Por ironia do destino
8 Plano B
No dia seguinte eu acordei até cedo, era sete da manhã quando minha tia me chamou, ela disse que havia uma amiga minha querendo falar comigo, a garota estava me esperando na porta. Eu levantei de pijama mesmo, meio cambaleando de sono e fui até a porta, chegando lá vi Naoko com a cara inchada, provavelmente havia chorado.
—Bom dia Naoko—Disse eu coçando meus olhos.
—Bom dia Samanta-San! —Disse ela cabisbaixa.
—San? Chame-me apenas de Samanta, San é muito formal ao meu ver, e estranho também—Disse segurando para não bocejar.
Fechei meus olhos momentaneamente e assim que abri não a vi mais, abaixei o olhar e vi que ela estava no chão ajoelhada com os braços para frente, como se fizesse a saudação ao imperador, acho que é isso mesmo, e estava... Reverenciando-me não é a palavra certa para isso, aquilo parecia mais um sinal de submissão, era uma cena muito bizarra.
—Samanta, por favor... Por favor mesmo... Não conte á ninguém minha idade e se alguém perguntar por mim... —Disse ela chorando— Por favor diga que não me conhece.
Eu me abaixei e a puxei para cima, mas tive um pouco de dificuldade, por fim ela levantou-se sozinha e escondeu o rosto de mim, minha tia chegou nesse momento com uma caneca de café.
—Meu Deus querida, você está bem? —Perguntou minha tia—Se machucou?
—Está tudo bem senhora— Disse Naoko recuando—Tenha um bom dia vocês duas.
—Aff, Eu sabia que esse tapete era um perigo e que alguém acabaria caindo uma hora ou outra—Disse minha tia arrumando o tapete.
Naoko virou-se e eu a segurei pelo braço, ela olhou para trás, mas logo em seguido se soltou e voltou correndo para seu apartamento. Naoko realmente é uma menina muito estranha, mas algo me diz que tudo que ela precisa é ajuda, ou talvez só uma amiga.
—O que houve Samanta?—Perguntou tia Kiyomi.
—Acho que a Naoko fugiu de casa, por isso ela está assim.
—Hum... Eu realmente não sei o que dizer... O sindico do condomínio disse para tratá-la bem, ela é afilhada dele.
—Bem, então ela não fugiu... Mas mesmo assim ela é uma garota muito estranha.
—Ele disse que ela não é muito sociável mesmo—Disse minha tia saindo de perto.
Eu quis ir falar com ela aquela hora, mas achei melhor deixá-la se acalmar um pouco, porque pela cara dela parecia não ter dormido muito bem noite passada. Eu voltei para meu quarto e tentei dormir de novo, mas não consegui, então lembrei da revistinha que meu irmão havia trazido. Pus os pés da cabeceira da cama e me deitei para ler mais confortavelmente, depois de folhear um pouco eu achei uma página com um artigo inteirinho sobre Sayonaka.
Sayo... Easy?
Sayonaka é o mais novo jogo da Mimmen world e já ganhou popularidade entre player do mundo todo, o jogo foi lançado mês passado e já teve mais de 7.000.000 de downloads e também sua primeira atualização semana passada. A versão 2.1 tem uma jogabilidade notoriamente parecida com a 1.0, mas os gráficos já foram melhorados em comparação com a versão anterior.
Como prometido por Okazaki Tai dono da Mimmen world, esse jogo conta com uma coisa ainda inédita em outros jogos do gênero de corrida, o próprio jogo cria suas pistas, cenários e haters por assim dizer. “Como assim?” você deve estar pensando aí, simples, ele tem um conjunto de 18 pistas (3 adicionadas na última atualização) já prontas nos dados base do jogo(Que podem ser vistas inteiras no modo história do jogo), e elementos dessas pistas são misturados pelo próprio sistema, formando assim pistas iradas e super difíceis de jogar. Ou seja, se você for um jogador que costuma memorizar curvas e moedas de ouro, isso não dará certo nesse jogo. Mesmo com isso tudo o jogo é leve para poder rodar em diversos aparelhos.
