder...

Stefan estava sentado ao lado dela, segurando sua mão com firmeza, como fizera durante os últimos vinte anos em todas as situações difíceis. O polegar dele fazia um movimento lento e repetitivo sobre a pele de Bella, um gesto automático, protetor, quase inconsciente.

— Ela vai sair dessa — ele disse pela milésima vez, mas agora não parecia uma promessa. Parecia um pedido ao universo.

Bella assentiu, mas não respondeu.

Edward estava alguns passos à frente, encostado na parede, os braços cruzados, o olhar perdido em algum ponto invisível. Havia momentos em que Bella conseguia fingir que a presença dele não mexia com ela. Aquele era um desses, pois tudo nela estava exposto demais.

Edward havia mudado. Não fisicamente, mas havia algo quebrado em seu silêncio. Ele descobrira há poucas horas que Anthony não era seu filho biológico. Que Aly, a mulher que ele namorou desde os 13 anos de idade, enterrara e honrara durante anos, havia mentido. Que engravidara de Stefan numa noite em Amsterdã, durante o curso aquele maldito curso que mudou a vida de todos. Ela morrera no parto e deixou Edward criando sozinho aquela criança, ele abriu mão de tudo inclusive seu futuro com Bella. E vinte anos depois… descobrira que nada era como acreditava.

Bella sentia culpa por coisas que nunca confessara em voz alta. Culpa por ainda amar Edward de um jeito silencioso e persistente. Culpa por ser feliz com Stefan e, ainda assim, carregar memórias que não morriam. Culpa por, no meio do medo de perder a filha, ainda sentir o coração reagir à presença de outro homem.

— Eu não devia sentir isso — ela pensava, repetidamente. — Eu sou feliz. Eu sou grata. Eu amo o Stefan.

Mas a mente humana não respeita juramentos.

A porta do centro cirúrgico permaneceu fechada por horas que pareceram dias.

Foi Renée quem chegou primeiro, trazendo consigo um abraço apertado demais para ser educado, mas exatamente do tamanho que Bella precisava.

— Minha menina… — disse, segurando o rosto da filha. — A Mia vai ficar bem.

Atrás dela vieram Carlisle e Esme, reencontralos após anos era estranho, o olhar dos dois estava carregado de preocupação genuína. Carlisle conversou com os médicos, fez perguntas técnicas, tentou traduzir o caos em lógica, mas nem mesmo ele parecia totalmente seguro.

Alice chegou logo depois, com Jasper ao seu lado. Ao ver Bella, largou tudo e a abraçou forte, sem dizer nada. Não havia palavras que resolvessem aquilo.

— Eu estou aqui — Alice sussurrou. — Sempre e para sempre.

Rosalie e Emmett apareceram pouco depois, Emmett sério como Bella raramente o via. Damon chegou com Elena e a Jena, que já era mulher feita, trazendo café, cobertores e aquela presença barulhenta que tentava afastar o medo.

Lily Salvatore, mãe de Stefan, segurava um terço entre os dedos, murmurando orações baixas. A família toda estava ali e o medo também.

Quando o médico finalmente apareceu, o corredor inteiro silenciou.

— A cirurgia foi longa — ele começou — e delicada. O tumor foi removido, mas houve complicações devido ao aborto. Ela perdeu muito sangue.

Bella sentiu o mundo girar.

— Ela está viva? — Stefan perguntou, a voz firme apenas por esforço.

— Está. Mas os próximos dias são cruciais. Precisamos iniciar o tratamento oncológico assim que o corpo dela permitir.

Bella levou a mão à boca e chorou em silêncio.

Mia estava viva, mas a batalha estava só começando.

Horas depois, no quarto, Mia despertou lentamente. Stefan estava ao lado da cama, segurando sua mão, os olhos marejados de um homem que já havia enfrentado muita coisa e muitas, mas nunca aquilo. Afinal, aprendemos e somos preparados para enterrar nossos pais, irmãos e cônjuges e nunca nossos filhos.

— Pai… — ela murmurou

— Estou aqui, meu amor. – disse Stefan se inclinando imediatamente.


— Você não vai embora, né? — ela perguntou, com esforço. — Mesmo… mesmo que eu não seja…

Ele não deixou que ela terminasse.

— Você é minha filha — disse, com firmeza absoluta. — De todas as formas que importam. Eu não vou a lugar nenhum. Nunca.

As lágrimas escorreram pelos olhos de Mia.

— O médico falou comigo — ela continuou. — Vai ser difícil.

— Nós vamos juntos — Stefan respondeu. — Um dia de cada vez.

No corredor, Edward conversava com Anthony pela primeira vez desde que a verdade começara a emergir.

— Filho… — Edward começou escolhendo as palavras com cuidado — Preciso te contar algo sobre antes de você nascer.

Anthony o encarou em silêncio, maduro demais para a idade.

— Eu sei que não sou seu filho biológico — disse. — Mas isso não muda quem você é pra mim.

Edward respirou fundo, a voz falhando.

— Eu queria ter sabido tudo desde o começo. Mas nada do que eu vivi com você foi mentira.

Anthony assentiu.

— Eu nunca me senti menos seu filho.

Mais tarde, Stefan e Anthony se encontraram a sós.

— Eu falhei com você antes mesmo de te conhecer — Stefan disse. — Julguei sua mãe. Neguei a possibilidade de ser seu pai. E você cresceu sem saber quem eu era.

Anthony respirou fundo.

— Você não me deve nada — respondeu. — Mas… talvez a gente possa começar agora.

Stefan assentiu.

— Se você permitir.

No fim da noite, Bella estava sentada com Alice no jardim do hospital.

— Eu estou confusa — Bella confessou. — Tenho medo da minha filha morrer. Tenho medo de ser injusta com o Stefan. Tenho medo do que eu sinto pelo Edward.

Alice segurou sua mão.

— Amar não é traição — disse. — Traição é negar a verdade pra si mesma.

Bella chorou.

Dentro do hospital, a vida seguia frágil.

A primeira fase do tratamento de Mia começava. E nada mais seria simples novamente.