Por ironia do destino

5 A garota número quatro


Notas iniciais
Então queridíssimos, tenham um ótimo 2016 e vamo que vamo com o primeiro capitulo do ano ^~^ Boa leitura!

Na quarta depois da aula teve Educação Física, após trocarmos de roupa fomos para a quadra. Hoje a aula é diferente, fomos divididos, as meninas ficaram por conta da treinadora Chiyo (nome engraçado para uma mulher) que é visivelmente muito animada e os meninos com o professor Yokumura( não sei o nome dele, só o sobrenome). Os meninos foram jogar futebol enquanto as meninas iriam correr na pista da escola. Há duas pistas nesse lugar, uma é em volta da quadra de futebol que é ao ar livre (estava rezando para ser essa á corrermos) e a outra é em volta de toda escola, passa até em volta da quadra de basquete que é enorme a propósito. Adivinhe em qual a maluca da treinadora nos pôs a correr e quantas voltas? Exato, na pista em volta da escola e 15 voltas… Creio que isso é equivalente a mais de 3 km, e olha que ela disse que ia “pegar leve” com a gente hoje.

A ingrid ficou ao meu lado e creio que não era só eu que estava indisposta à correr, apenas umas três meninas pareciam animadas e pior que eu era uma das mais animadas, ou seja, o resto era zombie pelo jeito. Ingrid e eu estávamos na frente das outras garotas, ao completar duas voltas a treinadora que gritava euforicamente ao nos ver passar com seu megafone se cansou. Isso foi bom? Nenhum pouco, porque ela cansou-se de ficar quieta e resolveu correr conosco.

—Isso meninas... Vamos! —Gritou a professora com o megafone.

Situação totalmente desanimadora e atordoante por causa do barulho.

Achei muito estranho, porque estava muito calor e mesmo assim a maior parte das garotas corriam com blusa de frio e boné para não tomarem sol. Eu até concordo que o sol estivesse forte, mas um simples protetor solar não resolveria o problema? Precisava torrar debaixo dentro daquelas roupas?

—Ingrid… Quantas voltas faltam? —Perguntei já sem fôlego

—Faltam… faltam…

—Faltam sete voltas novata! —Falou a treinadora em meu ouvido com aquele megafone.

—Aaaiii! —Disse eu virando-me para ela.

—Bora novata! —Disse a treinadora, depois deu um tapa na minha bunda, me empurrando para frente—Sem descanso!

Eu fiquei olhando com uma cara de “WTF?!”, por que ela me bateu? E por que na minha bunda? Ingrid começou a rir e depois disse em português para que o resto das garotas não entendesse:

—Preocupa não, ela é doida assim mesmo. Mas é uma ótima pessoa.

—Ela me bateu.

—Sei disso, mas liga não é brincadeira dela. Quando acabarmos a gente conversa, se não ela grita de novo no seu ouvido.

A Ingrid deve ser vidente, foi só parar de falar e a professora gritou de novo, vou ficar surda desse jeito.

Depois de 16 voltas na escola, isso mesmo, ela nos fez dar uma volta a mais. Quando chegou à décima volta eu já não sentia minhas pernas, na décima quinta já não sabia quem eu era de tanta cede, ao terminar a décima sexta quase me joguei no chão, só não caí porque a Ingrid me pegou puxando meu braço. Apoiei-me nela e fomos até debaixo de uma árvore na decida para a quadra ver o jogo dos meninos, nenhuma garota parecia conseguir correr mais então fiquei despreocupada quanto a possibilidade da professora Chiyo nos por para correr novamente nessa aula.

Agora que fui reparar, aqui tem dois espaços para esportes, a quadra coberta que é usada como anfiteatro nas festas, reuniões e para os times de basquete e vôlei dividirem, sem contar que nos dias de chuva vamos pra lá na Educação Física. A quadra ao ar livre tem uma pista de corrida em volta e um espaço muito gostoso com árvores em volta, é usada para aula de Educação Física na maioria das vezes e alguns festivais também.

—Samanta, preocupa com a treinadora não que ela já fez isso com basicamente todas as garotas da nossa sala e acho que todos do time de vôlei da escola.