Para os leitores que já jogaram qualquer jogo da Mimmen world, já conhecem bem a fama de serem difícil, e também viciante. Sayonaka não é exceção, apesar de ter uma jogabilidade fácil na parte dos comandos, tem um peculiaridade que é a extrema dificuldade de fazer pontos no jogo em geral, principalmente no modo competição que dá uma falsa impressão de facilidade, mas é o mais complexo do jogo.
Passagens secretas e Boosts
Bem, depois de jogar milhares de vezes e termos um baixo desempenho começamos a reparar algumas coisas.
Primeira
Partidas no modo competição que começam com pistas de cenários vulcanosos (dentro de um vulcão) costumam nos dar mais jogadas e os maiores escores também.
Segunda
Como todos os jogos da Mimmen world há passagens secretas que dão pontos bônus no jogo, mas essas são mais difíceis de achar que os outros jogos e nós a achamos por acidente mesmo.
Estava jogando esse jogo outro dia e me distrai por um momento, tirando assim as mãos do aparelho, o resultado foi que meu carro saiu da pista. O mais estranho foi que o carro não bateu na parede, na verdade ele foi parar em outra pista, pensamos ser um bug, mas isso nos deu pontuação extra. Depois de analisar muito percebemos que há musgo na parede em trechos de todas as pistas e eles são na verdade passagens secretas. Quando você entra neles não vai parar em outra pista, você adianta a corrida, ganhando assim até 25.000 pontos de uma vez.
Terceira
Após seis passagens secretas que você passa o jogo te dá mais trinta segundos de jogo.
Quarta
Equipe melhor seu carro. Uma pedida boa seria dar boost nos freios e molas, porque em todo jogo há muitas curvas.
Com todas essas dicas depois de jogar mais um pouco, o recorde de nossa equipe foi de 60.842 para 453.960.
Eu li aqui tudo e fiquei horrorizada, 400.000 pontos não é um pouco de exagero não? Peguei meu celular e comecei a jogar, tentei dar o boost max num Mustang Vermelho que corria para caramba diga-se de passagem, depois tentei me lembrar das dicas, mas nada parecia funcionar. Meu irmão vinha me tirar do sério toda hora e eu não achava o musgo que a revista falava, mas mesmo assim já havia conseguido uma pontuação maior, consegui 43.000 pontos cravados.
Após um dia inteiro correndo e passando vontade no meu irmão, consegui um pouco mais, 51.755 pontos. Meu irmão disse que vai me ajudar amanhã quando sair do castigo, se bem que eu tenho certeza que meia noite e um ele pegou o Nintendo e jogou até mandar parar, porque ele dormiu quase a tarde todo hoje.
No dia seguinte eu acordei cedo e fui para a escola, no caminho assim que virei à esquina avistei um menino conhecido meu, Ren o menino da minha sala. Ele me olhou rapidamente, mas depois virou-se e me ignorou, o cretino até passou para o outro lado para que não puxasse assunto creio eu, foi inevitável encará-lo. Acho que o olhei demais, do nada ele virou-se e gritou comigo.
—Tá olhando o que Kaigai?
—Hã?! —Disse eu meio assustada— Nada, é Ren seu nome né?
—É, passar bem—Disse ele começando á correr para longe de mim.
Antes de ir embora eu ouvi perfeitamente ele dizer bufando “Aff, por que kaigai tem que ser tão implicantes assim?”. Deu vontade de gritar para ele “Por que Nihon no são tão convencido assim?”.
Kaigai significa estrangeiro e Nihon no significa Japonês, acho que agora sei por que ele não se dá comigo, não deve gostar de estrangeiros. Minha tia disse que tinha japonês assim, mas ela disse também que isso acontecia mais com as garotas, e que era raro japoneses ignorantes assim nos dias de hoje... Para você ver o quão sortuda eu sou, valeu aí cosmo.
Depois de uma breve caminhada cheguei á escola, na portaria mesmo eu vi Miki, Ichiro e Hiro me esperando junto de alguns garotos que eu não conhecia. Assim que Miki me viu veio até mim sorrindo, segurou minha mão e me puxou saltitante até os outros garotos.
—Samanta, Samanta! —Gritou ansioso Hiro.
—Bom dia Samanta—Disse Ichiro—Temos boas novas.
—Oi gente! —Falei eu sorrindo.
