Por mais que Eu Tente

1 Por mais que eu tente - capítulo único


Notas iniciais
http://www.youtube.com/watch?v=ouR2AR4AvfE
(um vídeo com a música em boa qualidade, pra quem quiser)

Todas as noites, quando eu fecho os olhos, vejo ele. Vejo-o sorrindo para mim e dizendo que logo estaremos juntos novamente. Ah, como eu queria que ele estivesse dizendo a verdade...

Mas, ele não pode estar falando a verdade. Somos casados, isso já faz cinco anos exatos. Eu conto todos os dias, não é culpa minha, não é culpa dele. Não é culpa de nenhum de nós.

É uma coincidência; uma brincadeira de mau gosto do destino.

Se o vento sopra sem sentido
as estrelas podem me guiar
se eu não te tenho aqui comigo
quando eu sonho eu posso encontrar

Uma lágrima solitária escorre pelo meu rosto na noite escura. Estou enfurnado na minha cabine esperando que ela entre aqui, mas ela não vai entrar. É assim quando se é capitão do Holandês Voador, uma noite em terra, com a mulher que você ama, e dez anos no mar, cumprindo a sua missão.

Meu coração ainda é dela, literalmente. Só dela, sempre foi. E, eu tenho fé de que, o coração dela ainda é meu. Fecho os meus olhos e quase sinto seu toque suave, sorrio imaginando que ela está lá.

Mas, antes que minha alma se convença de que estamos juntos novamente, nos amando em uma ilha no meio de lugar nenhum, abro meus olhos e me vejo naquela cabine velha, com uma cicatriz no lugar do coração. Como ela está? Em que ela está pensando?

Me pego pensando coisas absurdas, como se faltasse menos de cinco anos para eu poder vê-la novamente, para eu poder tocá-la, para poder sentir seus lábios juntos aos meus.

Como se fosse um sonho do qual eu jamais gostaria de acordar.

A liberdade sempre andou comigo
nas esquinas de algum lugar
mas o meu lugar é estar contigo
eu não posso mais me controlar

Sinto uma leve pulsação embaixo da minha cama, aquele tum tum que sinto logo antes de dormir como um lembrete. Eu me lembro que, em algum lugar, ele está vivo e eu transmito meus pensamentos de amor. Tum tum... Tum tum...

Como se a minha vida fosse a coisa mais simples e a mais complicada ao mesmo tempo. Eu o amo tanto, mas, ainda assim, não posso tê-lo aqui do meu lado.Ele não pode conhecer o próprio filho. Isso não é justo! Não é justo comigo, nem com ele, nem com o pequeno Will.

Desde que aprendeu a falar, Will pergunta sobre o pai. Ele me bombardeia com milhares de perguntas. Respondo a todas e tento não chorar na frente dele. Seja forte! Não chore na frente dele.

Não posso, não posso. Eu tenho que parecer forte. Tenho que ser forte, só assim vou conseguir criar meu filho, nosso filho... Will.

Por mais que eu tente lhe dizer
o quanto eu sinto por você
como é possível não saber
que eu te quero

Fecho meus olhos novamente, tentando imaginar o rosto dela. Tenho tanto medo de esquecer como é. Mas, pela milésima vez, me lembro dele. Ele está sorrindo. Eu sinto o meu coração palpitando de emoção.

Eu não tenho coração... Então, se eu não tenho um coração, por que sofro pelo meu amor ? Talvez, seja o que alguns dizem; o amor não está no coração, ele fica na cabeça.

Por que ainda faltam cinco anos? Cinco anos exatos desde que Davi Jones quase me matou. Não sei se agradeço ou mato o Jack por ter me salvado, às vezes, penso que a morte seria melhor do que este sofrimento. Melhor do que saber que estou vivo, mas longe dela. Porque, mesmo que eu esteja vivo sem ela, a vida não é vida. É uma meia vida.

Não importa se estou sozinho
eu não tenho como te esquecer
vagando pelas ruas sem destino
se me perco me encontro em você

Em uma espécie de desespero, me viro compulsivamente com vontade de dormir para sempre. Quero morrer, mas, não posso. Will precisa de mim. Não vou abandonar meu filhinho de quatro anos! Nem agora, nem nunca.

Ouço alguns passos leves perto da minha porta e ela se abre. Vejo de leve, uma pequena figura com um travesseiro nas mãos pequenas.

- Will, está tudo bem? — pergunto com a voz meio chorosa.

- Mamãe, posso dormir com você? — ele me pergunta chegando mais perto — Mamãe, você estava chorando?

- Não, filhinho... — Falo pegando ele no colo e colocando do meu lado na cama.

- Era por causa do papai?

- Era... — Eu digo abraçando-o.

- Mamãe? — Ele fala no meio do nosso abraço.

- O que foi?

- Ele vai voltar, não vai?

- Claro que vai. — eu digo com uma confiança boa. — Agora, vamos dormir, Will.

Por mais que eu tente lhe dizer
o quanto eu sinto por você
como é possivel não saber
que eu te quero.

Cinco anos depois...

Acordo, pensando que a saudade que habita em meu peito vai me matar e me lembro que é hoje. É hoje que vou poder vê-la e tocá-la. É hoje que vou sentir sua pele junto da minha e amá-la pelos dez anos que não pude.

Ando pelo convés sorrindo, dou ordens feliz e, hoje, me sinto o melhor capitão do mundo. Tudo isso, porque é hoje que eu poderei vê-la! Hoje, ao pôr do sol eu vou viver de novo. Vou nascer de novo.

Está entardecendo, olho para o horizonte e fico olhando ansioso. Um lampejo verde...

Por mais que eu tente lhe dizer
o quanto eu sinto por você
como é possível não saber
que eu te quero.

Eu e Will estamos esperando, ele veio cantando, mas, parou. O sol está se pondo lentamente e eu olho para o horizonte, exatamente como ele mandou que eu fizesse. O sol se põe, eu vejo um lampejo verde e como mágica, lá está o Holandês Voador. Eu o vejo. Pela primeira vez em dez anos vejo o dono daquele pulsar que embala meu sono todas as noites.

Logo, os pés dele tocam a areia e eu corro para seus braços.

- Will... Eu senti tanta saudade. — digo para ele.

- Eu também — ele me responde me dando um beijo.

- Tem alguém que eu quero mostrar para você. — digo chamando meu filho para perto — Esse é Will, nosso filho.

- Nós temos um filho? — Will perguntou olhando para o menino de nove anos com os olhos gigantes — É claro que temos um. — ele disse sorrindo.

Will sorriu para o pai e, por alguns segundos, os dois sorriram igual. Pela primeira vez, nós três eramos uma família.

- Papai, você vai ficar para sempre? — Will perguntou abraçando o pai.

- Para sempre — Will respondeu para mim e para nosso filho — Calypso propôs um acordo e, agora, eu posso ficar com vocês para sempre.

Como é possível não saber
que eu te quero

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