—Tarada hein?

—Ah, eles não enxergam isso com tanta maldade como basicamente todo brasileiro veria. Tipo, ela só estava dando um peteleco no seu ânimo para correr. —Tem certeza? Porque há outras maneiras de fazer isso sem encostar a mão na minha popança.

Ingrid riu da minha frase, na verdade até eu ri.

—Tenho certeza sim, você viu que ela não deixou nenhuma garota parar? Sem contar que ela ia ao lado das que diziam que estavam muito cansadas para encorajar.

—Fala sério, você é do time de vôlei?

—Não, sou do clube de jardinagem. Mas estudo aqui desde o primeiro ano, ela é com certeza a professora mais legal daqui e geralmente quando os estrangeiros vêm estudar aqui dá o maior Bo. por causa disso. Mas é o jeito dela, não é por maldade.

Falando em jardinagem, quinta-feira passada eu estava limpando o banheiro da escola junto com umas colegas minhas e lembro-me de perguntar por que os alunos que limpavam a escola. Ela me respondeu “Do mesmo jeito que você cuida da sua casa, para ela ficar bonita e agradável de ficar, devemos limpar nossa escola”. Eu entendo perfeitamente, já que eles passam mais tempo na escola que em suas próprias casas á propósito. Mas só agora que eu fui perceber que eles cuidam das plantas também, e meio que o clube de jardinagem deve ser um clube para suprir essa necessidade, tudo tão lindo, é fruto do trabalho deles.

—Nossa, você gosta mesmo dela.

—Ela me ajudou muito quando vim para essa escola. Tipo, o pessoal não gostava de mim, um dia até quiseram me bater e ela que entrou no meio e me defendeu.

—Eu já tinha ouvido falar que há muito bullying nas escolas japonesas, mas nunca imaginei que havia acontecido com você.

—Tipo, no Brasil falam que é para falar com os professores ou responsáveis, mas aqui os professores não estão nem aí para nós e meus pais também não estavam.

—Que triste Ingrid, eu realmente não sei o que dizer.

—Precisa dizer nada, isso foi só o começo, nos primeiros meses onde eu não sabia falar japonês direito então eles me zuavam muito por isso. Mas hoje eu sou fluente, quer dizer, pelo menos dá para o gasto então basicamente tudo fica mais fácil.

—Eu não sou fluente, mas vi que eu consegui me virar bem até agora com o que sei.

—Hã?!... Tá maluca? Você foi ótima, até tirou sarro da cara do Sr. Metidinho á dono da língua na primeira semana de aula —Disse Ingrid fazendo uma careta engraçada ao falar o do professor.

—Verdade —Respondi rindo.

Basicamente o assunto acabou e fomos ver o jogo dos meninos, ou melhor, do Masashi e do Ren, porque ambos eram capitães de cada time e eu só se via os dois jogando. O time do lado esquerdo (Ren) usava colete vermelho e do lado direito (Masashi) azul. Senti-me muito superior ao me lembrar que sempre que meu irmão jogava os times eram divididos entre os com camisa e os sem camisa, Japão é outro nível até para isso.

Era evidente que os dois estavam competindo entre si, e competindo muito, aliás, eles quase não deixavam os outros jogadores tocarem na bola. Ren deve ter 1,75 creio eu e o Masashi é uns dez centímetros mais alto que ele. Como tamanho não é documento, dava para ver que o pequeno é mais habilidoso com a bola que o que o grandão.

Depois de basicamente cinco minutos que ficamos olhando o jogo os meninos pararam e foram tomar um pouco de água. Achei a cena totalmente um clichê, havia uma concentração de garotas “fãs” nas laterais os observando jogar. Umas torciam pelo Ren e o as outras para um tal de Sayama, estava longe mas podia escutar os gritinhos delas, ridículo.

—Bonito hein?! Essas garotas não tinham folego nem para correr uma volta e agora ficam ali gritando que nem umas maritacas para os meninos—Disse eu me deitando um pouco mais ao encosto da árvore.

—Verdade, olha aquela ali... Levou até toalha para o garoto.