—Nós conseguimos mais 1.000¥ para você vencer o recorde do Sayonaka.
“Meu Deus 1.000¥ é o equivalente há uns 30 reais, tá aí uma boa graninha para ganhar”.
Eu estava perdida em meus pensamentos até lembrar que... Eu não vou conseguir 200.000 pontos nunca naquele jogo, deu vontade chorar. Deu vontade também de falar que eu não queria mais jogar isso, desistir, mas foi aí que lembrei que meu irmão já havia me extorquido 800¥, então apenas falei qualquer coisinha, disse que estava atrasada(mentira) e fui para minha sala. Eu mal cheguei a minha sala e Ingrid já me esperava na escadaria.
—Samanta! Samanta! Você não vai acreditar... —Disse Ingrid me chacoalhando.
—Bom dia para você também viu?! —Disse eu irônica.
—Desculpa—Disse ela me soltando—Você já viu sua mesa hoje?
“Aff, já estou vendo que o dia hoje vai ser cheio”.
—Não Ingrid, eu nem fui para a sala ainda.
—Ah, perdão... Então vá até lá primeiro—Disse ela com um brilho no olhar.
Subi até minha sala ao lado de Ingrid, ao chegar lá basicamente todas as garotas da sala vieram até mim e me cercaram, todas falavam ao mesmo tempo comigo quase que não me deixaram passar. Ao chegar a minha mesa vi que havia uma rosa e um cartão em forma de coração bem á vista, as meninas estão fazendo esse drama todo por causa disso? Eu peguei ambos os presentes, antes mesmo de abrir o bendito cartão ele quase foi tomado pelas garotas, mas aí eu já havia perdido a paciência também.
—PAREM!! —Gritei e todas pararam onde estavam—Eu vou ler para vocês, calma gente.
Abri o cartão e comecei á ler em voz alta.
Samanta A.Limeda
Queria saber as mais belas palavras
Para lhe escrever uma linda canção
Mas como fico mudo perto de você
Por favor, apenas aceite meu coração.
Fofo, bem clichê, mas eu achei fofo. Sem contar que eu nunca ganhei nada parecido, muito menos tive admirador secreto até hoje, muito menos um garoto que soubesse meu nome completo.
As meninas tomaram o papel de minha mão e eu finalmente pude me sentar já que elas saíram de cima de mim, mas ainda estavam do meu lado. Nunca pensei que minha semana pudesse começar tão agitada assim, se bem que esse bilhetinho não significava nada para mim, pois um certo garoto não saía da minha cabeça e tudo que eu queria era que a aula acabasse para poder vê-lo.
—Samanta... —Disse Gina, a representante de sala—Eu acho que...
—Você acha que? —Perguntei eu.
—Você tem uma admiradora secreta.
—Hã?! Admiradora?
As meninas cochicharam entre si e disseram á Gina alguma coisa, ela então disse:
—Sim, a letra é muito redonda e bonita demais para ser de um garoto, mesmo que bom de escrita. Sem contar que no final está escrito watashi no( meu), creio que qualquer garoto aqui ira escrever ore no, é mais masculino.
—Sentimos muito—Disse uma garota de outra sala (Aliás, o que ela faz aqui?).
—Hum... Na boa, tudo bem... Eu acho.
“Não sei como elas conseguiram descobrir tanto com uma simples carta, mas mesmo assim... Ter uma admiradora secreta não é o fim do mundo, mas infelizmente se ela um se declarar para mim, eu não poderei correspondê-la. Eu até já fiquei com uma garota uma vez numa festa para saber se eu curtia, mas realmente não é minha praia”.
Fiquei na minha mesa olhando janela á fora, vendo as pessoas entrarem, estava perdida em meus pensamentos, até que a Ingrid sentou-se de frente para mim e começou a tagarelar.
—Hum, eu sei que você queria que isso fosse do Sayama... Mas ainda há possibilidade, a carta foi escrita por uma garota, não quer dizer que quem a mandou seja mulher—Disse Ingrid em português.
“Sinceramente Ingrid, isso parece aquele papo furado que as amigas sempre jogam quando a outra está na bad. O que não é meu caso agora, mas mesmo assim ela tenta alimentar expectativas que nem existem, ridículo”
—Na boa, já estou de olho numa pessoa... Tô nem aí se tem alguém querendo ser romântico ou romântica comigo.
—Eita... Eu conheço ele?
—Não, é o Yuan... O cara que eu saí sábado á noite.
—Aaaaahhh—Ingrid gritou histérica.
—Tá bem garota? —Disse eu pulando de susto.
Eu realmente assustei com aquele grito, até levantei e justo na hora o professor entrou na sala, graças á Deus não era o Sr.Ōmori, se não do jeito que aquele homem me ama já chegaria gritando comigo, tenho certeza disso.
—Você me conta tudo depois e não se esqueça que você vai ficar depois da aula comigo no clube de jardinagem—Disse Ingrid sentando-se.
“Eu já havia esquecido, anem queria ver o Yuan depois da aula, pelo jeito só amanhã e eu não falo com ele desde sábado. Droga, estou começando á ficar desesperada sem falar com ele, isso não é bom sinal”
A aula foi normal, passou até depressa para falar á verdade. Na hora do almoço fiquei na sala mesmo, os meninos vieram me chamar, mas a próxima aula era a do Ōmori e era aula de literatura essa semana, então aproveitei para ver alguma coisa ou outra na esperança de saber algo quando ele mandar as perguntas bomba nuclear que ele fazia , tinha certeza que ele iria me ferrar pedindo para eu ler algo. Eu ainda não tinha parado para reparar, geralmente as pessoas ficam na sala na hora do almoço, mas hoje havia só eu, algumas meninas um pouco á frente de mim, Sayama lendo um livro (do tamanho da bíblia) do outro lado da sala, e uns dois ou três garotos espalhados pela sala, ou seja, a sala estava vazia já que há 42 alunos aqui.
Por sorte eu me enganei, Ōmori estava começando a falar de autores asiáticos e a influencia deles na poesia japonesa, o que me agradou bastante, já que ele falou basicamente a aula inteira, mas disse que quarta e quinta terá um “recital de poemas” para ele e passou uma lista de poemas para escolhermos um e ler na frente da sala. Em breves palavras... Eu me ferrei em um grau que nem sabia que existia, é um novo recorde isso, porque é bem óbvio que ele vai me escolher para recitar um poema e me ferrar de brinde.
Depois da aula acompanhei Ingrid até a estufa detrás da quadra coberta, eu nunca iria adivinhar que lá era a sede do clube de jardinagem, já que temos que abrir um portão e ir basicamente até um terreno que eu pensava ser ao lado da escola (Esse lugar é maior que eu pensava aliás). Lá é muito bonito, tem muitas plantas dentro e fora da estufa, é bem quente como eu já esperava, há 30 alunos nesse clube e todos cabiam tranquilamente naquele lugar, eu acho que lá comporta 100 pessoas tranquilamente também. A Ingrid me explicou que lá é um berçário e viveiro de plantas de clima quente, do lado de fora estão as de clima frio e nas paredes as orquídeas. Hoje iriamos podar alguns arbustos na frente da entrada do prédio principal da escola, bem na entrada, o professor havia plantado eles no começo de março e já estavam grandes o bastante para fazer um trabalho artístico neles. Eram seis arbustos, então fomos divididos em grupos de cinco para fazer isso, eu fiquei no grupo da Ingrid claro.
Como eu não entendo nada de planta, fui ajudar a catar as folhas e galhos que caiam no chão. Estava concentrada rastelando, Ingrid que é tagarela também estava quieta, mas em determinado momento ela apenas me cutucou e disse para eu olhar quem estava trás de mim. Ao virar-me vi um garoto alto de kimono branco e faixa verde, quer dizer, kimono quase todo branco, havia manchas de sangue nele, era Sayama, apesar de estar um pouco longe eu o reconheci, parecia procurar algo.
—Sayama-san! —Gritou Ingrid acenando para ele.
—Ah, senhorita Ingrid... —Disse ele vindo até nós, apenas continuei a varrer.
—Parece estar perdido, está procurando algo? —Perguntou Ingrid.
—Na verdade sim, o sensei pediu para buscar um pano e um rodo para limpar o tatame. Alguns materiais de limpeza andaram sumindo e tivemos que treinar no dojō sujo hoje, então ele me mandou buscar um rodo novo agora já que a aula está quase acabando, mas não achei nenhum no armário de limpeza aqui em baixo.