—Falando nisso, quem é esse tal de Sayama que elas tanto gritam? —Perguntei á Ingrid.

—O que está jogando água no cabelo e as menininhas estão quase dando um troço.

“Era o Masashi, então o sobrenome dele é Sayama… Pelo jeito não é ele o amigo do Hiro então”.

—O nome dele não é Masashi?

—Sim, mas o segundo nome é Sayama, ele tem mais um outro nome, mas eu não lembro o nome da família dele.

—Bonito nome, ah então Sayama não é o nome da família dele? Pensei que todos os japoneses tivessem apenas dois nomes.

“Se Sayama não é o nome da família dele, então ainda tem a possibilidade de ser o amigo do Hiro”.

“Nossa, nem eu sabia que tinha gostado tanto do moleque, porque pelo jeito que estou pensando parece que quero muito que ele seja o amigo do Hiro... Credo... O que eu tô fazendo da minha vida senhor?!”.

—A maioria sim, mas Sayama é o nome de uma cidade aqui na província de Saitama mesmo. Ele já contou essa história, parece que a mãe dele homenageou a cidade no nome do filho por alguma razão, eu só não sei qual.

—-Sayama é mais legal que Masashi.

— Sim, por isso que ele mesmo pede para chama-lo assim.

—Legal, ei agora que eu percebi que estou na cidade capital do estado.

—Correção, província… Mas dá na mesma.

Nossa conversa foi interrompida pela gritaria no campo de futebol.

—Foi falta! —Gritavam os meninos de colete vermelho.

Ren estava no chão, seu braço estava todo ralado por conta do concreto da quadra, estava puro sangue, ele apenas olhou rapidamente o ferimento e depois se levantou furioso. Ele caiu e basicamente ficou de pé rapidamente e foi logo em seguida encarar Masashi ou sayama sei lá, ah tanto faz, custei a memorizar o nome do garoto e agora descubro que o chamam de outro nome, sacanagem isso.

—Qual é?! Vai apelar agora? —Gritou Ren para Sayama.

Eles estavam quase brigando, Ren estava totalmente irado e Sayama (Ah vou chamar ele assim mesmo) parecia nem ao menos ligar para a raiva do garoto, apenas o olhava com um olhar de total indiferença, como se não fosse culpa dele, o que deixava Ren mais nervoso ainda.

—Se não aguenta o ritmo do jogo, não deveria entrar na quadra— Disse Sayama.

—Você é um apelão, quando vê que não consegue ganhar apela para coisas fúteis assim. Isso é coisa de criança, vamos voltar a jogar—Disse Ren já se virando.

—Você não acha que fiz isso por querer... Pare de besteira.

—Pare você, eu estava ganhando honestamente, diferente de você que sempre trapaceia— Disse Ren voltando a encarar Sayama.

Sayama o empurrou e Ren empurrou de volta, alguns garotos de cada time os seguraram e os separaram para que aquilo não virasse uma briga ali mesmo. Passado alguns segundos eles voltaram para perto um do outro e começaram a se encarar novamente.

“Eita, a treta tá boa... Onde será que isso vai dar?”

—Puff, você é ridículo sabia?... Não passa de Shotacon—Disse friamente Sayama.

—Shota? Shota?!...Shota o Car&lh# seu idiota—Gritou Ren.

Os garotos do time de vermelho que ainda estavam pedindo falta pararam e calaram se, as meninas que estavam a olhar o jogo começaram a cochichar quando ouviram Ren xingar. Esquisito, não vejo o professor, ele deve ter ido ao banheiro, só pode, mas numa hora tão ruim, justo quando dois alunos estão brigando.

Então, pelo que eu sei “Shota” é o feminino de “Lolita”, que são aquelas meninas que parecem uma bonequinha de porcelana de tão delicadas, geralmente adolescentes ou um pouco mais novas, sei lá, acho que o que conta é a cara de novinha mesmo. Acho que os shotas(ah só uma coisa, lê-se shôta) devem ser esses garotinhos fofos. Imagino também que isso deve ser uma ofensa e tanto para um homem conhecendo o orgulho deles.

—Você não tem modos? Fica usando palavras de tão baixo escalão perto de damas? —Disse Sayama friamente desviando o olhar do garoto.

—Ah para com essa coisa de querer ser cavalheiro, tu não passa de um viado que…

Sayama deu um tapa bem no meio da cara do Ren, ambos ficaram imóvel em silêncio, apenas se encarando. Bem nesse momento o professor Yokumura voltou. Na boa, acho que esse homem estava cagando, só pode, ficou quase meia hora fora.

—Opa, vamos separar, vamos separar—Disse ele correndo na direção dos dois.

—Não estamos brigando Sr. Yokumura, estamos apenas conversando não é Ren?

Ren nada disse, apenas cuspiu na cara de Sayama, virou-se na direção da escada, jogou o colete no meio da caminhada e basicamente saiu sem olhar para trás. Pelos meus conhecimentos de brigas sabia que aquilo não havia acabado, e estava certa, antes do garoto chegar á escada Sayama chamou sua atenção. Ren parou, mas em momento algum se virou.

—Cansou de brincar Ren? — Perguntou Sayama sarcasticamente.

—Não, só estou fazendo algo que você me diz para fazer sempre—Ele virou-se para os outros— Sendo racional. Porque não estou a fim de ser expulso por quebrar sua cara. Satisfeito? Pela primeira vez na minha vida eu vou te escutar.

Sayama bateu três palmas secas e depois começou a rir debochadamente, Ren saiu sem olhar para trás. Ele passou por mim, porque a escada era ao lado da árvore onde estava sentada, pude ver seu machucado bem de perto, estava bem feio, seu braço direito estava todo esfolado. Algumas garotas foram atrás dele depois que ele saiu de lá.

—Nossa, que coisa... Espero que eles se entendam.

—Acho difícil isso.

—Por quê?

—Posso te contar uma coisa?

—Ué, claro que sim.

— Eu pensava que era só por causa das notas, mas... —Ela olhou ao redor para ver se ninguém estava por perto— Mas uma amiga minha me disse que—Ela olhou novamente—Parece que os dois eram muito amigos e o Sayama até namorou a irmã dele... Mas algo os fez brigar e parece que eles são assim até hoje, talvez até por causa da irmã, sei lá.

—Nossa, você sabe tudo que acontece nessa escola. Mas por que está me contando isso?

—Não tudo, mas boatos correm rápido aqui sabia? E ah sei lá, esses dois são bem famosos na escola, até eu tenho que admitir que já tive uma queda pelo Ren, ele é muito legal quando o conhece.

—Aff, você já disse isso hoje.

—O que?

—Conhecer melhor.

—Mas é verdade, eles são muito fechados, dá até medo as vezes.

—Aff, quando você diz “eles” da à impressão que os japoneses são bichos do mato.

—Não é grande a diferença sabia?

Na saída da escola fui ver minha agenda no celular, sério, eu estou muito esquecida esses dias, eu ando basicamente tendo “lembrete do lembrete”, então olhei meu celular que ainda não tem número, mas pretendo arrumar isso essa semana ainda. Minha tia convidou o Sr. Fuyuki para jantar, então olhei tudo que ela pediu para comprar (Estava anotado no celular) e passei pelo mercado. O nosso vizinho Sr. Fuyuki disse que estava doido para experimentar a tão famosa feijoada brasileira que meu irmão vive a se se queixar que senti falta. Fiquei um pouco triste quando passei na galeria, confesso que esperava ver o Yuan pelos corredores da loja, mas nem sinal do garoto. Eu estive conversando com ele no final de semana pelo face, segunda o vi aqui na loja, mas ele ainda não me convidou para sair... Estou à espera de um convite sem brincadeira.

Passados 15 minutos que eu havia chegado meu irmão chegou com uma garrafa de saquê debaixo do braço todo sorrido que nem um bobo, disse que iria tomar com o Sr. Fuyuki. Só o que me faltava, meu irmão pegou o velho de desculpa para beber.

—Tia Kiyomi vai brigar contigo quando ver isso.

—Hahahaha maninha, mas hoje não... Porque foi ela que me pediu para comprar “isso”.