—Hum, deve ter um ali na frente, na casinha de madeira. Juro que vi um quando fomos pegar os rastelos.
—Obrigado—Disse Sayama se curvando—Mas você sabe onde está à chave por acaso?
—Sei sim, deve estar com a Kaori. Samanta... Pode segurar a escada para mim um momento?—Disse Ingrid já saindo.
Eu apenas fiz o que ela havia me pedido e mal dei papo para o Sayama, se bem que ele falou comigo e a Ingrid voltou rapidinho também.
—Tá aqui—Disse Ingrid jogando a chave.
—Obrigado de novo Ingrid-san... Mas uma última pergunta...Onde é esse armário?
—Ah, detrás do ginásio bem no rumo dos vestuários.
—Ah, nunca vi esse armário lá, mas eu arrumo um jeito de encontrar lá. Obrigado mais uma vez—Disse ele curvando-se.
“Credo, os japoneses curvam-se muito... Mas o Sayama exagera um pouco na minha opinião, acho isso ridículo”
—Samanta, por que você não o acompanha? —Perguntou Ingrid.
—Hã? Mas ele disse que dava um jeito de encontrar sozinho e eu tenho trabalho aqui tá—Disse eu sem tirar o olhar das folhas que rastelava.
—Ah vai lá amiga—Disse ela em português.
—A-M-I-G-A... Para de tentar me jogar para cima desse engomadinho, eu já tenho pretendente.
—Ah qual é amiga, vocês só saíram uma vez e... É sempre bom ter um plano B.
—Plano o que?!
—Desculpa interromper a conversa—Disse Sayama olhando para mim— Mesmo sendo capaz de encontrar o caminho sozinho... Eu apreciaria muito a companhia da senhorita Samanta.
Nesse momento parei para reparar em volta e vi que os garotos bufavam e resmungavam, enquanto as meninas não estavam fazendo mais nada, muito menos ajudando os meninos que estavam fazendo o trabalho todo sozinho, elas apenas olhavam nossa conversa... Tudo um bando de fofoqueiras, sempre soube.
Acabei cedendo ao pedido do mister elegancy e linguagem ultra-culta, então fomos até o ginásio, permaneci calada, mas nem tínhamos saído do campo de visão das meninas e o Sayama já começou a tentar puxar assunto.
—Então... Samanta... Está gostando do Japão?
—Sim, estou gostando bastante mesmo Sayama.
—Sayama?! Pelo que eu me lembre, havia pedido para chamar-me de Masashi.
—Todo mundo te chama de Sayama, então chamarei também.
—Você não é todo mundo, é uma garota especial.
“Cara se ele vir com uma cantada idiota eu juro que deixo ele sozinho aqui”.
—Por que me acha especial?
—Obviamente porque você é diferente das outras garotas que eu conheço.
—Diferente?! Não entendi—Disse eu evitando olhá-lo, pois sabia que ele me encarava.
—Bem, em primeiro lugar porque você aparentemente não demostra nenhum interesse romântico em mim... Por isso meu interesse em conversar contigo senhorita Samanta, você não tem segundas intenções ou fica sem fala por nervosismo, apenas conversa comigo normalmente.
—Que bom, então não vou mais fugir de você—Disse eu meio sarcasticamente.
—Em segundo lugar, eu também falo português, meu pai tem muitos negociantes Portugueses e Brasileiros—Disse ele em um português bem enrolado.
—Oi?!! —Disse eu virando-me assustada— Por essa eu não esperava... Hum... Tenho a leve impressão que fiz besteira.
“Na boa, é só impressão minha ou todo asiático que eu conheço fala mais de uma língua”? Aff, se bem que eu falo três também, falo pessimamente o inglês, mas leio bem ao menos.
—Não, só não gostei de ser chamado de “engomadinho” mesmo—Respondeu ele sorrindo de lado.
—Foi mal, mil perdões... Eu realmente não sabia. Então isso explica porque sempre olhava para mim quando estava conversando com Ingrid, queria ouvir a conversa.
—Ah, bem... Sem argumentos contra isso, mas queria compartilhar com a senhorita...