—Duvido.

—Sério, ela disse que queria tomar um bom saquê e me pediu para buscar.

—Ainda duvido.

—Aff... Olha aqui então—Ele me mostrou a mensagem no what’s app— Viu bobona, ela me mandou comprar.

—Ainda acho que é uma desculpa para você beber. E porque a gente ainda não tem linha telefônica nos celulares?

—Sei lá, mas tia Kiyomi disse que ia ver isso esse final de semana... Voltando a bebida...Mas eu nem sou de beber assim, sem contar que eu acho que deve ser uma delicia isso.

—Acho que é pinga de arroz.

—Não é nada, olha o tanto que isso é cheiroso.

—Experimenta e depois me diz então—Desafiei maldosamente ele.

—Ok.

Ele pegou uma xicara de café e a encheu, depois virou em um só gole. Gabriel estatelou os olhos e depois aparentemente segurou o liquido na boca, depois de dois ou três segundos ele engoliu o líquido, como consequência logo em seguida ele pôs as mãos sobre seu pescoço e ficou tossindo enquanto eu ria sem parar.

—Credo, como eles podem beber isso?

—Do mesmo jeito que bebemos vodca, caipirinha, essas bebidas fortes.

—Mas é muito ruim.

—Isso é questão de gosto.

—Não gostei.

—Que bom, agora vêm me ajudar aqui.

—Beleza, quer que eu corte a carne ou algo parecido?

—Eu comprei foi só linguiça e carne seca.

—Ah, mas assim não tem graça.

—Ele é um senhor idoso, acho que deveria fazer algo mais leve, sem contar que já é noite.

—Ainda são 17:30.

—Mas vamos terminar isso lá para as sete da noite ou mais.

—É cedo.

—Não para comer e encher a cara desse jeito. Então comprei coisas de rápido preparo.

—Tá certo então.

O Sr. Fuyki subiu quando minha tia chegou, acho que ele não tem paciência com nós dois brigando, enfim... A comida estava quase pronta, então meu irmão foi fazer seus deveres na sala enquanto minha tia e eu ficamos de olho no fogo. Resolvi sentar em um momento ao lado do Sr. Fuyuki que estava sentado na bancada da cozinha nos olhando cozinhar.

—Então Samanta... Está gostando do Japão?

—Até que sim, acho que já estou me acostumando.

—Isso é bom. Aliás, por que vieram ao Japão?

—Meu trabalho—Disse minha tia da cozinha.

Conversa vai, conversa vem eu acabei tocando no assunto “família”.

—Bem, minha esposa faleceu há nove anos. Meu filho é um empresário, ele trabalha muito e quase nunca vem me visitar... Eu tenho também uma netinha da sua idade Samanta—Disse Sr. Fuyuki apontando para mim—Volta e meia ela vem me visitar depois a escola, é um doce de garota.

—Perdão, não devia ter perguntado.

—Tudo bem, a única coisa que não gosto é da casa onde moro.

—Mas por quê?

—Porque moro no bloco quatro.

—Qual o problema disso?

— O som do número quatro soa como o som da palavra morte, para um homem da minha idade isso soa como meu fim.

—Não seja tão dramático Sr. Fuyuki, isso é apenas superstição—Disse minha tia da cozinha—Minha avó contava essa história para mim quando era criança.

—Pode até ser, mas eu não gosto do número quatro, dá mais azar que sexta-feira 13.

Depois que jantamos, minha tia forçou meu irmão a beber saquê (bem feito) para brindarmos, eu só brindei, em um momento de distração joguei a bebida pelo ralo. Depois de limpar a bagunça na cozinha fui fazer meus deveres e pedi ajuda á minha tia com os de caligrafia, por fim fui me deitar, devia ser umas dez da noite quando me deitei.

Fiquei com aquela frase do Sr. Fuyuki na minha mente “número quatro da mais azar que sexta-feira 13”. Se ele estiver certo era para eu já estar morta então com tanto números quatro na minha vida. Em primeiro lugar, eu nasci no dia 04 do mês... Adivinhe!!...Abril, ou mês 04. As coincidências não param por aí, sou a caçula de quatro irmãos, perdi basicamente quatro familiares de uma vez, moro no bloco quatro desse condomínio num apartamento que começa com o número quatro, meu armário na escola também começa com o número quatro. Isso deveria ser o suficiente para me tornar a garota mais ferrada desse planeta, ehh isso deve me dar uma premiação no Guinness World Records se eu recorrer ao premio, ou assim espero. Se bem que eu não quero ser lembrada como a garota mais azarada de todos os tempos.

Antes que fosse capaz de pegar no sono vi meu celular vibrando sobre o criado mudo, era uma mensagem no menssager do Facebook, era Yuan.

[Yuan]: Meu avô disse que você perguntou por mim hoje na loja.

[Yuan]: ʕ•̀ω•́ʔ

[Samanta]:Sim, eu não te vi hoje lá então perguntei por você, ele disse que estava ocupado.

[Yuan]: Tenho prova amanhã, então fiquei nos fundos estudando... Meu avô podia ter me avisado, eu queria conversar contigo.

[Samanta]:Tudo bem, vou lá amanhã mesmo.

[Yuan]:(๑´•ω• `๑)

“Nossa, eu amo esses emojis do teclado japonês, são tão fofos e diferentes”.

[Yuan]: Feliz aqui.

[Samanta]:Mas eu estou triste aqui.

[Samanta]: (Ŏŏ)

[Yuan]: Por quê?

[Samanta]:Você não me convida para sair, estou triste aqui esperando um convite.

[Yuan]: Ah, não por isso... Que tal sairmos sábado, é meu dia de folga.

[Samanta]:Pode ser.

[Yuan]: Gosta de comida chinesa?

[Samanta]:Só comi japonesa até hoje, então não sei, é igual?

[Yuan]: Não, é muito mais variada e tem um restaurante bom na galeria mesmo. Que tal irmos lá sábado?

[Samanta]:Pode ser.

[Yuan]: Sábado ás seis? Porque tenho que estudar para as provas semana que vem e creio que não vá escapar dessa responsabilidade antes das cinco da tarde.

[Samanta]:Pode ser.

[Yuan]: ( ゚д゚ )

[Yuan]: Você é demais Samanta-chan.

Depois de ler aquilo dormi feliz da vida, mesmo sabendo que provavelmente (segundo o meu vizinho) eu sou uma garota que atrai o azar e a morte, bem, mas pelo menos tenho muita sorte no amor, ou estou tendo para ser mais exata... Pelo menos algo né.

No dia seguinte na hora do almoço fui me encontrar com Hiro debaixo da árvore, ele estava com duas marmitas e uma mochila preta ao lado.

—E aí... Trouxe seu celular?

—Melhor... —Ele mexeu em sua mochila— Um Nintendo!

Era igual ao do meu irmão, só que um pouco mais acabado, o garoto deve jogar muito naquela belezinha.

—Jogo num desses com meu irmão.

—Sério?

—Sim —Respondi olhando no aparelho.

Ele devia ter uns trinta e seis ou quarenta jogos no case de cartuchos na mochila. Olhando aleatoriamente os cartuchos vi muitos jogos japoneses e alguns que eu não conseguia ler por estarem escrito em coreanos. Dos que conhecia a maioria era Pokémon, na verdade Hiro tinha uma coleção enorme de jogos deles, mesmo os escrito em japonês dava para ver que era Pokémon. Acabamos jogando um pouco de Pokémon, jogo fácil e com um gráfico bonitinho. Depois de jogar uma ou duas rodadas resolvi olhar novamente o case. No meio disso reconheci o cartucho do Kantikus em Japonês, o bendito jogo que meu irmão e eu ficamos viciados.

—Kantikus?!

—O que tem?

—Zerei esse jogo no final de semana—Disse eu sorrindo.