—Não, para... Chame-me de Samanta e eu te chamo de Masashi, sem senhorita por favor, isso me da enjoo.
—Entendo, ou melhor, não entendo qual o problema.
—Você é muito formal e isso meio que me faz sentir... Bem... Como vou dizer... Da ralé.
—Ah, não era minha intenção... E se é de seu desejo eu entendo.
—Obrigada.
Fomos até o armário do outro lado da escola basicamente, a Ingrid me paga por isso, mas tudo bem. Assim que pegamos o rodo, percebi que o kimono do Sayama(Vou chamar ele assim mesmo, já acostumei poxa) estava mais sujo de sangue que antes. Pensei “Meu Deus, será que ele está machucado?”.
—Quantos meninos você teve que matar para ficar com o kimono sujo assim? —Perguntei disfarçando a preocupação.
—Hum, nenhum... Foi só um infeliz acidente—Disse ele levantando a mão suja de sangue que escorria por entre seus dedos— Acredite ou não isso tudo é por causa de um corte no dedo.
—Hã? Não entendi.
—Havia uma gilete no armário que procurei antes, um ser sem nada para fazer pelo jeito deixou aquilo lá. Por sorte cortei só o dedo, quero só ver a cara do Sensei quando me ver assim.
— Ele vai dizer... Eu te peço para fazer uma simples tarefa e você volta parecendo que foi na guerra? —Disse eu tentando imitar voz de homem.
—Provavelmente dirá isso mesmo—Disse Sayama rindo.
—Aliás, o que você faz?
—Karate, quer dizer, aqui é karate, aos finais de semana faço Kendo também. Sei que são informações inúteis, mas ah... Dizemos informações inúteis sem os outros perguntarem mesmo.
—Verdade—Disse eu pensativa.
Voltamos conversando e rindo um pouco, ele é um cara com senso de humor... Quem diria né? Quando chegamos até a portaria, novamente me vi cercada pelos olhares de minhas colegas, Sayama devolveu a chave para mim e se despediu das garotas que nos “secavam”, porque convém á nós ficar suspirando e comentando baixinho não é observar.
Sayama beijou minha mão, para atiçar mais ainda as garotas creio eu e depois disse sussurrando em português no meu ouvido:
—Espero que possamos conversar mais vezes Samanta-chan.
Nesse momento tenho certeza que uma ou outra garota desmaiou sem exagero. Eu sussurrei de volta em seu ouvido “Você é mal, olha o estado que deixou as garotinhas”, ele só respondeu “pois é” se afastando de mim, depois me agradeceu novamente. Por um momento eu esqueci que estava no Japão, acho que por causa de tanto falar em português hoje... E... E...E eu cometi uma gafe daquelas.
Levantei meu dedão direito fazendo o tão conhecido sinal de “joinha”, só que eu esqueci que o mesmo gesto aqui no Japão significa “estou saindo com um cara”. “Hum, deu ruim agora” não parava de pensar. Assim que vi a reação de estranheza do Sayama e me dei conta do que eu havia feito, parei para reparar nas garotas que cochichavam que nem maquinas uma com as outras.
—Foi mal, esqueci o que isso significa aqui no Japão. Eu só queria dizer ok, ou um simples de nada.
—Ata, eu já estava aqui pensando sobre isso. Porque você já havia dito que está saindo com um garoto, então né?! —Disse ele em português novamente—Até mais Samanta.
Quando ele saiu do meu campo de visão tive vontade de nem voltar para a aula, queria ir embora direto, pois sabia que as meninas iriam falar adoidadas. Assim que voltei meu olhar para os arbustos vi todos prontos, os garotos catando as folhas sozinhos, não vi o professor (Que nem desde o começo da aula) e as garotas me olhavam quase que com estrelas nos olhos de tanto que seus olhos brilhavam.
Ignorei todas e fui até Ingrid, lhe entreguei a chave e então disse:
—Seu plano fala português.
—Oi?! Não entendi—Disse ela colocando a chave no bolso.
—Sayama fala português e entendeu toda nossa conversa.
—Sério? Nossa, nem acredito.
—Muito menos eu—Disse eu indo ajudar os garotos á catarem as folhas pelo chão.
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