Vou ser sincera, quase morri de raiva com esse jogo, mas venci todas as fases e a maioria no Hard, então posso me considerar feliz. Perdi-me em meus pensamentos por alguns instantes e quando voltei Hiro estava me encarando, ele parecia querer falar algo, mas não saía nada... Só um comentário pessoal, já estou há quase um mês no Japão e já está irritando essa história de conversar com um(a) japa e do nada eles ficarem me encarando... Eu não sei ler pensamentos e tipo, eles parecem travar às vezes e não saberem falar comigo, então ficam me olhando com aqueles olhos puxados. Ou estou pagando mico ou falando errado ou sei lá poxa, não é mais fácil falar qual é o problema?

—Eu falei algo de errado?

—Nada, é que eu não passei do nível 22, é insano demais esse jogo.

—Puff, nem tanto... E você não viu nada ainda. Tem umas fases entre o nível 50 e 60 que te fazem cair em um limbo dependendo do que você faz.

Ele ficou me encarando novamente em silencio, que irritante isso.

—O que houve agora?

Ele tomou o case da minha mão e pegou o cartucho do Kantikus, depois colocou no Nintendo e o colocou o em minhas mãos.

—Perdão dizer isso, mas não acredito... Nenhum dos meus amigos conseguiu sair desse nível, nem os mais habilidosos. Por favor, me mostre!

—Sério, o jogo não é tão difícil assim sabia?

Eu abri as configurações, mudei do japonês para inglês para facilitar minha compreensão, aliás, minha cabeça está latejando depois da aula de caligrafia de hoje, por fim na intensidade do jogo eu coloquei no nível difícil. Hiro regalou os olhos para mim e ficou a jogar olhares rápidos alternados entre a tela do jogo e em mim, era como se não acreditasse no que via. Só o que me faltava, eu já estava sonhando com o dia que vencesse esse jogo, jurei nunca mais jogar essa droga, mas agora que zero ele me aparece um garoto com esse jogo maldito novamente.

Após cinco minutos acabei aquela fase, entreguei o vídeo game para Hiro que parecia não acreditar. Ele apenas olhou para a tela que dizia “You win” e disse para mim balançando positivamente a cabeça enquanto fechava aqueles olhinhos:

—Sugoi!!

—Viu, eu disse que não era tão difícil.

Ele riu para mim.

—O que foi Hiro?

—Não pensei que fosse tão boa assim, meus amigos vão pirar quando te conhecerem.

—Ei, eu não sou um prêmio ou um animal em exposição —Disse eu brincando.

—Oh perdão se fui rude—Disse ele curvando-se— É que você simplesmente é boa em um jogo que eu e meus amigos somos péssimos e já havíamos até desistido, se você é boa nisso...

—E ainda joguei no nível difícil—Interrompi-o para acrescentar isso.

—Isso mesmo, você ainda colocou no nível difícil... Se você fez isso, creio que deve ser uma player incrível e queria que conhecesse meus amigos, eles são doidos como eu, mas são gente boa. Por favor... Jogue conosco um dia desses, eu conheci poucas garota até hoje que jogassem vídeo game, mas nunca nesse nível.

—Nossa... Você disse isso tudo... Mas eu passei só uma fase desse jogo—Disse eu rindo.

—Então passe outra—Disse ele me entregando o Nintendo.

—Faltam quantos minutos para o almoço acabar?

—Quinze minutos.

—Dá tempo.

Eu corri um pouco e consegui passar mais três fases antes do horário de almoço terminar, ao final de cada fase Hiro soltava um sorriso que daria medo até ao Coringa de tão grande. Foi bom jogar ao lado do dele, ele não é igual meu irmão que fica me falando para eu andar logo que ele quer jogar, ou quando eu custo a passar aquela quest de morte e o Gabriel me faz aquela cara de merdinha porque sei que ele queria estar jogando no meu lugar. O Hiro parecia jogar junto comigo, comentava o tempo todo coisas do tipo “á sua esquerda”, “cuidado”, “ufa essa passou perto”... Isso meio que dá ânimo para jogar, sem contar que ele fazia festa quando eu passava. Menino muito legal, que bom que ele tem amigos, espero que sejam todos como ele.

Quando o sinal bateu, pela primeira vez ele se levantou junto comigo e entrou na escola. Subi as escadas e só quando eu já estava na minha sala que percebi que o Hiro não me falou quem era o amigo dele, e também que eu não havia almoçado... DROGA!!